Rubens
Passei a noite em claro, não é normal me abrir assim sem pensar nas consequências, não contei que era noivo de um cara, mas também não fui específico não ou seja Antônio já deve ter percebido, mesmo que tenha me falado que não dirá a ninguém isso ainda sim me preocupa e agora ainda tem isso de que ele quer me levar em algum lugar, não sei o que pensar disso e não gosto de ficar no escuro dessa forma.
Depois de limpar tudo já cozinha vou pro escritório trabalhar, meu chefe me mandou um e-mail e junto às demandas ele me deu um puxão de orelha por ter te trabalho no que era pra ser minha folga. Quase como se tudo conspirasse a favor de sair com Antônio mais tarde o trabalho foi tão simples — e também já tinha adiantado ele quase todo — que não hora do almoço já tenho mais nada pra fazer hoje, até os programadores até eu oriento já entregaram o que tinham que fazer, isso sim foi um milagres — não eles terem entregue sem minha ajuda, mas terem entregue tudo certo.
— Conrad, você precisa de ajuda aí? — Como o trabalho é meu escape estou pedindo demandas do meu amigo mais próximo da empresa, ele é back e como manjo muito ele me pede ajuda quando tô livre.
— Oh meu amigo, hoje estou tranquilo, acabei de entregar um projeto que levou uma semana pra terminar, quase não rodava, mas foi.
— Terminei minha demanda e nem almocei ainda, o Michael tá puto porque me deu folga e eu trabalhei, aí ele disse que não vai me passar a demanda mais hoje só se for alguma urgência acredita?
— Você não sabe o significado de descanso, mas aí você vai trazer o Mariano quando vier esse ano? — Acabei de lembrar que não avisei a ele sobre o término.
— Nós terminamos então vou estar solteiro quando estiver aí no final do ano — Conrad é alemão, nascido e criado em Berlin, vivo chamando ele pra vir pro Brasil, mas o cara é muito bairrista.
— Sinto muito meu amigo.
— Obrigado, eu vou procurar outra coisa aqui para me distrair, já que não tem serviço.
— Você tem que dormir, nem preciso abrir a câmera pra saber que você não está dormindo — ele tem razão.
Conrad foi o primeiro amigo que fiz na minha primeira vez em Berlin, ele é hétero, mas tem a mente aberta, inclusive sua noiva é Bi e eles vão casar na mesma época que eu, tanto que tínhamos combinado de fazer algo juntos quando eu estivesse lá com Mariano. Lembrar dessas coisas me trás uma tristeza, é como se meu corpo doesse, mas já não tenho mais lágrimas pra chorar de tanto que já chorei.
Afim de me ocupar e pensar em outra coisa começo a fazer uma grande faxina, mesmo sendo hora de almoço estou sem fome — sono não foi a única coisa que perdi depois que Mariano me deixou não tenho tido muito apetite também — a casa não está suja então é mais uma manutenção da arrumação que minha vó deixou antes de viajar, parando para pensar agora sofre isso Antônio é o hétero mais limpo e organizado que já conheci depois só meu irmão, sério o cara não deixa nem uma louca suja na pia por muito tempo, isso é bom, pois gosto das coisas no lugar.
O clima lá fora está ensolarado, porque o calor da Serra é diferente de Fortaleza. Estou quase terminando de passar o pano no chão da cozinha quando escuto o barulho do motor do Fusca lá fora, olho no relógio e são dez pras duas, pensei que ele fosse demorar mais um pouco, isso me lembra que não tenho desculpa, vou sair com ele hoje, só espero não me arrepender.
— Oi, você já almoçou? — ele entra na cozinha com duas sacolas de plástico.
— Não, estava passando uma vassoura e um pano na casa.
— Senti o cheiro quando entrei, até tirei o sapato — ele mostra seus pés descalços.
Não tenho tara em pé, mas o pé do Antônio é grande e bonito, seus dedos são proporcionais e tem a unha feita e limpinha, acho que pra quem curte esse deve ser um pezão, esse pensamento me faz rir e ele me encara sem entender, como não vou jamais falar que estava pensando nos pés dele desconversou buscando nas sacolas que ele acabou de por em cima da mesa o que foi que ele trouxe para o almoço.
