Pretérito imperfeito - Cap 1 - Piloto

Um conto erótico de Nz
Categoria: Gay
Contém 1949 palavras
Data: 03/01/2026 04:22:46

Oi, pessoal! Tudo bem?

Sou leitor aqui há muitos anos e já cheguei a escrever alguns contos, mas acabei não continuando por falta de interação. Recentemente, tive uma ideia que pode não ser uma novidade no mundo, mas acho que é algo diferente por aqui.

Esse conto é gay, lésbico, bi, hetero — e quem vai definir isso é você.

Nele, todas as possibilidades acontecem ao mesmo tempo, e, conforme você avança, vai decidindo o rumo da história sem precisar comentar o que quer… porque a escolha é direta, no próprio caminho das páginas.

Espero que vocês curtam o primeiro capítulo. Nele, não tem nada explícito, é uma ambientação para entender o contexto, o peso do mundo e os personagens.

Se gostarem, comentem — me digam o que acharam, se a mecânica fez sentido, se sentiram o clima.

Isso me incentiva demais a continuarHavia espaço para apenas um.

A frase estava escrita à mão, com tinta negra que escorrera em veios finos como seiva de um tronco podre. Letras grandes demais, tortas demais, gravadas não com tinta, mas com a cinza dos que questionaram o édito. O cartaz pendia na parede externa do hospital, preso por pregos enferrujados que haviam perfurado, antes dele, os retratos dos hereges e os decretos de racionamento. O papel, grosso e amarelado, ondulava como uma pele seca ao vento cortante das montanhas. Cada rajada produzia um rangido baixo, insistente — o som de uma gaiola de costelas se contraindo em um suspiro final.

Logo abaixo, quase apagado pela umidade e pelo descaso, um cartaz mais antigo resistia como um epitáfio irônico: Literatura e Leitura Guiada — crianças. Alguém tentara arrancá-lo em um acesso de fúria ou vergonha. Conseguira apenas rasgá-lo ao meio, deixando as palavras “literatura” e “crianças” suspensas, desconexas, um diagnóstico do mundo que falecera. A guerra vitoriosa da Centelha Divina não queimou apenas livros; queimou a própria ideia de futuro plural. Seu deus, o Único, era um deus de silêncios e de ausências. A escassez que impunham não era apenas de pão e carvão, era escassez de alma. Um útero, um fruto. Apenas um. Qualquer excesso era uma afronta ao projeto divino de pureza e, pragmaticamente, um dreno aos recursos do Estado Teocrático. A fome era a ferramenta; o dogma, a lâmina.

O hospital não fora projetado para partos. Era um depósito de grãos do século XIX, depois uma escola, agora um posto de triagem fisiológica. Suas paredes de pedra, outrora garantia de abundância, eram agora um casulo úmido que retinha o cheiro do medo. A temperatura dentro era de três graus, mas o frio que imperava era de outra ordem: o frio teológico de um deus que exigia sacrifícios em nome da própria sobrevivência da raça eleita. O chão de pedra sugava não apenas o calor, mas a própria esperança. O ar era uma mistura de anti-séptico vencido, sangue seco e o mofo que crescia nas juntas das paredes, a vida persistente e indesejada.

Minha mãe jazia numa maca de ferro, um artefato mais próximo de uma ferramenta de tortura que de um leito. O colchão era uma espessa fina, impregnada de histórias de outros corpos, outros partos, outros veredictos. Seu corpo, consumido pela gravidez dupla em um mundo de racionamento severo, tremia em ondas violentas. Cada contração não era apenas um espasmo muscular, era um terremoto em uma estrutura já à beira do colapso. Seus ossos — os quadris, as costelas — pareciam querer romper a pele acinzentada e tensa. Seu rosto era um mapa de sofrimento prévio: olhos fundos, cercados por halos violáceos, fixos não em algo, mas em um ponto de terror interno. Seus lábios, rachados e sangrentos, sussurravam preces desconexas, restos de uma fé que a própria igreja dela havia declarado impura. Seu suor cheirava a aflição aguda e a fome crônica.

Meu pai não era uma sombra, era uma estátua de sal em processo de dissolução. Encostado na parede úmida, vestindo um casaco militar de um tamanho que não era o seu — herdado de um irmão levado para os “campos de reafirmação da fé” —, ele parecia tentar se fundir com a pedra. Seus olhos, vermelhos e secos, não se desprendiam da mulher, do médico, do vazio. As mãos, dentro das mangas largas, apertavam e desapertavam, inúteis. Ele era um homem que, antes da Centelha, consertava motores e criava pombos-correio. Agora, seu ofício era a sobrevivência em silêncio, e seu único animal de estimação era o fantasma da escolha que se aproximava.

