🚨 ALERTA GATILHO: SAÚDE MENTAL 🚨
Este conteúdo pode abordar temas sensíveis relacionados à saúde mental e outros tópicos que podem ser potencialmente perturbadores para algumas pessoas. Se você está passando por dificuldades emocionais ou psicológicas, é importante procurar apoio especializado.
Se precisar de ajuda imediata, entre em contato com um serviço de apoio psicológico, como o CVV (Centro de Valorização da Vida) no telefone 188 e assim que puder, busque auxílio profissional.
Cuide-se e lembre-se de que pedir ajuda é um passo importante para o bem-estar.
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Júlia havia iniciado o seu tratamento hormonal. Ela demorou um pouco, pois estava insegura com as reações que ele causava nela. Fui buscá-la na clínica de Sabrine e fomos almoçar juntas em um restaurante próximo ao colégio.
— Por que tá tão quietinha assim? — Perguntei, fazendo carinho em seu rosto.
— Eu estava conversando com Sabrine e ela acha que consigo reverter mudando a minha alimentação, sem precisar tomar aquele remédio estúpido — Juh me respondeu, encostando a cabeça no meu peito.
— Mas por que você tá triste, então? Isso não é bom? — Perguntei, mudando o carinho para o cabelo.
— Porque, para isso, eu vou ter que comer tudo isso — Respondeu-me, mostrando um plano alimentar.
— Foi em um nutri? — Perguntei, prestando mais atenção ao papel em suas mãos.
— Ela me arrastou em um — Respondeu, dessa vez deitando sobre a mesa.
— A cada dia gosto mais da amizade de vocês — Brinquei.
— Ganhei essas trufas sem glúten, sem açúcar, veganas e sem vida. Trouxe pra você — Juh falou e me entregou.
— Obrigada, amor... Quer dizer, eu acho, né... — Disse-lhe, rindo, mas ela estava bem desanimada.
— Não sei se vou conseguir fazer isso, porém não queria tomar esse remédio... — Ela lamentou.
Realmente, Juh se alimentar é complicado, e se alimentar bem piorou.
— Você pode tentar e, se não der certo, retorna para a medicação — Falei e dei um selinho nela.
Nós almoçamos e ela não conseguiu retornar para o trabalho, estava sonolenta, com dor de cabeça e sentindo náuseas. Sugeri que Júlia fosse para casa, contudo, ela não queria ficar sozinha, então nos dirigimos para o prédio. Eu iria passar a tarde resolvendo B.O.s, mas nós ainda tínhamos uns quarenta minutos para aproveitar.
Deitei no sofá e estiquei os braços, chamando para que ela também viesse, e a bichinha veio, toda molinha, se encaixando sobre mim. Nós dormimos um pouco.
Precisei levantar e tentei sair debaixo dela bem devagar, mas era inevitável não acordá-la.
— Fica... — Juh pediu, quase em um gemido, me prendendo novamente junto a ela.
— Tenho algumas coisas para fazer, amor, mas volto... Aqui tá bem gostosinho — Disse-lhe e dei um beijo em sua testa.
— Só mais um pouquinho, por favor... — A gatinha insistiu de forma melancólica, e eu cedi à tentação.
Não dormi novamente, ela sim, e eu fiquei ali fazendo carinho no meu neném e sentindo seu cheirinho. Não demorei muito e, dessa vez, foi mais fácil sair e retornar aos meus afazeres.
A maioria das coisas que resolvi foram em relação à clínica. Estávamos passando por problemas no andamento da obra. O prazo de entrega estipulado já se aproximava e, aparentemente, não estava nem um pouco perto de se finalizar.
Passei horas em videochamadas e ligações com diversas pessoas: as responsáveis e aquelas que poderiam solucionar. Porém, a sensação ao final do dia era de como se estivesse tudo completamente fora de controle. Aquilo não me fez bem.
Fiz uma pausa para tentar colocar a cabeça no lugar, e foi nesse momento que percebi que cometi um erro ao insistir tanto naquele assunto.
Meu peito estava pesado, como se um peso enorme estivesse pressionando contra ele. Minha respiração era curta e rápida, e por mais que eu tentasse puxar o ar fundo, não parecia ser o suficiente. Minhas mãos tremiam muito. Tentei segurá-las juntas, mas não adiantava. Os dedos começaram a formigar, extremamente frios e suados.
