Capítulo XXXVIII — O caminho para o passado!
Caio narrando...
O fim da tarde chegou devagar, como se o tempo
tivesse decidido nos dar uma trégua antes da viagem. O céu estava limpo, o sol mais baixo, espalhando aquela luz dourada que parece tocar tudo com cuidado, sem pressa. Rafa disse que queria ir à praia “só mais uma vez” antes de viajarmos, e eu aceitei sem pensar. Algumas coisas não precisam de justificativa apenas acontecem porque precisam.
O caminho até a areia foi silencioso, mas confortável. Rafa dirigia com uma mão no volante e a outra, às vezes, encontrava a minha. Pequenos toques, quase distraídos, mas cheios de significado. Eu observava o perfil dele, a concentração leve no rosto, e pensava em como aquele homem tinha atravessado tanta coisa sem perder a capacidade de sorrir.
Quando chegamos, o vento vinha do mar trazendo cheiro de sal, liberdade e algo que parecia promessa. Rafa tirou a camiseta ainda caminhando, jogou a bola na areia e saiu correndo como se o mundo nunca tivesse pesado sobre os ombros dele. Eu fiquei um pouco atrás, observando, deixando que aquele instante se gravasse em mim.
Ele corria rindo, chutava a bola sem muita direção, às vezes tropeçava na própria empolgação, às vezes erguia os braços como se estivesse comemorando um gol invisível. O sol desenhava o corpo dele em tons quentes, quase irreais, e por um instante, só um, eu pensei que talvez a felicidade fosse isso: ver quem você ama existir sem medo, sem culpa, sem amarras.
Fiquei ali, parado, com os pés enterrados na areia, sentindo o chão ceder sob meu peso, vendo Rafa ser apenas Rafa. Sem processos, sem passado, sem dor. Apenas vivo. Apenas inteiro.
Depois de um tempo, perdi a noção exata, porque momentos assim não seguem relógio, ele voltou correndo, ofegante, o cabelo bagunçado, o sorriso aberto daquele jeito que sempre desmonta qualquer defesa minha.
— Você só vai ficar me olhando daí? — perguntou, com aquele brilho provocador no olhar. — Ou vai entrar no mar comigo?
— Você parece uma criança — respondi, rindo baixo.
— E você parece um velho rabugento — ele devolveu, sem perder o sorriso, estendendo a mão. — Vem.
Aceitei.
Entramos no mar juntos, a água fria batendo nas pernas, arrancando risadas e pequenos protestos. Rafa me empurrou de leve, eu retribuí, e logo estávamos brincando, jogando água um no outro, rindo alto, como se ninguém mais existisse naquele pedaço de mundo. O barulho das ondas misturava-se às nossas vozes, e tudo parecia simples.
Em certo momento, ele me puxou pela cintura, me trazendo mais perto. O mar batia mais forte agora, o sol já começava a descer no horizonte, tingindo tudo de laranja e azul.
— Eu amo você — ele disse, simples, direto, como quem fala a coisa mais óbvia do mundo.
Senti um aperto bom no peito.
— Eu sei — respondi, encostando a testa na dele. — E eu amo você também.
Ficamos assim por alguns segundos, apenas sentindo a água, o vento, a presença um do outro. Depois, saímos do mar. Rafa foi pegar a toalha, e eu caminhei até um dos quiosques, sentei-me em uma cadeira de madeira ainda morna do sol e fiquei olhando o horizonte.
A brisa tocava meu rosto, e meus pensamentos começaram a correr soltos, como se aquele cenário abrisse espaço dentro de mim. Pensei na vida depois do casamento. Pensei em dividir manhãs apressadas e outras preguiçosas, em dividir preocupações, decisões, silêncios. Pensei em como amar alguém não é promessa de facilidade, mas é certeza de companhia.
Eu estava tão imerso nesses pensamentos que não percebi quando Rafa se aproximou por trás.
Ele envolveu minha cintura com naturalidade, como se aquele fosse o lugar dele desde sempre, e apoiou o queixo no meu ombro.
— Em que você tá pensando tanto? — perguntou, a voz baixa, quase íntima demais para o mundo.
— Em você — respondi sem hesitar. — Em nós. No que vem depois.
