BRENO 30
Deixo Adriano no trabalho depois do almoço, para só depois começar a surtar, tipo ele me beijou e eu não estava nem um pouco preparado para isso — puta merda que beijo bom — eu desejo ele desde que o conheci, ainda lembro de ter pensado “que cara gato” e depois “nossa que cara incrível, ainda vou namorar com ele”.
Caio me disse para desistir várias vezes, aparentemente o Adriano tem um história de se apaixonar apena por caras ruins. Eu sei que é a forma do Caio de cuidar de mim, mas acontece que parar de pensar no Adriano como um possível romance é quase impossível para mim, eu tentei, tentei muito para falar a verdade, acho que tirando o Caio e o Luan todos os amigos que o Adriano eu devo ter pego em algum momento, porém nenhuma boca foi mais gostosa que a dele, é como se estivesse sob efeito de um feitiço sei lá´.
Quando chego no meu carro pego o celular e ligo para o Caio, ele é meu melhor amigo e embora seja um mala às vezes, ainda é a pessoa em quem mais confio, só que preciso me policiar para não contar demais, afinal me pediram segredo sobre o merda do Nathan. Sério, um cara que faz merda com um cara como o Adriano não merece ser feliz, ele é a pessoa mais gente boa, sangue bom que eu conheço.
— Oi Bê.
— Caio, preciso que você cancele minha festa surpresa, vamos só comer uma pizza com a galera na casa do Adriano hoje.
— Ok, primeiro que estou combinando essa festa com nossos amigos a mais de um mês para cancelar agora em cima da hora e segundo quem é essa “galera”? — Caio não curte quando as coisas não acontecem como ele quer, mas pelo menos ele não é tão inflexível assim.
— A gente pode remarcar se você quiser, mas eu quero comer uma pizza na casa do Adriano hoje, isso é tudo que eu quero fazer e sobre a galera, bem, você, Adriano, Luan e Ykaro.
— Ainda acho muito esquisito você ser amigo do Ykaro, mas o Luan não vai se eu for.
— O Ykaro é legal e o Luan já confirmou.
— O que a Madrinha falou sobre estarmos nós dois no mesmo lugar? — Caio não admite, mas eu sei que ele sente falta do Luan e que ficou chateado por conta da guarda de amizade compartilhada.
— Ele disse que por ele tudo bem.
— Tá, se você quiser a gente convida eles também e vamos todos para o bar, não entendo por que você quer comemorar seus vinte sete anos em casa comendo pizza.
— Eu vou falar com o Adriano hoje — Caio fica em silêncio do outro lado da linha.
Não é a primeira vez que digo para o meu melhor amigo que vou me declarar, mas é a primeira vez que estou com coragem para fazer isso, é que nunca gostei de ninguém como gosto dele e meu grande amor está solteiro, se eu não fizer isso agora posso não ter outra chance, estamos muito amigos esses dias e estou perigando cair na “friend zone” se é que já não estou, por isso tenho que me arriscar agora, afinal o não eu já tenho né.
— Amigo, a gente já falou sobre isso, o Adriano ainda ama o Nathan.
— Eu sei Caio, mas tem algo rolando entre a gente e eu não tô maluco — não é possível que só eu tenha sentido aquele beijo.
— Você sabe que eu sempre foi te apoia né — ele diz isso, porém sei que tem um mas ai — mas querido não acho que ele vai dizer sim.
Não vou mentir Caio não colocar fé me assuta para caralho, afinal meu melhor amigo não costuma errar, mesmo assim quero me arriscar, é foda que entrei em uma reta e me sinto acelerando cada vez mais, se no final desse percurso tiver uma parede vou me esborrachar por inteiro — queria não gosta dele dessa forma, mas eu gosto, e quando mais tento não gostar parece que só me apaixono mais é uma merda, só que é uma merda boa se é que isso faz sentido.
— Mesmo assim vou fazer isso, Caio.
