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Teu nome na areia - capítulo 2

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Um conto erótico de Michel ress
Categoria: Gay
Contém 1540 palavras
Data: 14/11/2025 21:08:49

O barulho da voz do Higor ecoando pela casa quebrou o silêncio e o olhar que eu e Kaio trocávamos. Foi como acordar de um sonho ou de algo que eu nem queria entender direito.

Kaio piscou rápido, como se voltasse à realidade antes de mim, e deu um meio sorriso.

— Estamos na cozinha! — gritei, fingindo naturalidade, mesmo com o coração disparado.

Higor apareceu na porta logo em seguida, com uma mochila nas costas e um sorriso pregado no rosto.

— Bora logo, preguiçosos! O dia tá lindo e eu quero pegar estrada antes do pôr do sol.

Kaio riu. — Preguiçoso é tu, que só acorda depois das dez.

— É estratégia, pai. Eu acordo quando o corpo pede. — Higor deu de ombros e piscou pra mim. — E o corpo tá pedindo praia, cerveja e sol.

— E responsabilidade que é bom, nada — respondeu Kaio, pegando as chaves da caminhonete.

— Relaxa, pai, comigo e com o Lipe nada dá errado.

Tentei sorrir, mas o peso daquele "nada dá errado" me deu um arrepio.

Começamos a carregar as malas pro carro. Kaio, como sempre, fazia questão de ajudar, mesmo quando a gente dizia que dava conta. O problema era que, toda vez que ele pegava alguma mala, as veias dos braços dele saltavam e eu tentava, em vão, não reparar.

— Essa é sua, Lipe? — perguntou, levantando minha mochila com uma mão só.

— É, obrigado.

— Tá leve demais, hein? Não vai passar a viagem inteira de sunga, né? — ele brincou.

— Vai saber, tio. Se o calor apertar, quem sabe — soltei sem pensar.

Ele arqueou uma sobrancelha e deu um sorrisinho que me deixou ainda mais sem graça.

— Esses jovens de hoje... — murmurou, jogando a mochila na carroceria.

Higor apareceu logo depois, jogando o cooler e o violão lá dentro também.

— Pronto! Agora é só alegria. — Deu um tapa no ombro do pai. — E sem drama, hein?

Kaio riu. — Prometo tentar.

Entrei na caminhonete e fui direto pro banco de trás. Só que Kaio fala.

— Vai na frente, Lipe. O Higor vai dormindo metade do caminho, aposto. — Kaio falou enquanto ajustava o espelho retrovisor.

— Que nada, tô de boa — protestou Higor, já encostando a cabeça no vidro.

Acabei aceitando. Sentei ao lado de Kaio, tentando parecer tranquilo. Ele ligou o rádio, e o som suave de rock antigo preencheu o ar. O vento batia no rosto, o cheiro de maresia começava a se misturar ao perfume dele, e a cada curva eu me sentia mais perdido.

Por um tempo ninguém falou nada. Só o barulho do motor e as risadas ocasionais do Higor, sonolento no banco de trás.

— E aí, Lipe — a voz grave quebrou o silêncio —, tá animado pra esses dias?

— Tô sim. Vai ser bom dar uma desligada da faculdade e do trabalho.

— Você merece. — Ele olhou rápido pra mim, os olhos castanhos dourados sob a luz do sol. — Deve estar sobrecarregado.

— E o senhor... digo, você, vai conseguir relaxar um pouco também?

Ele sorriu de canto, sem olhar pra mim.

— Acho que sim. Mas às vezes, pra relaxar, a gente precisa de uma boa companhia.

Engoli seco, e fiquei quieto.

Ficamos mais um tempo em silêncio. Kaio cantava baixinho o refrão da música, batucando no volante com os dedos. Eu observava o movimento distraído das mãos dele e pensava em como aquele gesto simples me deixava tenso.

No banco de trás, Higor roncava baixo.

Kaio notou e riu. — Te falei. Não dura nem uma hora acordado.

— Ele é dorminhoco mesmo.

— Herdou isso da mãe — disse com um tom saudoso.

A forma como ele falou fez o ar parecer mais denso por um instante. Havia saudade ali, e uma sombra de dor que eu já tinha visto antes.

— Ela era incrível, né? — perguntei, quebrando o silêncio.

— Era. — Ele respirou fundo. — E eu só percebi o quanto depois que perdi.

Olhei pra ele de lado, e o vi sorrir com os olhos baixos. Um sorriso triste, mas bonito.

— O Higor fala dela o tempo todo. — Falei devagar.

— É... — Ele olhou de relance pro espelho, vendo o filho dormindo. — Acho que é a única coisa que ainda segura ele.

Não soube o que responder. Então ficamos quietos de novo.

A estrada seguia, o céu mudava de cor, e o silêncio entre a gente não era mais desconfortável.

Quando a primeira brisa de mar entrou pela janela, Kaio desligou o rádio.

— Chegamos.

A praia se estendia à frente, e a casa deles, branca e simples, surgia logo depois das dunas.

Kaio estacionou o carro, me olhou e sorriu de leve.

