Conspiração 3.

Um conto erótico de Lukinha
Categoria: Heterossexual
Contém 4538 palavras
Data: 22/01/2026 14:01:24

A cela estava mais silenciosa naquela noite. Não o silêncio vazio da madrugada, mas aquele intervalo estranho em que o prédio parece prender a respiração, como se soubesse que algo ainda vai acontecer.

Eu estava sentado no banco de concreto, cotovelos apoiados nos joelhos, encarando o nada, quando ouvi passos conhecidos no corredor.

Não eram apressados. Nem duros. E isso, por si só, já chamou minha atenção.

— Ricardo.

Levantei o olhar devagar. Era o Henrique. A gente tinha feito a academia da polícia juntos. Não éramos íntimos, mas havia respeito. Ele ainda estava na ativa. Subiu rápido na corporação. Sempre foi técnico, correto, desses que não fazem amizade fácil, mas também não passam ninguém para trás.

— O que você faz aqui essa hora? — Perguntei.

Ele olhou em volta antes de responder, como se calculasse até onde podia ir.

— Vim ver você. Não oficialmente.

Ele aproximou-se das grades, apoiou o antebraço nelas e suspirou fundo.

— Não vou tomar muito seu tempo.

Dei um meio sorriso cansado.

— Tempo é a única coisa que eu tenho agora.

Ele não sorriu de volta. E aquilo já dizia tudo.

— Eu li o inquérito preliminar. — Disse, direto. — Não como amigo. Como policial.

Senti o estômago apertar.

— E?

Henrique hesitou por um segundo. Pouco, mas hesitou.

— Tecnicamente? — Ele escolheu bem a palavra. — Está fechado.

Engoli em seco.

— Fechado como?

— Linha do tempo contra você. Imagens te colocando no local antes do que você afirmou. A vítima entrando depois. Não saiu mais. — Ele respirou fundo. — A faca é do seu jogo de cozinha. Suas digitais. Histórico de conflito entre vocês. Um boletim antigo, mesmo arquivado, pesa mais do que deveria.

— Eu tentei ajudar. — Retruquei, mais baixo do que pretendia. — Você sabe disso.

— Eu sei. — Ele assentiu de imediato. — E é por isso que estou aqui.

Henrique me encarou com firmeza.

— Ricardo, se fosse outro nome naquele papel, eu não pisaria nessa delegacia fora do horário. Mas é você.

Cruzei os braços, tentando me segurar.

— Então você acredita em mim?

Ele demorou a responder.

— Eu acredito que você não tinha a intenção de matar ninguém.

Aquilo doeu mais do que se ele tivesse dito que não acreditava.

— Mas… — Continuei.

— Mas o sistema não trabalha com ceticismo. Trabalha com narrativa. — Ele bateu levemente com os dedos na grade. — E a narrativa está pronta. Organizada. Coerente. Redonda. Perfeita, até.

Fechei os olhos por um instante.

— E não importa o que eu diga?

— Importa. — Ele disse. — Só não tanto quanto você acha.

Silêncio.

— Tem muita gente boa presa, Ricardo… — Ele continuou, num tom mais baixo. — Gente que não merecia. E também tem muita gente solta que merecia estar aqui dentro.

— Você está me dizendo para desistir?

Henrique negou com a cabeça.

— Estou te dizendo para não se iludir. — Ele se inclinou um pouco mais. — Se existe algo que você não está contando… qualquer coisa… agora é a hora de trazer à tona.

Levantei de supetão.

— Eu não fiz isso!

Minha voz ecoou mais do que eu queria. Henrique não se afastou.

— Eu sei. — Disse, firme. — Mas eles não precisam que você tenha feito tudo. Só precisam que você tenha feito o suficiente.

Aquilo ficou martelando na minha cabeça.

— Você vai ser indiciado. — Ele completou. — Provavelmente denunciado. A partir daí, não é mais sobre verdade. É sobre resistência.

A palavra ficou no ar. Resistência.

Henrique respirou fundo, como se pesasse o quanto ainda podia dizer.

