Oiii pessoal, segue o sétimo capítulo, peço desculpas pelo o tamanho reduzido, peguei alguns plantões extras e quase não deu para escrever mas, espero que gostem ;)
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Ponto de vista — Rafael
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Fechei a porta do apartamento com mais força do que pretendia.
O silêncio caiu pesado demais, como se a casa tivesse se afastado de mim por um segundo, observando, julgando. Encostei as costas na madeira fria e fechei os olhos, sentindo o mundo ainda girar levemente sob os pés.
Bêbado.
Não o tipo de bêbado que cai ou ri alto — mas aquele estado traiçoeiro em que a cabeça parece clara demais para alguém que claramente não está.
Passei a mão pelo rosto, tentando apagar a imagem que insistia em voltar:
o carro parado, o silêncio espesso, a proximidade errada, o beijo.
Um beijo que não devia ter existido.
Atravessei a sala devagar, tropeçando mais no pensamento do que nos móveis. A Vênus ergueu a cabeça do sofá, me observando com aquele olhar que sempre parecia saber mais do que deveria. Sirius veio logo atrás, contido, como se sentisse que não era noite de exigir nada.
— todo está bien… — murmurei em espanhol, mais para mim do que para eles.
Não estava.
Sentei na beirada da cama sem acender a luz. A penumbra ajudava a esconder o rosto quente, o incômodo na boca, como se ainda restasse ali um vestígio do que eu queria apagar.
Por que eu não afastei ele antes?
Por que deixei chegar àquele ponto?
A resposta mais honesta não era bonita:
porque, por um instante, eu quis.
E isso doía mais do que o beijo em si.
Joguei o celular sobre o colchão, como se o objeto tivesse culpa. Pensei em Luan. No jeito simples com que ele me olhava, como se eu não precisasse estar armado o tempo todo. No cuidado silencioso, no respeito pelos meus limites, no espaço que ele me dava para ser inteiro sem pedir nada em troca.
E eu… eu tinha cruzado uma linha que não dizia respeito só a mim.
A culpa veio quente, apertando o peito de dentro pra fora.
Levantei e fui até o banheiro, ligando a luz forte demais. O espelho devolveu uma versão de mim que eu não reconhecia por completo: olhos cansados, pele quente, expressão tensa. Apoiei as mãos na pia, repetindo o gesto que tinha feito horas antes — só que agora não havia ninguém me observando.
Graças a Deus.
— Estúpido… — sussurrei em espanhol.
O Diego sempre foi invasivo de um jeito sutil. Olhares longos demais, comentários que passavam do limite sem nunca parecerem explícitos. Eu sempre soube. Sempre senti. E, ainda assim, permiti que aquilo se estendesse.
Talvez por vaidade.
Talvez por confusão.
Talvez porque uma parte minha ainda tivesse medo de escolher algo de verdade — e, por isso, mantinha portas mal fechadas.
Mas naquela noite, isso tinha custado caro demais.
Fechei os olhos, lembrando do segundo exato em que percebi que tinha ido longe demais: o momento em que o corpo reagiu antes da razão. Aquele segundo maldito em que eu não fui apenas vítima de uma situação — eu participei dela.
E isso ninguém tirava de mim.
Voltei para o quarto, sentei de novo na cama e fiquei ali, parado, enquanto o álcool começava finalmente a perder força e dar lugar a um cansaço profundo, pesado.
Eu não queria desejar aquilo.
Não queria sentir nada por ele.
E, acima de tudo, não queria ser o tipo de pessoa que brinca com o próprio limite e depois se esconde atrás do arrependimento.
Pensei em escrever para a Bea.
Desisti.
Pensei em escrever para o Luan.
O que eu diria?
“Oi, beijei outro cara hoje, mas não foi nada”?
“Oi, eu errei, mas ainda sou o mesmo”?
Peguei o celular sem pensar muito.
Não foi uma decisão clara, nem racional. Foi impulso. Necessidade crua, quase física. Os dedos se moveram antes que eu pudesse organizar qualquer frase em português — e, quando percebi, já estava escrevendo em espanhol.
Como sempre acontecia quando eu bebia demais. Ou quando sentia demais.