Minha mente estava um caos. Um pensamento atropelava o outro, em uma velocidade que nem eu mesma conseguia acompanhar. “O prazo está estourando. O pedreiro atrasou. E se a obra não terminar a tempo? E se eu tiver que cancelar atendimentos? E se eu perder pacientes por causa disso?” Cada “e se” ecoava como um alarme incessante dentro da minha cabeça, uma possibilidade pior que a outra.
Olhei ao redor e tudo parecia desfocado. Meu coração disparado, batendo tão forte que quase jurei que poderia ouvi-lo. Meu estômago se revirava e sintia aquele nó familiar na garganta. Meus músculos estavam tensos, como se estivessem prontos para correr, mas não havia lugar para onde fugir. Eu me sentia presa ali, naquele turbilhão que não conseguia controlar.
Fechei os olhos por um instante, tentando me agarrar a alguma sensação de segurança, mas minha mente gritava que não existia controle, que tudo estava desmoronando. O meu sonho de ver a clínica do jeito que eu sempre quis se transformou em um pesadelo de decisões e problemas que eu não consigo resolver.
Eu necessitava sair daquele estado. Precisava respirar. Mas como, se tudo dentro de mim dizia que eu estava à beira do abismo?
Tentei mentalizar que aquilo era uma crise e que ela era temporária, mas não funcionou. Arranquei forças de onde não tinha para tentar executar a respiração diafragmática, mas sem sucesso. Eu sentia meus músculos tremerem por baixo da pele e não conseguia focar em nada. Tentei então o aterramento sensorial, a técnica dos sentidos.
Cinco coisas que eu conseguia ver: Juh deitada no sofá, toda encolhida e abraçando a almofada que coloquei no meu lugar, alguns armários de arquivos ao meu lado, uma pilha de anotações sobre os pacientes da manhã, um quadro com foto da minha família, em cima da mesa, à minha frente, e o notebook com várias abas abertas, tal qual a minha cabecinha.
Quatro coisas que eu tinha a chance de tocar: O meu celular, que só então percebi que estava com a bateria no fim, um livro chamado "Memórias do Subsolo", de Dostoiévski, que eu havia começado mais uma vez no dia anterior, alguns artigos impressos que eu ia precisar usar de referência em atendimentos e um bloco de notas com uma listinha de compras que eu já havia esquecido de fazer.
Três coisas que era possível ouvir: O ruído do ar-condicionado, a minha respiração, que agora estava forte, porém mais calma, e dei play no Spotify, que continuou a partir da última música que parei. Era My Life, do Billy Joel. Eu já conhecia a música, mas, nesse caso, pertencia a uma playlist de um paciente que eu estava analisando.
Duas coisas que eu tinha condições de cheirar: O perfume de Juh que ficou em mim. Ele era sutil, mas envolvente, com um odor suave, como de quem acabou de sair do banho, e o cheiro do ambiente limpo.
Uma coisa que poderia saborear: De início, pensei em pegar uma bala que estava no pote em cima da mesa. Entretanto, lembrei das trufas sem glúten, sem açúcar, veganas e sem vida que a minha amada me deu e peguei uma. O sabor era intenso e acentuado, mas até que gostei.
Mesmo me sentindo melhor, dei prosseguimento à respiração diafragmática. Dessa vez, obtive sucesso e consegui fazer várias repetições longas, lentas e cada vez mais profundas.
Consegui levantar e me movimentar. Ainda sentia as minhas mãos trêmulas. Fui até a minha bolsa e peguei o meu ansiolítico para tomar. Eu estava sem água e pedi para que trouxessem para mim, tentando não demonstrar o que estava acontecendo ali. Assim que virei o copo, ele escapuliu da minha mão e espatifou no chão.
A funcionária e eu imediatamente olhamos para Juh e rimos involuntariamente, porque ela nem se moveu. Limpamos a bagunça, agradeci e fui até a minha muié, que estava com sono pesado.
— Oi, gatinha, vamos embora para você dormir em casa? — A chamei, após uma sequência de beijinhos.
E nisso, o meu celular tocou. Atendi, e era o mestre de obras me informando que uma das únicas coisas que tínhamos resolvido 100% não estava tão solucionada quanto imaginamos. Retornei à mesa para falar melhor com ele e, quando olhei para o sofá, Juh já havia acordado. Ela esticou os braços e fez sinal com as mãos me chamando. Soltei um beijo silencioso no ar e dei prosseguimento à conversa. Júlia levantou toda Coitadinha da Silva e sentou-se no meu colo. A abracei bem forte e, enquanto eu tentava falar com o senhor do outro lado da linha, o meu celular havia descarregado.