— Cuide da sua cabeça. — Ele disse, por fim. — Não deixe eles te quebrarem antes do julgamento. É isso que o sistema faz melhor.

Ele se afastou das grades.

— Eu torço por você, Ricardo. De verdade.

— Obrigado por vir — Respondi.

Henrique assentiu, já caminhando pelo corredor.

— Às vezes, acreditar não basta. Mas ainda assim… é tudo o que a gente tem.

Henrique já estava virando as costas quando parou. Ficou alguns segundos em silêncio, como se estivesse decidindo se cruzava uma linha invisível. Depois voltou.

— Tem uma coisa. — Disse, mais baixo. — Não falo como policial, mas como colega. Como alguém que já viu esse filme antes.

Levantei o olhar.

— Do jeito que está… — Ele continuou — eles vão te pintar como alguém que perdeu o controle. Chegou em casa, encontrou o cara lá dentro e explodiu.

— Mas eu não fiz isso. — Retruquei, quase automático.

— Não importa mais. — Ele respondeu. — O processo não quer saber o que você sente. Ele quer uma história que feche. E está tudo bem fechado.

Henrique se aproximou um pouco mais das grades.

— O histórico entre vocês pesa. A queixa antiga, as discussões, as ameaças… tudo isso cabe perfeitamente numa narrativa de invasão. Confronto. Medo. Reação.

Meu estômago revirou.

— Você está dizendo para eu assumir um crime?

— Estou dizendo pra você sobreviver a ele. — Corrigiu, firme. — Alegar legítima defesa. Mesmo que excessiva.

Balancei a cabeça, incrédulo.

— Ele entrou na minha casa… — Murmurei, mais pra mim do que pra ele.

— Exato. E você reagiu. A situação saiu do controle. Acontece. Já vi isso virar pena mínima. Cinco anos, talvez menos com progressão.

Cinco anos. A palavra ecoou como um tiro abafado.

— E se eu insistir na inocência? — Perguntei.

Henrique suspirou.

— Aí você briga contra as imagens, contra as digitais, contra o tempo. E o sistema não gosta de quem o desafia sem provas.

Ele segurou meu olhar.

— Pensa nisso. Não é desistir. É escolher um caminho menos complicado.

Ficamos em silêncio por alguns segundos.

— Obrigado pela honestidade. — Eu disse, por fim.

Henrique assentiu.

— Às vezes, a verdade não é o bastante. Mas a estratégia… essa ainda pode te salvar.

Ele se afastou.

E eu fiquei ali, encarando a parede fria da cela, com uma pergunta martelando na cabeça: Quanto da minha liberdade eu estaria disposto a sacrificar para sair dali vivo?

Os passos dele se perderam no corredor. E eu fiquei ali. Sozinho de novo. Mas não me sentindo apenas acuado. Me sentindo marcado.

Quase não dormi. Não pelo barulho, nem por medo imediato, mas porque a ideia ficava voltando, insistente, como uma batida dentro da cabeça: “e se eles estiverem certos?” Henrique tinha dito aquilo. O advogado também. Talvez a verdade não bastasse.

Logo cedo, fui levado de volta àquela sala sem janelas, onde o tempo parece não passar direito. O advogado já me esperava, pastas abertas, olhar sério, como quem já tinha ensaiado aquela conversa.

Após um cumprimento rápido, perguntei direto:

— Me fale sobre a estratégia de legítima defesa.

— Se você decidir assumir. — Ele começou, sem rodeios também. — A estratégia muda completamente.

— Me explica. — Pedi. — Como se eu fosse leigo.

Ele assentiu.

— Você chega em casa. Encontra aquele homem lá dentro. Um sujeito que já tinha histórico com você. Que já tinha assediado sua esposa. Que já tinha te acusado falsamente no passado. O ambiente é de ameaça imediata.

Ele fez uma pausa curta, calculada.

— Há um confronto. Não planejado. Caótico. Você entra em pânico.

— E a faca? — Perguntei.

— Um instrumento doméstico. Da sua própria casa. Você pega para se defender. Não para matar.