— Tudo bem, só por favor não ache que estou torcendo contra é que eu conheço a Madrinha.
Essa é minha última ficha e preciso jogá-la, entretanto falar com Caio só me deixou com medo, ainda que eu saiba que é só preocupação comigo, não diminui em nada o fato de que eu prefeitura que ele apoiasse mais, afinal é um passo final dessa história de amor platônico que sinto a muito tempo. Se a resposta do Adriano foi não, vou seguir em frente e finalmente desistir, o que não dá mais para fazer é ficar esperando ele notar por conta própria que eu gosto dele.
Volto para o trabalho, mas minha cabeça está a mil, não consigo focar em nada, o que é uma merda, entretanto as coisas estão preste a mudar, só preciso ter um pouco mais de paciência e principalmente não posso amarelar agora, ou Caio vai está certo mais uma vez sobre alguma coisa. Já é quase final da tarde quando meu pai me chama no escritório para me dar um esporro por um caso que eu fiz um acordo.
— Você tinha que ter deixado seguir Breno, o seu Geraldo está furioso porque vai ter que pagar o acordo.
— Ele ia perder, o cara trabalha com os funcionários dele em regime quase escravocrata — rebateu meu pai.
— Breno, você é advogado do Geraldo e não dos funcionários dele, a gente faz o que ele paga para gente fazer.
— Esse é o problema, eu quero fazer o certo pai, não o que a gente é pago para fazer.
— De novo essa conversa de virar defensor público Breno, pela amor de Deus, olha você ser homosexual eu posso aceitar, agora filho meu burro é de mais né.
— Obrigado pai por me aceitar do jeito que eu sou — digo puto por ele ainda manter esse discurso machista e agora elitista também.
— Eu vou ser bem sucedido sendo defensor também pai.
— Até parece que você vai ganhar a mesma coisa que ganha aqui no escritório.
— Não se trata de dinheiro, eu não fiz direito pra defender o patrimônio de burguês escravocrata pai! — Acabo me exaltando um pouco mais do que deveria.
— Ampla defesa Breno, quem julga é o Juiz, nosso trabalho é apenas defender nosso cliente seja ele quem for, todo mundo tem direito a um advogado e esse advogado tem que dar o melhor de si para defender os interesses do seu cliente, se só atendermos quem achamos que está certo estaremos sendo arbitrários.
— O senhor está certo pai, não estou falando que esses donos de empresa não podem ter um advogado, só estou dizendo que não quero mais atender eles.
— Você quer o que Breno, se não quer atender nossos cliente você vai fazer o que se demitir do seu próprio escritório? — Ele não me entende, nunca entendeu.
— Seu escritório pai.
— Mas que vai ser seu um dia, deixa de ser ignorante rapaz! — Agora ele quem está se exaltando.
— Quer saber pai eu cansei, cansei de tentar fazer o senhor me entender, estou fora, eu me demito.
— Breno para de palhaçada e vai trabalhar, preciso que você reveja o caso da dona Ingrid também antes de sair — ele não me leva a sério e pior quer que eu faça hora extra no meu aniversário, o que me leva a pensar que mais uma vez ele esqueceu.
— Eu vou terminar os casos que já estou envolvido, mas depois estou fora pai, estou falando sério — encaro meu pai que também é meu chefe.
Ele me encara nos olhos e leva uns segundos em silêncio ponderando sobre algo, até que por fim os brilho escuro e severo toma conta de seu rosto — meu pai fica vermelho como um pimentão. — Sua opinião sempre foi muito importante para mim, tipo não sou do tipo filhinho do papai, entretanto pela minha criação as palavras dele sempre foram a lei lá em casa, tanto eu quantos minhas irmãs buscamos sua aprovação desde que nos entendemos por gente. Crescer tentando ter aprovação de alguém pode ser bem difícil às vezes, eu quem o diga, porém o perigo disso é um dia você simplesmente explodir.
