Vidro Fumê

Um conto erótico de Fabio N.M
Categoria: Heterossexual
Contém 8162 palavras
Data: 24/01/2026 20:27:21
Última revisão: 24/01/2026 20:29:32

— Conto inspirado na música de Bruno e Marrone —

PARTE I: A DESCOBERTA

A voz do outro lado da linha estava nervosa, quase um sussurro forçado, abafada como se a pessoa falasse com a mão sobre o telefone.

— Sua esposa está te traindo.

Segurei o celular com mais força, os dedos apertando a lateral do aparelho. Estava no escritório, cercado por plantas arquitetônicas espalhadas sobre a mesa, um café esfriando ao lado do mouse. Através da janela, São Paulo fervia sob o sol de novembro — trânsito, buzinas, a vida acontecendo lá fora enquanto a minha desmoronava por dentro.

— Quem é você? — perguntei, mas a voz continuou, atropelando minha pergunta.

— Audi A5 preto, placa JKL-4892, vidro fumê. Shopping Iguatemi. 18h. Ela entra no carro toda semana. Vai ver com seus próprios olhos se não acredita em mim.

Silêncio.

A ligação caiu.

Fiquei olhando para a tela preta do celular por tempo demais, meu rosto refletido ali como uma sombra. Quinze horas e trinta e sete minutos de uma quinta-feira qualquer. O tipo de horário que deveria ser absolutamente irrelevante, mas que eu sabia que nunca mais esqueceria.

Respirei fundo. Meu coração batia rápido, mas minhas mãos estavam estranhamente firmes. Não era choque — era reconhecimento. Como quando você finalmente encontra a peça que faltava num quebra-cabeça que vinha montando sozinho há meses, sem querer admitir que já sabia qual seria a imagem final.

Priscila.

Minha esposa há cinco anos. A mulher que dormia ao meu lado todas as noites, que dividia comigo um apartamento em Perdizes, que ainda sorria quando eu chegava em casa — mas que há meses olhava para mim como quem olha para móvel antigo: com afeto nostálgico, mas sem desejo.

Já desconfiava? Talvez. Ou talvez eu apenas não quisesse ver.

Os sinais estavam todos lá, espalhados pelos últimos meses como migalhas de pão que eu escolhi ignorar:

O celular sempre virado para baixo.

As mensagens que ela demorava horas para responder quando vinham de mim, mas que faziam o aparelho dela vibrar insistentemente à noite, arrancando dela meio-sorriso que nunca era explicado.

O sexo que foi minguando — de três vezes por semana para duas, depois para uma, até que nos últimos meses se tornou quase protocolo. Eu tentava nos dias férteis, seguindo aquele aplicativo ridículo de ovulação que baixei quando decidimos tentar engravidar. Ela aceitava, se abria, gemia baixinho… mas faltava fome. Faltava urgência.

E nos últimos dois meses, ela começou a evitar justamente aqueles dias. Dor de cabeça. Cansaço. Reunião cedo no dia seguinte.

Perfume diferente, às vezes. Não o dela — o Scandal doce que eu conhecia de cor — mas algo amadeirado, masculino, impregnado sutilmente no cabelo quando ela voltava tarde dessas "reuniões com clientes".

Eu não era idiota.

Só era covarde.

Porque enquanto eu não confrontasse, enquanto não soubesse com certeza, ainda podia fingir que tínhamos chance.

Mas agora — agora eu tinha placa, marca do carro, local.

Vidro fumê.

A imagem se formou na minha cabeça sem pedir licença: Priscila entrando num carro de luxo, vidros escuros protegendo o que não deveria existir, escondendo da luz o que acontecia na escuridão.

Olhei para o relógio. 15h42.

Ela tinha me mandado mensagem há uma hora: "Reunião com cliente novo, provável que atrase. Janto fora, te vejo em casa mais tarde. ❤️"

Coração vermelho no final. Como se isso apagasse tudo.

Peguei as chaves do carro.

***

O estacionamento do Shopping Iguatemi estava lotado como sempre às seis da tarde de uma quinta-feira. Vagas disputadas, SUVs importados brilhando sob a luz artificial amarelada, seguranças de colete laranja orientando o fluxo. O ar cheirava a borracha quente e gasolina, som de motores ecoando contra paredes de concreto.

Desci até o segundo subsolo e estacionei com visão clara da entrada principal, duas fileiras mais à frente. Desliguei o motor. O silêncio dentro do carro contrastava com o burburinho distante de portarias batendo, passos apressados, vidas que seguiam em frente enquanto a minha ficava suspensa.

Esperei.

Não sabia o que procurava exatamente. Um Audi A5 preto não é exatamente raro em São Paulo. Mas a voz ao telefone tinha sido tão específica que algo dentro de mim sabia que reconheceria quando visse.

Seis e dez da tarde.

Meu celular vibrou. Mensagem dela: "Reunião acabando. Até logo ❤️"

Merda. Apertei os dedos contra o volante até as juntas ficarem brancas.

Seis e quinze.

E então eu a vi.

Priscila saiu do próprio carro — um Civic prata que eu ajudei a escolher três anos atrás — e caminhou pelo estacionamento com a bolsa a tiracolo. Vestido preto justo até o joelho, salto médio nude, cabelo solto caindo sobre os ombros. Linda como sempre. Minha esposa.

Ela não olhou para os lados. Não hesitou.

Caminhou direto até um Audi A5 preto estacionado no canto mais discreto do subsolo, longe das câmeras, longe do fluxo principal. Vidros completamente opacos, negros como breu sob a luz artificial.

Meu coração parou.

A porta do passageiro se abriu por dentro — ele não saiu para recebê-la, não fez cerimônia — e Priscila entrou no banco da frente. Direta. Como quem já fez aquilo muitas vezes.

A porta fechou.

Por um instante, através do para-brisa ainda transparente, vi a silhueta masculina no banco do motorista. Mais alto que eu mesmo sentado, ombros largos visíveis mesmo na penumbra, cabelo claro contrastando com o interior escuro do veículo. Então ele se inclinou para ela — ou ela para ele — e desapareceram da minha linha de visão.

Fiquei ali, escondido entre pilares de concreto, mãos agarradas ao volante, olhando para aquele carro parado como se ele fosse uma ferida aberta.

Não conseguia ver nada além de silhuetas vagas através dos vidros dianteiros. Os vidros laterais e traseiros eram impenetráveis — fumê absoluto. Impossível distinguir gestos, intenções.

Mas eu não precisava ver.

Cinco minutos se passaram. Dez.

Minha respiração ficou pesada. Mãos suavam. O calor abafado do subsolo grudava na minha pele. Pensei em sair do carro, caminhar até lá, bater no vidro escuro até que ele abaixasse e eu pudesse ver o rosto do homem que estava tocando minha esposa.

Mas não me movi.

Quinze minutos.

O Audi balançou. Levemente. O tipo de movimento que só se percebe quando se olha fixamente, obcecado, como eu estava olhando.

Fechei os olhos. Respirei fundo. Não adiantou.

Vinte minutos.

Ouvi — abafado pelo vidro do meu carro e pelo vidro do dele, distante mas inconfundível — um gemido. Agudo. Conhecido.

O gemido dela.

O mesmo que eu ouvia havia oito anos, desde a primeira vez que a toquei. Aquele suspiro agudo seguido de um gemido contínuo quando ela estava perto do clímax. O som que eu provocava nela.

Ou achava que só eu provocava.

Vinte e cinco minutos.

Trinta.

Não aguentei mais.