Meu peito apertou.

— Mas ele foi esfaqueado muitas vezes.

— Excesso. — O advogado respondeu, sem emoção. — Legítima defesa que passou do ponto. A lei prevê isso.

Ele começou a listar, quase como um professor.

— Você é réu primário. Tem bons antecedentes. É ex-policial. A vítima tinha histórico de perseguição. Podemos alegar que nenhuma medida anterior funcionou: boletins de ocorrência, advertências, medidas protetivas… nada fez o homem parar.

Ele me encarou.

— A narrativa é clara: você agiu para proteger sua casa. Sua esposa. Sua família. Em um momento de desespero.

A palavra “desespero” ficou suspensa no ar.

— E a pena? — Perguntei.

— Reduzida. Regime inicial mais brando. Progressão rápida. Cinco anos… talvez menos, dependendo do juiz.

Cinco anos. De novo aquele número.

— A lei não é sobre justiça, Ricardo. — ele completou. — Deveria ser, mas não é. É sobre enquadramento. E, nesse cenário, a lei pode trabalhar a seu favor.

Fiquei em silêncio. Eu sabia que aquela história fechava. Era coerente. Era defensável. E era falsa.

— Eu preciso de um tempo. — Disse, cansado. — Para pensar.

— Pense. Mas não muito. O processo não espera. Precisamos fazer as coisas andarem. — Ele me aconselhou.

Quando voltei para a cela, senti algo diferente. Não era mais só medo. Era a sensação de estar sendo convidado a negociar com a própria verdade.

Passei a manhã inteira andando em círculos, um turbilhão se formava dentro da minha cabeça.

Depois do almoço, chamaram meu nome. Era Mariana vindo me visitar. Ela trouxe uma sacola com roupas limpas, produtos de higiene, alguns livros escolhidos às pressas, romances que eu nunca tinha lido, mas que diziam mais sobre a tentativa dela de me manter inteiro do que sobre distração de verdade.

Ela estava diferente. Não exatamente triste, mas distante. Como se ainda estivesse tentando entender em que ponto da realidade aquilo tudo tinha desandado. E havia algo mais: culpa.

— Você parece… longe. — Eu disse, antes mesmo de pensar se devia. — Preocupada…

Ela me interrompeu quase de imediato, a voz já trêmula.

— E como não estaria? — Respondeu. — Aquele homem entrou na nossa casa, Ricardo. No nosso lugar mais seguro… e olha onde você está agora. Olha como você está.

Os olhos dela se encheram de lágrimas e dúvidas.

— Eu deixei a porta aberta? — Ela perguntou, a voz quebrando. — Eu não vi ele me seguindo? Eu… eu me sinto tão irresponsável. Como eu pude ser tão descuidada?

Ela começou a chorar de verdade, sem tentar se conter. O corpo inteiro tremendo. A Abracei, e seu choro ficou ainda mais forte, mais solto, como se finalmente tivesse permissão para existir.

— Não foi sua culpa. — Eu disse, firme. — Ele era um doente. Um psicopata. Sumiu por um tempo, nos fez acreditar que estava tudo bem…

Ela soluçava contra o meu peito. Segurei seu rosto com cuidado, levantando seu queixo até que me olhasse.

— Isso vai passar. — Falei. — De um jeito ou de outro.

Naquele instante, vendo minha esposa se despedaçar daquele jeito, algo em mim se encaixou. Não era mais sobre o que era justo. Era sobre o que era possível.

— Eu vou aceitar a estratégia do advogado. — Confessei, cansado de negar o óbvio.

Mariana se afastou um pouco, assustada.

— Não. — Ela respondeu de imediato. — Você não fez isso. Eu sei que não fez.

Apertei-a de novo contra mim.

— Não importa mais. — Falei, mais baixo, sem convicção. — Tudo está contra mim. Culpado ou não, eu já estou condenado. O que me resta agora é ser inteligente. Usar o que ainda posso a meu favor.