— Passei no Grafite e comprei duas quentinhas, até te mandei uma mensagem perguntando o que você ia querer pra mistura, mas você não respondeu.
— Desculpe, comecei a arrumação e desloquei do celular — olha só agora vi duas mensagens suas, uma da Juh e cinco da minha mãe, bloqueei o celular e deixo para ler as mensagens depois.
— Tudo bem, eu trouxe uma maninha não sei se você come.
— Adoro maminha, não se preocupe — somos muito diferentes, porém temos praticamente o mesmo paladar, até agora tudo que o vi comendo eu gosto também é muita coincidência.
— Imaginei, a gente tem os mesmo gostos pra comida.
— Tava pensando nisso agora mesmo — digo.
Entre risadas e as histórias sobre seus atendimentos de hoje de manhã na ong veterinária que ele faz parte temos o almoço mais agradável que já tive em meses, Antônio é muito divertido ele me faz rir o tempo todo contando sobre as peculiaridades dos seus pacientes animais e até das escolhas de nomes inusitados.
— Pituca é tranquilo, esses dias eu tive que fazer um parto de uma cadela chamada Epitáfio.
— Ué isso não é nome de macho? — Isso que chamo de nome curioso.
— Pois é, a família da Epitáfio achava que ele era macho — ele conta com a mesma incredulidade que eu.
— Como diabos alguém confunde o sexo de um cachorro? — Não consigo parar de rir.
— Rubens, sério você ficaria surpreso de como os tutores podem ser estranhos para não dizer algo pior — trabalhar com tecnologia me faz não ter tantas histórias engraçadas como as dele, mas não trocaria de lugar com ele não — você fica muito melhor assim rindo.
—O que? — Fico estático de timidez, fui pego muito desprevenido com esse elogio.
— Não quis ofender, é só que desde que você chegou está tão sério e irritado.
— Eu estava mesmo, na realidade ainda estou um pouco sabe, coloquei na ponta do lápis as contas que estava te falando ontem e vi que preciso começar a me desapegar como você falou.
— Deve ser complicado pra você — Antônio me encara com uma ternura quase paterna não sei explicar, sua presença me acalma e me transmite uma segurança que acabou me traindo e falando demais.
— Não quero cancelar nada, tem um serviço de vinhos que todo mês eles enviam uma caixa com vinhos diferentes, tem os streaming que nem abro pois não tenho tempo de ver nada, mas até meus sogros têm as senhas, o plano de saúde e tudo mais — sinto a tristeza chegando de novo.
— Ei tudo bem Rubens, real mano, é totalmente normal você ter seu tempo, não existe uma cartilha nos ensinando como superar essas coisas, é uma merda ter que passar por isso, mas você vai conseguir mano — seus olhos me deixam desconcertado é quase com se ele pudesse ver através de mim.
— E a sua namorada já se entenderam? — Pergunto antes que acabe soltando que meu ex é homem.
— Rapaz, estamos bem, ela falou comigo hoje por telefone, só que ainda está chateada — ele fica um tempo ponderando, mas não comenta mais nada sobre.
— Vocês vão se entender, olha se você quiser desmarcar nossa saída pra ir conversar com ela vou entender — digo tentando escapar desse compromisso, mas ele nem pondera — não se preocupe que isso não vai afetar nosso rolê não.
— Pra onde nós vamos?
— É surpresa, mas não se preocupe que não é nada errado ou ilegal — Antônio diz rindo da própria piada, mas estou meio tenso para ir também.
— Tá bom, você venceu, vou sem reclamar — pode ser bom sair de casa.
Às dezesseis em ponto como havíamos combinado pegamos a estrada, o caminho que ele está seguindo é diferente do que pegamos quando vamos para o centro, ele me garantiu que não vamos sair do Tianguá mesmo que estejamos já Br. Estou estranhamente tranquilo, o que não é normal para mim, tipo indo para um lugar que não conheço e com uma pessoa que até dois dias atrás nem sabia da existência, mesmo assim Antônio tem um jeito família que consegue me deixar tímido e a vontade ao mesmo tempo, ainda não sei agir perto dele.