Liguei o carro, as mãos tremendo agora, e saí dali antes que eles terminassem. Antes que eu visse Priscila saindo daquele carro com o vestido amassado, o batom borrado, o cabelo desfeito.

Porque se eu visse, seria tarde demais para fingir qualquer coisa.

***

Dirigi de volta para casa no piloto automático. Perdizes. Rua Cardoso de Almeida. Nosso prédio. Terceiro andar. Apartamento 32.

A sala estava silenciosa, móveis organizados, tudo no lugar. A vida que construímos juntos, intacta por fora, podre por dentro.

Fui direto para o banheiro e vomitei.

Não pela traição em si — acho que uma parte de mim já sabia, já tinha processado. Mas pela confirmação. Pelo som do gemido dela. Pela naturalidade com que ela entrou naquele carro, como se fosse rotina, como se eu fosse idiota.

Lavei o rosto. Olhei para o homem no espelho — barba por fazer, olhos cansados, quase quarenta anos, engenheiro bem-sucedido que construiu prédios mas não conseguiu manter o próprio casamento de pé.

Fui para a sala. Peguei uma cerveja na geladeira. Sentei no sofá, TV ligada em algum canal de notícias que eu não estava assistindo.

E esperei.

Sete e meia. Oito. Oito e meia.

A cada meia hora, checava o celular. Nada dela. Será que ainda estava com ele? Será que tinham ido para algum lugar depois? Um motel? O apartamento dele?

Nove horas.

Tomei a terceira cerveja. Depois a quarta. Não ficou mais fácil.

Nove e quinze da noite.

Ouvi a chave girando na fechadura. A porta se abrindo. O barulho familiar da bolsa sendo largada no aparador da entrada.

— Amor? — A voz dela ecoou pelo corredor. Doce. Cansada. Comum.

— Aqui — respondi, sem tirar os olhos da TV.

Priscila apareceu na sala, e eu a vi sem filtro pela primeira vez em meses.

O vestido estava levemente amassado na altura da cintura, vincos que não estavam lá de manhã. O cabelo, que de manhã estava impecável, agora tinha aquele aspecto de quem passou a mão tentando arrumar às pressas. Os lábios, nus — ela tinha saído de casa com batom vermelho.

Ela tinha tomado banho. O cabelo nas pontas ainda estava levemente úmido. Provavelmente no banheiro do shopping, ou talvez no apartamento dele, tentando apagar vestígios.

Mas o perfume estava lá.

Não o dela. Outro. Amadeirado, marcante, caro. Tom Ford, talvez. Impregnado sutil na pele do pescoço, no cabelo.

— Tudo bem? — ela perguntou, vindo até mim, e percebi que ela estava analisando meu rosto, procurando algo.

— Tudo — respondi. Até sorri. Foi mais fácil do que imaginei. — Reunião boa?

— Cansativa — ela desviou o olhar, só por um segundo, mas eu notei. — Cliente muito detalhista. Vou tomar um banho rápido e já volto, ok?

Segundo banho.

— Ok.

Ela se inclinou e beijou minha testa, gesto automático de cinco anos de casamento. Senti o cheiro dele mais forte ali, na pele dela, no cabelo.

Deixei.

Ela desapareceu pelo corredor. Ouvi a porta do quarto fechar. A água do chuveiro começar a cair — terceiro banho do dia, contando o da manhã.

E então, como se meu corpo tivesse vontade própria, levantei do sofá e fui até o quarto.

Eu ainda não sabia exatamente o que faria.

Mas sabia que aquela seria a última noite.

PARTE II: A ESPERA

A porta do quarto estava entreaberta. Luz do abajur acesa, aquela luz âmbar suave que Priscila preferia. Do banheiro vinha o som da água caindo, vapor escapando pela fresta da porta.

Entrei.

A bolsa dela estava largada sobre a cama king size, lençóis cinza carvão ainda arrumados — não tínhamos dormido ali na noite anterior. Eu tinha saído cedo para a obra, ela ainda dormia. Parecia uma eternidade atrás.

O vestido preto estava jogado sobre a poltrona do canto. Salto nude no chão, tombado de lado.

E o celular.

iPhone dela, tela acesa, sobre a mesinha de cabeceira.

Desbloqueado.

Fiquei parado olhando para aquela tela iluminada como se fosse armadilha. Uma parte de mim — a parte que ainda queria acreditar, a parte covarde — gritava para eu sair dali, voltar para a sala, fingir que nada estava acontecendo.

Mas a outra parte, a parte que tinha passado trinta minutos olhando para um carro balançando num estacionamento escuro, a parte que tinha ouvido o gemido dela, essa parte precisava saber.

Peguei o celular.

***

A tela mostrava a conversa aberta. WhatsApp. Última mensagem enviada às 21h02, treze minutos antes de ela chegar em casa.

Priscila: Saindo. Até semana que vem ❤️

Coração vermelho. O mesmo que ela mandava para mim.

O nome do contato era apenas "Guilherme". Sem sobrenome. Sem foto de perfil — apenas as iniciais "G" num círculo cinza.

Como se pudesse esconder.

Rolei para cima. Mensagens de hoje, antes dela sair de casa.

Guilherme (17h55): Chegando. Estou com saudades do seu gosto.

Saudades do gosto dela.

Priscila (17h58): Eu também. Saindo agora.

Guilherme (18h02): Fica molhada só de pensar?

Priscila (18h05): Sim.

Uma palavra. Simples. Suficiente para confirmar tudo.

E dez minutos depois, às 18h15, ela estacionou o Civic e caminhou até o Audi preto.

***

Rolei mais. Três dias atrás.

Guilherme (terça, 19h05): Abre as pernas pra mim.

Uma imagem carregou na tela.

Parei de respirar.

Era ela. Coxas. Sentada — reconheci o sofá da nossa sala pelo tapete bege ao fundo. Vestido erguido, calcinha preta aparecendo entre as pernas levemente abertas.

A calcinha que ele tinha mencionado.

Ela tinha tirado essa foto aqui. Na nossa casa. Para ele.

Guilherme (19h08): Perfeita. Quinta vou arrancar isso com os dentes.

Priscila (19h12): 🔥

***

Sentei na beirada da cama, longe o suficiente para ouvir se a água parasse de cair. As mãos tremiam. O chuveiro ainda estava ligado, Priscila cantarolava baixinho lá dentro — alguma música pop que eu não reconhecia.

Conseguia cantar. Depois do que fez, conseguia cantar.

Rolei mais. Cinco dias atrás.

Guilherme (sábado, 18h10): Quero ver tudo dessa vez.

Outra imagem.

Seios. Os seios dela. Sutiã de renda preta puxado para baixo, mamilos expostos. Ângulo de cima para baixo, ela segurando o celular, rosto fora do quadro.

Seios que eu conhecia de cor. Que eu tinha tocado mil vezes. Fotografados para outro homem.

Fechei os olhos. Respirei fundo.

Não adiantou.

***

Continuei rolando. Uma semana atrás. Dez dias. As mensagens ficavam mais frequentes quanto mais eu subia — novembro inteiro era assim, diárias, múltiplas por dia, como se eles não conseguissem ficar sem falar.

Mas quando começou?

Precisava saber.

A raiva deu lugar a outra coisa: necessidade doentia de entender. De ver o momento exato em que a perdi.

Rolei furiosamente. Outubro. Setembro. Agosto. Meu polegar deslizando pela tela, fazendo semanas desaparecerem em segundos.

Até que não tinha mais para onde rolar.

Julho. Primeira mensagem.

Parei.