Ela ficou em silêncio, respirando pesado, tentando entender. Henrique tinha dito aquilo. O advogado também. E agora, ali, com Mariana nos meus braços, eu sabia. Era hora de parar de pensar. E começar a agir.

Depois que Mariana foi embora, o silêncio voltou a se acomodar ao meu redor como uma segunda pele. Voltei para a cela. E, como sempre acontecia quando eu não tinha mais nada a fazer além de esperar, a mente encontrou abrigo no passado.

{…}

7 anos atrás:

No começo da agência, tudo parecia simples. Eu fazia o trabalho pesado. Bruno fazia o resto parecer fácil.

Não era que ele fosse apenas o financiador do negócio, embora o dinheiro inicial tivesse sido dele. Bruno tinha um talento que eu nunca tive: ler pessoas. Ele sabia ouvir o que não era dito, criar confiança onde havia desconfiança, transformar insegurança em contrato assinado.

Enquanto ele falava, eu observava. Enquanto ele prometia, eu entregava. Rapidamente ficou claro que aquela divisão funcionava. Bruno lidava com clientes, entendia dores, inventava narrativas aceitáveis. Eu ia atrás dos fatos. Fotos. Horários. Rastros que ninguém queria que fossem encontrados.

Ele gostava de gente. Eu gostava da verdade. Bruno tinha jogo de cintura. Eu tinha paciência. E, juntos, aquilo parecia uma sociedade equilibrada.

Havia dias em que eu passava horas dentro de um carro, observando alguém que nem sabia que estava sendo observado. Outros em que virava a noite cruzando dados, reconstruindo trajetos, montando um quebra-cabeça invisível.

Quando o resultado vinha, era sempre o mesmo ritual. Bruno apresentava. Eu confirmava. O cliente agradecia aos dois. E, de algum jeito, aquilo nunca me incomodou. Eu não precisava de palco. Nunca precisei.

Na época, eu acreditava que confiança era cada um ocupando seu lugar, sem disputa. Hoje, sentado numa cela fria, me pergunto se aquela divisão tão confortável não tinha me deixado cego demais para quem estava ao meu lado.

A agência não começou grande. No início eram poucos clientes, casos esporádicos, mais favores do que contratos. Dinheiro contado, noites longas, a sensação constante de estar sempre um passo atrás.

No segundo ano algo mudou. O nome começou a circular. Um caso bem resolvido puxou outro. Indicações. Confiança. De repente, eu já não estava apenas investigando traições ou pequenas fraudes. Estava reconstruindo histórias inteiras e desmontando outras.

Eu me joguei de cabeça. E quase não percebi o quanto aquilo começou a ocupar tudo.

Na noite anterior ao meu casamento com Mariana, ela me chamou para conversar. Não foi dramático. Não houve grito. O que houve foi silêncio demais antes das palavras.

— A gente precisa falar. — Ela disse, sentada na beira da cama.

Eu soube na hora que não era sobre flores, convidados ou detalhes da cerimônia.

Ela suspirou um pouco desanimada.

— Eu te amo, Ricardo. De verdade. E eu entendo o que você faz. Entendo as noites fora, as tocaias, as madrugadas em claro… mas eu preciso me sentir prioridade.

Engoli em seco, já prevendo o pior.

— Nos últimos meses. — Ela continuou. — Eu tive dúvidas. Dúvidas reais. Sobre o casamento. Sobre se esse é mesmo o momento certo.

Aquilo doeu mais do que qualquer acusação.

— Eu não quero competir com o seu trabalho. — Ela disse, com os olhos marejados. — Só não quero desaparecer nele.

Fiquei em silêncio por alguns segundos, tentando encontrar palavras que não soassem vazias.

— Eu prometo tentar. — Falei. — Não ser perfeito, mas estar mais presente. De verdade.

Ela me olhou como quem decide confiar mesmo com medo. E confiou.

Nos primeiros dois anos de casados, eu cumpri. Recusei casos. Voltei mais cedo. Aprendi a desligar o telefone, ou pelo menos fingir que desligava. Mariana era prioridade. E, por um tempo, isso bastou.