Ele sorriu contra minha pele.
— Espero que sejam pensamentos bons.
— São — admiti. — Assustadores… mas bons.
Rafa virou meu rosto com cuidado, segurando meu queixo, e me beijou.
Não foi um beijo apressado. Foi lento, profundo, desses que começam nos lábios e se espalham pelo corpo inteiro, como uma onda mansa. A boca dele se encaixou na minha com uma familiaridade que ainda me surpreende, e eu senti o mundo diminuir ao redor da gente. Minhas mãos subiram pelas costas dele, sentindo o calor da pele, o ritmo da respiração. O beijo tinha sal do mar, tinha riso, tinha promessa.
Quando nos afastamos, o céu já estava mais escuro, as primeiras luzes da orla se acendendo.
Rafa disse que precisava passar na casa de sua mãe para buscar algumas coisas que tinha deixado lá. Concordei e voltei para o apartamento antes dele, com o coração leve e a cabeça cheia.
Enquanto ele estava fora, tive uma ideia.
Preparei algo simples, mas feito com cuidado, do jeito que eu sabia. Arrumei a mesa com calma, acendi uma luz mais suave, coloquei uma música baixa, quase como um fundo para o que viria.
Quando Rafa chegou, parou na porta da sala por alguns segundos, observando tudo em silêncio.
— O que é isso? — perguntou, com um sorriso que misturava surpresa e ternura.
— Um jantar antes da estrada — respondi. — Porque a gente merece começar essa viagem assim.
Jantamos conversando, rindo, lembrando de coisas pequenas, falando da viagem, do futuro, do casamento que agora parecia tão próximo que dava até um frio na barriga. Não havia pressa. Não havia tensão. Só nós, naquele espaço que já era casa.
Depois, a conversa foi ficando mais silenciosa. Os olhares, mais demorados. Rafa se aproximou, sentou-se ao meu lado no sofá, a mão dele encontrou a minha, os dedos se entrelaçaram com naturalidade.
— Eu amo a vida que a gente tá construindo — ele disse, olhando nos meus olhos.
— Eu também — respondi, sentindo a verdade daquela frase se espalhar em mim.
Quando a música terminou, o silêncio não veio vazio, veio carregado. Rafa ainda estava perto demais para que qualquer pensamento se organizasse direito. O cheiro dele, misturado ao sal que ainda insistia na pele, me atravessava de um jeito quase doloroso. Ele passou os dedos pelo meu rosto como quem confirma algo que já sabe, como quem precisa sentir para acreditar.
— Você fica bonito assim — ele murmurou. — Quieto… mas inteiro.
Não respondi. Inclinei o corpo, encostei a testa na dele e deixei que a respiração nos unisse antes dos lábios. O beijo começou lento, quase cuidadoso demais, como se ainda estivéssemos pedindo permissão um ao outro, mesmo depois de tudo. A boca dele tinha um calor que reconheço no primeiro toque, e eu senti meu peito se abrir quando ele suspirou contra mim.
As mãos de Rafa desceram pelas minhas costas sem pressa, como se quisesse memorizar cada linha, cada reação. Eu o puxei para mais perto, sentindo o peso real do corpo dele contra o meu, sentindo que ele estava ali de verdade. Não havia medo naquele gesto, só presença.
Quando nos afastamos por um instante, ele me olhou com aquela intensidade que sempre me desmonta.
— Fica comigo — disse baixo. Não como pedido. Como escolha.
— Eu sempre fico — respondi.
Ele sorriu de leve, e esse sorriso foi o que me desarmou de vez. As mãos dele encontraram as minhas, os dedos se entrelaçando, guiando-me para mais perto do sofá. Sentamos, depois deitamos, como se o movimento fosse natural demais para ser pensado. O mundo lá fora desapareceu aos poucos. O relógio, o futuro, o passado, tudo perdeu importância.
Os beijos desceram, demorados, marcados por pausas em que apenas nos olhávamos. Cada toque parecia dizer “eu estou aqui”, “eu não vou embora”. Senti a pele dele arrepiar sob meus dedos, senti o corpo responder ao meu, e isso me fez sorrir contra o pescoço dele.
— Eu confio em você — Rafa sussurrou, quase sem voz.
