06 de setembro do Anno Domini XLII
Desde aquela noite, o mundo nunca mais retomou sua forma. As cores, o som, até o peso das coisas — tudo pareceu perder a substância, como se o tecido da realidade houvesse sido rasgado pelo toque de um deus ou de um demônio. E eu, Marco Aelius Varro, soldado da XII Legião, tornei-me sombra de mim mesmo.
As glórias vieram. Dias depois de ter-me entregado a Valek, fui promovido a centurião e tornei-me herói de campanhas e nome honrado e louvado entre os homens. Foram combates vencidos, saques, títulos, honrarias, prestígio, fama... Mas nada disso me trouxe alívio, pois, onde quer que eu fosse, ele me encontrava. O vento carregava o perfume dele; o eco das lanças soava como sua voz. E nas noites, quando a lua surgia, era como se ele me observasse do outro lado do firmamento, aguardando o instante de reclamar o que deixara em mim.
Mas logo também vieram as mortes. A primeira foi Afra, a síria de olhos negros, cujo riso eu buscava outrora para afastar a solidão. Encontraram-na em uma manhã após eu ter-me deitado com ela. O corpo exausto de sangue, o pescoço marcado por duas perfurações finas. Os homens murmuravam sobre feras; eu sabia que não eram feras. Outras duas mulheres com quem com quem me deitei, em uma última tentativa de sentir-me homem novamente, sofreram o mesmo destino.
Depois delas, um dos meus servos: Públio Aciano. Ele era um jovem dedicado, gracioso, de cabelos dourados e bela aparência, sempre pronto para agradar-me, sempre me observando com admiração enquanto eu me banhava ou quando me ajudava a vestir minha armadura. Uma tarde, estando nós dois sozinhos, e eu um pouco embriagado, chamei-o durante meu banho. Seu toque delicado, me acendeu o fogo entre as pernas. Ele, admirado com o tamanho do meu membro em riste, me olhou nos olhos enquanto me dava prazer com suas mãos.
Levantei-me e o levei para o leito, e entrei nele de bruços. Ele parecia sentir dor, mas permaneceu debaixo de mim com um sorriso de satisfação que me levou ao ápice do prazer rapidamente. Dormi quando ainda estava dentro dele. Ao amanhecer, porém, encontrei-o morto ao meu lado, também sem sangue, também marcado. E ele, sentado à nossa frente, me olhava com um olhar de deboche que me causou medo. Compreendi que não havia inocentes ao meu redor. Todos estavam em risco por causa de mim.
Foi então que me afastei. Eu, que marchava à frente da legião, que bebia com meus homens, que dividia vitórias e tristezas com eles — passei a procurar a solidão e o silêncio. Evitei o vinho com eles, as conversas, os olhos que poderiam me reconhecer. Temia por eles. Temia que a morte, que me seguia de perto, se voltasse contra qualquer um que se aproximasse. A solidão deixou de ser fardo e tornou-se abrigo.
E assim, isolado, comecei a mudar. Minha pele perdeu o calor. Minha resistência ao cansaço aumentou ao ponto de as noites se tornarem longas demais. Meus olhos ardem diante da luz. Minhas mãos tremem sem motivo.
Vieram também as vitórias impossíveis. Recordo especialmente a batalha de Vesontio, há cerca de um mês . Estávamos cercados. O inimigo era numeroso, hostil, conhecedor da terra. O legado considerava-nos mortos. Porém, na noite que antecedeu o combate, ouvi-o. A voz. Não pelos ouvidos — dentro de mim. Um sussurro suave, irresistível, que me guiava como se me acompanhasse por trás dos olhos.
“Move as tropas agora para as colinas. Oculta os arqueiros ao leste até meu sinal.”
Obedeci. Não como soldado — mas como alguém que já não tinha vontade própria. Valek apareceu entre os soldados e andou ao meu lado. Então, não sei explicar como, Valek me levou ao general inimigo. Eu simplesmente estava frente a frente com o homem. O general ficou aterrorizado ao nos ver, e depois de apenas um olhar de Valek, começou a confessar e entregar os pontos estratégicos da cidade e onde outras centenas de soldados estavam escondidos. Sem uma gota de misericórdia, Valek mordeu seu pescoço e drenou-lhe o sangue na minha frente, para depois arrancar sua cabeça com as próprias mãos e jogou o corpo e a cabeça diante do exército dele. Quando saímos da fortaleza, os soldados estavam em pânico. Dei a ordem ao meu exército e o massacre que se seguiu foi total — todo o exército inimigo foi exterminado. Eu via o sorriso de Valek para mim a cada soldado morto, mesmo na escuridão da noite. Enquanto o meu exército retornava para o acampamento, Valek me fez ficar ali onde o confronto aconteceu. Então, ele se despiu e me despiu completamente, me possuindo ardentemente em meio aos corpos. Senti uma euforia como nunca antes, um êcstase que me transportou para as estrelas... eu senti meu corpo flutuar enquanto era inundado por Valek e suas presas rasgavam a carne do meu pescoço.
Ao amanhecer, de volta para casa, fui exaltado como estrategista genial; o próprio imperador me honrou pessoalmente, e mandou que fizessem uma estátua em minha homenagem. Mas senti, no fundo da minha carne, que não havia glória para mim naquele dia. Eu havia sido apenas um instrumento.
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E ele volta como sempre: nas madrugadas, quando todos dormem. Eu sinto sua chegada antes de abrir os olhos — o ar muda, a lamparina tremula, meu corpo inteiro desperta ao reconhecer o toque de sua presença. Eu me entrego ao prazer que aumenta a cada dia, e me deixa cada vez mais dependente dele, do corpo gélido dele que me acendia com um fogo voraz. Pela manhã, eu desperto exausto, drenado, como se tivesse deixado nas sombras algo que jamais recuperaria. E, contudo, espero avidamente por ele todas as noites.
Mesmo que minha razão implore por proteção, meu corpo anseia por sua presença. Meu coração se acelera antes que sua voz surja; minha pele arde antes que seu frio me cerque. Vivo numa dualidade torturante: medo profundo de sua chegada e uma ânsia febril por ela.
Nos sonhos, ele aparece entre mortos após uma guerra, caminhando sobre eles como quem caminha sobre flores esmagadas. Fala meu nome com ternura e ameaça na mesma medida. E eu desperto coberto de suor e tremor, com a lembrança de seu toque queimando como brasa em minha pele e meu pescoço — ou meu pulso — dolorido pela sua mordida. O pior é que — mesmo sabendo que ele me destrói, lenta e completamente — uma parte de mim implora por sua volta.
Nem o ouro, nem as vitórias, nem os homens que lidero podem preencher o vazio que ele cavou dentro de mim. Sou dois homens: um que busca redenção… e outro que já pertence a ele. Talvez seja tarde para distinguir qual dos dois é o verdadeiro.
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