Nas semanas que vieram depois daquele dia, eu e meu primo resolvemos desacelerar. Não foi um acordo falado, foi mais um entendimento silencioso, desses que nascem do medo misturado com cuidado. A gente passou a evitar cantos vazios, a medir gestos, a transformar vontade em disfarce. Menos toque, menos tempo sozinhos, mais atenção aos olhares em volta. Na época, eu achei que era só paranoia adolescente, mas hoje sei que foi instinto de sobrevivência.
O que eu só fui descobrir muito tempo depois é que meu tio tinha visto. Aquele beijo rápido, meio torto, cheio de nervosismo. Ele viu tudo. E mesmo assim, escolheu o silêncio. Não fez cara feia, não chamou ninguém pra conversar, não lançou indireta nenhuma. Apenas deixou passar. Demorei anos pra entender que aquilo também era uma forma de cuidado, talvez do jeito torto que ele sabia oferecer. Naquele momento, ele realmente nunca foi um problema. O problema era o que eu e o Caique criavamos na nossa própria cabeça.
Com o passar das semanas, outra coisa foi mudando sem eu perceber direito. Eu acabei me aproximando muito mais do Felipe. Engraçado escrever isso agora, porque na época eu nem via como aproximação. Era só convivência, só estar junto, só dividir o mesmo banco no pátio e o mesmo silêncio nos intervalos.
Felipe não estava bem. Dava pra ver no jeito que ele chegava mais quieto, no celular virado pra baixo, como se a tela tivesse virado inimiga. Um dia, no meio da aula vaga, ele sentou do meu lado com um suspiro pesado demais pra caber no peito.
— Ela parou de responder — ele disse, sem me olhar.
Eu fiquei em silêncio, esperando ele continuar.
— A Júlia. Simplesmente sumiu. Visualiza às vezes, mas não responde. Acho que… — ele deu de ombros, rindo sem humor — acho que eu não faço o estilo dela.
— Que estilo? — perguntei.
Ele respirou fundo antes de responder.
— Sei lá. Menino com dinheiro. Carro. Roupa de marca. Essas coisas. Não eu.
Aquilo me apertou por dentro de um jeito estranho. Felipe sempre foi esse tipo de pessoa que tenta parecer forte, mas quebra nos detalhes. No jeito de apertar os dedos, de evitar contato visual quando algo dói de verdade. Eu queria dizer mil coisas e não sabia por onde começar.
— Às vezes não é sobre estilo — falei, com cuidado. — Às vezes é sobre ela não saber o que quer. Ou não saber lidar.
Ele deu um meio sorriso, cansado.
— Você fala isso porque não é com você.
Talvez ele tivesse razão. Talvez eu só estivesse falando porque, naquele momento, minha bagunça estava escondida em outro lugar. Ainda assim, cheguei um pouco mais perto, encostando o ombro no dele. Um gesto simples, quase nada, mas que parecia dizer mais do que qualquer frase pronta.
— Você não tem nada de errado — acrescentei. — Não precisa virar outra pessoa pra alguém gostar de você.
Ele ficou quieto por alguns segundos. Depois assentiu devagar.
— Engraçado — disse ele. — Com você é sempre mais fácil falar.
Eu senti algo se mexer dentro de mim. Não era culpa, nem medo. Era uma espécie de responsabilidade silenciosa. De estar ali. De ouvir. De não desaparecer.
Enquanto isso, Bianca continuava sendo Bianca. Naquele mesmo período, ela não perdeu o hábito de correr até o Caíque assim que ele chegava na escola. Era quase um ritual. Ela largava as amigas, atravessava o pátio e plantava um beijo rápido no rosto dele sem se importar com quem estivesse olhando.
Eu sempre via.
E sempre ficava visivelmente irritado.
Eu não dizia nada. Nunca dizia. Mas o maxilar travado, o jeito de cruzar os braços e virar o rosto entregavam tudo. Era uma raiva sem endereço, porque não tinha o que fazer. Bianca não era dele. Caíque não era dela. E mesmo assim, doía.