O médico, um homem jovem com o rosto de um ancião, lavava as mãos em uma bacia de água suja e gelada. O ato era ritualístico, uma ablução fútil. Seus óculos tinham uma lente trincada, e ele via o mundo — e o horror que se desenrolava — através de uma rachadura. Seu jaleco era um documento de manchas: marrons, vermelhas, amareladas. Ele não falava. O que havia para dizer? A ciência fora declarada heresia. Agora, ele era apenas um obstetra de decretos.

Quando o primeiro bebê nasceu, o som que rompeu o silêncio foi visceral, um grito gutural de protesto contra o gelo e a escuridão. Era forte, saudável, uma afronta inconsciente à letargia da morte ao redor.

— Menino — anunciou o médico, sua voz um fio de fumaça.

No ombro esquerdo do recém-nascido, uma marca de nascença escura e irregular, como uma mancha de tinta, um erro na página.

Minha mãe soltou um gemido que era alívio e agonia misturados. Seus olhos pousaram no bebê, e por um segundo, algo como amor puro, animal, brilhou neles. Durou um piscar.

A segunda onda de dor a engoliu. Desta vez, foi diferente. Mais profunda, mais desesperada. Houve um rio de sangue que escorreu pelas pernas da maca e pingou no chão de pedra, formando um pequeno lago escarlate e pegajoso. O médico praguejou baixo, uma blasfêmia secular. O tempo esticou-se, elástico e cruel.

— Não pode… — ele sussurrou, mas o corpo da minha mãe, traiçoeiro, fez o que tinha que fazer.

O segundo bebê chegou quase em silêncio. Uma lutadora pequena e azulada que, após um momento de suspense aterrador, soltou um choro fraco, ofegante, mas tenaz.

— Menina — disse o médico, e sua voz estava cheia de um pavor profundo.

Ele a virou com mãos trêmulas.

E lá estava. A mesma marca. No mesmo ombro esquerdo. Uma imagem espelhada, imperfeita, da primeira. Dois seres únicos, marcados de forma idêntica. A natureza, em sua crueldade poética, insistia na dualidade em um mundo que a banira.

Foi então que a porta se abriu, e o frio exterior, que era apenas físico, entrou acompanhado de um frio maior. O soldado da Centelha Divina não era alto, nem particularmente ameaçador. Era a sua normalidade que aterrorizava. Seu uniforme era impecável, de um cinza funéreo. Em seu colarinho, o broche do Olho Único, o símbolo de sua fé. Ele cheirava a sabão barato e papel de ofício. Em suas mãos, não havia arma, apenas uma prancheta.

— Zona de Escassez Máxima. Edito de Natalidade, Artigo Um. — Sua voz era monocórdica, burocrática. — Um registro. Um fruto. O excedente será realocado para a Graça do Estado.

O silêncio que se seguiu foi pior que qualquer grito. Meu pai descolou-se da parede. Seus joelhos pareciam de gelatina.

— Há dois — ele disse, e a voz foi um ruído rouco, inaudível.

— Há espaço para apenas um — repetiu o soldado, como se citasse um texto sagrado.

E então, a discussão começou. Não uma discussão alta, mas um sussurro febril e despedaçado que cortava o ar mais que qualquer gritaria.

— A menina — ofegou minha mãe, os olhos vidrados no soldado. — Uma menina… neste mundo… o que eles fariam com ela? Os campos… os templos… você ouviu as histórias.

— Um menino tem mais chances! — retorquiu meu pai, seu sussurro era áspero, urgente. Ele se inclinou sobre ela. — Eles levam os meninos para as oficinas, para os trabalhos pesados. Sobrevive. Uma menina… é um fardo maior. É carne mais macia.

— Carne mais macia? Ela é nossa filha! É um bebê!

— E ele não é? Olha para ele! Ele é forte! Ele chorou forte! Ele sobreviveria! A menina… está fraca. Já vem fraca. É um sinal.

— Um sinal de quê? De que ela precisa de nós mais? — O rosto da minha mãe estava contraído em uma máscara de dor e fúria. — Você quer condená-la porque é mais fácil? Porque um filho homem carrega seu nome na ficha de racionamento?

