Vivi os dias após aquela noite com relativa tranquilidade. Dias tornaram-se semanas. E, num piscar de olhos, eu já residia na casa de Khun-Yai há quase um mês. Todo o peso que se acumulava sobre mim... não sei quando evaporou. Tudo o que sinto é paz de espírito, como se eu fizesse parte deste lugar.
Talvez seja pelo primeiro motivo importante: descobri que não posso voltar para o meu mundo tão rápido quanto desejava. Preciso ficar aqui por um longo tempo, o suficiente para fazer vários desenhos, no mínimo. Isso acalmou minha ansiedade recente. O outro motivo é provavelmente Khun-Yai. Ele é conforto e consolo. Como uma árvore, forte e confiável — embora seja uma árvore charmosa e brincalhona. Se eu baixar a guarda, posso acabar caindo em sua bondade.
Durante o dia, cuido das tarefas triviais na casa pequena e garanto o conforto de Khun-Yai. À noite, durmo ao lado da cama dele. Às vezes coço suas costas ou apenas conversamos. Pareceu estranho no início, mas encontrei alegria nisso ultimamente. É justo dizer que me acostumei a falar com ele todas as noites. A única coisa com a qual não consigo me acostumar é sua doçura incomparável e suas palavras galanteadoras, que não me permito aceitar ou fantasiar a respeito, custe o que custar. Sua humildade e provocações flertantes, embora ditas aos poucos, podem fazer o ouvinte pensar demais. Khun-Yai pode não se incomodar, mas eu não sou de pedra. Além disso, sou gay. Se ele não for cuidadoso, eu tenho que ser.
— Khun-Yai, já faz mais de uma semana. O senhor viu que não fui sonâmbulo nem por um dia. Eu poderia dormir no meu quarto agora? — pergunto enquanto ele escreve sua lição no pavilhão à beira-rio.
O tempo está muito mais quente. É incrível que o inverno dure meses, ao contrário da minha era, onde o inverno dura cinco ou seis dias — é como se o inverno viesse fazer um piquenique na Tailândia e saísse correndo para resolver negócios em outro lugar.
— Além do sonambulismo, estou preocupado com outra coisa — Khun-Yai responde, com os olhos fixos no papel.
— O que é?
Ele olha brevemente para cima e diz com uma voz plana:
— Não quero ver você triste como naquela noite de vento.
Oh... então é por isso? Ele tem pena de seu servo de coração partido. Khun-Yai deve ter deduzido a situação pela minha resposta vaga sobre ter tido um amante e ser abandonado. Ele nunca pede detalhes para não agitar minhas emoções. Que gentil. Se o senhor for tão doce assim, vou me apaixonar de verdade.
— Não se preocupe com isso. Estou perfeitamente bem. Falta de comida mata, falta de amor não, Khun-Yai.
— Você não morrerá, mas já pensou que alguém pode estar sentindo-se "morrendo aos poucos" por isso?
Hein..? Por falta de amor? Quem? Certamente o Khun-Yai está fora de questão. Ele é perfeito em aparência e riqueza. Se ele se interessar pela filha de qualquer família, eles abrirão os portões esperando que ele venha pedir a mão dela.
— Khun-Yai — mudo de assunto. — Notei isso há algum tempo. O senhor está vendo o curso da água na margem do rio ali adiante, depois da árvore de chuva?
Ele vira a cabeça para onde aponto. É o local da casa grande. A varanda superior se projeta para ver o rio com um terraço abaixo. Lembro-me de que, na minha era, essa varanda dos fundos não existirá mais como as outras partes da casa; ela terá desabado e precisará ser reconstruída. Ver seu estado perfeito agora me dói.
— Onde você aprendeu sobre isso? Quem te ensinou?
— Oh. Todo mundo com casa na beira do rio sabe disso. Pessoas com terrenos pequenos percebem quando os pilares da casa ficam perto demais da margem.
Minto suavemente, já preparado. Khun-Yai assente, aparentemente convencido. Disparo mais informações:
— Falando como um especialista em hidrografia, aquela terra ali sofrerá erosão, sem dúvida. Com o tempo, ocorrerá um deslizamento de terra na margem, o que levará ao afundamento do solo no futuro. O terraço e a varanda superior serão afetados.
— Um especialista em hidrografia...?
— Sim.
— Mas você não sabe nem remar.
Inalo e estalo a língua de irritação. — São duas coisas diferentes.
Khun-Yai sorri e para de me interromper.
— O senhor deveria construir um muro de contenção — digo, pegando uma prancha de desenho e um lápis. Agora tenho meu próprio equipamento, providenciado pelo Khun-Lek. — Já vi pessoas construírem assim.