Eu observava aquilo de longe, tentando entender como sentimentos conseguem se enrolar uns nos outros desse jeito. Desejo, ciúme, frustração, silêncio. Tudo convivendo no mesmo espaço, fingindo normalidade.
Naquele tempo, eu ainda não entendia quase nada. Só sentia. E sentir já era confuso o suficiente.
Hoje, olhando pra trás, vejo que aquelas semanas não foram só de disfarce. Foram de construção. De vínculos estranhos, de alianças silenciosas, de dores compartilhadas no intervalo entre uma aula e outra. Nada explodiu ali. Mas muita coisa começou a se formar. Devagar. Como tudo que, mais tarde, muda a gente pra sempre.
O resto do dia passou quase normal. Quase, porque nada era totalmente normal quando eu pensava demais. Mas a rotina estava ali, firme, como se quisesse me convencer de que ainda existia um chão.
Eu chegava da escola, largava a mochila num canto qualquer do quarto e estudava um pouco. Não por disciplina exemplar, mas porque manter a cabeça ocupada era uma forma de não deixar os pensamentos criarem asas. O silêncio da casa tinha um peso específico naquele horário, interrompido só pelo som distante da rua ou por alguma porta batendo em outro cômodo.
O Caíque sempre chegava depois. Eu reconhecia o barulho antes mesmo de ver. A mochila jogada perto da porta, o tênis sendo chutado para longe, o cheiro dele misturado com suor e sabonete barato depois da luta. Quando ele entrava no quarto, parecia que o ar mudava de temperatura.
A gente passava a tarde junto. Videogame ligado, controle passando de uma mão pra outra, discussões bobas sobre quem tinha roubado na jogada ou quem estava apelando demais. Às vezes ele sentava do meu lado e, sem fazer alarde, começava a me ajudar nas atividades da escola. Apontava erros, explicava do jeito dele, com paciência torta e comentários irônicos que sempre me arrancavam um sorriso.
Quando a noite chegava, o mundo diminuía.
As luzes ficavam mais baixas, o barulho da casa se dissolvia, e era como se só existisse aquele espaço entre nós dois. A gente deitava junto, encaixado, como se o corpo do outro tivesse sido feito sob medida. Eu sentia o braço dele me puxando para perto, o calor do peito dele contra minhas costas ou o rosto dele escondido no meu pescoço.
Os beijos vinham devagar. Nunca apressados. Eram beijos que começavam tímidos e iam ficando mais longos, mais demorados, como se nenhum dos dois quisesse ser o primeiro a parar. Às vezes eram só selinhos repetidos, outras vezes bocas que se encontravam com mais vontade, mas sempre com um cuidado quase reverente. Como se a gente estivesse segurando algo frágil demais para apertar.
Eu gostava do jeito que ele sorria entre um beijo e outro, como se estivesse feliz e assustado ao mesmo tempo. Gostava de sentir a mão dele desenhando caminhos preguiçosos pelo meu braço, pelas minhas costas, só para ter certeza de que eu ainda estava ali.
Antes de dormir, vinham os devaneios.
A gente falava baixo, quase sussurrando, como se o futuro pudesse ouvir e resolver ir embora se a gente levantasse demais a voz. Falava de uma casa longe dali, de acordar juntos sem medo, de poder andar de mãos dadas na rua sem olhar por cima do ombro. Falava de trabalhos, de viagens, de uma vida simples, mas nossa.
Às vezes os planos eram absurdos de tão distantes, outras vezes eram pequenos demais, como escolher um filme para ver num sábado qualquer. Mas todos tinham uma coisa em comum: a gente estava junto neles.
Eu dormia com o rosto encostado no dele, sentindo a respiração calma, o coração batendo perto do meu. E, por algumas horas, o mundo lá fora deixava de ser uma ameaça. Existia só aquele quarto, aquele silêncio e a certeza doce e dolorosa de que a gente se gostava mais do que tinha coragem de admitir em voz alta.