Ele pega o caminho para descer a serra, mas entramos numa estrada de terra antes, tem casa e tudo mais, é tipo um bairro só que misturado a flora local, é modesto, porém bonito, vamos seguindo por esse local até pegarmos uma estrada bem difícil, as vantagens de um Fusca, pois um carro sem potência teria muitos problemas com esses buracos e com esse chão de terra.
— Estamos quase chegando — Antônio diz bastante empolgado.
— Onde exatamente?
— Eita como é ansioso, logo logo você vai saber.
Assim que ele fala isso a mata dá espaço para um grande empreendimento, um lugar muito chic e bonito chamado Sítio do Bosco, já tinha ouvido falar por cima, Ben veio aqui com a namorada dele quando veio visitar nossos avós a última fez, mas eu mesmo não fazia ideia de como esse lugar era lindo assim.
— Nossa esse lugar é incrível, mas tipo não precisa se hospedar pra entrar?
— Não, aqui basta pagar pela pulseira e pode entrar e aproveitar algumas coisas que eles fornecem.
— E não é caro? – imagino que seja.
— Nada, é coisa de vinte por pessoa, mas não esquenta não que a gente vai entrar de graça — ele diz todo confiante.
— Veterinários não pagam? — Ele me olha admirado por ter feito uma piada.
— Não quando o veterinário salva a vida do pet de um dos donos — ele diz todo orgulhoso de si.
— Que bom que o Doutor Vilela fez um bom trabalho — agora que comecei a fazer piada o provocando não consigo mais parar.
— Como sabe meu sobrenome?
— Ouvi o recepcionista da clínica falando ontem.
— Muito observador senhor Domingos.
— Tenho que ser, afinal atenção aos detalhes é basicamente a descrição do meu trabalho — nós dois estamos rindo agora.
Assim que entramos já damos de cara com alguns chalés, Antônio vai me mostrando o lugar, ele com certeza já esteve muito aqui, pois conhece tudo e muitos dos funcionários falam com ele. Bem os chalés se dividem em três categorias basicamente, quarto, pequenas casas para famílias maiores e uns que parecem barracas para casais que é a coisa mais linda, Mariano ficaria alucinado por eles se estivesse aqui.
O lugar ainda conta com uma piscina e um restaurante, tem algumas atividades como trilhas e até tirolesa, é tudo muito bonito e arrumado, tudo é extremamente limpo e convidativo, acho que antes de ir embora ainda vou me hospedar aqui um fim de semana só pra curtir a vibe que esse sítio passa.
— Vem comigo, vou te mostrar o motivo de termos vindo.
Antônio me leva até uma parte mais alta onde tem uma vista incrível, do alto da Serra e com um pôr do sol que emociona até os corações mais cansados e magoados como o meu, caminhamos um pouco e nós sentamos na grama, tem uns bancos, mas já estão ocupados, por outros turistas e hóspedes.
— Caralho que vista é essa — estou beatificado real.
— É meu lugar favorito aqui e a noite as estrelas ficam bem bonitas iluminando o céu.
— Romântico do jeito que deve ser, era pra você ter trago a sua namorada, não eu — digo.
— Luana nunca aceitou vir comigo — Antônio responde desanimado.
— Oxe por que não?
— O ex dela trabalha aqui e ela diz que nunca mais quer encontrar com ele de novo, fora que ela tem algumas questões pessoais, essas coisas de preservação do meio ambiente, acho importante, mas você viu o lugar em que passamos, quase todos os funcionários daqui moram aqui, imagina como seria esse lugar sem esse empreendimento.
— Se a estrada que pegamos já é ruim com isso aqui, sem ele essas pessoas estariam vivendo em condições piores — concordo com ele.
— O Sítio do Bosco também obedece às leis ambientais, olha ao redor a natureza é a principal atração deste lugar, ainda sim pra Luana aqui deveria ser apenas mato.