Mas o crescimento da agência não esperou minha boa intenção. Sem perceber, fui escorregando de volta. Um cliente urgente aqui. Um caso grande ali. Uma noite a mais fora de casa que virava duas. Não por descaso. Por inércia.

E foi aí que Bruno se tornou o elo. Ele estava sempre por perto. Sempre disponível. Sempre presente. Enquanto eu corria atrás de provas, ele ouvia. Consolava. Aconselhava. Sabia a hora de falar, a hora de calar. Equilibrava a agência e a vida social como se fosse natural.

Mariana encontrava nele um apoio que eu, aos poucos, deixei de ser. Bruno, Mariana e Lívia se tornaram inseparáveis. Jantares, conversas longas, risadas que eu só escutava ao chegar tarde demais.

Com o tempo, Mariana parou de cobrar. E eu achei, ingenuamente, que isso significava que estava tudo bem.

Olhando para trás, preso numa cela, eu entendo. Às vezes, quando alguém para de pedir, não é porque não precisa mais. É porque aprendeu a viver sem. Ou porque suas necessidades estão sendo atendidas de alguma outra forma.

E assim a vida seguiu, eu prometendo mais do que cumprindo. Querendo fazer o certo, mas falhando em minhas prioridades.

A festa no sítio da família do Bruno estava do jeito que sempre ficava: barulho, risadas altas, música velha misturada com conversa atravessada. As duas famílias juntas, amigos espalhados pelo quintal, crianças correndo, adultos bebendo como se o tempo tivesse parado.

Eu não consegui aproveitar. Tinha uma tocaia marcada naquela noite. Um caso apertado, prazo estourando, daqueles que não permitem o adiamento. Mariana sabia. Bruno sabia. Todo mundo sabia.

Por volta das nove da noite, me despedi. Beijos rápidos, abraços, promessas de voltar cedo. Promessas que eu já sabia que não cumpriria uma vez mais.

A vigilância foi longa. Silenciosa. Daquelas em que o corpo está presente, mas a cabeça vagueia. Fiquei horas dentro do carro, observando uma rotina alheia, esperando o momento certo que nunca parecia chegar. O frio da madrugada entrando pelas frestas, o café esfriando no copo térmico, a sensação conhecida de estar sempre fora do lugar onde deveria estar.

Quando voltei ao sítio, já passava das quatro da manhã. A casa estava silenciosa. Entrei no quarto que dividia com Mariana sem acender a luz e congelei. Ela não estava sozinha. Mariana dormia no meio da cama. De um lado, Bruno. Do outro, Lívia.

Bruno usava apenas um short. Sem camisa. Lívia estava de calcinha e sutiã. Mariana, de baby doll, curto demais para algo que eu chamaria de casual.

Nenhum deles se mexeu. Por alguns segundos, fiquei ali, parado, tentando convencer a mim mesmo de que estava exagerando. Que era só bebedeira, cansaço. Gente que perdeu a noção da hora e do espaço.

Não tirei conclusões. Peguei um cobertor e fui para o sofá da sala. Dormir foi difícil e acordei com a voz de Mariana me chamando, já de manhã, como se nada tivesse acontecido.

A cozinha estava cheia. Café passado na hora, pão na mesa, risadas soltas. As famílias conversando, Bruno contando alguma história exagerada, Lívia sorrindo como sempre. Tudo normal demais.

Esperei. Só puxei assunto quando ficamos sozinhos, mais tarde, enquanto Mariana tomava banho. Entrei no box com ela, a água quente batendo nos dois, o vapor escondendo nossas expressões.

Foi aí que vi. Marcas discretas, mas ali. Nas coxas, nas nádegas. Meu estômago revirou.

— O que aconteceu ontem à noite? — Perguntei, tentando manter a voz neutra.

Ela me olhou, surpresa, depois relaxou.

— A gente ficou conversando. — Disse. — Bebemos demais. Quando vimos, todo mundo já tinha dormido. Capotamos ali mesmo.

Ela riu de leve, como se fosse óbvio.

— Nada demais.