— Pronto pra uns dias inesquecíveis?

Eu sorri de volta.

— Nem imagino o quanto.

*****

O vento com cheiro de maresia já batia forte quando o carro parou em frente à casa branca. O som distante das ondas se misturava ao barulho do motor ainda quente. Higor acordou com um sobressalto, espreguiçando-se como se tivesse dormido a viagem inteira e, de fato, tinha.

— Finalmente! — Ele abriu a porta, respirando fundo. — Cara, esse cheiro de mar é a melhor coisa do mundo.

Kaio desligou o carro e sorriu, observando o filho.

— Você dizia isso quando era pequeno também. Só que naquela época, o cheiro de mar era desculpa pra brincar na areia até escurecer.

— E hoje é pra beber e dormir tarde — Higor respondeu, rindo. E Kaio o repreendeu.

Eu saí do carro, ainda meio atordoado. O sol estava se pondo, pintando o céu de laranja e rosa. Tinha alguma coisa naquilo, o fim do dia, o vento salgado, o riso leve do Higor que me fez sentir que aquele verão ia mudar muita coisa.

— Lipe, pega tua mochila — Kaio chamou.

— Tô pegando — respondi, indo até a carroceria.

Ele já estava lá, segurando duas malas com facilidade, os músculos do braço se contraindo sem esforço. Desviei o olhar rápido, fingindo procurar minha garrafa de água.

— Deixa que eu levo essa — tentei, estendendo a mão.

— Relaxa, garoto. Só tem uma vantagem em envelhecer: o Velho ainda aguenta o tranco. O tom foi brincalhão, mas o olhar dele ficou sério por um instante, quase distante, antes de se virar pra entrar.

Segui logo atrás.

A casa era simples, mas aconchegante. As paredes brancas refletiam a luz suave do entardecer, e o ar cheirava a madeira, sal e lembranças. Eu lembrava de ter vindo ali algumas vezes quando criança, mas agora, tudo parecia diferente.

Higor já estava abrindo a geladeira.

— Cara, ele deixou cerveja! — gritou, como se fosse um milagre.

— E água pra quem dirige — retrucou Kaio, pegando uma garrafa de água e jogando pra mim. Peguei no ar, meio desajeitado. Eu bebia, mas não tinha tanto costume como o Higor. Que já tive que aguentar muita bebedeira dele em balada.

— Valeu.

— Tu ainda treina? — perguntou Kaio, encostando-se no balcão.

— De vez em quando, to meio sem tempo. — Dei de ombros.

— Dá pra ver. Tá ficando mais forte. — Falou distraído, sem olhar diretamente pra mim. O comentário soou casual.

Sorri de canto, sem saber o que responder.

— E você, continua treinando todo dia?

— Tento. — Ele bebeu um gole d'água, o olhar perdido na janela. — Faz bem pra cabeça.

Falou baixo, mas havia peso na voz. Pensei em Higor, e entendi o que ele queria dizer.

— Faz mesmo — respondi.

O clima ficou silencioso, mas não desconfortável. Era aquele tipo de silêncio que diz mais do que as palavras, onde tudo parece suspenso por um instante, até o barulho distante do mar parecia fazer parte dele.

— Ei! — Higor gritou da sala. — Vamos ver o pôr do sol na areia!

— Já vai escurecer — Kaio respondeu.

— Melhor ainda! — Ele já saía pela porta.

Kaio riu e me olhou.

— Vamos também.

Assenti. Peguei a garrafa, e fomos.

A areia ainda estava morna, e o vento batia forte o suficiente pra bagunçar o cabelo. Higor corria na frente, chutando a areia, feliz, como se tivesse dez anos outra vez.

Kaio parou ao meu lado, as mãos nos bolsos.

— Ele parece bem.

— Parece — respondi.

— Espero que continue assim. — A voz saiu baixa, quase um sussurro.

Olhei pra ele, e por um segundo vi o quanto se preocupava. Aquelas rugas pequenas perto dos olhos, o olhar atento no filho... era carinho de verdade.

Senti uma pontada estranha no peito.

Admirar alguém por amar tanto o próprio filho parecia natural. Mas o que eu sentia ia além da admiração, era uma mistura de empatia e algo que eu não sabia nomear.

— Vai continuar sim — falei, com convicção. — Ele tem sorte de ter você.

Kaio virou o rosto pra mim, surpreso.

— Às vezes não sei se sou o bastante.

— É sim — respondi sem pensar.

Ele ficou me olhando por um momento. A brisa levantava areia entre nós, e o som das ondas parecia preencher o que não precisava ser dito.

Higor gritou do alto de uma duna:

— Bora, seus velhos!

Kaio riu, e o momento se desfez como espuma.

— Velho é ele, que não aguenta uma viagem acordado — disse, começando a andar. Dei risada.

Fui atrás. O sol já tocava o horizonte, e o céu parecia em chamas. Higor pulava nas ondas rasas, enquanto Kaio ria e o observava. E eu, parado a poucos metros, sentia um peso doce no peito, uma sensação de que aquele verão guardava algo que eu ainda não entendia, mas que já me fazia querer ficar ali.

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