Essa frase pesou mais do que qualquer outra coisa. Minhas mãos tremeram um pouco, não de insegurança, mas da responsabilidade bonita que é ser o lugar seguro de alguém.
Nos movíamos devagar, ajustando nossos corpos como quem aprende uma dança antiga, mas sempre nova. O calor aumentava, a respiração ficava mais curta, mais próxima. Em alguns momentos, só o som do ar entrando e saindo dos nossos pulmões preenchia o espaço.
Quando o toque ficou mais intenso, não houve pressa. Houve cuidado. Houve entrega. Rafa fechou os olhos em determinado momento, como se estivesse sentindo mais do que podia nomear, e eu beijei sua testa, depois o canto da boca, como se quisesse ancorá-lo ali.
— Não solta — ele pediu.
— Nunca — respondi, com a voz embargada.
O que veio depois não foi só desejo, foi reconhecimento. Cada movimento, cada aproximação, era uma forma silenciosa de dizer “nós sobrevivemos”. Não havia nada mecânico, nada vazio.
Era corpo, mas era também história. Era afeto condensado em gesto.
Quando tudo se acalmou, ficamos deitados, eu com a mão no peito dele, sentindo o coração desacelerar aos poucos. Rafa abriu os olhos e me encarou por longos segundos.
— Se isso for o começo da nossa nova vida… — ele começou.
— Então eu quero viver cada dia assim — completei.
Ele sorriu, cansado e feliz ao mesmo tempo, e me puxou para mais perto, encaixando-se em mim como se aquele fosse o único lugar possível.
E ali, entre respirações ainda descompassadas e o silêncio confortável que se instalou depois, eu soube: não era só amor. Era escolha renovada. Era permanência. Era casa.
Rafa narrando...
Acordei no meio da madrugada como quem emerge de um mergulho fundo demais. Levei alguns segundos para entender onde estava, até sentir o peso quente de Caio contra mim. Ele dormia profundamente, e mesmo assim me mantinha preso a ele, o braço firme ao redor da minha cintura, como se o corpo soubesse o que a mente descansava.
Aquilo me atravessou.
Fiquei imóvel por um tempo, apenas respirando junto com ele. O peito dele subia e descia num ritmo calmo, seguro. Era estranho como, depois de tudo o que passamos, aquele som simples ainda conseguia me ancorar no mundo. Eu estava vivo. Nós estávamos ali. Juntos.
Com cuidado, comecei a me soltar. Não queria acordá-lo. Afastei o braço dele devagar, quase pedindo desculpa em silêncio, e sentei na beira da cama. O chão estava frio sob meus pés, mas o frio não me incomodou. Havia um turbilhão dentro de mim que não me deixaria dormir de novo.
Fui até a porta da varanda e a abri sem fazer barulho. A noite me recebeu com um vento leve e salgado, trazendo o cheiro distante do mar. Apoiei os cotovelos no parapeito e fiquei ali, olhando o escuro, deixando os pensamentos finalmente me alcançarem.
Os últimos dias passaram pela minha cabeça como cenas desalinhadas: o hospital, o medo constante, a sensação de estar sempre à beira de perder tudo. Depois, a delegacia, o peso das paredes frias, o tempo que parecia não andar. As marcas no meu corpo ainda ardiam em silêncio, mas as que mais doíam não apareciam no espelho.
Pensei na mamãe. Em tudo o que ela suportou. Em como ainda segurava a dignidade mesmo depois de ter sido ferida de formas que ninguém deveria experimentar. Pensei em Miguel. No quanto ele cresceu diante dos meus olhos sem que eu percebesse. Pensei em mim, no homem que fui obrigado a me tornar para sobreviver.
E então pensei em Caio.
Virei o rosto instintivamente para dentro da sala. Ele ainda dormia, exatamente na mesma posição. A luz fraca desenhava os contornos do rosto dele de um jeito quase irreal. Caminhei de volta devagar e parei ao lado do colchão, observando-o como se estivesse vendo algo sagrado.
O cabelo dele estava bagunçado, alguns fios caindo sobre a testa, seu cabelo estava grande, estava lindo. A boca entreaberta, relaxada, sem a tensão que tantas vezes eu vi quando o mundo pesava demais sobre nós. O rosto dele, quando dorme, parece mais jovem, mais leve, como se todas as defesas finalmente baixassem.
