Depois das missas e orações quando todas se retiravam para suas celas e o único som a quebrar o silêncio, hora após hora, era o badalar dos sinos da envelhecida capela, seus passos miúdos, cruzando os largos corredores escuros e frios, só poderiam ser percebidos por aquelas que colassem o ouvido à porta do quarto e, resignadas, aceitassem, durante minutos eternos, ouvir apenas as batidas do próprio coração.
Então, após a longa espera, como que saídos do negrume, seus delicados pés, calçando as alpargatas de sisal, irrompiam na ala dos dormitórios, envoltos na triste suavidade conhecida somente dos que represam seus mais pungentes desejos.
Vinda da capela, onde dera os últimos retoques para a missa que, no dia seguinte, ainda antes do nascer do sol, iniciaria a vida do monastério, ela tomava todo cuidado ao andar, de forma que nem mesmo o menor barulho, por um descuido seu, pudesse atrapalhar o sono das irmãs que, terminando suas orações pessoais, já estivessem adormecidas. Com a mão esquerda, segurava firmemente o molho de chaves preso à cintura; com a direita, empunhava o castiçal de uma única vela, da qual emergia uma chama hesitante.
O hábito marrom escuro, algo áspero, farfalhava levemente, deixando no seu vácuo apenas a escuridão.
A cela humilde acolheu o seu corpo de aparência infantil com um bafejo de bolor e umidade. O branco dos lençóis impecáveis tremeluzia sob a luz que ela carregava.
Aproximou-se da janela e, por entre as frestas das persianas lacradas, aspirou o ar morno, carregado dos perfumes noturnos. Tudo era silêncio. Lá fora, nem sequer uma brisa.
Tocou, com a ponta dos dedos, o crucifixo de madeira que trazia e, segurando-o pelos cordões que o prendiam ao pescoço, tirou-o, fazendo um leve meneio com a cabeça. Peça a peça, despiu-se.
E, por debaixo da roupa íntima, de um algodão cru, larga e mal cortada, brotaram, primeiro, dois seios pequenos e duros, cujos mamilos, rosados, como que se erguiam, petulantes, oferecidos, na direção da imagem do crucificado, colocada acima do genuflexório.
Depois, descendo o calção levemente manchado entre as virilhas, emergiu a vulva peluda e saliente, semelhante a um pequeno animal que, enrodilhado, fingisse hibernar.
As nádegas eram, talvez, decepcionantes, um pouco estreitas, quase masculinas, enquanto que as coxas e as pernas, cobertas de uma levíssima pelugem, desenhadas sem qualquer pressa, terminavam nos delicados pezinhos, cujas unhas, redondas e bem aparadas, pareciam repetir o mesmo tom rosa dos mamilos.
Uma cabeleira preta e exageradamente curta encimava o corpo níveo, translúcido, que passou a movimentar-se no minúsculo quarto com uma tensão exasperante.
Enquanto caminhava de um lado a outro, ela repetia, num murmúrio, a jaculatória: "- Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim!
Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim!
Mantendo os olhos fechados e apertando as mãos unidas, insistia em seu curto trajeto, esbarrando nos pés do genuflexório, pressionando a cabeça contra a porta do armário, pisando no hábito largado pelo chão.
Um derrame de pensamentos inundava o seu cérebro desgovernado.
Abrindo e fechando os olhos, ela apenas conseguia balbuciar a pequena oração, gotas de suor brotavam de sua testa. Pecara. Pecara, sim. O dia inteiro.
Minuto a minuto, é certo, desempenhara todas as tarefas sob a sua responsabilidade, mas deixando que o pensamento vagasse, lúbrico, chafurdando, repleto de nódoas, numa vastidão de inconfessável lascívia.
como se tivessem vida própria e o sangue, brilhando num vermelho intenso, parecia, de fato, escorrer.
Aproximou a boca dos pés sobrepostos e, sentindo o veludo preenchendo suas entranhas e o clitóris amassado pela pressão dos dedos, beijou, demoradamente, cada saliência e cada reentrância.
Ao fim de alguns segundos, já não beijava, lambia. Lambia, desavergonhada. Lambia. E arfava. E gemia.
As saliências cresciam em sua boca, iguais a membros túrgidos e carnosos, vivos, pulsantes, antecipando uma ejaculação iminente.
Assim, esfregando a língua sobre a carne do Amado, chupando, num transe, os dedos do Filho de Deus, ela gozou, muda, engolindo o grito de satisfação.
Os joelhos doíam muito quando, após um tempo indeterminado, ela se ergueu, com dificuldade, do genuflexório. Jogou-se sobre o colchão desconfortável e, pouco a pouco, sentiu, levemente, o ar puro da madrugada refrescando a sua face.
Uma estranha felicidade percorria todo o seu corpo. A culpa desaparecera, dando lugar a um sentimento que nascia do mesmo local misterioso onde o silêncio era gerado todas as noites.
O bálsamo silencioso dos templos; a harmonia silenciosa dos jardins e das florestas; o sono silente e imperturbável das crianças: tudo vivia e respirava dentro dela, agora.
Entregou-se ao lento passar das horas, flutuando sobre a serenidade, sobre a calma, transportada a uma dimensão de névoa e brandura, lembrou-se, então, da faixa de veludo e procurou-a dentro de si.
Mas, ao tirá-la, um repentino vagalhão de prazer ressurgiu no seu ventre, fazendo com que, num arremesso, erguesse os quadris, oferecendo-se a um amante inexistente. Seu desejo encontrava o vazio, somente o vazio, a paz, subitamente, a abandonara.
Um choro sem lágrimas irrompeu no seu peito e, num gesto cego, ela agarrou, no criado-mudo, o crucifixo de madeira, enterrando-o na vagina escancarada; socando, insolente, o objeto em sua carne convulsiva, incansável, mais e mais vezes, até estrebuchar num gozo delirante e sem fim.
A chama da vela dançava, querendo extinguir-se em meio à cera derretida.
Os sinos da capela bateram, anunciando uma hora qualquer.
E, sobre a cama desfeita, dois olhos negros faiscavam como pedras de ônix, úmidos da mais crua luxúria.
Fim
Conto dedicado a uma leitora extremamente religiosa, que não consegue fugir do hábito da masturbação e de fantasiar.
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