Os dias seguintes foram de um silêncio pesado e curativo, como a névoa que cai sobre um campo de batalha depois do último tiro. O apartamento, que tinha sido nosso covil, depois nosso campo de guerra, virou uma enfermaria de cuidados tensos. A gravidez da Júlia, que antes era um segredo só dela, um susto no sangue, agora era um fato. Conhecido, ameaçado, frágil. O centro de tudo. O motivo pelo qual a guerra tinha sido travada.
Naquela primeira noite, depois que o eco dos passos da Cíntia sumiu no corredor e a paralisia do choque deu lugar a um tremor que vinha dos meus ossos, foi Júlia que veio até mim. Não com tesão, não com aquela cara de puta que me derretia. Veio com uma necessidade de contato, de proteção, de carinho. Se encaixou debaixo do meu braço, a cabeça no meu peito, e ficou ali, quieta.
- Eu sabia - ela sussurrou no escuro, a voz rouca de tanto chorar e gritar. - Há uns dias. O teste deu positivo na segunda. Eu só... Eu estava esperando a minha mãe ir embora pra te contar. Não queria mais confusão. E eu estava tomando anticoncepcional, tio, juro! Fazia só umas semanas. Quando fui comprar o teste, a farmacêutica disse que o anticoncepcional podia não fazer efeito logo no começo... Eu não sabia.
A confissão saía aos pedaços, cheia de um medo que ia além da mãe, da polícia, de tudo. Era o medo de ter me decepcionado, de ter estragado nosso frágil paraíso doente de um jeito que não dava mais pra consertar.
Passei a mão pelo cabelo dela, sentindo a textura que eu conhecia de cor, que sempre me acalmava, mesmo no meio do caos.
- Não tem problema, Ju. Não tem problema nenhum - murmurei, e me surpreendi ao perceber que era a pura verdade. No fundo do poço de culpa e medo, uma brasa teimosa queimava no meu peito. - Eu... eu estou feliz com isso.
E naquela hora, não era mentira pra confortar. Era a realização do meu desejo mais profundo e errado, materializada de um jeito que ninguém podia apagar. Ela era minha, e agora carregava uma parte permanente de mim dentro dela. Estaríamos ligados para sempre.
A transa que veio depois não foi como as outras. Não tinha a fome animal, a performance, o gosto proibido do tabu sendo lambido. Foi lenta, intensa, quase rezada. Um jeito de reafirmar posse, sim, mas também de buscar um pedaço de chão no meio do desabamento. Quando apaguei, ainda grudado nela, foi um sono de exaustão pesada, mas sem pesadelos. O pior já tinha acontecido, e tínhamos passado por isso juntos.
No dia seguinte, acordei antes dela. A determinação que tomou conta de mim era fria e afiada, como uma faca. O medo da noite virou plano. Eu não ia deixar a Cíntia, a polícia ou o mundo roubarem o que era meu. Eu ia arrumar. Do meu jeito.
Saí em silêncio, peguei o carro e fui até a floricultura mais chique que conhecia, e depois numa padaria gourmet. Voltei pra casa com uma cesta que transbordava croissant, frutas vermelhas, suco fresco, e no meio, um buquê de rosas cor de pêssego. Nada berrante, mas bonito, caro. Uma declaração de normalidade que a gente tentava agarrar com unhas e dentes.
Entrei no quarto e ela ainda estava dormindo, enrolada nos lençóis, o rosto liso e juvenil no repouso. O coração deu uma apertada diferente. Acendi a vela perfumada que trouxe, abri a cortina pra luz suave da manhã e sentei na beirada da cama, com a cesta do lado.
- Amor - chamei baixinho, passando o dedo na bochecha dela. - Acorda. Tem uma surpresa.
Ela abriu os olhos, meio perdida, e então viu a cesta. Um sorrisinho pequeno e genuíno apareceu nos lábios dela.
- Tio... o que é isso?