Eu quis acreditar. E, talvez por covardia, talvez por cansaço, preferi encerrar o assunto.

Aproximei-me mais. Toquei sua pele. Beijei seu pescoço. Mariana correspondeu sem hesitar. Como se não houvesse dúvida alguma entre nós.

A água quente descia pelo meu corpo, mas o peso que eu carregava era mais frio. Olhei para Mariana, de costas para mim, enxaguando os cabelos longos. A curva da sua coluna, aquele arco familiar que já beijei tantas vezes, parecia distante. Meu erro. Minha culpa. Trabalho, estresse, ausência. Palavras vazias que não aqueciam a cama dela à noite.

“Preciso consertar isso. Agora”. Pensei, decidido.

Deslizei as mãos pela sua cintura, surpreendendo-a. Ela parou, as mãos ainda nos fios cheios de espuma

— Ricardo?

— Deixa eu te ajudar. — Minha voz saiu mais rouca do que eu esperava.

As pontas dos meus dedos começaram a trabalhar, massageando com uma pressão lenta, circular. Ela soltou um suspiro quase imperceptível. Um som que eu não ouvia há semanas. Um som de entrega, não de obrigação.

— Você está tensa. — Murmurei, massageando mais suavemente.

— E você não está? — Ela não se virou, mas a pergunta foi suave, sem acusação. Só fato.

— Estou. Por isso estou aqui.

Enxaguei seu cabelo, cuidadoso para que a espuma não escorresse em seu rosto. Quando terminei, a girei devagar para mim. Ela me olhou com seus olhos castanhos escuros, me examinando, procurando sinceridade no meu olhar.

Não disse mais nada, apenas levei a mão ao seu queixo, inclinando seu rosto para cima. A primeira aproximação foi um teste. Meus lábios tocaram os dela com a leveza de uma pergunta. “Você ainda me quer?”

A resposta não veio em palavras, mas no movimento do seu corpo contra o meu, na maneira como seus lábios, inicialmente passivos, se colaram aos meus. Foi um sim sussurrado pela pele.

O beijo começou devagar. Como um reconhecimento. Uma desculpa. Senti o cheiro do sabonete, a umidade quente da sua respiração se misturando com a minha. Meus dedos entrelaçam-se nos cabelos molhados na sua nuca, puxando-a para mais perto, aprofundando o ângulo. Ela gemeu, um som baixo e gutural que se perdeu no vapor.

A intensidade mudou. A língua dela encontra a minha, não numa investida, numa dança lenta, exploratória. A languidez inicial se dissolveu, substituída por uma urgência crescente que me pegou de surpresa. Nossos corpos colados.

Senti os seios pressionando meu peito. A curva do seu quadril sob minha mão livre, puxando-a para que ela sentisse minha ereção, já dura e insistente contra a sua barriga.

Interrompemos o beijo para respirar, nossas testas ainda juntas.

— Você… — Ela tentou dizer, ofegante.

— Shhh. — Interrompi com outro beijo, mais profundo.

Minha boca desceu pelo seu pescoço, saboreando sua pele, a pulsação acelerada na veia jugular. Minhas mãos deslizaram pelas costas, pela fenda das nádegas, puxando-a com mais força contra mim. A fricção deliciosa, torturante.

— Ricardo, assim não dá. — Ela sussurrou, mas suas ainda nas minhas costas, as unhas cravando-se levemente.

— Como que dá, então? — Perguntei, provocando.

Em resposta, ela deslizou uma mão entre nós, envolvendo meu pau com a mão, sorrindo maliciosamente. O contato foi eletrizante, saudoso.

A água quente escorria sobre nós, mas o calor que explodia dentro de mim era de outra ordem. Eu gemi, enterrando o rosto no pescoço dela.

— Assim… — Ela responde, e começou a mover a mão, me punhetando num ritmo lento e prazeroso.

Mas não era sobre mim. Não naquele dia, naquele momento. Eu estava em dívida.

Segurei seu pulso, parando o movimento. Ela olhou, confusa, com os lábios inchados e os olhos vidrados de desejo.