— Mas aí você me perdoa, seguindo a lógica dela todos os lugares no mundo deveriam ser mato, ou ela acha que a cidade do Tianguá por exemplo já nasceu assim naturalmente, imagina quantas árvores não tiveram que ser derrubadas até que Fortaleza virasse a capital que é hoje — odeio radicalismos dentro das militâncias.
— Enfim, não vamos falar disso, afinal te trouxe aqui pra aproveitar as belezas naturais.
Irônico Antônio falar sobre beleza natural do lugar, já que os últimos raios de sol do dia tocando seu corpo lhe dão um destaque impressionante e irresistível, estou tão perto dele que preciso resistir ao impulso de beijar sua boca vermelha e deliciosa, ele fica mais bonito na luz do pôr do sol, azar o da Luana que está perdendo isso — bem olhar não arranca pedaço né.
Antônio é leve e divertido, e no fim tinha razão, estou curtindo sim, aqui as horas passam, mas nem dá pra sentir, o frio da Serra, a noite caindo sobre mim, se um dia me senti assim não lembro, minha mente finalmente começou relaxar. A noite em cima da serra é um espetáculo particular, ele não mentiu quando disse que as estrelas aqui são lindas, até hoje esse é fácil o céu mais bonito que já vi — não que eu olhasse muito pro céu — do nada ele deita na grama para ver melhor o céu e como já estou vivendo a experiência, vou deixar que ele me guie e deito também.
— Aquelas ali são as três Marias — ele indica a direção, mas quando aponto pra elas querendo confirmar ele bate na minha mão me repreendendo.
— Não pode apontar para estrelas, se não vai nascer uma verruga no seu dedo.
— Não era azar — digo rindo do quão sério ele leva essas superstições.
— Isso só se você contar as estrelas.
— Fala sério Antônio, você é supersticioso? — Não consigo não rir.
— Não sou supersticioso, só não quero testar até onde vão as lendas — ele vira o rosto para me olhar e puta merda estamos muito perto, meu ombro tocando no dele, vou ter outro Gay Panic desse jeito.
— Justo, vou evitar também por segurança — digo.
— Não vai se arrepender — seu sorriso é inocente e fofo, meu peito acelera só de olhar pra sua boca então desviei meu olhar para as estrelas e fico contemplando o céu em silêncio.
Meu corpo relaxa cada vez mais até pegar no sono, não sei se foi só um cochilo rápido ou se dormir mesmo, mas quando acordo Antônio está sentado e minha cabeça está apoiada na sua perna, estou tão confortável, ao mesmo tempo em que estou certo de que vou morrer agora, não acredito que estou com a cabeça apoiada na perna dele, como isso foi acontecer? Num surto de lucidez levanto de uma vez meio atordoado.
— Calma, tá tudo bem, você dormiu e ainda estamos aqui — ele me acalma.
— Desculpa — meu rosto está em chamas de tanta vergonha.
— Relaxa fui eu que coloquei minha perna pra você, você não dormi muito não quis te acordar.
— Obrigado, quanto tempo eu dormi?
— Só por uns vinte minutos no máximo — percebo sua mão massageando a perna.
— Você não precisava — estou me sentindo mal.
— Fica tranquilo Rúbens — sua mão toca meu ombro e sinto uma eletricidade passando pelo meu corpo, estou nervoso com seu toque, ansioso pelo gosto do seu beijo, a tempos não sinto esse tipo de desejo.
— Vamos indo — me ponho de pé pra evitar que meu corpo me traia e acabei fazendo algo de que vou me arrepender.
— Beleza me ajuda aqui — ele estica a mão já que sua perna ainda deve está dormente,
Antônio é um homem grande e forte, quando tento levantar me desequilibro e caio sobre seu corpo, que vergonha estou me sentindo num desses filmes clichês onde essas cenas acontecem, é o preço que pago por bancar uma academia sem frequentar. Antônio cai na risada e não parece se incomodar de ter meu peso sobre seu corpo, estou tão perto de sua boca que sinto meu pau querendo dar os primeiros sinais de ereção, levanto quase de um pulo só.
— Te machuquei? — Pergunto preocupado e envergonhado pelos olhares apaixonados de umas garotas até estão próximas.