- É um começo novo - falei, pegando a mão dela. - Júlia, você é a mulher da minha vida. A novinha perfeita que eu sempre quis, mas que virou muito mais que isso. Você é a mãe do meu filho. Eu quero ficar com você oficialmente. Com flores, jantar, o pacote completo. Quero que a gente namore.
Ela franziu a testa, o sorriso sumindo.
- Namorar? Tio, a gente já... mora junto. Já fez tudo que tem pra fazer. Vamos pensar melhor mais pra frente. Tá tudo um caos ainda.
- É porque tá um caos que a gente precisa disso - argumentei com a voz firme e convincente. A lógica, minha velha amiga pra justificar desejo, voltava a servir. - Pensa. Se a sua mãe resolver ir na polícia, o que soa pior? O tio que manipulou e estuprou a sobrinha ou o namorado mais velho da filha, com quem ela tem um relacionamento sério e tá grávida? Se a gente se formalizar, se a gente mostrar pro mundo que é um casal, um casal de verdade, a gente se blinda. E... eu quero. Eu quero te ter como minha mulher, não só minha... cúmplice no segredo.
Usei as palavras dela contra ela, o amor que ela tinha por mim como alavanca. Vi a hesitação nos olhos verdes, o conflito entre o desejo de menina por um romance "normal" e o horror da nossa anormalidade.
- E daqui a uns meses - continuei - a gente oficializa de vez. A gente se casa. Cria nossa família do jeito certo. Protege nosso filho.
A palavra "filho" pareceu decidir por ela. Os olhos encheram d’água de novo, mas dessa vez de uma resignação doce.
- Tá. Tudo bem. Eu aceito.
Ela aceitou. A aliança invisível que nos unia no pecado agora ganhava contornos de aliança social. Transamos de novo, mas dessa vez tinha um gosto diferente, não de fuga, mas de celebração de um pacto novo, ainda mais fundo.
Naquela noite, no escuro do quarto, com ela aconchegada em mim, o assunto inevitável veio.
- Tio - a voz dela era um sopro.
- Fala, meu amor.
- A gente... a gente vai mesmo ter esse bebê?
Teve uma pausa longa. Ouvi um soluço abafado.
- Não é por não amar você, ou não amar ele - ela chorou, a voz quebrada pela dúvida mais profunda. - Mas que vida a gente vai dar pra ele? Nascendo de uma mentira gigante. Com uma avó que vai odiar ele. Com um pai que é... O irmão da avó. Como ele vai crescer? O que as pessoas vão falar? Ele vai ser feliz assim?
As perguntas dela eram navalhas. Eram as perguntas que eu me recusava a fazer. Segurei ela com força, como se pudesse, pela pressão dos braços, passar minha certeza pra ela.
- A gente dá a vida que a gente tá construindo agora - falei, a voz grave no escuro. - Diferente. Difícil pra caralho. Mas nossa. Se você quiser ter, Júlia, eu juro por tudo, eu luto por vocês dois até meu último suspiro. Eu construo um mundo onde ele possa ser feliz. Onde a gente possa ser feliz.
Não prometi normalidade. Prometi um refúgio forjado no ferro e no fogo. E pra ela, naquela hora, talvez fosse a única promessa que soasse verdadeira.
A decisão, tomada no escuro, entre lágrima e abraço desesperado, ficou ativa, corajosa. A gente ia ter aquele filho.
Nos dias que seguiram, ações práticas selaram o destino. O perfil do OnlyFans foi deletado, todos os rastros apagados. O dinheiro acumulado, fruto da nossa perversão a dois, foi sacado. Não era mais dinheiro de putaria. Era o fundo de fuga, o capital do começo novo.
A gente ia encarar o mundo não como tio e sobrinha, mas como um casal. Um casal com diferença de idade, sim, mas quantos não tinham? Íamos inventar uma história: eu, um designer bem-sucedido e ela uma jovem estudante de interior. Nada de famílias compartilhadas, nada de passados que se cruzavam em ceia de Natal.