Era quarta-feira. Eu sabia disso porque, antes de dormir, pensei que a semana já estava passando rápido demais. Dormi como quem se agarra a algo que não quer perder. Como se, lá no fundo, meu corpo soubesse que a manhã não viria gentil.
A noite foi maravilhosa. Daquelas que a gente guarda sem saber que vai precisar lembrar depois.
Dormimos de mãos dadas, os dedos entrelaçados com naturalidade, como se sempre tivesse sido assim. O meu primo respirava fundo, tranquilo, e eu fiquei um bom tempo acordado só observando o jeito que o peito dele subia e descia. Cada dia que passava, a certeza ficava mais clara dentro de mim. Ele era o amor da minha vida. Não um amor barulhento, espalhafatoso, mas um amor que se encaixava, que fazia silêncio dentro do caos. E, do jeito que ele me segurava, eu sentia que isso era recíproco.
Antes de acordar de verdade, sonhei.
Era um sonho simples. A gente se beijava sob uma luz dourada, dessas que não existem direito na realidade. Um beijo calmo, bonito, com uma aura quase intocável, como se o mundo tivesse parado só para aquilo acontecer. Acordei com o coração leve demais para um dia comum.
A luz do sol bateu direto no meu rosto. Pisquei algumas vezes, ainda meio perdido entre o sonho e o quarto. Quando virei de lado, o Alec já estava acordado. Sentado na cama. O corpo tenso. O celular na mão.
Meu celular.
Ele encarava a tela como se aquilo tivesse mordido ele.
— O que é isso? — ele perguntou, sem me olhar.
Minha voz saiu rouca de sono. — Isso o quê?
Ele virou a tela para mim. A mensagem estava aberta. Era do Felipe.
“Hoje não vou pra escola. Vou ter que ficar em casa pra ajudar minha mãe, ela tem um exame pra fazer e pediu pra eu ficar de olho na minha irmã. Anota tudo pra mim e depois me passa. Vai ser foda ficar longe de você hoje. Você é o único que me entende, em quem eu confio.”
O silêncio entre nós ficou pesado.
— Ele é meu amigo — eu disse, tentando manter a calma. — Só isso. Não tem nada demais.
Ele não respondeu. Travou o celular, colocou do meu lado na cama e se levantou. O jeito que ele se arrumou dizia tudo. Movimentos duros, rápidos, como quem não quer pensar muito para não explodir. O rosto fechado. A mandíbula tensa.
Ele não discutiu. O que, de alguma forma, doeu mais.
A manhã seguiu estranha. Poucas palavras, nenhum beijo, nenhum toque além do necessário. Descemos para o carro como dois desconhecidos que sabiam demais um sobre o outro.
Eu tentei dizer alguma coisa. Não consegui.
No meio do caminho, sem olhar para mim, ele estendeu a mão. Pegou a minha. Apertou forte. Não foi carinho. Foi marcação. Um gesto silencioso, quase possessivo, como se dissesse sem palavras que eu era dele, mesmo quando ele estava machucado.
Eu deixei.
O silêncio se instalou de vez dentro do carro. Um silêncio espesso, cheio de coisas não ditas, que acompanhou a gente até o portão da escola. E, enquanto eu observava os prédios se aproximarem pela janela, tive a sensação incômoda de que aquele dia não ia terminar do mesmo jeito que começou.
Algo estava prestes a acontecer.
Cheguei ao colégio e como de costume alguns amigos do Caíque estavam no portão esperando ele. Olhei para os lados e vi Júlia com um grupo de meninos e meninas que estavam na festa e me aproximei.
Ele estava alguns metros à frente. Riam, falavam alto, alguém me chamou de “Alec Bebedeira” e acabei rindo. Tinha virado quase uma lenda depois da festa da Júlia. Todo mundo parecia querer um pedaço de mim.
Eu observava Caíque de longe, tentando parecer relaxado, mas por dentro tudo estava apertado demais. A gente não tinha conversado direito de manhã. O clima estranho no carro ainda ecoava em mim. Eu sabia que não tinha feito nada errado, mas também sabia que o silêncio cria monstros.