As palavras saíam tortas, rápidas, sem cuidado com a ordem, como se não fossem exatamente frases, mas fragmentos do que eu não conseguia segurar dentro de mim.
Não escolhi o espanhol. Ele simplesmente veio.
Talvez porque fosse a língua da minha infância, dos dias em que eu ainda não precisava ser forte, nem claro, nem responsável por escolhas tão complexas. Talvez porque fosse o único lugar onde eu ainda conseguia ser frágil sem pedir desculpas por isso.
Eu precisava dele.
Não da versão do Luan que ri fácil, que segura as próprias emoções com maturidade quase incômoda. Mas do Luan que simplesmente estava ali. Presente. Inteiro.
Eu precisava sentir que alguém me via naquela bagunça que eu era naquela noite — não como alguém desejável, não como alguém confuso, mas como alguém que ainda merecia cuidado mesmo depois de errar.
Precisava sentir ele. Não no corpo. Mas naquele lugar mais fundo, onde a solidão não se resolve com toque, mas com presença.
Enquanto digitava, percebia que estava bêbado. Mas não o tipo de bêbado que perde o controle. Era o tipo que perde as defesas.
E, sem elas, tudo ficava mais nu: a culpa, o medo, a vontade absurda de não atravessar aquela noite sozinho.
Talvez fosse egoísmo. Talvez fosse fraqueza. Talvez fosse só humano demais.
Mas, naquele momento, tudo o que eu sabia era que, entre todas as pessoas possíveis, foi o nome dele que meus dedos escolheram.
E isso, mais do que qualquer beijo, mais do que qualquer erro, dizia algo que eu ainda não estava pronto para admitir em voz alta.
Deitei de lado, encarando o escuro, ouvindo a respiração dos gatos preencher o espaço que antes estava vazio demais. O coração batia mais lento agora, mas não mais leve.
Talvez o mais difícil não fosse lidar com o Diego.
Talvez fosse admitir para mim mesmo que eu precisava aprender a ser mais firme com o que eu quero — e com o que eu não quero.
Porque, no fim, ninguém tinha me forçado a ficar.
Eu fiquei.
E essa era a parte que eu precisava enfrentar.
Fechei os olhos, sentindo o peso daquela noite se acomodar dentro de mim, como algo que não se apaga dormindo, mas que talvez, com o tempo, pudesse ser compreendido.
Não era só sobre desejo.
Era sobre escolha.
E, naquela noite, eu tinha falhado em escolher com clareza.
Na verdade, aquilo já tinha começado antes.
Ainda na casa da mãe do Diego, enquanto o barulho das conversas e risadas preenchia o ambiente e os copos iam sendo reabastecidos sem muita cerimônia, meu celular vibrou no bolso.
Peguei sem muito interesse, esperando que fosse a Bea ou qualquer coisa irrelevante.
Mas era o Luan.
Ele dizia que já estava em um churrasco com alguns amigos. Falava de forma casual, como quem compartilha um detalhe pequeno do dia, nada além disso. Uma foto borrada de pessoas em volta da churrasqueira, risadas ao fundo, o clima leve que eu conhecia bem.
E, ainda assim, aquilo me atingiu.
Um incômodo rápido, quase automático. Um aperto estranho no peito, difícil de justificar: ciúme.
Não porque ele estivesse fazendo algo errado — não estava — mas porque, em algum lugar silencioso dentro de mim, eu já queria ocupar aquele espaço. Queria ser parte daquele cenário, estar ali, e não cercado por uma situação que eu sequer tinha escolhido com tanta clareza.
Guardei o celular com cuidado demais, como se o gesto pudesse esconder o que eu sentia.
E, ironicamente, foi justamente ali, sentindo ciúme de algo que eu não tinha direito de cobrar, que eu me permiti atravessar a linha com o Diego depois.
A contradição me queimava por dentro.
Como sentir posse se eu mesmo não estava sendo inteiro com ninguém?
Como exigir clareza se eu flertava com a própria confusão?
Talvez aquele beijo não tivesse sido apenas sobre desejo.
Talvez tivesse sido sobre fuga.
Fuga da escolha.
Fuga do que eu já começava a sentir pelo Luan.
Agora, sozinho no quarto, a lembrança daquela mensagem ganhava outro peso. Não era sobre o churrasco. Era sobre eu ter percebido, cedo demais, que já me importava mais do que queria admitir.