— Não é sobre o nome! — ele gritou, baixo, mas com a força de um urro abafado. — É sobre ferro! É sobre conseguir uma ração extra no submerso! Um homem consegue! Uma mulher… elas viram moeda, Elias! Viram moeda ou viram nada!

— Então a salvaremos justamente por isso! Para não virar o que você teme!

— E condenamos o menino? Condenamos os três? Você acha que eles vão nos deixar em paz com um ‘excedente’ em casa? Vão tirar os dois! Vão tirar os dois e nos mandar para as minas por heresia procriativa!

Eles se entreolharam, e naquele instante, viram o abismo um do outro. Viram os monstros que a fome e o dogma haviam plantado dentro de si. A mãe, vendo no pai um covarde pragmático, um homem já derrotado que apenas escolhia a peça mais robusta para salvar do naufrágio. O pai, vendo na mãe uma sentimentalista perigosa, disposta a levar todos à morte por um impulso de útero.

— Não era para ser assim — choramingou ela, não pela primeira vez, mas agora as palavras tinham o sabor final do desespero.

— Nada do que é, era para ser — ele respondeu, e sua voz se quebrou. — Eles não são nada ainda. São promessas. São… possibilidades. Nem bem, nem mal. Apenas… vida. E temos que escolher qual vida tem a possibilidade de ser menos infernal.

O soldado observava, impassível. Sua fé ensinava que a angústia deles era purificadora. O sofrimento da escolha era a chama que queimava a impureza do desejo por mais do que o designado.

A discussão se esvaiu, não em consenso, mas em exaustão total. Não havia argumento que vencesse a matemática brutal do Olho Único e a geografia vazia de seus estômagos. O silêncio retornou, mais pesado, mais denso que a pedra das paredes.

Então, eles se moveram. Meu pai se ajoelhou, enterrou o rosto no colo suado da minha mãe. Ela enterrou os dedos em seus cabelos sujos. Por um longo momento — que para eles foi a única eternidade que lhes restava —, eles permaneceram assim, uma escultura de luto prévio. O abraço não era de conforto, era de despedida. De cumplicidade no crime que a sobrevivência exigia.

Quando se separaram, seus rostos estavam lavados de qualquer emoção legível. Eram máscaras de gesso. Lentamente, como se movidos por fios de uma mesma marionete partida, eles se viraram para os dois pequenos corpos, um chorando com força, o outro ofegando fracamente.

E, juntos, com uma união horrível e perfeita, apontaram.

Não houve palavra de perdão.

Não houve nome sussurrado.

Apenas o gesto. A sentença.

O soldado assentiu, anotou algo em sua prancheta. Seus passos ecoaram no chão enquanto se aproximava. Ele não hesitou. Pegou o bebê indicado — o que foi condenado pelo dedo tremulo dos próprios pais —, envolveu-o em um pano áspero e cinza. O choro foi abafado pelo tecido, depois pela distância, diminuindo no corredor. Não se ouviu um tiro. Não era assim que funcionava. A “realocação para a Graça do Estado” era um eufemismo que persistia no ar, mais frio que o inverno.

A porta se fechou.

O frio no quarto se tornou absoluto, definitivo.

Ficamos com um corpo chorando.

E com um espaço ao lado, quente ainda pelo corpo irmão, que gritava em um silêncio ensurdecedor.

Havia espaço para apenas um.

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Registro 2 conduz a terem escolhido o menino.

Registro 3 conduz a terem escolhido a menina.

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Comentários

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Que interessante, o cenário é bem pesado...será que a menina vai morrer? Espero que não. É mais provável os pais terem escolhido o menino pra ficar com eles, então quero ver o desenrolar da história.

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Ótima história. Se houver uma teocracia a miséria vai ser muito grande, do jeito que está escrito nessa história. Fiquei curioso pra saber o que o governo fazia com as meninas. Acho que essa garota, sendo condenada a morrer, devia sobreviver e ser a líder que venceria o governo teocrático. Ela poderia ser uma depravada convencendo homens religiosos a viverem na orgia. Ela praticaria todos tipos de fetiches mais depravados, e incesto, zoofilia, canibalismo, necrofilia, e todos os dias ela estaria na suruba eseria a sacerdotisa de rituais com orgias pra um deus pagão, rituais com assassinatos e canibalismo.

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