Júlia e os meninos contavam alguma fofoca que eu não estava nenhum pouco interessado, eu apenas ria e fingia prestar atenção, quando na verdade, meus olhos não largavam Caíque.
Foi então que vi a Bianca.
Ela surgiu do nada, como sempre fazia. Caminhava rápido, decidida, o olhar fixo em uma única pessoa. Não em mim.
No meu primo.
Meu estômago gelou.
Ela chegou por trás, agarrou ele pelo pescoço com intimidade demais, como se tivesse esse direito, e deu um beijo estalado no rosto dele. Caíque ficou rígido na mesma hora. Eu vi. Vi o corpo dele travar antes mesmo da mente reagir.
— Bianca… — ele começou, tentando se soltar.
Mas ela não deixou.
Deu a volta, ficou na frente dele, segurou o rosto dele com as duas mãos. Tudo aconteceu rápido demais. Rápido e errado.
Ela deu um selinho na boca dele.
O pátio inteiro pareceu parar.
O som das conversas caiu como se alguém tivesse desligado o mundo. Eu senti todos os olhares se voltarem para aquele ponto. Meu coração disparou. Uma parte de mim quis correr até lá. A outra ficou completamente paralisada.
E então ele explodiu.
— CHEGA! — a voz dele cortou o ar, alta, firme, tremendo de raiva.
Ele empurrou a Bianca para trás, segurando pelos ombros, afastando o corpo dela do dele com força suficiente para não deixar dúvidas.
— Você não tem o direito de fazer isso comigo!
Bianca arregalou os olhos, claramente surpresa. Talvez nunca tivesse o visto daquele jeito. Eu, pelo menos, nunca tinha.
— Eu já falei com você! — ele continuou, a voz embargada, mas decidida. — Já falei que você não pode ficar me encostando, me beijando, agindo como se nada tivesse mudado!
O silêncio ao redor era absoluto. Eu sentia meu coração bater nos ouvidos. Júlia tinha parado de falar. Meus amigos também. Todo mundo olhava.
— A gente não tem mais nada, Bianca — ele disse, cada palavra pesada, como se estivesse arrancando algo de dentro dele. — Nada. Acabou.
Ela tentou dizer alguma coisa, a boca se abrindo, mas nenhuma palavra saiu.
— E se você quer saber — ele respirou fundo, os olhos brilhando — eu não sou uma coisa que você pode sair beijando quando dá vontade até porque eu amo outra pessoa.
O murmúrio começou a se espalhar pelo pátio. Cochichos, espantos, celulares discretamente levantados. Eu via tudo como se estivesse fora do meu próprio corpo.
— Então, por favor — ele finalizou, a voz mais baixa, mas ainda firme — para. Para de me tocar. Para de fingir que tem algo que não existe mais.
Os olhos da Bianca se encheram de lágrimas. Ela levou a mão à boca, balançou a cabeça em negação, completamente exposta ali, na frente de todo mundo.
Sem dizer mais nada, virou as costas e saiu correndo, chorando, empurrando quem estivesse no caminho.
E a escola ficou em silêncio.
Eu fiquei parado, sentindo um nó absurdo no peito. Não era só ciúme. Era orgulho. Era medo. Era a certeza de que aquilo tinha mudado tudo.
Ele estava parado, respirando com dificuldade, o rosto vermelho, os punhos fechados. Quando nossos olhares se encontraram, algo passou entre a gente sem nenhuma palavra.
Eu sabia.
Ele tinha feito aquilo por ele.
Mas também por nós.
E naquele instante, no meio do pátio, com todo mundo olhando, eu entendi que não tinha mais como fingir que o que a gente sentia podia ficar escondido para sempre.
Caíque apenas virou as costas e saiu andando com passos largos, a mochila jogada em um dos ombros, como se o mundo ao redor tivesse desaparecido. O jeito dele era diferente, fechado, quase cego de raiva.
— Dá licença — murmurei para a Júlia, já me afastando.