A gente ia se mudar pra outra cidade, longe do litoral, longe da Cíntia, longe de qualquer olhar que pudesse reconhecer o parentesco nos traços comuns dos nossos olhos verdes.
O filho ia nascer num mundo novo, uma bolha construída com cuidado sobre as fundações podres de um segredo impensável. E a cada suspiro, a cada olhar de amor que a gente desse pra ele, o fantasma da verdade ia estar ali, quieto e esperando, testando a solidez da felicidade roubada que a gente tinha decidido construir.
Cinco anos se passaram.
A Sara dorme no quarto ao lado. Ele tem os nossos olhos verdes, é claro. Às vezes, quando ela me olha sério, é como se a própria Júlia, criança, me encarasse de novo. Ela é uma menina linda, que ri com uma pureza que parece uma ironia do universo, considerando de onde veio. Ela é a única luz que não se apagou. A única promessa que não virou cinza.
A Júlia... Minha Júlia. Ela está aqui, mas não está. O corpo que me deixava doido de tesão, que eu conhecia cada curva melhor do que a palma da minha mão, agora é um território distante. Ela perdeu o brilho, perdeu aquele fogo de desafio e safadeza. O que sobrou foi uma mulher de 24 anos que parece carregar cinquenta nos ombros.
A depressão chegou devagar, como um vazamento. Primeiro foram as noites em claro, olhando para o teto. Depois, a dificuldade de levantar da cama nos dias em que a Sara não a chamava. Agora, são as crises de ansiedade. Elas batem sem aviso. Pode ser no mercado, ao ver uma mulher parecida com a Cíntia, sua mãe. Pode ser ouvindo uma música que a lembra da família. Ela começa a tremer, a respirar fundo e rápido, os olhos ficam vidrados.
- Tudo bem, princesa. Eu estou aqui. Olha pra mim - é o que eu digo, segurando suas mãos geladas, repetindo como um mantra o apelido que agora soa a falso consolo.
Ela não olha. Sussurra, entre os dentes cerrados: “Ela nunca vai me perdoar, tio. Nunca. E a Sara... Vai nos odiar quando souber.”
Eu me tornei um pai solo dentro do meu próprio casamento. Troco fraldas, dou comida, levo ao parque, conto histórias. Júlia ajuda, mas é como se fosse uma babá exausta, cumprindo uma função. O fogo que nos uniu, a luxúria, o pecado, aquele amor doentio e intenso, virou uma brasa morna. Transamos ainda, às vezes. É rápido, silencioso, quase um ritual para ver se a chama ainda existe. Ela goza, às vezes. Eu sempre gozo, mas é só alívio físico. A conexão, aquela cumplicidade perversa que era nosso oxigênio, se foi. Logo após o nascimento de Sara, ela começou a se distanciar.
O dinheiro do OnlyFans acabou há uns dois anos. Meu trabalho remoto sustenta a gente. Vivo com medo de que alguém do passado me encontre online, de que a história vaze aqui. Cada olhar demorado de um estranho na rua é uma potencial ameaça. A paranoia é meu novo hábito solitário.
Às noites, depois que Sara dorme e Júlia toma o remédio que a ajuda a cair no sono, eu fico na varanda do apartamento minúsculo. Olho para a cidade desconhecida e sinto um vazio que nem a punheta mais brutal consegue preencher.
Eu a possuí completamente. Corpo, alma, futuro. Fiz dela minha, de uma forma que poucos homens podem dizer que fizeram de uma mulher. Fui seu tio, seu fotógrafo, seu amante, seu sócio, o pai do seu filho. Cumpri cada fantasia suja e profunda que já tive. E o preço?
O preço é ver o brilho nos olhos dela se apagar um pouco a cada dia. É saber que a mãe da minha filha chora no banheiro, abafando o som para ninguém ouvir. É carregar um amor que se transformou em uma responsabilidade pesada e dolorosa, uma algema de culpa e cuidado.