— Quer saber Breno, não precisa se importar, vou passar todos os seus casos por Jefferson — meu corpo estremece com seu tom sério e de puro desprezo.
— Pai, por favor não quero brigar com o senhor, é só que eu cansei de fazer isso, não é isso que eu quero para minha vida.
— Engraçado você dizer isso, porque não sei se você sabe, quem pagou sua faculdade fui eu, quem pagou seu colégio fui eu, tudo que você tem, come e veste foi tudo desse escritório e agora você quer me julgar Breno?
— Pai, não estou julgando o senhor — merda, ele é um ótimo advogado, principalmente quando está puto, colocando assim estou sendo um completo cuzão ingrato.
— Não me doi ouvir você falar que quer ser defensor público, o que me decepciona é ver sua ingratidão Breno.
— Não sou ingrato pai, o senhor sempre foi meu mentor, só que o senhor escolheu meu caminho e isso é algo que eu tenho que fazer.
— Você fala como se eu fosse controlador? O que eu disse quando você despejou na gente sua opção sexual na mesa de jantar? — Sua voz começa a ficar uns tons mais alta.
— Primeiro que não foi uma opção para mim ser gay pai, essa é minha orientação sexual e segundo que dizer tudo bem filho, só não seja gay na frente dos outros não é muito dar apoio — agora minha voz também está ficando mais alta.
— Inacreditável que depois de tudo que eu fiz por você eu ainda seja o vilão!
— Pai, eu amo o senhor, mas não posso continuar fazendo isso, eu quero advogar do meu jeito, você me ensinou a ser o melhor, só que eu quero usar o que você me ensinou para outras causas que não sejam essas — evito continuar falando e parecer ainda mais hipócrita.
— Senta ai — ele faz aponta para cadeira na frente da sua mesa, e algo na sua voz me deixa claro que isso não foi um pedido e sim uma ordem de pai, então me sento — você não vai se demitir desse escritório porque ele é seu.
— Pai — começo a interrompê-lo, mas ele me encara e volto a me calar para ouvi-lo.
— Escolha uma área, qualquer área, mas faça isso aqui dentro — ele está muito puto comigo, mas está tentando ser razoável o que é uma grande surpresa para mim — porra Breno! Não vou demitir meu filho no dia do aniversário dele.
— O senhor lembrou?
— E alguma vez eu esqueci? — Sendo justo esquecer ele não esqueceu, mas já faltou a alguns na minha infância por está trabalhando.
— Desculpa pai.
— Não estou feliz com essa sua rebeldia, mas crie você para defender o que quer e para ser melhor advogado do que eu, fica e trabalha com o que você quiser, mas cobre pelo amor de Deus.
— Como isso pode dar certo pai?
— Vai dar certo porque isso tudo aqui vai ser seu quando eu me aposentar — ele diz aposentar para não pesar o clima, mas nós dois sabemos que meu pai só sai dessa cadeira morto.
— Vou poder escolher meus casos? Por conta própria?
— Vai, mas só vai receber pelos seus casos, em troca você usa nosso escritório, se depois disso você ainda quiser virar um defensor público eu mesmo pago a inscrição do seu concurso.
— Obrigado pai — levando dando a volta na mesa para abraçá-lo.
— Se você quer tanto assim passar fome, vai fazer isso de onde posso ficar de olho em você pelo menos — ele diz, mas não me ofendo dessa vez, afinal para ele está cedendo já é uma enorme novidade entre a gente.
Acho que essa conversa com meu pai possa ser um indicativo de que as coisas na minha vida estão prestes a mudar de fato, me sinto até mais confiante para falar com Adriano hoje. “É vai dar certo” pensei, não tem mais volta, depois de hoje vou ter essa certeza comigo, ou vamos namorar ou vamos seguir apenas como amigos — ou quase isso, já que não sei como a nossa relação vai ficar depois de pedir para ficar com ele.