— Não, estou bem — dessa vez firmo melhor meus pés no chão e consigo ajudá-lo a ficar de pé.
Depois de andar um pouco sua perna volta ao normal deixando o sangue circular, Antônio deu a ideia de comermos no restaurante daqui mesmo e acabei concordando pois também estou com fome, ele ainda está rindo da minha queda e queria eu que esse fosse o motivo da minha vergonha e não o fato de quase ter tido uma ereção com eu pau encostado no dele.
— Acabei de ficar viciado nesse lugar — fofo ao Antônio enquanto voltamos para o carro.
— Acredito, venho sempre que tô precisando relaxar.
— Na próxima a gente pode ficar hospedado assim não vamos precisar pegar a essa estrada estranha a noite — só depois de falar é que me dou conta que isso pode ter soado estranho, mas para minha surpresa Antônio aprovou a ideia sem pensar besteira.
— Verdade, já fiz isso até de madrugada, vendo essa vista é muito bom.
— Sozinho?
— Sim, te falei que a Luana não aceita vir comigo.
— Verdade — digo como se não fosse nada, mas por dentro estou feliz de que fui a primeira e única pessoa que ele trouxe no seu lugar favorito.
O caminho de volta é um pouco assustador, mas o Fusca é guerreiro e nós leva em segurança até a casa. Quando desço do carro para abrir o portão me imagino vivendo essa vida, como seria ter uma rotina em que Antônio é eu saímos, nos divertimos, ele dirigindo e eu me encarregado de abrir e fechar o portão de casa, caralho como eu posso sentir falta de algo que nunca tive? Não perdi só o Mariano, eu perdi a vida que sempre quis ter, fantasiar uma rotina de vida com Antônio é o indicativo do meu fundo do poço.
— Cê tá legal? — Antônio notou meu desânimo assim que desceu do carro.
— Estou é só que — penso se ele entenderia, qual seria sua reação em saber da minha orientação sexual e então declino perdendo minha coragem — nada, deixa pra lá.
— Rubens — ele até tenta, mas ergo a mão o cumprimentando.
— Obrigado Antônio, você tinha razão, ajudou muito — depois disso me recolhi para o quarto.
Sentando na cama me permito chorar, logo quando achei que minhas lágrimas havia secado me pegou chorando no escuro do meu quero, vivendo a pior fase do meu luto, a aceitação de que é isso, meu futuro agora se resume a trabalhar até o fim dos meus dias, eu sei que não vou encontrar ninguém que consiga está ao meu lado, bem Mariano que era perfeito pra mim aguentou e o mais triste disso tudo é ter a consciência de que sou o único culpado.
Passados alguns minutos ouço Antônio batendo na porta do quarto, ele dá duas batidas e então entra, mesmo sem minha resposta, enxugo as minhas lágrimas da melhor forma que posso, ele está com uma camiseta de algum time de basquete e uma bermuda curta, estou tendo uma boa visão de suas pernas peludas.
— Vem — ele me chama, de primeira penso em ficar no meu lugar, então tenta de novo — Vem aqui.
Levanto e ele me guia com a mão nas minhas costas até seu quarto, a tv está ligada com o catálogo de algum streaming, ele me pede para esperar e fico em pé no mesmo lugar enquanto Antônio vai até a cozinha e volta com duas tigelas com poções generosas de sorvete.
— O que? — Estou confuso.
— Senta aí deixa de coisa, vamos ver algo.
— Não costumo assistir nada — nem me lembro a última vez que vi um filme.
— Não quero assistir sozinho, vai até peguei sorvete pra gente — parece até um moleque com olhos grandes e um sorriso juvenil no rosto.
— Tá legal, mas não vou ver terror e nem romance.
— Na verdade quero ver o Oppenheimer, Luana odeia filmes assim e só vejo filmes com ela.
— Luana tem gostos muito específicos — mais uma vez minha boca me trai verbalizando meus pensamentos intrusivos — desculpe.
— Relaxa, espera você não tem problema com Oppenheimer também não né? — É fofa a cara que ele faz de preocupação.