Esboço com destreza. É um muro simples, com rochas enormes e pilares de madeira. Nada de tecnologia avançada que deixe o Khun-Yai suspeito.
— Hum, boa ideia.
— Certo? Prevenir é melhor que remediar. — Marco os detalhes e calculo os espaços. Quero que o desenho seja prático.
— Parece bom, e suas habilidades de desenho são excelentes — elogia Khun-Yai.
— Obrigado. — Aceito o elogio; não estou no clima para ser humilde.
— Parece que você estudou isso.
— É. Eu me formei na... — Paraliso e fecho a boca antes de terminar a frase. Nossos olhares se cruzam. Khun-Yai para de escrever, com a mão pairando no ar. Ele ergue uma sobrancelha, como se me pressionasse a completar a frase.
Naquele segundo, escolho estender a mão lenta e gentilmente e a coloco sobre a de Khun-Yai. — Hum... Khun-Yai — digo com uma voz suave e um toque de doçura. — O senhor está com fome? Vi a Pun fazendo Kanom Tian Kaew. Eles eram minúsculos e pareciam deliciosos.
Khun-Yai me encara em silêncio. Ambos sabemos o que é isso: é a situação de "o frango vê o pé da cobra e a cobra vê o peito do frango". Aconteceu antes quando tentei expô-lo sobre o relógio. Mas eu vi o "pé" dele claramente, enquanto ele apenas vislumbrou meu "peito", pois ainda não descobriu exatamente o que escondo.
— O cheiro da fumaça de vela chegou até a casa pequena — falo em voz baixa, tentando sair dessa situação. — Acho que o lanche já está pronto.
Um sorriso leve surge nos lábios de Khun-Yai. Seus olhos brilham com conhecimento, me causando calafrios, e então ele entrelaça seus dedos nos meus.
— Você é um homem inteligente — diz Khun-Yai, com os olhos fixos no meu rosto. Estremeço quando ele desliza os dedos pelas costas da minha mão e pelas juntas dos dedos. — Inteligente e astuto.
Eu rio para disfarçar.
— Bem. Nem tanto. — Puxo minha mão devagar, sorrindo. — Vou buscar o seu lanche.
Assim que escapo, solto um suspiro... Essa foi por pouco. Não posso baixar a guarda perto dele. Se eu confessasse que sou um arquiteto de cem anos no futuro, o Hospital Psiquiátrico Suanprung seria meu próximo endereço. Se ainda não existisse, eu seria acorrentado em um porão. Tenho que viver da forma mais simples possível.
No entanto, uma vida simples não é a opção. Poucos dias depois, a casa de Luang Thep Nititham ferve com uma grande notícia: a data auspiciosa do casamento da filha da família foi anunciada.
Em dois meses, será realizado o casamento de Khun-Prim e Khun-Sak.
A excitação preenche cada centímetro do lugar. Erb e Pun sorriem de orelha a orelha, pois poderão exibir suas habilidades culinárias para convidados ilustres, autoridades do norte e pessoas influentes. Toneladas de pessoas entram e saem da casa grande todos os dias para os preparativos.
Khun-Yai também ficou mais ocupado. Embora não se envolvesse na preparação das roupas e adornos, ele tinha que receber os convidados que se voluntariavam para ajudar. Hoje, eu o vi se preparando para sair com Khun-Sak, seu futuro cunhado. Era mais uma questão de socializar com pessoas do mesmo círculo social. Vi Khun-Sak, em um traje de montaria, estacionando um conversível vermelho granada perto da casa grande.
— Khun-Sak acabou de voltar do exterior. Ele ainda não está familiarizado com as pessoas daqui — disse-me Khun-Yai.
Hoje, Khun-Yai veste uma camisa branca, calças de montaria marrom-escuras e botas de couro brilhantes, parecendo ter saído de uma pintura. Eu admiro a visão dele. Seus ombros e peito são largos. Quando ele usa trajes que se ajustam ao corpo, cada ângulo dele é deslumbrante.
— Khun-Yai é tão bonito — dou voz ao meu pensamento.
Ele sorri docemente, com os olhos se estreitando. — Você me elogiando tão cedo... acho que terei sorte o dia todo.
— É uma pena que eu não possa ir junto, senão veria o senhor montando a cavalo.
Khun-Yai me encara em silêncio, ponderando algo, mas não diz nada. Apesar do ambiente animado na casa, uma pessoa não parece nem um pouco empolgada: Khun-Lek.
— Que incômodo. Que alvoroço. Eu não vou me casar. É entediante, certo..? Nai-Jom, certo? — Ele assente para mim. Eu sorrio e desenho um barco a motor em um papel, como ele pediu. Khun-Lek terminou a lição de casa e ordenou que um servo me buscasse para desenhar para ele sob a amendoeira-da-praia. A babá, Prik, lança um olhar severo para o menino.