Passei os olhos pelo nariz levemente marcado, pelas sobrancelhas que sempre franzem quando ele pensa demais, mesmo dormindo. A barba rala começava a aparecer, e tive vontade de tocar, mas me contive. Não queria quebrar aquele momento.
Ele parecia em paz.
E foi ali, olhando para ele, que algo dentro de mim se assentou de vez. Nós enfrentamos coisas que poderiam ter nos destruído. Perdemos tempo, perdemos certezas, quase nos perdemos um do outro. Mas, de algum modo, sobrevivemos sem nos perder por inteiro.
Voltei para a cama e me deitei ao lado dele outra vez. Caio se mexeu no mesmo instante, como se me sentisse retornar. Sem abrir os olhos, me puxou para perto e encaixou o rosto no meu pescoço. Respirei fundo.
Fechei os olhos com cuidado.
Se o mundo resolvesse nos testar de novo, eu sabia: não seria sozinho. E isso, só isso, já fazia tudo valer a pena.
Acordei com a casa respirando diferente. Não foi um som específico que me chamou de volta ao mundo, mas uma sensação, como se algo estivesse acontecendo enquanto eu dormia, algo bom, calmo, vivo. O lado da cama estava vazio, e por um segundo senti aquele susto antigo, rápido, quase infantil.
Depois veio o cheiro. Café recém-passado. Rafa. Levantei devagar, deixando o lençol cair pelo corpo ainda quente do sono. No banheiro, a água escorreu lenta, pesada, como se quisesse me manter ali mais tempo. Fechei os olhos e deixei que ela levasse os pensamentos em excesso, mas falhou. Tudo voltava para o mesmo lugar: a viagem, meu pai, o que nos esperava… e Rafa. Sempre ele.
Quando saí do quarto, já vestido apenas com uma camiseta, caminhei até a cozinha sem fazer barulho. Não sei por quê. Talvez porque aquele momento merecesse silêncio.
Foi então que o vi.
Rafa estava de costas, só de cueca, completamente entregue àquela rotina simples de preparar o café. O corpo dele se movia com naturalidade, como se cada gesto fosse inconsciente, mas aos meus olhos tudo era exageradamente nítido. Os ombros largos, as costas que eu conhecia de cor, a forma como o quadril se inclinava levemente quando ele alcançava algo no armário.
Fiquei parado.
Meu corpo reagiu antes da cabeça. Um calor lento, profundo, que não vinha da pressa, mas da intimidade. Do privilégio de vê-lo assim. Vivo. Inteiro. Meu.
Ele mexia a colher na xícara, distraído, cantarolando algo quase inaudível. A luz da manhã entrava pela janela e tocava a pele dele como se fosse uma carícia, e aquilo me atravessou de um jeito quase dolorido.
Rafa se virou.
Os olhos encontraram os meus, e o sorriso que nasceu ali não foi casual. Foi cúmplice. Daqueles que dizem “eu sei exatamente o que você está sentindo”.
— Bom dia! — disse, com a voz ainda marcada pelo sono.
Não respondi. Caminhei até ele.
Minhas mãos encontraram a cintura dele devagar, como se eu estivesse pedindo permissão ao próprio tempo. Rafa fechou os olhos no mesmo instante, apoiando a testa na minha, o corpo reagindo ao toque antes de qualquer palavra.
— Você ficou me olhando faz tempo? — perguntou, num tom baixo, quase provocador.
— O suficiente pra esquecer o mundo — respondi.
O beijo não veio apressado. Veio fundo. Demorado. Um beijo que carregava tudo o que ainda não sabíamos como dizer sobre a viagem, sobre o medo, sobre o amor que só crescia. A boca dele tinha gosto de café e de manhã, e eu senti o corpo inteiro responder, como se estivesse sendo chamado de volta pra casa.
Rafa passou as mãos pelas minhas costas com firmeza, não para me puxar, mas para me ancorar. Eu sabia aquele toque. Sabia o que ele significava. Desejo, sim, mas também presença.
— A gente devia se arrumar… — ele murmurou, os lábios ainda próximos dos meus.