— Tô carente... — Ela confessou.
Fui enchendo o rostinho dela de beijos até conseguir enxergar um sorriso.
— Se sente melhor? — Perguntei, e Juh me respondeu acenando positivamente com a cabeça. Depois, ela me puxou para que eu continuasse os chamegos.
No caminho para casa, fui conversando sobre os problemas que estavam ocorrendo na obra.
— Por que não chama o seu pai, amor? — Juh me perguntou.
— Nã... — Tentei falar, mas ela pôs um dedo sobre a minha boca.
— Meu sogro é fascinado por obra, entende muito bem de tudo, sabe se virar, sabe cobrar, sabe pressionar e Loren tá grávida. Com certeza passar esse tempo mais próximo dela vai fazer bem. Aposto que sua mãe também vem, as crianças vão adorar, porque eles sentem falta dos avós e os avós sentem falta deles — Júlia concluiu.
Fiquei pensativa. Odeio atrapalhar a vida das pessoas, especialmente a dos meus pais, porém tudo que ela disse tinha fundamento.
— Huuuuuuum, vou ver direitinho, tá? — Falei.
— Liga do meu celular — Ela disse animada, já colocando para chamar.
Comecei a conversar com meu pai sobre o que estava acontecendo e pedi conselhos de como resolver. A solução prevista por ele foi: "Menina, deixe que eu vou aí sábado mesmo ver isso. Sua mãe tem médico, e eu passo o dia lá na clínica de olho para entender melhor."
A probabilidade de parar de me preocupar com aquilo já me deu uma animada.
Pegamos as crianças no colégio e fomos para casa. Nos preparamos para dormir cedo. Nenhuma das duas estava muito bem. No outro dia, logo pela manhã, ouvi Juh conversando com minha sogra por videochamada, e ela perguntou se poderíamos ir até lá no final de semana, porque tinham algo importante para nos contar e preferiam que fosse pessoalmente.
Logo me lembrei de que nós já tínhamos furado com eles, e tecnicamente, por culpa minha. Então, quando Júlia foi dizer que não dava, porque meus pais viriam para cá, eu falei que a gente poderia ir na sexta-feira mesmo e voltar no sábado, antes da final do mundial. E como minha mulher é curiosa igual a mim e queria saber o que era tão importante que necessitava a nossa presença, aceitou.
Perguntei se os meninos precisavam ir, e eles disseram que não, e que era até melhor que não fossem. Depois contariam para eles também, porém tudo no tempo certo.
Aquele mistério todo nos instigava e Juh já havia feito mil e uma suposições tentando adivinhar o que era. Até eu dei algumas sugestões, mas não chegamos nem perto, segundo o meu sogro, que apareceu para dar um oi.
Tivemos um dia normal, eu me ocupei bastante com meus pacientes e nem tive tempo para resolver nada de obra. No final da tarde, vi algumas chamadas perdidas e mandei mensagem dizendo que ligaria à noite. Deixamos as crianças na casa de Loren, porque meus pais iam chegar cedo lá, e fomos para a Pousada.
No caminho, fomos comentando sobre a nossa aposta, reforçando que ainda estava de pé.
— O que cê vai querer usar dessa vez? — Perguntei, provocando-a.
— O Flamengo ainda não ganhou. Tem a possibilidade de você me ver jogando tudo no lixo — Ela me respondeu, convencida, e nós rimos.
Chegando à casa dos meus sogros, nos dirigimos para a pousada. Os últimos hóspedes já saíam, e Sr. José foi me mostrando como estavam os preparativos para o nosso tradicional final de ano. Minha irmã estava tendo desejo de comer jambo a gravidez inteira até ali, e meu sogro foi me mostrando a quantidade que conseguiu para ela, contando o trabalhão que deu para encontrar.
~ Ele é o maioral, um fofo 🤏🏽❤️
Por fim, os funcionários se despediram, nós sentamos à mesa para tomar um cafezinho e conversar, afinal, estávamos curiosas.
Eles começaram a ficar claramente nervosos, suas expressões misturando uma ansiedade com a tentativa de esconder o quanto estavam tensos. Meu sogro, com os olhos ligeiramente arregalados, olhava para D. Jacira com um sorriso forçado, como se suplicasse para que ela dissesse algo. Suas mãos estavam inquietas, gesticulando sem saber onde se apoiar, enquanto ela tentava começar a falar, mas suas palavras saíam emboladas, gaguejando.
