A sexta-feira amanheceu com um sol traiçoeiro sobre a cidade. Para Júnior, era um dia de contagem regressiva, um misto de dor persistente e uma ansiedade quase insuportável pelo sábado. Seu rosto, embora ainda sensível, já não estava mais inchado, e a coxa doía de forma mais controlável. Graças a Deus, sua esposa não havia feito muitas perguntas, atribuindo seus hematomas a uma "queda idiota" no trabalho. Ele havia forçado um sorriso e concordado, sentindo o peso da mentira.
Às 7h da manhã, o celular de Gabriel vibrou com a notificação do Pix. Quinhentos reais. Exatos. Gabriel sorriu ao ver o nome de Júnior. Sua cadela era pontual.
Gabriel: Bom dia, cadela. Sua obediência matinal me alegra. Continue assim. O sábado está chegando.
Júnior leu a mensagem na tela e sentiu uma pontada de orgulho. Ele estava fazendo tudo certo. Cada gota de dor, cada centavo, parecia justificado pela promessa daquela meia. Ele passou o dia mergulhado em planilhas, sua mente um turbilhão de cálculos financeiros e fantasias de devoção. Ele precisava encontrar uma forma de cobrir os gastos inesperados sem levantar mais suspeitas em casa. Uma mentira sobre um investimento arriscado? Um empréstimo forçado a um cliente? Sua cabeça doía com as possibilidades.
Do outro lado da cidade, Gabriel estava eufórico. O plano para o sábado dominava seus pensamentos. No almoço com os amigos, a euforia era palpável.
— E aí, Gabriel, já pensou em algo para o espetáculo de sábado? — Thiago perguntou, mal conseguindo conter a curiosidade.
— Claro. Estou finalizando os detalhes. — Gabriel disse, com um sorriso enigmático. — Ele vai achar que é mais um dos nossos encontros. Mas desta vez, o palco será a própria chácara dele. E ele será a estrela, sem saber.
João Victor soltou uma risada debochada:
— Vai ser sensacional!
João Guilherme, sempre o mais prático, interveio:
— Mas como a gente vai fazer pra chegar lá sem ele desconfiar? Ele vai nos ver entrando na chácara dele.
— Relaxem. Vou dizer a ele que quero um dia de privacidade total, só eu e ele. Para que ele prepare algo especial, sem interrupções. Ele vai liberar a entrada para um carro. Vocês virão separados, claro. E a entrada de vocês será... estratégica. Teremos nossos momentos a sós, e depois... a surpresa. Ele vai estar tão focado em me agradar que não vai perceber nada até ser tarde demais. — Gabriel explicou, esfregando as mãos com excitação. — Ele vai abrir as portas da sua própria prisão dourada.
— E a gente vai ser servido também? — Thiago perguntou, os olhos brilhando com a ideia. — Ele vai servir a gente também, Gabriel?
Gabriel sorriu, a malícia transbordando:
— Mas é claro. Ele é a minha cadela, e tudo que é meu está à disposição. Ele vai ser o anfitrião perfeito. E vocês terão o melhor serviço que já viram na vida.
Enquanto isso, no escritório, Júnior enviava uma mensagem.
Júnior: Mestre, o que devo preparar para sábado na chácara? Algo especial? Alguma preferência de bebida, comida? A temperatura da piscina?
Gabriel: Cadela, apenas garanta que a chácara esteja impecável. A piscina na temperatura perfeita. Eu decido o resto. Prepare-se para ser meu. Totalmente.
Júnior sentiu o calor subir pelo corpo. "Totalmente meu". A promessa de uma entrega completa encheu seu ser. A chance de finalmente ter a meia, o objeto de sua devoção e sacrifício, o consumia. Ele passaria a noite em claro se fosse preciso, garantindo que cada detalhe da chácara estivesse perfeito para seu Mestre. Ele ignorava o fato de que a palavra "meu" não se referia apenas a ele, mas também ao palco que ele, sem saber, estava preparando para o espetáculo de Gabriel. A tempestade estava se formando, e Júnior, absorto na calmaria de sua devoção, não tinha a menor ideia.