Sorri.
— Daqui a pouco.
Encostei-o levemente na bancada. Não houve impacto, nem pressa. Apenas proximidade. Ele me olhou sério agora, intenso, os olhos escuros carregados de tudo o que tínhamos atravessado juntos.
— Você está pronto? — perguntou, e eu soube que não falava só da viagem.
Respirei fundo.
— Tenho medo — admiti. — Mas tenho você. E isso muda tudo.
Rafa tocou meu rosto com cuidado, como se estivesse memorizando meus traços.
— Então a gente vai — disse. — Juntos. Como sempre foi.
O abraço que veio depois foi longo. Apertado. Um desses que não pede nada além de existir. Senti o coração dele batendo contra o meu, e pensei em quantas vezes quase perdemos isso. Quantas vezes o mundo tentou nos separar.
O café ficou esquecido no fogão.
As malas, no quarto. O tempo, suspenso.
Ali, naquela cozinha simples, entre o cheiro de café e a luz da manhã, eu soube, com uma certeza calma e avassaladora, que não importava o que nos esperasse em Belo Horizonte. Nós iríamos juntos. E isso era tudo.
Saímos de casa ainda cedo, com o céu indeciso entre azul e cinza. Rafa trancou a porta com aquele cuidado quase cerimonial que ele sempre tinha quando algo importante nos aguardava. Observei em silêncio. Eu já sabia: quando ele fazia isso, era porque estava tentando se preparar por dentro.
O carro nos esperava. Entramos no banco de trás, lado a lado, as malas acomodadas. Rafa segurou minha mão assim que o veículo começou a se mover.
O gesto era simples, mas firme, como se dissesse, sem palavras, que ele estava ali comigo em cada quilômetro.
— Você dormiu? — ele perguntou.
— Um pouco — respondi. — E você?
— Sonhei com estrada.
Sorri de leve.
— Talvez porque seja isso que estamos fazendo. Indo.
O trajeto até o aeroporto de Uber passou rápido e lento ao mesmo tempo. Pela janela, eu via a cidade ficando para trás, ruas conhecidas se alongando, como se também estivessem se despedindo. Rafa permaneceu em silêncio por alguns minutos, o polegar desenhando círculos calmos sobre minha mão.
— Você está quieto — ele comentou.
— Estou tentando não fugir dentro de mim.
Ele se aproximou um pouco mais.
— Você não está fugindo. Está encarando. E isso exige coragem.
Quando chegamos ao aeroporto, senti o peso simbólico daquele lugar. Partidas sempre me pareceram mais difíceis do que chegadas. Descemos do carro, pegamos as malas, e o som do saguão nos envolveu: vozes baixas, passos apressados, anúncios ao fundo.
Rafa parou por um instante antes de entrarmos.
— Ei — disse, me fazendo olhar para ele. — Seja o que for que te espere lá, você não vai enfrentar sozinho.
Assenti.
O embarque aconteceu sem pressa. Sentamos juntos, observando o movimento ao redor. Quando chamaram nosso voo, caminhamos lado a lado até o portão. No avião, fiquei na janela; Rafa, no corredor, como sempre.
Enquanto a aeronave ganhava velocidade, apertei a mão dele. O chão se afastou, e com ele, parte do peso que eu carregava há anos.
— Vai dar certo — Rafa disse, baixo.
— Eu sei — respondi. — Porque você está aqui.
A chegada foi tranquila. O aeroporto nos recebeu com um ar diferente, mais denso, mais antigo. Pegamos as malas em silêncio, como se ambos estivéssemos absorvendo o momento.
No hotel, assim que entramos no quarto, o cansaço finalmente nos alcançou. Largamos as malas, sentamos na cama, e Rafa soltou um suspiro longo.
— Chegamos.
Deitei ao lado dele, sentindo o corpo relaxar aos poucos.
— Obrigado por não soltar minha mão em nenhum momento — murmurei.
Ele virou o rosto para mim.
— Eu não soltei, nem vou.
Fechei os olhos.
Não porque tudo estivesse resolvido, mas porque, pela primeira vez, eu sentia que estava pronto.
O quarto do hotel tinha um silêncio diferente. Não era vazio, era denso. Um silêncio que parecia carregar tudo o que a gente ainda não tinha coragem de dizer em voz alta.
