"Caralho, estou toda ardida e moída. Não consigo nem sentar direito; até para urinar sinto o rastro do fogo que você deixou. Minhas pernas tremem, meu corpo reclama, e sinto o latejar de onde você me possuiu com força excessiva. Você pesou a mão no meu rosto, me enforcou com um vigor que certamente deixará marcas no meu pescoço — marcas que eu adoro, que eu imploro para sentir, mas que me apavoram. Sou casada. Não faço ideia do que direi se o corno do meu marido resolver me procurar nestes dias; terei que parir uma desculpa esfarrapada entre um absorvente e outro, tentando estancar o que você abriu. Seu fdp gostoso... e aquele seu leite? Maravilhoso. Senti cada gota escorrer quente na minha boca, um sabor adocicado, viciante, muito melhor que o amargo da última vez. O de ontem foi o ápice."
Essa foi a confissão que minha esposa, Rejane, enviou por engano para o meu WhatsApp e apagou logo em seguida. Ela mal sabe que utilizo uma versão do aplicativo que preserva o rastro das mensagens deletadas. Li cada palavra com as mãos trêmulas, o ar faltando nos pulmões.
Estamos casados há dez anos. No início, a paixão era um banquete, algo esplêndido. Mas sinto que falhei. Há cerca de três anos, o gelo se instalou entre nós. Comecei a notar sinais: ela andando com dificuldade, manchas arroxeadas nas coxas e nádegas. Quando eu questionava, as respostas eram labirintos de mentiras criativas. Recordo-me de uma madrugada em que ela, em meio ao transe do sono, virou o rosto por cima do ombro e implorou: "No cu não, amor... você mete com muita força. Vai devagar, meu cuzinho é seu, não precisa maltratar". Pela manhã, o vazio: ela jurou que não havia sonhado com nada.
Rejane mudou. Agora exala perfumes caros, veste saias que desenham o corpo e blusas que convidam ao toque. A lingerie tornou-se um conjunto impecável, uma armadura de sedução que não é para mim. Sinto-me um intruso no meu próprio casamento, vivendo um trisal onde sou o único que não foi convidado.
Sou o Aldo. Quase 60 anos, branco, obeso e, pelo visto, insuficiente na cama. Minha última tentativa de intimidade com ela foi há dez dias. Ela negou meu toque, recusou meu sexo oral e mal permitiu que eu a penetrasse. Entre uma queixa de enjoo e a clássica dor de cabeça, restou-nos um "papai e mamãe" burocrático, no escuro absoluto, enquanto ela perguntava se eu ia demorar, ansiosa pelo fim de um ato que parecia um fardo.
Quando saí de cima dela, ela simplesmente virou o corpo e se entregou ao sono — o mesmo sono onde ela confessou pertencer a outro.
Lembro-me do dia em que ela chegou com o rosto marcado. O hematoma roxo na nádega direita, que ela atribuiu a um acidente no armário do escritório, agora faz todo o sentido. Fui o marido cuidadoso que tratou de uma ferida de guerra de um amante.
Não vou persegui-la, nem fazer cenas no seu trabalho. Meu plano é o silêncio e a tentativa de reconquista. Eu a amo. Quero resgatar o que fomos um dia. Talvez uma viagem, uma nova lua de mel, possa derreter esse gelo e trazer de volta a mulher que eu pensei conhecer.