***

Guilherme (12 de julho, 14h23): Oi, Priscila. Guilherme Castro, consultor do Ricardo. Podemos alinhar aquela estratégia de conteúdo que comentamos na reunião? Se preferir, podemos marcar um café.

Profissional. Cordial. Inocente.

Priscila (14h40): Oi, Guilherme! Claro, café seria ótimo. Quando você pode?

Dezessete minutos para responder. Ela tinha hesitado? Ou apenas estava ocupada?

Guilherme (14h42): Amanhã, 15h? Conheço um lugar bom no Itaim.

Priscila (14h45): Perfeito. Me manda o endereço.

Foi aqui.

13 de julho. Há quatro meses. Um café no Itaim.

Foi aqui que começou.

Olhei para a data. Julho. Eu lembrava de julho. Ainda éramos normais. Transávamos regularmente. Ela sorria quando eu chegava em casa. Falávamos sobre tentar engravidar "daqui a uns meses, quando a vida estabilizar um pouco mais".

Enquanto isso, ela marcava café com ele.

***

Respirei fundo. A água do chuveiro ainda caía. Priscila ainda cantarolava.

Eu tinha tempo.

Voltei para a primeira mensagem e comecei a ler. Tudo. Do início.

Cronologicamente.

Como história.

A história de como perdi minha esposa.

***

As primeiras semanas eram profissionais. Discussões sobre estratégia digital, métricas, público-alvo. Mensagens espaçadas, educadas.

Mas então, 22 de julho:

Guilherme (22h34): Você é bem mais inteligente do que o Ricardo fez parecer na apresentação.

Priscila (22h50): Haha obrigada... eu acho. 😅

Guilherme (22h52): É elogio. Gostei de trabalhar com você hoje.

Priscila (22h55): Também gostei.

Parei ali.

"Trabalhar".

Eles não tinham trabalhado no dia 22 de julho. Era domingo. Eu lembrava — tínhamos ido ao cinema à tarde, assistimos algum filme de ação que eu escolhi e ela fingiu gostar.

Ela tinha "trabalhado" com ele no domingo?

Ou era mentira compartilhada, código entre eles?

***

26 de julho:

Guilherme (19h15): Pergunta aleatória: qual seu vinho preferido?

Priscila (19h20): Malbec. Por quê?

Guilherme (19h22): Curiosidade. Gosto de conhecer as pessoas com quem trabalho.

Priscila (19h28): "Conhecer" ou investigar? 🤔

Guilherme (19h30): As duas coisas. Você é interessante.

Priscila (19h35): Cuidado, elogio demais eu acredito.

Guilherme (19h37): Então acredita.

Ela demorou quinze minutos para responder depois disso.

Não disse nada. Apenas um emoji: 😊

Ele a estava fisgando. E ela estava deixando.

***

Agosto começou diferente. As mensagens ficaram mais frequentes. Diárias.

Guilherme (3 de agosto, 8h12): Bom dia. Reunião chata hoje?

Bom dia. Ele começou a dar bom dia.

Priscila (8h25): Oi! Nem tanto, só longa. Você?

Guilherme (8h27): Pensei em você ontem.

Ele não disfarçou. Não disse "pensei no projeto" ou "pensei na estratégia".

Pensei em você.

Priscila (8h35): ?

Guilherme (8h36): Vi uma mulher no restaurante ontem. Cabelo parecido com o seu. Não era você, mas me fez lembrar.

Priscila (8h42): Guilherme…

Guilherme (8h43): Desculpa se foi demais. Mas é verdade.

Priscila (8h50): Não foi demais.

Oito minutos para responder.

Ela tinha pensado. Considerado. Poderia ter recuado, estabelecido limite, dito "vamos manter profissional".

Não disse.

***

12 de agosto:

Guilherme (21h40): Você já pensou em mim?

Direto. Sem rodeios.

Priscila (21h55): Guilherme, eu sou casada.

Quinze minutos. Ela tinha lutado com a resposta.

Guilherme (21h56): Eu sei. Não perguntei se você é casada. Perguntei se já pensou em mim.

Priscila (22h10): ...

Reticências. Silêncio eloquente.

Guilherme (22h12): Vou assumir isso como sim.

Priscila (22h20): A gente não deveria estar tendo essa conversa.

Guilherme (22h22): Mas estamos. E você ainda não me bloqueou.

Ela não respondeu mais naquela noite.

Mas também não bloqueou. Não parou de falar com ele.

***

20 de agosto:

Guilherme (16h30): Almoça comigo amanhã?

Priscila (16h50): Não sei se é boa ideia.

Guilherme (16h52): É só almoço. Lugar público. Seguro.

Priscila (17h10): Ok. Onde?

Ela cedeu.

Vinte minutos de resistência, depois: ok.

***

Minha cabeça reconstruiu involuntariamente: 21 de agosto, uma quarta-feira. Eu lembrava. Ela tinha dito que ia "almoçar com Jamile". Voltou para casa tarde, umas 16h, disse que tinham ido ao shopping depois.

Mentira.

Estava com ele.

***

28 de agosto:

Guilherme (23h05): Não consigo parar de pensar em você.

Priscila (23h20): Para.

Guilherme (23h22): Você quer que eu pare?

Priscila (23h35): Não sei o que eu quero.

Guilherme (23h37): Eu sei o que eu quero.

Priscila (23h40): O quê?

Guilherme (23h42): Você. Sem roupa. Gemendo meu nome.

Ela poderia ter bloqueado ali. Deveria.

Priscila (23h55): Guilherme…

Guilherme (23h56): Quinta. 19h. Shopping Iguatemi, estacionamento. Vem.

Não era pedido. Era instrução.

Priscila (00h02): Eu não deveria.

Guilherme (00h03): Mas você vai.

Silêncio.

5 de setembro:

Priscila (19h25): Saindo.

Uma palavra. Decisão tomada.

Guilherme (19h27): Te espero.

***

Depois daquela noite, explosão.

Priscila (22h40): Cheguei em casa.

Guilherme (22h42): Ainda sente?

Priscila (22h45): Sim.

Guilherme (22h47): Bom. Quero que sinta até amanhã.

Priscila (22h50): Isso foi…

Guilherme (22h51): Foi o quê?

Priscila (22h55): Intenso.

Guilherme (22h57): Foi só o começo.

***

5 de setembro.

Enquanto ela transava com ele pela primeira vez, eu estava… onde?

Conferi meu calendário mental. Quinta-feira, início de setembro. Reunião com fornecedores até 18h30. Cheguei em casa 19h45.

Ela já estava lá. Banho tomado. Jantar pronto. Sorrindo.

Me beijou quando entrei.

E eu não percebi nada.

***

Setembro inteiro foi assim. Mensagens diárias, múltiplas. Eles não conseguiam ficar sem falar.

Guilherme (8 de setembro): Bom dia, linda.

Priscila: Bom dia ❤️

Guilherme (12 de setembro): Tô com saudades do seu gosto.

Priscila: Hoje não vai dar…

Guilherme: Amanhã então.

Priscila: Tá.

Guilherme (18 de setembro): Você geme tão gostoso.

Priscila: Para, tô no trabalho 😳

Guilherme: Por isso que eu mandei. Quero você pensando em mim o dia todo.

***

26 de setembro:

Guilherme (20h15): Seu marido sabe te fazer gozar?

Parei de respirar.

Priscila (20h30): Não fala dele.

Quinze minutos para responder. Desconforto.

Guilherme (20h32): Por quê? Ele existe. Você volta pra ele toda noite.