— Minha vez.

Virei-a novamente, de costas para mim. Beijei a junção do pescoço com o ombro, enquanto minhas mãos subiam pelos quadris, passam pela cintura, até encontrarem os seios. Eles cabiam perfeitamente nas minhas mãos. Apertando com suavidade, senti os mamilos já endurecidos contra minhas palmas. Esfreguei com os polegares, em círculos lentos, até sentir o corpo dela se arquear para trás, e um gemido contido escapar dos seus lábios.

— Hummmm… que gostoso.

Uma mão continuou a acariciar um seio, apertando e massageando. A outra desceu, acariciando a barriga, os quadris molhados, até encontrar o triângulo de pelos bem aparados. Ela abriu as pernas num convite silencioso. Meus dedos deslizaram pelos lábios externos, já inchados e quentes, encontrando o grelinho saliente, também inchado, pulsante. Toquei de leve, apenas uma carícia.

— Ahhhhh… — Ela tremeu inteira.

Um dedo… depois dois, deslizaram para dentro dela. Estava quente, apertado, úmido. Comecei a me mover, devagar no começo, sentindo cada dobra, cada contração interna. Minha boca nunca deixou o pescoço dela, beijando, mordiscando levemente.

— Mais rápido. — Ela ordenou, com a voz rouca, em súplica.

Obedeci. O ritmo dos meus dedos acelerou, acompanhado pelo movimento circular do meu polegar em seu clitóris. Seu corpo começou a se contorcer, buscando o atrito, a profundidade. Seus gemidos eram contínuos, abafados pelo som da água, mas altos o suficiente para me inflamar. Senti a tensão crescendo nela, os músculos internos se apertando em volta dos meus dedos.

— Eu vou… Ricardo, eu vou…

— Deixa vir. — Sussurrei no ouvido dela. — Eu te seguro.

E ela se deixou sentir. Um tremor violento a percorreu, das pernas trêmulas até os dedos que se agarravam ao meu braço. Um grito abafado explodiu dos seus lábios enquanto ela se contraia em volta dos meus dedos.

— Ahhhhhh…

Uma onda atrás da outra, úmida e intensa. Eu a segurei firme contra mim, sentindo cada espasmo, cada solavanco, até o último suspiro ofegante escapar dela.

— Isso foi… demais.

Ela ficou mole, apoiada em mim, ofegante. Virei-a de novo. Seu rosto estava relaxado, os olhos meio fechados, uma paz que eu não via há tempos.

Sem dizer nada, eu a levantei, envolvendo suas pernas em volta da minha cintura. Ela se agarrou aos meus ombros, apoiada contra a parede fria do box, pegando no pau com decisão e o apontando para a entrada da xoxota, ainda pulsante e sensível do orgasmo recente.

— Me fode agora. Eu quero… eu preciso de você dentro de mim.

Olhei em seus olhos, vendo o desejo queimando profundo, misturado com a gratidão do orgasmo.

Minhas mãos agarraram seus quadris, os dedos se afundando na carne macia e molhada. A cabeça da pica foi entrando num empurrão lento. A resistência inicial, depois a rendição quente e apertada. Um gemido longo e rouco escapou de nós dois ao mesmo tempo.

— Deus, é bom. É como voltar para casa. — Sussurrei, como uma oração.

Comecei a estocar devagar. Socadas lentas e profundas, retirando-me quase por completo antes de afundar novamente. O ritmo se estabeleceu rapidamente, um entra e sai úmido e rítmico, um vai e volta contra o som da água. Minhas coxas batiam contra as dela.

Ela gemia manhosa, um som contínuo que vibrava pelo pequeno cômodo.

— Assim… não para… não para. — Ela pedia, com as unhas cravando cada vez mais fundo na carne das minhas costas.

Eu não parei. Acelerei. Cada estocada uma tentativa de apagar meses de distância, de ausência. Era físico, brutal, necessário. Sentia os músculos das minhas costas queimando, o suor misturando-se à água. Meu mundo se reduzindo ao aperto úmido que me envolvia, ao cheiro do seu shampoo e do sexo no vapor, ao som dos nossos corpos se encontrando.