E que tinha feito exatamente tudo errado depois disso.
Provavelmente deixei Luan sem entender nada, não tinha comentado sobre esse meu lado, ser metade boliviano, falar espanhol, mandar mensagens espanhol, eu me odeio as vezes!
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Ponto de vista — Luan
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O cheiro de carne assando se misturava à fumaça e às risadas espalhadas pelo quintal. Música tocava em volume alto demais, copos sendo erguidos, alguém contando uma história que ninguém ouvia até o fim.
Eu estava ali.
Mas não por inteiro.
Tentava me envolver nas conversas, responder às brincadeiras, rir nos momentos certos. E, de fato, ria. Mas havia sempre um segundo a mais de atraso, como se parte de mim estivesse ocupada demais com outra coisa.
Ou com alguém.
O celular repousava sobre a mesa ao meu lado. Vez ou outra, eu o virava discretamente, como quem apenas confere as horas. Mas não era isso que eu buscava. Eu sabia exatamente o que estava esperando — mesmo sem querer admitir.
Rafa.
Ele tinha dito que iria a um jantar. Um compromisso simples, social, sem grandes implicações. Eu tinha aceitado isso com naturalidade. Pelo menos era o que eu dizia a mim mesmo.
Mas agora, cercado de vozes, de amigos, de distrações fáceis, era o silêncio dele que chamava minha atenção.
Peguei o copo, dei um gole longo demais, mais para ocupar as mãos do que pela sede. Alguém comentou algo sobre futebol, outro sobre trabalho, e eu acompanhei a conversa sem realmente estar nela.
O celular vibrou.
Meu olhar foi imediato, quase involuntário — rápido demais para passar despercebido por mim mesmo. Mas não era ele. Era uma mensagem qualquer, de um grupo qualquer. Respondi com dois emojis e deixei o aparelho de volta na mesa, sentindo uma pontada de frustração que não combinava com o meu discurso racional de horas antes.
— Tá tudo bem aí? — perguntou um amigo, me cutucando com o ombro. — Você tá estranho hoje.
Sorri de lado. — Tô nada. Só cansado.
Mentira simples. Confortável.
Porque admitir que alguém que eu mal conhecia direito já conseguia bagunçar minha atenção daquele jeito parecia cedo demais. Intenso demais. E eu sempre fui o tipo que evita o que cresce rápido demais.
Mas, ainda assim, meus olhos voltavam ao celular com frequência injustificável.
Não era ansiedade.
Era expectativa.
E expectativa, eu sabia, era o primeiro sinal de que algo estava escapando do controle.
Voltei a rir de uma piada qualquer, aceitei mais um pedaço de carne, ergui o copo quando alguém propôs um brinde aleatório. Eu estava ali, participando, presente o suficiente para ninguém desconfiar.
Mas, em algum lugar entre uma conversa e outra, uma parte minha estava quieta demais, aguardando uma resposta que talvez nem devesse esperar.
E, sem perceber, eu já não estava apenas vivendo o momento.
Estava esperando o próximo movimento do Rafa.
O celular vibrou de novo.
Dessa vez, não era mensagem. Era notificação do Instagram.
Peguei quase por impulso, desbloqueando a tela enquanto alguém falava alto demais ao meu lado. Abri o aplicativo sem pensar muito, rolando os stories de forma automática, distraída.
Até parar.
Era o Rafa.
Uma repostagem simples: uma foto em ambiente fechado, luz quente, copos sobre a mesa. Ele aparecia sorrindo de lado, levemente inclinado para alguém que estava fora do enquadramento principal — mas não o suficiente para não ser reconhecido.
Diego.
Estava ali, ao lado dele, próximo demais para parecer casual. Não havia nada explícito na imagem. Nenhum toque, nenhum gesto que denunciasse algo concreto. E, ainda assim, aquilo me atingiu de um jeito que não consegui ignorar.
Senti o peito apertar, um incômodo seco, imediato.
Ciúme.
Não aquele exagerado, teatral. Era um ciúme contido, quase racional demais, como se eu tentasse explicá-lo enquanto ele nascia.
Eles estavam apenas em um jantar. Era normal.
Eu não tinha direito algum de sentir aquilo.