Priscila (20h40): Guilherme…

Guilherme (20h42): Mas quando você goza, tá pensando em quem?

Ela não respondeu.

Guilherme (20h55): Silêncio é resposta.

No dia seguinte:

Guilherme (8h20): Desculpa por ontem. Passei do ponto.

Priscila (8h35): Tudo bem.

Guilherme (8h37): Quinta, 19h?

Priscila (8h40): Sim.

Ele testou limite. Ela recuou. Ele pediu desculpas.

E ela voltou.

***

Outubro trouxe algo novo.

Guilherme (3 de outubro, 15h20): Manda uma foto.

Priscila (15h25): Que tipo de foto?

Guilherme (15h26): Você sabe que tipo.

Cinco minutos depois, ela enviou.

Close dos lábios. Entreabertos, brilho natural. Ângulo de cima para baixo, submissa.

Aqueles lábios que eu beijava toda noite.

Guilherme (15h32): 🔥 Linda. Mas quero mais.

Priscila (15h35): Não posso agora, tô na rua.

Guilherme (15h37): Depois então.

***

8 de outubro:

Guilherme (16h40): Cadê minha foto?

Priscila (16h50): Impaciente…

Imagem recebida.

Decote. Blusa puxada para baixo, curva dos seios sem mostrar mamilos. Sutiã de renda preta.

Guilherme (16h52): Tira o sutiã.

Priscila (17h05): Guilherme…

Guilherme (17h06): Por favor?

Dez minutos.

Outra imagem.

Seios expostos. Mamilos à mostra.

Guilherme (17h08): Perfeita. Quinta eu vou chupar esses seios até você implorar.

***

15 de outubro, áudio de Guilherme (1min 23seg):

Coloquei o fone de ouvido que estava sobre a mesinha. Apertei play.

A voz dele era grave, confiante, com um sotaque carioca leve.

"Tô pensando no que vou fazer com você quinta que vem. Vou te beijar devagar primeiro, só pra sentir você ficando desesperada. Depois vou tirar essa roupa peça por peça. Vou te comer no banco até você gozar gritando meu nome. E quando você achar que acabou, vou fazer de novo. Porque eu não canso de você. Eu poderia te foder a tarde inteira e ainda querer mais."

Tirei o fone.

As mãos tremiam. A raiva estava lá, fervendo sob a superfície.

Mas havia outra coisa também. Algo que me enojava admitir.

Meu pau estava duro.

Eu estava excitado ouvindo o cara que estava fodendo minha esposa descrever como foderia ela.

***

21 de outubro:

Guilherme (20h34): Aposto que seu marido nem sabe o que fazer com uma mulher como você.

Priscila (20h45): …

Guilherme (20h47): Aposto que ele te trata como porcelana. Delicada demais pra quebrar.

Priscila (20h50): Ele me trata bem.

Guilherme (20h52): "Bem" não é o mesmo que "do jeito que você precisa".

Priscila (21h00): E você sabe do que eu preciso?

Guilherme (21h02): Sei. Você precisa ser fodida de verdade. Não "fazer amor". Ser fodida. Daquele jeito que faz você esquecer o próprio nome.

Priscila (21h10): 🤤

Emoji de baba.

Enquanto outro homem falava do marido dela — de mim — como se eu fosse incompetente, ela reagia com desejo.

***

Novembro foi quando virou hábito.

As mensagens continuaram diárias, mas o tom mudou. Menos urgência, mais familiaridade.

Guilherme (2 de novembro): Quinta, 19h.

Priscila: Ok.

Guilherme (9 de novembro): Mesmo lugar, 19h.

Priscila: Tá.

Funcional. Como marcar reunião.

Mas as fotos continuaram.

Guilherme (19 de novembro, terça): Abre as pernas pra mim.

A foto das coxas, calcinha preta, sala da nossa casa.

Guilherme (21 de novembro, quinta - ontem): Quinta, 19h. Vem com aquela calcinha que eu gosto.

Priscila: E se eu não for?

Guilherme: Você vai.

E ela foi.

Hoje. Algumas horas atrás.

Enquanto eu trabalhava no escritório, recebendo ligação anônima dizendo que minha esposa estava me traindo, ela estava se preparando para ir encontrá-lo.

Enquanto eu dirigia até o Iguatemi, coração acelerado, mãos suando, ela entrava no carro dele.

Enquanto eu assistia aquele Audi balançar por trinta minutos, ela gemia o nome dele.

E enquanto eu vomitava no banheiro de casa, ela tomava banho no shopping, limpando vestígios, para voltar e me beijar na testa como se nada tivesse acontecido.

***

A água parou.

Silêncio súbito.

Travei o celular rápido e coloquei de volta sobre a mesinha, exatamente onde estava. Minha respiração estava pesada, irregular.

Quatro meses.

Não foi impulso. Não foi erro. Não foi "aconteceu sem querer".

Foi processo.

Ele a conquistou. Passo a passo. Mensagem por mensagem. Café, almoço, primeiro encontro, primeira foto, primeira vez que ela gemeu o nome dele.

E eu assisti tudo em retrospectiva. Impotente. Vendo cada momento em que poderia ter percebido, cada sinal que ignorei, cada mentira que acreditei.

Levantei da cama. Fui até a janela. São Paulo lá fora, luzes da cidade, vidas acontecendo.

Priscila saiu do banheiro.

***

Voltei para a sala antes que ela me visse no quarto. Sentei no sofá. TV ligada, volume baixo, qualquer canal.

Cinco minutos depois, ela apareceu.

Cabelo úmido, solto sobre os ombros. Roupão branco de algodão. Pés descalços. Rosto limpo, sem maquiagem. Linda.

Minha esposa.

A mulher que passou quatro meses sendo seduzida por outro homem enquanto eu planejava nosso futuro.

— Você jantou? — ela perguntou, vindo até o sofá, sentando ao meu lado, pernas dobradas, encostando a cabeça no meu ombro.

Gesto automático. Conforto de rotina.

— Não — respondi, passando o braço ao redor dela, puxando para mais perto. — Você?

— Comi alguma coisa na reunião.

Mentira.

Mas deixei passar.

Ela suspirou, relaxando contra mim. Cheiro de xampu, sabonete. E embaixo, muito sutil, aquele perfume amadeirado. Dele.

Fiquei olhando para ela. Cabelo ainda úmido caindo sobre o ombro, perfil delicado iluminado pela luz da TV. Ainda linda. Ainda minha. Por enquanto.

Eu sabia o que ia fazer. Não com palavras. Com o corpo.

Toquei o rosto dela. Priscila ergueu os olhos, surpresa — fazia semanas que eu não a tocava assim, sem ser durante o sexo protocolar dos dias férteis.

— Matheus?

Não respondi.

Apenas me inclinei e a beijei. Devagar. Profundo. Do jeito que eu não beijava há meses.

Senti ela hesitar por um segundo — culpa, talvez, ou cansaço de ter transado há poucas horas — mas então ela respondeu, lábios se abrindo, língua encontrando a minha. Quando me afastei, ela estava sem fôlego.

— Quarto — disse. — Agora.

Ela piscou, confusa, mas pegou minha mão quando estendi.

Eu a puxei do sofá e a levei pelo corredor.

A última noite começou.

PARTE III: A ÚLTIMA NOITE

O quarto estava como eu tinha deixado minutos atrás. Abajur aceso, luz âmbar suave. Lençóis cinza ainda arrumados. O celular dela de volta sobre a mesinha, tela apagada agora, guardando segredos que eu já conhecia.

Fechei a porta atrás de nós.