Fui atrás dele.
Caíque atravessou o pátio sem olhar para os lados, subiu as escadas dois degraus de cada vez, direto para o terceiro andar, onde ficava a sala dele. Eu vinha alguns passos atrás, sentindo o coração bater forte, não só pelo medo de alguém perceber, mas pela necessidade absurda de alcançá-lo.
Ele entrou no banheiro masculino com força, a porta batendo atrás dele. Esperei alguns segundos e entrei também.
Caíque estava em frente à pia, com as mãos apoiadas na borda, respirando pesado. Abriu a torneira, jogou água no rosto uma, duas vezes, e depois ficou parado, encarando o próprio reflexo no espelho como se estivesse tentando se reconhecer ali.
Eu fiquei encostado na porta, observando em silêncio.
Uma das cabines se abriu. Um garoto saiu, nem percebeu nossa tensão, lavou as mãos e foi embora. O som da porta do banheiro se fechando ecoou alto demais.
Esperei mais alguns segundos. Caminhei devagar, conferi com o olhar se todas as cabines estavam vazias. Estávamos sozinhos.
Pareí de frente para ele.
— Caíque… — chamei baixo.
Ele não respondeu de imediato. Só continuou olhando para o espelho, o maxilar travado.
— É por causa de hoje de manhã? — perguntei. — Da mensagem?
Ele soltou uma risada sem humor e finalmente virou o rosto para mim.
— É por tudo — respondeu. — Por aquela garota não me deixar em paz. Por eu não poder assumir você e dizer em voz alta que eu te amo. Por aquele seu amigo ficar te mandando mensagem como se tivesse intimidade demais. Eu não gostei daquilo, Alec.
Respirei fundo.
— Caíque, você precisa entender que o Felipe é só meu amigo. Só isso. Eu sinceramente acho que ele nem percebe como aquilo pode soar. Ele gosta da Júlia, você sabe disso.
Ele passou a mão pelo cabelo, inquieto.
— É diferente.
— Diferente como?
— Eu já namorei a Bianca — ele respondeu rápido. — Eu sei o que era aquilo. Mas esse garoto… ele tá sendo maldoso com você. Eu conheço esse tipo de coisa. Eu vejo quando alguém tá passando do limite.
Olhei direto nos olhos dele.
— E eu dou confiança pra alguém passar do limite comigo?
Ele ficou em silêncio.
— A única pessoa aqui que eu dou confiança… é você.
A tensão entre nós mudou de forma. Não era mais raiva. Era algo quente, urgente, impossível de conter.
Caíque me puxou pelo colarinho da camiseta e me beijou.
Não foi delicado. Foi feroz. Cheio de tudo que a gente não podia dizer em voz alta. Eu retribuí sem pensar, sentindo o corpo dele colado no meu, as mãos firmes, exigentes. Levei minhas mãos às costas dele, arranhando a pele por baixo da blusa, sentindo ele arrepiar inteiro.
Ele me empurrou para trás, andando comigo até uma das cabines, abriu a porta com pressa e me puxou para dentro. Trancou.
O espaço era apertado, mas parecia que o mundo inteiro cabia ali. A gente se beijava como se estivesse se afogando, como se aquele fosse o único lugar seguro. Minhas mãos subiram, quase arrancando a camisa dele, e ele gemeu baixo contra minha boca.
De repente, o som da porta do banheiro se abrindo.
Congelamos.
Ficamos imóveis, respirando em silêncio, o coração batendo alto demais. Passos, alguém mexendo na pia, o barulho da descarga. Eu sentia o corpo do Caíque tenso contra o meu.
Quando a porta finalmente se fechou de novo, nos afastamos devagar.
Ele apoiou a testa na minha.
— É melhor a gente não continuar isso aqui — disse, a voz baixa, ainda tremendo.
Assenti, mesmo com o corpo inteiro pedindo o contrário.
Ali, naquele banheiro, ficou claro que a gente queria demais. E que exatamente por isso, precisava ter cuidado.