— F-filha, nós... queríamos... dizer... que... — Minha sogra tentou.
— Oxe, eu tô ficando nervosa... O que é??? — Juh perguntou, ainda empolgada.
D. Jacira estava igualmente nervosa que Sr. José, com as mãos apertando um pedaço de papel entre os dedos, quase como se o segurasse para se dar força. Ela olhava para o marido, para a filha e para mim, tentando encontrar as palavras certas, mas, quando falava, parecia que a cada frase se embaraçava mais.
— É algo bom, muito bom! — Colocou para fora meu sogro.
— O que é??? — Juh perguntou, sentando no meio deles.
Minha sogra riu, tentando disfarçar, mas não conseguiu esconder o tremor na voz.
Eles demonstravam uma mistura de felicidade com um toque de receio, como se já estivessem esperando uma reação inesperada, mas não queriam demonstrar que estavam preocupados. O momento estava repleto de pequenos risos nervosos ou forçados e olhares rápidos trocados, tentando manter a compostura, mas não conseguindo esconder totalmente a alegria que sentiam.
— Lore sabe do nosso desejo... — Ela começou a dizer.
— Sei??? — Questionei, confusa.
— Sabe, naquele dia indo para o noivado de Lorenzo... — Falou meu sogro.
E então, a minha ficha foi caindo. A memória veio à tona... Só poderia ser uma coisa, e se fosse o que eu estava pensando, tudo poderia acontecer. O nervosismo deles passou para mim. Agora, eu quem estava temerosa pela reação de Juh, principalmente por saber que o terreno não havia sido preparado. De jeito nenhum minha muié esperaria por uma notícia dessa.
— Gente, para de enrolar, só eu não sei o que é? — Ela disse, perdendo um pouco da paciência.
— Filha, nós... Fomos... — Começou meu sogro.
— Foram para onde??? — Júlia questionou, quando percebeu a sua pausa.
— Fomos habilitados para a adoção — Completou finalmente meu sogro.
— O QUÊ? — Imediatamente ela perguntou, visivelmente assustada.
— Você vai ter um irmão ou uma irmã — Falou minha sogra, contente.
— Ou mais de um, não sabemos ainda — Continuou Sr. José.
— Que história é essa? É uma brincadeira? Porque, se for, é melhor parar agora, não tem um pingo de graça — Júlia falou, brava, quase cuspindo cada palavra.
— É verdade, amor, mas... — Começou a falar meu sogro, mas foi interrompido.
— Por que vocês estão fazendo isso??? — Juh questionou, já chorando e de pé.
Me aproximei para tentar acalmá-la.
— Amor, vamos sentar para escutá-los — Falei, tocando em seu braço.
— E você sabia de tudo, Lorena? Sabia dessa palhaçada toda e não me contou? Esconde as coisas de mim agora? — Ela perguntava.
Juh é a pessoa que mais odeia escândalo. Ela detesta demonstrar que não está bem ou que brigou com alguém. Para ela disparar assim contra mim, na frente de outras pessoas, mesmo que fossem os pais dela, só me mostrava a gravidade da situação.
Sentir raiva e descontentamento é normal. O que doía em mim era o olhar de decepção. Eu precisava me explicar, afinal, eu não lembrava de nada daquele papo no carro até há alguns minutos, porém, Júlia não queria e nem estava em condições de escutar nada.
— Amor, não é bem assim, vamos conversar... — Tentei.
— Agora você quer conversar, não é? Vem cá, há quanto tempo vocês estão escondendo isso da idiota aqui? — Ela nos questionou.
— Lore não escondeu nada, senta aí, Júlia — Falou meu sogro, em um tom mais sério.
— Eu me recuso a participar disso. Tenham uma ótima noite, aproveitem para conversar sobre as mil coisas que vocês devem esconder de mim — Júlia disse em um tom baixo, com uma voz cortada de choro, e saiu, provavelmente para o seu quarto na pousada.
Ficou um clima horrível na mesa, mas me levantei para parabenizar os meus sogros.
— Parabéns? — Perguntei vacilante e eles não conseguiram evitar um sorriso.
— Uma hora ela vai aceitar — Falou minha sogra.
— Vou lá ficar com ela — Disse-lhes.
CONTINUA... 🔥