Mas a sensação não se explicava com lógica.
Aproximei um pouco mais a imagem, sem perceber. Observei o sorriso do Rafa, o jeito solto, diferente do que ele costumava ter comigo — ou talvez eu estivesse apenas projetando.
Fechei o story rápido demais, como se olhar mais fosse admitir algo que eu ainda não queria nomear.
O problema não era o Rafa.
Era o Diego.
Desde o começo, havia algo nele que me incomodava de um jeito difícil de definir. Não era ciúme puro, nem comparação direta. Era uma sensação mais silenciosa, quase instintiva. Como se ele ocupasse o espaço ao redor do Rafa com intenção demais.
Gente assim eu conhecia bem.
Pessoas que não avançam de frente.
Que não forçam.
Mas que cercam.
Apoiei o celular na mesa outra vez, respirando fundo, tentando voltar ao clima do churrasco, às risadas, às conversas que continuavam acontecendo sem notar que, dentro de mim, algo tinha mudado de posição.
Um amigo me chamou, oferecendo mais bebida. Recusei com um gesto leve. Pela primeira vez naquela noite, eu não queria perder clareza.
Porque, de algum modo, eu sentia que aquela foto não era apenas um registro inocente.
Era um aviso silencioso.
E, mesmo sem saber exatamente por quê, uma certeza começou a se formar, incômoda e persistente:
o Diego não era apenas um colega.
E, se tivesse oportunidade, não jogaria limpo.
Fiquei ali, parado por alguns segundos, olhando para o nada, enquanto a música seguia alta demais e o cheiro da carne continuava no ar.
O churrasco seguia normal para todo mundo.
Mas, para mim, alguma coisa tinha acabado de ficar séria demais para ser ignorada.
Afastei o celular de mim como se ele tivesse peso demais.
Não comentei nada com ninguém. Não fiz perguntas, não mandei mensagem, não deixei escapar nem em expressão aquilo que tinha acabado de se mover por dentro.
Voltei para perto da churrasqueira, aceitei um copo de água dessa vez, tentando disfarçar a súbita necessidade de estar sóbrio.
Era ridículo. Eu mal conhecia o Rafa direito. E, ainda assim, algo em mim reagia como se houvesse muito mais em jogo.
A música mudou. Alguém aumentou o volume. O riso coletivo se espalhou mais alto do que antes. Eu me apoiei na pia improvisada do quintal, observando tudo com uma atenção que já não era exatamente presença — era fuga.
Talvez eu estivesse exagerando. Talvez o Diego fosse apenas… alguém ao redor.
Mas havia um detalhe que não me saía da cabeça: o sorriso do Rafa naquela foto não era o mesmo que ele tinha quando estava comigo.
Não era melhor. Era diferente.
E diferenças assim não surgem do nada.
Lembrei do jeito como ele falava comigo, das pausas longas, das frases pensadas demais, como se estivesse sempre calibrando o quanto deixava transparecer. Rafa era contido. Até quando ria, parecia guardar algo para si.
Naquela imagem, não. Ele parecia solto. Não mais feliz — mas menos armado.
Isso me incomodava mais do que qualquer proximidade física.
Porque significava que havia ali um espaço onde eu ainda não tinha chegado.
Respirei fundo, tentando afastar o pensamento. Voltei para junto dos amigos, entrei em uma conversa qualquer sobre viagens, sobre planos que ninguém ali realmente tinha certeza se faria. Concordei com coisas que mal ouvi. Sorri de coisas que não entendi direito.
Funcionava. Por alguns minutos, pelo menos.
Até meu celular vibrar novamente.
Dessa vez, mensagem.
Rafa.
Abri no mesmo segundo, o coração reagindo antes de qualquer filtro racional.
“Cheguei em casa agora.”
Só isso.
Duas palavras e uma pontuação neutra. Nenhuma explicação. Nenhuma emoção explícita.
Mas, ainda assim, aquilo fez algo dentro de mim relaxar.
Não completamente. Mas o suficiente para eu perceber o quanto estava tenso antes.
Respondi quase no mesmo instante:
“Chegou bem então.”
Simples. Seguro. Sem cobrança.
Olhei para a tela por alguns segundos depois de enviar, como se pudesse extrair algo do silêncio que veio em seguida.
