Nos dias que se seguiram, depois das férias, percebi que pensar em Heitor tinha se tornado um hábito quase involuntário. Enquanto caminhava para a escola, enquanto esperava o ônibus, enquanto fingia prestar atenção às aulas, minha cabeça voltava sempre para o mesmo lugar: aquele quarto, aquela cama, aquela manhã silenciosa.
E, sem querer, eu comecei a fantasiar. Imaginava uma vida inteira ao lado de Heitor, como se fosse possível construir um “nós” sólido, resistente a tudo. Contra a minha família, contra os comentários da cidade pequena, contra os nossos passados complicados.
Eu me via chegando em casa depois do trabalho e encontrando Heitor na cozinha. Via viagens de fim de semana, contas divididas, um apartamento pequeno com cheiro de café fresco e roupa limpa, longe do interior, em uma grande capital. Fantasiava com uma felicidade simples, quase banal.
E então, de repente, eu começava a rir sozinho. Porque logo a realidade atravessava a cena como um balde de água fria. Onde exatamente seria essa vida a dois?
Na casa de Heitor, com a mãe, os irmãos, as memórias todas espalhadas pelos corredores? Nós moraríamos no quarto de Heitor para sempre, como dois adolescentes improvisando um futuro dentro de quatro paredes?
Eu imaginava a mim mesmo chegando com uma mala e me instalando ali definitivamente. Dividindo o guarda-roupa, o espaço, o cotidiano. A imagem era tão ingênua que chegava a ser quase cômica.
E havia ainda outra questão, talvez a mais importante. O tempo. Para que aquela fantasia fizesse algum sentido, nós teríamos que esperar. Esperar eu terminar a escola e começar a faculdade. Esperar eu me formar. Esperar eu encontrar um emprego. Esperar eu ter dinheiro suficiente para começar uma vida de verdade.
Isso levaria anos. Anos inteiros. Fiz as contas numa tarde qualquer, rabiscando números num canto do caderno. Quando tudo isso acontecesse, Heitor já estaria com mais de trinta anos. Um homem adulto, formado, moldado pela vida.
E eu? Ainda estaria apenas começando. A diferença que hoje parecia “pequena” ganhava um peso novo quando projetada para o futuro.
Foi então que um pensamento incômodo começou a crescer dentro de mim. E se, sem perceber, eu estivesse repetindo uma história que eu já conhecia? Leandro fizera exatamente isso: se aproximara de mim, ainda mais jovem, mais ingênuo, mais vulnerável, e me puxara para dentro de um mundo que não era meu. E se Heitor, mesmo sem intenção, estivesse fazendo o mesmo?
Eu me perguntava se, no fundo, não estava deixando que outra pessoa decidisse os rumos da minha vida, da minha juventude. Eu deveria estar saindo, conhecendo gente nova, descobrindo quem eu era de verdade. Errando, experimentando, vivendo coisas próprias da minha idade. Não preso emocionalmente a alguém que já havia atravessado fases que eu ainda nem começara.
Essas perguntas começaram a aparecer com mais frequência do que eu gostaria. Às vezes, enquanto conversava com colegas da escola e ouvia histórias de festas, viagens, paixões passageiras, sentia uma pontada estranha. Como se eu estivesse assistindo à própria vida passar pela janela.
Eu amava Heitor, ou pelo menos acreditava amar. Mas amor bastava? Ou estava me contentando com uma relação que me oferecia intensidade, mas não futuro?
Numa noite, deitado no meu próprio quarto, encarei o teto e a realidade por longos minutos. Percebi que vinha construindo castelos enormes em cima de um terreno frágil. Heitor nunca tinha falado seriamente sobre planos. Nunca tínhamos conversado sobre “depois”. Tudo entre nós acontecia sempre no presente imediato, no impulso, na emoção. Talvez porque, no fundo, não houvesse realmente um depois.
Comecei a entender que o problema não era gostar de Heitor. O problema era me perder dentro dele. Me anular, me adaptar, me encaixar numa história que talvez nunca tivesse sido pensada para durar. Pela primeira vez, a ideia de me afastar não parecia apenas uma fuga. Parecia uma necessidade.