— Não, na realidade gosto de filmes baseados em fatos históricos, quando moleque eu via muitos filmes de guerra.
— Fala sério até nisso a gente é igual, porra — Antônio está tão feliz que me obriguei a melhorar meu humor também.
Sentamos em sua cama e ele coloca o filme na tv pra gente, logo nos primeiros minutos seu telefone começa a tocar no criado mudo, Antônio vê quem está ligando, então aperta o botão de travar a tela rejeitando a ligação e depois coloca o telefone virado para baixo de novo no criado mudo.
— Pode pausar pra atender se quiser — digo.
— Já tinha avisado a Luana que estaria ocupado, depois ligo pra ela — sua voz é tranquila e gentil.
— Pode ser uma emergência — insisto, pois não quero lhe causar problemas.
— Mesmo que seja já estou ocupado vendo um filme com meu primo — meu coração palpita e sinto algo crescendo dentro de mim, Antônio não é só bonito, ele é um cara muito especial.
— Tá bom.
O filme é mesmo bom, mas estou tão cansado que lá pela metade do filme já estou dormindo em um sono profundo, o perfume do Antônio está nos travesseiros isso por si só já me deixou confortável, mas o frio que está fazendo foi o golpe final pra me jogar em um sono pesado. No meio da madrugada tenho a sensação de sentir o peso do corpo de Antônio sobre o meu, o calor de seu corpo me aconchegando me fez dormir novamente antes de ficar totalmente desperto, assim acabou o melhor dia da minha vida em tempos.
A luz do sol entra pela janela iluminando o quartos, aos poucos vou ficando mais desperto e daí o choque, não foi um sono, estou dormindo no peito do Antônio, minha respiração até falha — ainda babei na sua camiseta só pra variar — seu braço forte em volta de mim me fazendo ficar confortável em seu peito, nunca dormi no peito de ninguém antes, não faço ideia de como agir, mas aproveito que ele ainda está dormindo e me permito absorver seu cheiro natural e o aconchego do seu abraço.
Ele se mexe um pouco mais não acorda e nem mudamos de posição, porém percebo um volume absurdo em sua bermuda, puta merda, Antônio está com uma ereção matinal, meu coração parece até que vai sair pela boca a qualquer momento, se já era um surto está babando já camiseta dele ficar na linha de visão de sua barra armada é desesperador, todos os pensamentos intrusivos me dizendo para por a mão, ainda sim resisto, só que meu tormento pessoal evolui para mais um nível quando ainda dormindo Antônio leva mão até dentro da bermuda para dar uma boa cocada em seu pau, nesse momento consigo vê que ele é pentelhudo, porém para minha sorte foi tudo que vi — se eu vejo o pau do Antônio era capaz de não segurar a vontade de cair de boca nele como no sonho que tive.
— Bom dia — ele diz com a voz rouca despertando aos poucos.
— Bom dia — respondo me afastando um pouco, mas ele me segura com firmeza e me dá um beijo na testa, só depois dissso é que me deixa sair de seu abraço.
— Dormiu bem? — Ele me pergunta da forma mais natural que essa situação me permite.
— Dormi sim e você? Parece que não posso dormi perto de você sem te fazer de travesseiro — tento fazer uma piadinha, mas acho que só deixei as coisas estranhas.
— Relaxa, dormi tão pesado que nem senti, se quiser pode ficar dormindo aí mais um pouco, eu preciso levantar pra ir trabalhar.
— Melhor eu voltar pro meu quarto — digo.
— Você quem sabe, se quiser ficar aí pode também.
Antônio levanta, pega uma toalha no cabideiro e sai do quarto, diferente do quarto em que estou o dele não é suite — melhor você sair desse quarto logo — pensei, assim o fiz, claro que de volta ao meu quarto não consegui mais pregar o olho com visão dele coçando o pau bem na minha frente, quero mais do que tudo agora saber o cheiro dos seus pentelhos, será que ele também tem o cheiro de gasolina com toques amadeirados? Nunca vou descobrir, mas ainda sim pensar em seus pentelhos me fez bater uma no banho essa manhã antes de sentar para trabalhar.