Nada.
Guardei o celular no bolso e voltei a olhar para o quintal iluminado, as pessoas, os copos, o movimento constante que parecia existir para lembrar que o mundo não para por causa de um conflito interno qualquer.
Mas o meu mundo, naquele momento, tinha desacelerado.
Porque aquela mensagem não apagava a imagem do story. Nem a sensação estranha que ela tinha provocado.
Seja o que estivesse acontecendo entre eles — se é que havia algo — eu sentia que não era simples.
E eu não era do tipo que entra em disputas invisíveis. Não competia por atenção. Não insistia onde precisava forçar espaço.
Mas também não era do tipo que ignora quando algo começa a tocar em pontos sensíveis demais.
Talvez, pensei, fosse hora de observar com mais cuidado.Menos entrega.Mais atenção.
Não ao Rafa. Mas ao que existia ao redor dele.
O tal de Diego, especialmente.
Voltei para perto dos amigos, agora mais calmo por fora, mais alerta por dentro. O churrasco continuava. A noite avançava. E, para qualquer um olhando de fora, eu era só mais alguém aproveitando um sábado comum.
Mas eu sabia.
Alguma coisa tinha mudado naquela noite. E não tinha sido só para o Rafa.
O celular vibrou no meu bolso outra vez.
Afastei-me alguns passos do grupo, buscando um canto mais silencioso do quintal. A música continuava alta demais, mas ali, perto do muro, o som chegava abafado, como se eu estivesse entrando num espaço paralelo.
Era o Rafa.
Abri a conversa esperando algo simples. Não era.
As mensagens surgiam em sequência, rápidas, sem pausa.
Rafa:
“No sé por qué hoy todo pesa más.”
“Me siento cansado de mí, de pensar tanto.”
“Quisiera ser más simple, pero no me sale.”
“Hay cosas que no hice bien esta noche.”
“Y no sé cómo cargar con eso ahora.”
Meu coração apertou.
Eu entendia algumas palavras. Outras, só pelo tom. Mas o conjunto escapava.
Fiquei encarando a tela por segundos longos demais, tentando montar sentido com pedaços soltos: cansado, noite, não fiz bem, não sei carregar isso.
Por que ele estava falando comigo assim? E por que em espanhol?
Escrevi, com cuidado:
Luan:
“Rafa… você tá falando em espanhol.”
“Eu não sabia que você falava espanhol.”
“Aconteceu alguma coisa?”
A resposta veio quase imediata, como se ele estivesse apenas esperando um espaço para continuar.
Rafa:
“A veces pienso mejor en español.”
“Mi mamá es boliviana.”
“Cuando estoy así, me sale sin pensar.”
“Perdón si te confundo.”
“No era mi intención.”
Li aquilo sentindo um peso estranho no peito.
Não era só a revelação da língua. Era o fato de ele estar me mostrando um pedaço de si que eu não conhecia — justamente quando estava mais vulnerável.
Luan:
“Você não tá me confundindo.”
“Só tô tentando entender você.”
“Você quer falar do que aconteceu?”
Demorou.
O “digitando…” apareceu e sumiu mais de uma vez, como se ele estivesse lutando entre dizer e não dizer.
Até que veio.
Rafa:
“No quiero justificarme.”
“Solo decir que no estoy orgulloso.”
“Y que hoy me siento lejos de la persona que quiero ser.”
“Eso me duele.
Engoli em seco.
Eu não entendia cada palavra. Mas entendia o sentimento inteiro.
Não estar orgulhoso. Estar distante de quem quer ser. Isso não precisa de tradução perfeita.
Luan:
“Você não precisa se explicar pra mim agora.”
“Só… não fica sozinho com isso.”
“Se quiser falar depois, eu tô aqui.”
A resposta veio curta, quase frágil:
Rafa:
“Gracias, Luan.”
“De verdad.
A palavra ficou brilhando na tela por um instante antes de eu bloquear o celular.
Gracias.
Não era só um agradecimento. Era um pedido silencioso de presença.
Voltei lentamente para perto dos amigos, mas tudo parecia distante demais agora. As vozes, a música, os risos — como se eu tivesse mudado de frequência sem sair do lugar.
E, pela primeira vez naquela noite, o incômodo que eu sentia não tinha mais nada a ver com ciúme.