Priscila ficou parada no meio do quarto, olhando para mim com aquela expressão meio confusa, meio curiosa. O roupão branco de algodão fechado na cintura, cabelo úmido caindo sobre os ombros, pés descalços no chão de madeira.

— Matheus, o que foi? — ela perguntou, voz baixa. — Você está… diferente.

Diferente.

Ela não sabia o quanto.

Não respondi. Apenas me aproximei, devagar, até ficar a centímetros dela. Perto o suficiente para sentir o calor do corpo dela através do tecido fino, o cheiro de xampu e sabonete ainda fresco do banho.

Toquei o rosto dela com as costas dos dedos. Deslizei pela linha do maxilar, pelo pescoço, sentindo a pele macia, quente.

Ela fechou os olhos ao toque.

— Matheus…

Segurei o rosto dela com as duas mãos e a beijei.

Não foi o beijo rápido da rotina, aquele beijo de boa noite mecânico que trocávamos há meses. Foi devagar. Profundo. Explorando. Como se fosse a primeira vez. Ou a última.

Senti ela derreter contra mim, corpo relaxando, mãos subindo até meu peito. Quando mordi levemente o lábio inferior dela, Priscila gemeu baixinho — aquele suspiro agudo que eu conhecia de cor.

O mesmo que eu tinha ouvido horas atrás vindo de dentro de um carro de vidro fumê.

Afastei a boca dela só o suficiente para olhar nos olhos. Castanhos, dilatados, confusos.

— Deita — disse.

Ela hesitou. Só um segundo. Depois obedeceu.

Priscila se sentou na beirada da cama, depois deitou de costas, cabelo espalhando sobre o travesseiro. O roupão tinha se aberto levemente na altura das coxas. Ela não fechou.

Fiquei de pé, observando.

Minha esposa. Há cinco anos. A mulher que eu conhecia de cor — cada curva, cada marca de nascença, cada som que fazia quando estava excitada.

Mas também a mulher que eu não conhecia mais. A que mandava fotos dos seios para outro homem. A que gemia o nome dele. A que tinha vida secreta há quatro meses.

Ambas ali. No mesmo corpo.

— Você vai ficar aí só olhando? — Priscila perguntou, e havia um meio-sorriso nos lábios. Provocação. Como ela fazia no início, quando ainda brincávamos assim.

— Vou — respondi. — Quero te ver.

O sorriso dela vacilou. Algo no meu tom — talvez a intensidade, a seriedade — a deixou sem graça.

— Matheus, sério, você está estranho hoje. Aconteceu alguma coisa?

— Não — menti. — Só… senti sua falta.

Não era mentira completa. Eu sentia falta dela. Da Priscila de oito anos atrás. Da que me olhava como se eu fosse o único homem no mundo.

Tirei a camisa. Depois a calça. Fiquei só de cueca, e mesmo na penumbra do quarto dava pra ver que eu estava duro.

Priscila notou. Os olhos dela desceram, subiram de volta pro meu rosto.

— Vem — ela disse, estendendo a mão.

Fui.

Deitei ao lado dela, apoiado no cotovelo, corpo voltado pra ela. Passei a mão pela lateral do roupão, sentindo a curva da cintura, do quadril. Priscila respirou fundo.

— Faz tempo — ela sussurrou.

— O quê?

— Que você me toca assim. Devagar. Como se… tivesse tempo.

Nos últimos meses, nosso sexo tinha virado funcional. Rápido. Eficiente. Dias férteis, aplicativo de ovulação, posição missionária, ele gozava, ela às vezes gozava, dormíamos.

Eu tinha parado de tocá-la como se ela importasse.

E outro homem começou.

— Hoje eu tenho tempo — disse, e puxei o nó do roupão.

O tecido se abriu. Ela estava nua por baixo.

Fiquei olhando. Simplesmente olhando.

Seios fartos, mamilos já endurecidos pelo ar frio do quarto. Barriga com aquela leve curva que ela sempre reclamava mas que eu adorava. Quadris largos, coxas grossas, entre as pernas o triângulo escuro de pelos aparados.

Linda.

Outro homem tinha visto ela assim. Tocado assim. Provado assim.

A raiva queimou no peito, mas empurrei pra baixo. Hoje não era sobre raiva.

Inclinei e beijei o pescoço dela. Devagar. Descendo pela clavícula. Pelo espaço entre os seios. Priscila arqueou levemente as costas, mãos subindo pro meu cabelo.

— Matheus…

Ignorei, continuando a descida. Beijei a barriga dela, a linha do quadril, a parte interna das coxas. Ela abriu as pernas instintivamente, respiração ficando irregular.

Olhei pra cima. Priscila me observava, apoiada nos cotovelos, olhos escuros, lábios entreabertos.

— Relaxa — disse. — Deixa comigo.

Ela deitou a cabeça de volta no travesseiro.

E eu coloquei a boca nela.

***

Priscila gemeu alto quando minha língua tocou o clitóris. Mãos agarraram o lençol. Pernas tremeram.

Fazia meses que eu não fazia isso. Sexo oral tinha virado… opcional. Coisa que pulávamos pra ir direto ao ponto.

Mas hoje eu queria. Precisava.

Lambi devagar, explorando, redescobrindo. Ela já estava molhada — talvez ainda do encontro com ele horas atrás, talvez excitação nova, não importava.

Chupei o clitóris, depois soltei, alternando ritmo. Rápido, devagar. Forte, suave. Lendo o corpo dela, os gemidos, a forma como as coxas apertavam contra minha cabeça quando estava perto.

— Matheus, porra… — ela ofegou, quadris se mexendo involuntariamente.

Continuei. Coloquei dois dedos dentro dela, curvando, procurando aquele ponto. Encontrei. Priscila gritou.

— Caralho, assim, não para…

Não parei. Boca no clitóris, dedos trabalhando, sentindo ela apertar ao redor. A respiração dela ficou irregular, entrecortada.

— Vou gozar — ela avisou, voz quebrada. — Matheus, eu vou…

E gozou.

O corpo dela inteiro se contraiu, costas arqueando, boca aberta num gemido longo. Senti ela pulsando ao redor dos meus dedos, molhando minha mão, meu rosto.

Continuei até ela empurrar minha cabeça, sensível demais.

***

Subi pelo corpo dela, beijando a barriga, os seios, o pescoço. Quando cheguei na boca, ela me beijou com fome, lambendo os próprios fluidos dos meus lábios.

— Caralho — ela sussurrou contra minha boca. — Esqueci como você é bom nisso.

Esqueceu.

Porque eu tinha parado de fazer. Tinha parado de tratá-la como se ela merecesse ser desejada.

E Guilherme não tinha parado.

Tirei a cueca. Meu pau estava dolorosamente duro. Priscila olhou pra baixo, depois de volta pros meus olhos.

— Vem — ela disse, abrindo mais as pernas.

Posicionei entre elas. A cabeça roçou a entrada dela. Molhada, quente, convidativa.

Entrei devagar.

***

Priscila fechou os olhos, boca se abrindo num suspiro. Eu também fechei os meus, só sentindo.

Apertada. Quente. Perfeita.

Minha esposa.

Comecei a me mover. Devagar. Saindo quase completamente, depois entrando fundo de novo. Estabelecendo ritmo lento, controlado.

— Olha pra mim — pedi.

Ela abriu os olhos. Castanhos encontrando os meus.

E fodemos assim. Olhos nos olhos. Eu entrando e saindo devagar, ela gemendo baixinho a cada estocada, mãos nas minhas costas, unhas arranhando levemente.