Nosso ritmo se transformava em algo mais selvagem, mais urgente, mais desesperado. Para mim era um concurso. As marcas que já estavam lá, contra as novas que eu fazia.

— Você é minha. — Minha voz saiu em um rosnado de afirmação crua, possessiva.

— Sempre. — Ela arfou, e a palavra saiu como um golpe direto no meu peito. “

— Mais forte, Ricardo. Mais rápido, por favor. — Ela exigiu.

Obedeci novamente. Meus quadris se tornam pistões, impiedosos. O box inteiro parecia tremer com a força e ela gritou, um som agudo de puro êxtase.

— Ah, caralho… assim… Ahhhhhh… isso.

Senti a contração interna e irregular dos seus músculos vaginais. Espasmos desesperados, apertando-me de uma maneira que fazia meus olhos revirarem.

Foi quando a porta do banheiro se abriu. O som da maçaneta e um estalo seco. Um rompimento violento na nossa bolha de vapor e intimidade. A luz mais forte do corredor invadiu o espaço embaçado.

Parei no meio do movimento, meu corpo entrando em alerta total. Tentei proteger a nudez de Mariana.

— Porra, desculpa! — A voz do Bruno saiu alta demais, surpresa demais, seguida de uma risada curta, quase nervosa.

Meu coração falhou uma batida antes de disparar num ritmo descompassado. Virei o rosto, ainda colado a Mariana, e vi os dois vultos na porta aberta. Bruno e Lívia.

— Foi mal, foi mal. — Bruno disse, já puxando Lívia pelo braço, tentando recuar. — A gente não sabia que vocês…

— Ah, para. — Ela interrompeu, rindo, sem qualquer constrangimento. — Deixa eu assistir. Parece… interessante.

Senti o sangue subir para o rosto.

— Dá pra sair, por favor? — Minha voz saiu mais dura do que eu pretendia.

Bruno riu de novo, meio sem graça, meio provocador.

— Vocês esqueceram de trancar a porta, não é nossa culpa.

Ele conseguiu arrastar Lívia alguns passos para trás, mas ela ainda olhava por cima do ombro, curiosa demais, confortável demais com a cena.

Foi então que algo me atingiu com mais força do que a invasão em si: Mariana não tentou se afastar. Não tentou se cobrir. Não fez o menor esforço para esconder o corpo. Ela permaneceu ali, totalmente indiferente, mas com os olhos atentos. Não constrangidos, não assustados. Apenas… exposta. Como se não houvesse nada de errado naquelas presenças extras, naqueles olhares a mais.

A porta finalmente se fechou e o silêncio que ficou depois era pesado demais. Eu não sabia dizer exatamente o que tinha acabado de acontecer, nem se aquilo tinha sido mesmo um acidente.

Continua…

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Comentários

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Caraca , o protagonista narrando e pensando foi uma viagem!!!!

Conto de prender a respiração

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Amigo Lukinha, quando teremos a parte 4 desse conto maravilhoso, ancioso por ela, caso possa, me informe ok aosoriorj1950@gmail.com agradeço.

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sinais como tem sido dito tem aos montes, mas quem ama é honesto não consegue ver que a pessoa amada está agindo errado e isso é comum. Por isso doe tanto quando se descobre a traição.

3 estrelas novamente campeão

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Igual o conto do Neto, quando amamos sinais e pequenas desconfianças passam despercebidos

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A narração está boa, apesar de estar beeeem presa ainda.

Sobre o protagonista, tô achando ele bem fraco, a imagem que ele tem dele pode não ser o que ele realmente é.

Até o momento era o empregado do mês da empresa e fornecedor da esposa para o amigo patrão. (O tradicional trouxa)

Por enquanto fico naquele ditado "tem gente que tá no fundo do poço pq merece"

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Quando terminei de ler esse capítulo, me lembrei de um comentário que l Mark fez no conto que ele está publicando: “haverá sinais” !!!

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