Assim que entramos, Rafa deixou a mala perto da parede e abriu a janela. A cidade se estendia diante de nós em luzes mornas, sem pressa. Eu sentei na cama, sentindo o colchão ceder sob meu peso, como se até o corpo estivesse pedindo pausa.
— Quer tomar um banho? — ele perguntou, sem se virar.
— Daqui a pouco.
Rafa assentiu e veio até mim. Sentou ao meu lado, encostando o ombro no meu. Ficamos assim por um tempo que não sei medir. Às vezes, estar junto não exige conversa, exige presença.
— Amanhã… — comecei, mas a palavra saiu mais pesada do que eu esperava.
— Amanhã a gente vai ao hospital — Rafa completou, com a voz calma, mas atenta. — No seu tempo. Do seu jeito.
Passei a mão no rosto, respirando fundo.
— Eu fico pensando em como ele vai me olhar. Se vai me reconhecer como filho ou só como alguém que chegou tarde demais.
Rafa virou o corpo para mim, apoiando um braço atrás de mim no colchão.
— Você não controla o olhar dele. Só controla o que leva no seu.
Fiquei em silêncio. Ele tinha razão. Sempre tinha.
Peguei o celular na mesa de cabeceira. Olhei para a tela por alguns segundos antes de desbloquear. O número estava ali. Eu já tinha salvo antes, mas evitava encarar.
— Vou ligar agora — disse.
— Estou aqui — Rafa respondeu, firme.
Disquei.
O toque soou alto demais naquele quarto silencioso— Alô? — a voz feminina veio do outro lado, cansada, mas atenta.
— Oi… aqui é o Caio.
Houve uma pausa breve.
— Caio… eu estava esperando sua ligação.
Engoli em seco.
— Eu cheguei hoje. Queria confirmar… o hospital. O horário.
— Ele está internado no mesmo lugar. Amanhã pela manhã seria melhor. Ele fica mais lúcido antes do meio-dia.
— Ele… sabe que eu vou? — perguntei, com medo da resposta.
— Eu disse que você vinha. Ele não falou muito, mas… chorou depois que desliguei.
Fechei os olhos.
— Obrigado por me avisar — murmurei. — Estaremos lá amanhã cedo.
— Ele vai ficar feliz. Mesmo que não saiba demonstrar.
— Eu espero que sim.
— Boa noite, Caio.
— Boa noite.
Desliguei devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse quebrar algo dentro de mim. Fiquei olhando para o celular apagado por alguns segundos, até Rafa pousar a mão sobre a minha.
— Como foi? — ele perguntou.
— Amanhã de manhã. No hospital. Ele sabe que eu vou.
Rafa respirou fundo, como se estivesse se preparando junto comigo.
— E como você acha que vai ser esse encontro?
A pergunta ficou suspensa no ar. Pensei por alguns segundos antes de responder.
— Eu não sei. Parte de mim quer respostas. Outra parte só quer olhar pra ele uma vez… e não fugir.
Rafa se aproximou mais, segurando meu rosto com cuidado.
— Seja o que for, você não precisa ser forte o tempo todo.
— Eu tenho medo de desmoronar.
— Então desmorona comigo — ele disse, simples. — Eu fico.
Aquilo me desmontou mais do que qualquer cenário que eu tivesse imaginado. Encostei a testa no peito dele, sentindo o coração bater firme, constante.
— Obrigado por não tentar consertar tudo — murmurei.
— Eu não vim pra consertar você. Vim pra caminhar ao seu lado. Te amo, meu bebê.
Sorri e ele se aninhou a mim na cama. Mais tarde, deitados, a luz apagada, ouvi a respiração dele ficar mais lenta. Rafa dormiu antes de mim. Eu fiquei olhando o teto, pensando no hospital, no rosto que eu não via há anos, nas palavras que talvez nunca fossem ditas.
Virei o rosto e observei Rafa dormindo. A expressão tranquila, o corpo relaxado, a mão ainda próxima da minha, mesmo inconsciente.
Amanhã seria difícil. Mas, pela primeira vez, eu não estava sozinho diante do medo. E isso mudava tudo.