— Você está diferente — ela sussurrou entre gemidos. — Mais… intenso.

Não respondi. Apenas beijei ela, profundo, enquanto continuava me movendo.

Os gemidos dela ficaram mais altos. Senti ela apertar ao redor de mim.

— De novo — ela ofegou. — Caralho, Matheus, vou gozar de novo…

— Goza — ordenei. — Goza pra mim.

E ela obedeceu.

O segundo orgasmo foi mais intenso que o primeiro. Priscila gritou meu nome — meu nome — enquanto as unhas cravavam nas minhas costas, corpo inteiro tremendo embaixo do meu.

Senti ela pulsando, apertando, me puxando pra dentro.

Foi quase demais. Quase gozei junto.

Mas parei. Respirei fundo. Segurei.

Ainda não.

***

Santorini. Hotel Caldera View Suites. Quarto com vista pro mar Egeu.

Primeiro dia de casados. Manhã de sol. Priscila nua, sentada em cima de mim na cama king size, cabelo preto caindo em cascata sobre os ombros, seios balançando enquanto ela cavalgava.

Ela montada de costas pra mim, eu vendo a bunda dela subir e descer, o pau sumindo e aparecendo entre as pernas dela.

— Matheus — ela gemeu, olhando por cima do ombro pra mim. — Olha pra mim.

Nossos olhos se encontraram. Ela sorriu. Aquele sorriso de felicidade pura.

— Esse é o melhor dia da minha vida — ela disse.

E começou a chorar.

Não de tristeza. De alegria.

Lágrimas escorrendo pelo rosto enquanto ela gozava, enquanto eu gozava dentro dela, enquanto o sol da Grécia entrava pela janela iluminando tudo.

Éramos perfeitos naquele momento.

Éramos para sempre.

***

Voltei ao presente.

Priscila ofegante embaixo de mim, suor na testa, olhos vidrados de prazer. Minha esposa.

Cinco anos depois daquele dia em Santorini.

Quatro meses depois de outro homem entrar na vida dela.

Algumas horas depois de ela gemer no carro dele.

— Matheus? — ela chamou, confusa pela minha pausa. — Tudo bem?

— Tudo — menti. — Vira de bruços.

***

Ela obedeceu, virando o corpo. Ficou de quatro, bunda empinada pra mim, olhando por cima do ombro.

Essa visão. Quantas vezes Guilherme tinha visto ela assim?

A raiva voltou. Mais forte agora.

Segurei os quadris dela com força — mais força do que pretendia. Ela não reclamou.

Posicionei e entrei de uma vez. Fundo.

Priscila gritou.

— Caralho!

Não dei tempo pra ela se ajustar. Comecei a foder. Rápido. Forte. As estocadas fazendo barulho, pele batendo em pele, a cama rangendo.

— Assim? — perguntei, voz saindo mais rouca, mais dura. — Você gosta assim?

— Porra, sim! — ela gemeu, empurrando de volta contra mim. — Não para!

Segurei o cabelo dela, puxando levemente. A cabeça dela inclinou pra trás. Inclinei junto, beijando o pescoço dela, mordendo levemente.

— De quem você é? — sussurrei no ouvido dela.

Não sei por que perguntei. As palavras saíram sozinhas.

— Sua — ela ofegou. — Sou sua, Matheus…

Mentira.

Mas naquele momento, eu quase acreditei.

Soltei o cabelo dela e empurrei as costas pra baixo. Priscila ficou com o rosto no travesseiro, bunda ainda empinada.

Deitei sobre ela, peso do meu corpo prensando ela no colchão, e continuei fodendo.

Mais fundo assim. Mais intenso.

Priscila não conseguia nem gemer direito, só sons abafados pelo travesseiro, mãos agarrando os lençóis.

— Goza — ordenei. — De novo. Goza pra mim.

E ela obedeceu.

Terceiro orgasmo. O corpo dela tremeu inteiro embaixo do meu, gritando no travesseiro. Senti ela apertar violentamente ao redor de mim.

Não consegui segurar dessa vez.

Gozei junto. Fundo dentro dela. Pulso após pulso, esvaziando tudo.

Desabei sobre ela, respiração irregular, coração batendo como tambor.

Ficamos assim por um minuto. Dois. Eu ainda dentro, ela ainda tremendo de vez em quando com espasmos do orgasmo.

Finalmente saí. Rolei pro lado.

Priscila virou o rosto pra mim, cabelo grudado no rosto pelo suor, olhos brilhando.

— Caralho — ela sussurrou. — O que foi isso?

— Não sei — respondi. E era verdade.

Não sabia se era amor, raiva, desespero ou despedida.

Talvez tudo junto.

***

Ela se virou de lado, aninhando contra mim. Coloquei o braço ao redor dela.

— Matheus…

— Hm?

— Eu te amo.

As palavras perfuraram como faca.

Ela amava. Provavelmente era verdade.

Só não era suficiente.

— Também te amo — disse.

Não sei se era mentira.

Ficamos em silêncio. A respiração dela foi normalizando, ficando lenta, pesada. Alguns minutos depois, ela dormiu.

Fiquei acordado. Olhando pro teto. Sentindo o corpo dela contra o meu, quente, macio, familiar.

Olhei pro relógio na mesinha. 23h45.

O celular dela estava ao lado. Tela apagada. Quieto.

Guilherme provavelmente já tinha mandado mensagem. "Chegou bem?" ou "Já tô com saudades" ou alguma merda assim.

E amanhã ela responderia. E semana que vem iriam se encontrar de novo. No mesmo estacionamento, no mesmo carro, os mesmos vidros fumê protegendo o pecado.

A não ser que…

Priscila se mexeu, ainda dormindo, virando pro outro lado.

Levantei devagar, cuidado pra não acordá-la.

Eram quase meia-noite. Mas a noite ainda não tinha acabado.

***

1h30 da manhã.

Priscila dormia de lado, costas pra mim, respiração lenta e profunda.

Eu tinha ficado acordado olhando pra ela. Pensando. Sentindo.

A raiva tinha ido embora. A dor também. Só restava... vazio. E uma certeza.

Isso ia acabar. Hoje.

Não porque eu queria. Mas porque tinha que acabar.

Encostei nela por trás. Coloquei o braço ao redor da cintura, puxando ela pra mim. Meu pau já estava duro de novo, pressionando contra a bunda dela.

Priscila gemeu baixinho, ainda meio dormindo.

— Matheus? — voz sonolenta.

— Shhh — sussurrei no ouvido dela. — Só sente.

Ergui a perna de cima dela, abrindo espaço. Posicionei e entrei. Devagar. Ela ainda estava molhada, do sexo anterior e do meu gozo ainda dentro.

Priscila gemeu, acordando completamente agora.

— De novo? — ela sussurrou, incrédula.

— De novo — confirmei.

Comecei a me mover. Devagar. Abraçado nela por trás, rosto enterrado no cabelo dela, cheirando xampu e suor e sexo.

Não era urgente como a segunda rodada. Era lento. Íntimo. Melancólico.

Como despedida.

— Matheus — ela gemeu. — Isso tá…

— Shhhh. Só sente.

Minha mão deslizou pela barriga dela, desceu, encontrou o clitóris. Comecei a circular. Devagar. No mesmo ritmo das estocadas.

Priscila gemeu mais alto, empurrando de volta contra mim.

— Não acredito que vou gozar de novo — ela ofegou. — Caralho, Matheus…

— Goza — sussurrei. — Mais uma vez. Pra mim.

E ela gozou. Quarto orgasmo da noite. O corpo dela tremendo nos meus braços, apertando ao redor do meu pau, gemendo meu nome baixinho.