Nós fugimos, construímos a bolha, sobrevivemos ao caos inicial. Mas não tenho certeza se vencemos.
Aquele paraíso proibido... ele só existia enquanto era proibido. Quando virou a nossa realidade, o nosso dia a dia, ele murchou. Sobrou a casca. E a gente dentro, cuidando de uma filha que é, ao mesmo tempo, a nossa maior alegria e a prova viva do nosso pecado irremediável.
Às vezes fico pensando que deveria ter deixado Júlia ir embora com Cíntia, que ela poderia ter feito uma faculdade, como tinha planos, e hoje em dia ser uma pessoa completamente diferente. Mas Sara é meu mundo, minha vida. Minha filha é a razão pela qual eu ainda tento lutar por esse amor. Porque, não se enganem, eu ainda a amo. Mas o amor agora tem gosto de remorso. E o pior de tudo, no fundo do meu coração podre, às vezes me pego pensando naquela Júlia do primeiro dia, de shorts jeans e sorriso largo, e sinto uma saudade aguda que não tem nada a ver com desejo. É a saudade dela. Da minha Júlia. Que talvez eu mesmo tenha sido quem a matou.
Foi por isso que decidi contratar uma babá. Para tirar um peso da Júlia. Para que ela possa... se recompor, ir à terapia ou algo assim.
A Caroline entrou no apartamento para entrevista numa tarde de quarta-feira. Era indicação de um vizinho. Nunca iria imaginar que ela tinha essa aparência, ou que fosse tão nova. Tinha 18 anos, pele morena cor de canela, olhinhos puxados que transmitiam uma seriedade precoce. O cabelo longo, liso e brilhante caía sobre seus ombros estreitos. Descendente de indígenas, sem dúvida. Uma beleza diferente, exótica.
Mas o que mais me chamou a atenção, foi aquela bunda. Ela usava uma legging preta simples e uma blusa larga. A bunda era gigante. Um volume perfeito, redondo, desproporcional ao resto do corpo, que balançava com um movimento natural quando ela se virou para pendurar a bolsa. Um formato que me fez prender a respiração ali, no meio da minha sala, no apartamento onde eu morava com minha mulher e minha filha.
Era o mesmo formato. O mesmo tipo de corpo que me fez clicar em vídeos na solidão, anos atrás. O mesmo tipo de corpo que tinha me feito perder o mundo quando Júlia apareceu na minha porta.
Ela sorriu, educada, e disse:
- Prazer, sou a Caroline. O senhor é o Ricardo?
A voz dela era suave. Eu ouvi, mas meus olhos, traidores, involuntários, já haviam feito o caminho completo. Do rosto inocente, passando pelo corpo jovem, até se fixarem naquela curva hipnótica, carnuda, que a legging moldava como uma segunda pele. Senti um calor familiar e vergonhoso subir da minha nuca. Um desejo animal, instantâneo e potente, que eu julgava morto sob o peso da culpa e da rotina, pulsou de volta à vida como se nunca tivesse ido embora.
Eu a convidei para sentar. Enquanto ela falava sobre sua experiência com crianças, suas mãos gesticulando com timidez, eu não ouvia as palavras. Ouvia o zumbido do sangue nos meus ouvidos. Olhava para aquela bunda pressionada contra o tecido do sofá, e uma única pergunta começou a martelar dentro do meu crânio, se misturando ao cheiro do café que eu havia feito e ao fantasma do meu fetiche esquecido:
Devo contratá-la?
(N.A.: Final um pouco agridoce, eu sei. Mas a vida não é um conto de fadas, e as histórias que mais me interesso em escrever exploram justamente esses cantos sombrios e complexos do desejo. Tenho minhas próprias opiniões sobre Ricardo, mas vou deixar que vocês me contem o que sentiram lendo essa última parte. Já estou escrevendo a próxima história!)