Era cuidado.
E uma certeza começava a se formar, discreta, mas firme: o Rafa estava se revelando em camadas. E eu não tinha mais como fingir que aquilo não me afetava.
O celular pesava no meu bolso agora, como se guardasse algo vivo ali dentro.
Fiquei mais alguns minutos parado, fingindo prestar atenção em uma conversa qualquer, mas já não conseguia mais. A noite tinha perdido a leveza. Não porque algo ruim tivesse acontecido — mas porque algo importante estava acontecendo.
Afastei-me de novo, encostando no portão lateral do quintal. O barulho vinha distante, como se eu estivesse do lado de fora do próprio sábado.
Tirei o celular do bolso e abri a conversa outra vez.
Respirei fundo antes de escrever.
Luan:
“Rafa…”
“Você quer que eu vá aí?”
Fiquei olhando a tela, esperando.
Demorou mais do que eu gostaria. Tempo suficiente para eu começar a me arrepender da pergunta. Tempo suficiente para eu pensar que talvez estivesse ultrapassando algo que ele ainda não queria.
Então veio.
Rafa:
“¿Ahora?”
Só isso. Uma palavra. Mas carregada de tudo.
Luan:
“Agora.”
“Se você quiser.”
A resposta veio em espanhol, sem hesitação desta vez, como se aquela língua fosse agora o lugar onde ele conseguia ser mais honesto.
Rafa:
“Sí.”
“Si no es molestia.”
“No quiero estar solo hoy.”
Meu peito apertou.
Não queria estar sozinho hoje.
Luan:
“Não é incômodo nenhum.”
“Estou indo.”
A resposta veio quase imediata, ainda em espanhol:
Rafa:
“Gracias por venir.”
“De verdad.”
Fiquei alguns segundos olhando aquelas palavras antes de bloquear o celular.
Voltei para o centro do quintal, avisando rapidamente que precisava sair. Ninguém questionou muito — sábado permite essas partidas silenciosas.
Peguei as chaves, atravessei o portão e senti o ar mais frio da rua bater no rosto.
Enquanto caminhava até o carro, uma sensação estranha se misturava dentro de mim: não era ansiedade, não era empolgação.
Era a consciência clara de que eu estava atravessando um limite invisível.
Não apenas indo até a casa de alguém. Mas me aproximando de um lugar emocional que eu ainda não conhecia — e que, de algum modo, já importava demais.
Liguei o carro, ajustei o GPS com o endereço e fiquei alguns segundos parado antes de arrancar.
Respirei fundo.
E, pela primeira vez naquela noite, eu não estava indo para fugir de um sentimento. Estava indo em direção a ele.
O trânsito estava quase vazio, como se a cidade tivesse desacelerado junto comigo.
As luzes dos postes passavam rápidas pelo vidro, desenhando sombras irregulares dentro do carro. Eu dirigia sem música, sem distrações, apenas com o som baixo do motor e dos meus próprios pensamentos ocupando o espaço.
Não pensava exatamente no que diria ao chegar. Nem em como ele abriria a porta. Nem em como estaria o rosto dele depois daquela troca de mensagens.
Pensava apenas no fato de que, até poucas horas atrás, eu estava em um churrasco qualquer, vivendo um sábado qualquer. E agora, atravessava a cidade porque alguém tinha dito, em outra língua, que não queria ficar sozinho.
Estacionei em frente ao prédio do Rafa e desliguei o carro sem descer de imediato.
Olhei para cima, tentando adivinhar em qual janela ele estava. Havia algumas luzes acesas, outras não. Nenhuma me dizia nada com clareza.
Peguei o celular, vi a conversa aberta ainda ali, como se não tivesse sido encerrada de verdade.
"Gracias por venir."
Fiquei alguns segundos parado, sentindo o peso suave daquela frase, antes de finalmente abrir a porta do carro e pisar na calçada.
E, naquele instante, antes mesmo de tocar o interfone, eu soube:
o que quer que estivesse prestes a acontecer naquela noite não era apenas sobre desejo, nem sobre culpa, nem sobre ciúme.
Era sobre presença.
E, de alguma forma, depois disso, nada entre mim e o Rafa voltaria a ser simples outra vez.