Continuei me movendo. Sentindo ela pulsar. Memorizando.

— Senta em mim — pedi.

Ela obedeceu, ainda zonza. Saí dela, em sentei. Priscila subiu em cima, posicionou e desceu devagar.

Frente a frente, pernas dela ao redor da minha cintura, abraçados.

Olhos nos olhos.

Ela começou a se mover. Devagar. Subindo e descendo. Eu segurei o rosto dela, polegares acariciando as bochechas.

— Matheus — ela sussurrou. — Por que você tá me olhando assim?

— Como?

— Como se… — ela hesitou. — Como se fosse me perder.

As palavras me acertaram no peito.

— Só quero te ver — disse.

Não era mentira.

Queria memorizar. Cada detalhe. Os olhos castanhos. O jeito que mordia o lábio quando estava perto de gozar. O suor na testa. As sardas no ombro que só apareciam no verão. A covinha na bochecha esquerda quando sorria.

Tudo.

Porque amanhã, isso ia virar memória.

Priscila acelerou o ritmo, gemendo mais alto. Segurei os quadris dela, ajudando, puxando ela pra baixo enquanto estocava pra cima.

— Vou gozar — ela avisou. — De novo, caralho, vou…

— Goza comigo — pedi. — Junto.

Ela assentiu, incapaz de falar. Apenas gemidos, ofegos, suor, calor.

Senti ela apertar. Senti meu próprio orgasmo chegando.

— Agora — avisei.

E gozamos juntos.

Priscila gritou, unhas cravando nos meus ombros. Eu gozei fundo dentro dela pela segunda vez, segurando ela contra mim, sentindo cada pulso, cada contração.

Quando acabou, ela desabou em cima de mim. Respiração irregular. Corpo tremendo.

Fiquei com ela assim. Abraçado. Acariciando as costas dela. Sentindo o coração dela acelerando contra o meu peito.

Alguns minutos depois, ela ergueu o rosto.

Havia lágrimas nos olhos.

— Matheus — ela sussurrou. — Eu… eu te amo. Você sabe disso, né?

Olhei pra ela. Cabelo bagunçado, rosto corado, olhos brilhando.

Linda.

— Eu sei — respondi.

E era verdade. Ela amava.

Só não era o suficiente.

Beijei a testa dela. Ela deitou a cabeça no meu peito. Alguns minutos depois, dormiu de novo.

Eu fiquei acordado.

Olhando pro teto.

Sentindo o corpo dela contra o meu.

Sabendo que em algumas horas, quando o sol nascesse, eu não estaria mais ali.

PARTE IV: O AMANHECER

Priscila dormia.

Respiração lenta, profunda. Corpo relaxado, meio virado de lado, um braço jogado sobre o travesseiro. Cabelo espalhado como leque negro sobre o lençol cinza. Rosto sereno, lábios entreabertos.

Linda. Mesmo depois de tudo. Ainda linda.

A luz do amanhecer começava a entrar pela fresta da cortina — aquela claridade azulada de São Paulo acordando, ainda sem sol, mas já sem escuridão.

Seis da manhã.

Olhei para ela mais um minuto. Dois. Memorizando.

Depois levantei da cama.

Me vesti em silêncio. Calça jeans, camisa social limpa, sapatos. Peguei a carteira, as chaves do carro, o celular.

Não fiz barulho. Cada movimento era calculado, preciso. Engenheiro até no fim — sabendo exatamente onde pisar para o piso não ranger, como abrir a gaveta sem que rangesse.

Fui até o closet. Peguei uma mala pequena — a mesma que usava em viagens de trabalho. Coloquei algumas roupas, documentos, notebook. O essencial. O resto poderia buscar depois. Ou não.

Deixei a mala na sala. Voltei pro quarto uma última vez.

Parei ao lado da cama, olhando pra ela.

Minha esposa de cinco anos. A mulher que eu amei. Que talvez ainda amasse, de alguma forma torta e quebrada.

Mas amor não era suficiente. Nunca tinha sido.

Tirei a aliança.

Ouro branco, simples, com data gravada por dentro: Dia do nosso casamento. Dia em que prometi pra sempre.

Pra sempre tinha durado cinco anos e sete meses.

Coloquei a aliança sobre a mesinha de cabeceira. Ao lado do celular dela. Ao lado dos segredos que ela guardava.

Sentei na poltrona do canto do quarto — a mesma onde o vestido preto dela tinha estado jogado ontem à noite. Peguei um caderno e uma caneta da gaveta da mesinha.

E escrevi.

***

“Priscila,

Vi você ontem. Entrando no Audi A5 preto, vidro fumê, estacionamento do Iguatemi. 18h20. Fiquei trinta minutos olhando o carro balançar.

Li suas mensagens. Todas. Desde julho. Vi as fotos que você mandou pra ele. Ouvi os áudios dele.

Sei de tudo.

Não vou gritar. Não vou chorar. Não vou pedir explicação. Você não me deve isso. Na verdade, não me deve mais nada.

A noite passada foi despedida. Eu precisava te tocar uma última vez. Não como obrigação. Como desejo. Como a gente era antes de virar rotina.

Espero que você tenha sentido a diferença.

Você ainda me ama. Eu sei. Mas não me deseja mais. E eu mereço ser desejado. Mereço ser escolhido. Não por falta de opção, mas porque sou opção.

Guilherme te deu o que eu parei de dar: atenção, imprevisibilidade, fome. Isso diz mais sobre mim do que sobre você. Eu falhei também.

Mas você escolheu resolver com outro homem ao invés de resolver comigo.

E essa escolha tem consequência.

Não sei se você ia me contar algum dia. Não sei se sente culpa de verdade ou só medo de ser descoberta. Não importa mais.

Minha aliança está na mesinha. A sua, você decide o que fazer.

Vou ficar no Hotel Maksoud Plaza por alguns dias. Meu advogado entrará em contato.

Não me procure. Não tente explicar. Não peça perdão.

Só quero que você saiba uma coisa:

Ontem à noite, quando você gozou gritando meu nome, quando chorou dizendo que me ama, quando dormiu nos meus braços — naquele momento, você era minha de novo. Completamente.

Foi a melhor despedida que eu poderia ter pedido.

Cuida-se, Priscila.

E da próxima vez que entrar num carro de vidro fumê, lembra que alguém pode estar olhando de fora.

Sempre pode.

Matheus”

***

Reli o bilhete. Três vezes.

Estava certo assim.

Não era carta de amor. Não era carta de ódio.

Era apenas encerramento.

Dobrei a folha. Deixei ao lado da aliança.

Levantei da poltrona. Olhei pra Priscila uma última vez.

Ela se mexeu, virando no sono. O lençol escorregou, revelando o ombro nu, a curva do seio. Ela murmurou algo incompreensível.

Meu nome, talvez. Ou dele.

Não importava mais.

Me virei e saí do quarto.

Na sala, peguei a mala. Olhei ao redor.

Apartamento em Perdizes. Cinco anos de vida construída. Memórias em cada canto.

Mas também mentiras. Em cada mensagem apagada, cada "reunião" falsa, cada vez que ela voltou cheirando a outro homem e me beijou como se nada tivesse acontecido.

Não senti vontade de ficar.

Abri a porta do apartamento. Saí. Fechei atrás de mim.

Não tranquei. Deixei só encostada.

Não era mais minha casa.

***

Dirigi sem destino específico no começo. Apenas dirigi.