— Khun-Lek está reclamando porque Khun-Kae disse para não correr fazendo barulho enquanto tivessem convidados. É um casamento, afinal. Quem faria um em silêncio? Quando for a vez do Khun-Lek casar, estaremos correndo para garantir que tudo esteja perfeito.
Khun-Lek faz beicinho, perdendo o interesse. Ele olha para o meu desenho. — Está faltando algo, Nai-Jom?
Estudo os veículos que desenhei: trens, carros, barcos, aviões. — Acho que desenhei tudo.
— Deveria adicionar mais aviões? Como uma frota? — sugiro. Logo, mais três aviões voam no papel.
— Aquele é o Yai! — Khun-Lek comemora, me fazendo olhar para cima. Perto dos arbustos, vejo Khun-Yai conversando com uma mulher magra e elegante em um vestido ocidental.
— Por favor, não incomode o Khun-Yai — adverte Prik. — Ele está discutindo algo com Khun-Bongkoch. Khun-Kae pediu que ela organizasse as flores para o casamento. Dizem que ela faz buquês lindos, até no estilo estrangeiro.
A voz admirada de Prik ao falar de "Khun-Bongkoch" me incomoda, mas volto a desenhar o quinto avião. Khun-Lek então solta: — Minha mãe pediu para ela arrumar as flores ou para ser nora dela?
A ponta do meu lápis desliza quando Prik solta um grito.
— Céus, Khun-Lek! Onde ouviu isso? Khun-Yai vai para o exterior em breve. Não vai casar agora.
— Eu não estou certo? Mamãe está morta de medo que o Yai se case com uma estrangeira. No casamento da Prim, talvez o Yai jogue uma guirlanda de flores para escolher sua parceira.
Prik ri.
— Homens não jogam guirlandas. Khun-Yai é charmoso como Enau. Ele está destinado a ficar com Busaba, não com Laweng Wanla.
Minha alegria desaparece. Olho para o desenho e um sentimento estranho surge em mim. Um sentimento inapropriado.
— Khun-Lek, você sabia que se armarmos os barcos — começo a desenhar armas saindo dos barcos — eles se tornam barcos de guerra? E os aviões se tornam caças. Agora eles podem atirar uns nos outros.
Os olhos de Khun-Lek brilham.
— Eles vão lutar?
— Você quer que lutem? — Porque eu quero. — Quer que eu demonstre?
— Sim!
Desenho uma linha de um barco para um avião.
— Fogo! Cabum! — Esfrego a ponta do lápis, formando linhas emaranhadas sobre a parte atingida. — De novo? Cabum! Cabum! Peguei! Fogo!
Vou com tudo. Khun-Lek gargalha enquanto eu "bombardeio" um avião. Prik me olha com medo. Depois de descarregar minha frustração no papel, saio para minhas tarefas. Para minha surpresa, essa irritação não passa. Até as árvores e a grama me irritam.
À noite, ao entregar livros para Nai-Jun, encontro Khun-Yai novamente. Ele desce as escadas e vem em minha direção. Tento fingir que não o vi, mas é tarde demais.
— Jom, você está aqui me esperando? — Ele abre um sorriso radiante. O rosto sorridente dele me irrita ainda mais.
— Não. Vim entregar algo ao Nai-Jun.
Um trovão ecoa sobre nossas cabeças. O céu, nublado desde a tarde, escurece de vez.
— Espere aqui. Vou correr buscar um guarda-chuva para o senhor — digo. Khun-Yai segura meu braço.
— Até você voltar, a chuva já terá caído. Vamos correr para a casa pequena juntos.
Ele dispara, me deixando sem escolha a não ser segui-lo. No meio do caminho, começa a chover canivetes. Chegamos ensopados.
— Khun-Yai, por favor, vá para o banheiro. Vou buscar uma toalha — digo, protegidos pelo beiral da casa pequena. Um relâmpago brilha seguido de um estrondo alto. Eu dou um pulo, assustado.
— Você está com medo, Poh-Jom? — Khun-Yai pergunta rindo.
— Não estou. Só me assustei. Foi muito barulhento. — Franzo a testa. Minha cara de poucos amigos foi arruinada.
Khun-Yai se aproxima. Tão perto que, se eu me inclinar, posso encostar a cabeça em seu ombro. Ele olha para mim; seu rosto claro está molhado pela chuva, e mechas escuras de cabelo grudam em sua testa acima dos olhos negros, profundos como um mar de emoções. Khun-Yai levanta a mão e coloca a mecha de cabelo úmido atrás da minha orelha.
— Bom espírito... não se queime. Bom espírito, retorne para Poh-Jomkwan.