Perdizes. Consolação. Paulista. A cidade passando pelas janelas, prédios, carros, pessoas indo trabalhar, viver, existir.

Parei num sinal vermelho na Faria Lima.

Ao lado, um Audi A5 preto. Vidro fumê.

Meu estômago apertou. Instintivamente olhei, tentando ver quem estava dentro.

Impossível. Só vidro escuro, opaco, protegendo o que havia lá dentro.

Podia ser qualquer pessoa. Podia ser Guilherme indo buscar outra mulher casada. Ou Priscila, daqui a alguns meses, quando já tivesse esquecido de mim.

O sinal abriu. O Audi acelerou, virando à esquerda.

Eu segui em frente.

***

Nove da manhã.

Hotel Maksoud Plaza. Quarto no décimo segundo andar, vista pra Paulista.

Sozinho.

O celular tocou. Priscila.

Olhei pra tela. A foto dela na chamada — sorrindo, feliz, tirada há dois anos numa viagem pra Bahia. Antes de Guilherme. Antes de tudo.

Rejeitei a ligação.

Dez segundos depois, tocou de novo. Rejeitei.

Mensagem:

Priscila: Matheus, pelo amor de Deus, atende

Priscila: A gente precisa conversar

Priscila: Por favor

Não respondi. Bloqueei o número.

***

Dez horas.

Mensagens no WhatsApp, de outro número:

Priscila: Eu sei que você tá vendo isso

Priscila: Matheus, me desculpa

Priscila: Eu te amo

Priscila: Foi erro

Priscila: A gente pode resolver

Priscila: Por favor não faz isso

Priscila: A noite foi tão perfeita

Priscila: Eu te amo

Priscila: Matheus

Priscila: Por favor

Li todas. Não respondi. Bloqueei no WhatsApp também.

***

Meio-dia.

E-mail dela.

Assunto: Por favor lê

Dedo sobre a tela. Delete ou abrir?

Abri.

***

“Matheus,

Eu sei que você bloqueou meu número. Eu entendo. Mas preciso que você leia isso. Por favor.

Eu li seu bilhete umas vinte vezes. Chorei em cada uma.

Você está certo. Em tudo.

Eu te traí. Conscientemente. Por quatro meses. Não foi erro. Não foi acidente. Foi escolha.

E eu escolhi errado.

Não vou te pedir perdão porque você disse pra não pedir. Não vou tentar explicar porque não tem explicação que justifique.

Só quero que você saiba que ontem à noite foi real.

Quando você me tocou, quando me olhou daquele jeito, quando me fez gozar quatro vezes — eu senti. Senti VOCÊ. Não a rotina. Não a obrigação. Você.

E eu entendi o que tinha perdido.

Entendi tarde demais.

Você tem razão. Eu ainda te amo. Sempre amei. Mas parei de te desejar. E você merecia ser desejado.

Guilherme me deu atenção quando você parou de dar. Me fez sentir viva quando eu estava me sentindo invisível. Mas ele nunca foi você.

Nunca vai ser.

Eu fui egoísta. Quis os dois. A segurança de você e a excitação dele. E no final perdi o que realmente importava.

Não sei se você vai ler isso. Não sei se importa.

Mas obrigada pela última noite.

Obrigada por me fazer lembrar de quem a gente era.

Mesmo sabendo que era despedida, foi a noite mais intensa que tivemos em anos.

Foi perfeita.

E eu vou guardar pra sempre.

Te amo, Matheus. Sempre vou.

Mesmo sabendo que não basta.

Priscila”

***

Li duas vezes. Depois fechei o e-mail.

Não respondi.

Não havia o que responder.

***

Seis da tarde.

Sentei na poltrona perto da janela. Paulista lá embaixo, trânsito, luzes começando a acender.

O celular vibrou. Mensagem.

Jamile.

Melhor amiga de Priscila desde a faculdade. Madrinha do nosso casamento. A única pessoa que sempre foi honesta comigo, mesmo quando doía.

Jamile: Matheus, preciso te falar uma coisa

Jamile: Fui eu que liguei ontem. A ligação anônima.

Jamile: Vi a Priscila entrando naquele carro há umas semanas. Tirei foto da placa. Investiguei.

Jamile: Fiquei em dúvida se devia te contar. Mas você merecia saber.

Jamile: Desculpa ter feito assim, anônimo. Não tive coragem de falar direto.

Parei de ler. Respirei fundo.

Jamile. Claro. Fazia sentido.

A voz nervosa, disfarçada. O jeito apressado de falar. A culpa audível em cada palavra.

Ela tinha me dado a informação que eu precisava. Mesmo sabendo que destruiria a melhor amiga.

Continuei lendo.

Jamile: A Priscila me ligou hoje. Tá destruída. Não saiu do quarto o dia todo. Só chora.

Jamile: Ela leu seu bilhete umas vinte vezes.

Jamile: Não tô pedindo pra você perdoar. Sei que não dá. Sei que o que ela fez foi imperdoável.

Jamile: Mas ela realmente te ama, Matheus. Sempre amou.

Jamile: Só foi burra demais pra perceber o que tinha até perder.

Jamile: Sinto muito por vocês dois.

Jamile: Você sempre foi bom demais pra ela.

Li tudo. Fiquei olhando pra tela.

Jamile tinha feito a coisa certa. A coisa difícil.

Tinha escolhido a verdade ao invés da amizade.

Respondi:

Matheus: Obrigado por ter me contado. Sei que não foi fácil.

Matheus: Você fez o certo.

Três pontinhos apareceram. Ela estava digitando.

Jamile: Eu sei. Mas não faz doer menos.

Jamile: Cuida-se, Matheus. Você merece ser feliz.

Matheus: Você também.

Não escrevi mais nada. Ela também não.

Mas não bloqueei o número.

Jamile era uma das poucas pessoas honestas que restavam na minha vida. E honestidade, eu tinha aprendido, valia mais que lealdade cega.

***

Meia-noite.

O quarto estava escuro. Só a luz da cidade entrando pela janela.

Deitei de costas. Olhei pro teto.

Pensei em Priscila. No nosso quarto. Sozinha. Chorando.

Pensei em Guilherme. Provavelmente já tinha mandado mensagem perguntando quando se veriam de novo. Sem saber que tinha acabado.

Pensei em mim. Aqui. Hotel. Sozinho.

Mas livre.

Fechei os olhos.

E pela primeira vez em vinte e quatro horas, dormi.

FIM

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Foto de perfil de Fabio N.MFabio N.MContos: 149Seguidores: 168Seguindo: 52Mensagem Segredos para uma boa história: 1) Personagens bem construídos com papéis e personalidades bem definidas qualidades e defeitos (ninguém gosta de Mary Sue ou Gary Stu); 2) Conflitos: "A quer B, mas C o impede" sendo aplicado a conflitos internos e externos; 3) Ambientação sensorial, descrevendo onde estão seus personagens, o que estão vendo ou sentindo.

Comentários

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Até que apareceu um homem com atitudes de homem, porque aqui nesse site americano maioria esmagadora são cornos mansos e fracos.

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Pergunta que fiz a mim mesmo: quando Jamile descobriu a traição, não teria sido melhor ela ter falado com Priscila primeiro?

Dava um ultimato: ou para de trair ou eu conto pro Matheus.

O final ficou ótimo. A mim me deu impressão de que Jamile tá de olho em Matheus, e que Matheus reconhece em Jamile a virtude da honestidade, que se tornou ainda mais importante pra ele.

Conto bem escrito, e um ótimo final na minha opinião.

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Merece continuação!

👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼

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Muito bom, merecia continuação

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