Fico rígido, incapaz de desviar o olhar, como se estivesse encantado. Sua mão desliza do meu ombro para as minhas costas, e ele me puxa para um abraço. Estou atônito. Meu coração martela no peito contra o som da chuva. O que Khun-Yai faz é o ato de confortar uma criança assustada, seja por provocação ou por carinho real. No entanto, como sou um adulto e ele tem o corpo de um homem feito, este abraço, para mim, está longe de ser um conforto infantil. A distância é como a da Terra a Marte.
— Seu coração está batendo tão rápido — sussurra Khun-Yai.
Mesmo que ele não dissesse, eu saberia que ele podia sentir. Como não sentiria? Nossa pele está pressionada uma contra a outra.
As camisas encharcadas não fazem nada para bloquear o nosso contato. Meu peito toca o dele, minha bochecha descansa em seu ombro.
— Khun-Yai, eu não estou mais assustado — forço as palavras, minha voz rouca pela agitação. Empurro-o gentilmente com as palmas das mãos. Khun-Yai não resiste e me solta.
Agora, sou eu quem se arrepende. Encaro o peito dele, revelado vagamente sob a camisa branca molhada. É tão provocante que minha mente entra em desordem e sinto vontade de me enterrar ali novamente. Isso é ruim. Isso é o pior dos cenários. Prendo a respiração e me forço a dizer:
— Vou buscar uma toalha e roupas para o senhor.
Sem esperar resposta, disparo pela entrada do salão, deixando rastros de água no chão de madeira a cada passo. Deixo-os como estão. Posso limpar o chão depois, mas meus sentimentos no momento são assustadores e perigosos, e precisam ser lidados imediatamente.
Pouco tempo depois, a chuva para. Resta apenas o som das gotas caindo dos beirais para a varanda. O clima está agradável e fresco, dando vontade de deitar e ter um bom sonho. Paro junto à janela no quarto de Khun-Yai e fecho as cortinas. Ambos já trocamos de roupa e nos preparamos para dormir.
— O senhor quer que eu feche as cortinas agora? — pergunto sem encontrar seus olhos, ajoelhado no chão. O sentimento bizarro ainda arde no meu peito. Não é a irritação da tarde, mas uma emoção perturbadoramente profunda.
— Agora não. Você não vai estender seu colchão? — ele pergunta, já que não estou preparando minha cama ao lado da dele como de costume.
— Não estou me sentindo muito bem, um pouco indisposto — murmuro. — O senhor me permitiria dormir no meu quarto esta noite? Se eu tiver febre, o senhor pode se contagiar.
Ele permanece em silêncio por um momento. Aperto as mãos unidas sobre o colo, implorando mentalmente para que ele me deixe ir. E ele me deixa, como eu orei. Agradeço e saio imediatamente, com medo de que ele mude de ideia.
Uma vez no meu quarto, desabo no chão e me encosto na parede, sem energia. Meus braços caem ao lado do corpo, meus olhos fixos na janela. Como chegou a este ponto? Como pude deixar meu coração perder o controle assim? Descanso a cabeça na parede de madeira que divide meu quarto do de Khun-Yai. A luz da lanterna brilha calorosamente enquanto meu peito queima. Há um som de algo se movendo do outro lado da parede. Khun-Yai deve estar sentado em sua cama, lendo ou fazendo algo.
Respiro fundo. A imagem de Khun-Yai se forma em minha mente, vívida como se ele estivesse parado bem na minha frente. Penso em seu rosto claro e impecável, seu sorriso galanteador e seu olhar afetuoso sempre fixo em mim. Penso em sua mão quente tocando meu ombro, minhas costas, roçando minha bochecha. Meu peito arde. O desejo que reprimi vaza e se espalha por cada centímetro da minha pele. Meus olhos se fecham enquanto alcanço a borda das minhas calças e deslizo a mão para dentro para tocar a parte excitada sob o tecido.
Minha respiração fica irregular com a sensação. Minha palma envolve minha parte rígida e desliza para cima e para baixo ritmicamente. Por um segundo, sinto vergonha de pensar nele enquanto faço isso, mas não consigo parar. O desejo despertado por aquela proximidade supostamente não intencional me agita tanto que não consigo segurar.
Penso em seus lábios molhados, seu peito firme sob a camisa encharcada e seu hálito quente no meu pescoço.
Movimento minha mão mais rápido, acelerando impacientemente, ouvindo a mim mesmo gemer baixinho quando estou quase lá. Meu corpo tensiona conforme o êxtase me atinge, liberando o calor por toda a minha palma. O som das gotas caindo na varanda cessou, deixando apenas o frescor revigorante e o cheiro de grama pós-chuva no ar. Exalo fracamente, exausto, esperando que Khun-Yai nunca descubra o que acabei de fazer...