Mas admitir isso doía, é claro. Porque, apesar de todas as dúvidas, ainda existia carinho. Ainda existia desejo. Ainda existia aquela parte de mim que queria acreditar que o amor resolveria tudo. Fechei os olhos e respirei fundo. Sabia que, cedo ou tarde, teria que transformar aqueles pensamentos em coragem. E coragem, eu estava descobrindo, era muito mais difícil do que paixão.
O relacionamento entre Heitor e eu não terminou de repente. Ele se arrastou. Estendeu-se pelos meses seguintes como algo que já não avançava, mas também não tinha coragem de morrer. Foram semanas de reconciliações provisórias, de promessas vagas, de noites intensas seguidas por dias vazios, de corpos que se reconheciam mesmo quando as palavras já não sabiam mais o caminho. Um vai-e-volta emocional que confundia mais do que esclarecia.
Eu não decidi de uma vez. A decisão veio em camadas, como um desgaste silencioso, uma erosão lenta que ninguém percebe enquanto acontece. Eu ainda atendia às mensagens de Heitor, ainda aceitava encontrar com ele, ainda cedia ao corpo, mas alguma coisa essencial já tinha se quebrado.
E Heitor sentiu. Sentiu primeiro no tom das minhas respostas. Depois nos intervalos cada vez maiores entre um encontro e outro. Por fim, naquele vazio estranho que eu carregava no olhar, como quem já está indo embora, mesmo estando ali.
Eu, no fundo, esperava. Fiquei mais do que deveria. Fiquei porque acreditava, honestamente, que aquilo ainda podia virar outra coisa. Esperava que Heitor amadurecesse. Esperava que a relação ganhasse nome, contorno, futuro. Esperava que, em algum momento, aquilo deixasse de ser apenas desejo, que deixasse de ser apenas intensidade, segredo e dependência, e passasse a ser escolha. Mas nada mudava.
Heitor continuava no mesmo lugar, literal e simbolicamente. Não estudava. Não trabalhava. Não parecia planejar nada além do próximo encontro, da próxima crise, da próxima reconciliação. Vivendo da herança, de noites longas e tardes vazias, como se o tempo não tivesse peso.
Eu, ao contrário, avançava. Provas, trabalhos, planos. Uma vida em construção. Crescia, fisicamente, emocionalmente, e, aos poucos, crescia sozinho. Nós nos encontrávamos nesse descompasso. E, para piorar, Heitor não tinha curiosidade real pelo meu mundo. Tudo girava ao redor dele mesmo, de seus humores, de seus silêncios longos, de sua melancolia cultivada como intensidade.
E, ainda assim, eu insistia. Talvez por amor. Talvez por apego. Talvez por medo de admitir que mais um grande sentimento da minha vida não sobreviveria ao mundo real.
Rafael, por outro lado, desaparecera completamente daquele mapa emocional. Eu nunca mais fiquei com ele. Não meramente por lealdade a Heitor, por promessa, ou por culpa, mas porque simplesmente não fazia mais sentido. O desejo tinha passado. O jogo tinha acabado. Aquela história já tinha se encerrado dentro de mim. O problema não era Rafael. Era Heitor.
Foi numa noite quente de dezembro que tudo, enfim, se revelou. O ano já se arrastava para o fim, com aquele cansaço morno que mistura calor, expectativa e exaustão emocional. Fui até a casa de Heitor quase por hábito. Não houve convite especial, nem urgência. Apenas aquela sensação estranha de que algo precisava ser dito, mesmo que eu ainda não soubesse o quê.
Encontrei Heitor como tantas outras vezes: sentado no sofá da sala, violão no colo, luz baixa. Tocava uma música triste, arrastada, do Nick Drake. Uma música lenta, triste, desolada, dessas que parecem existir só para confirmar uma dor que já estava ali antes mesmo da primeira nota. A voz baixa, quase um sussurro. Heitor parecia imerso em si mesmo, como sempre.
A melodia preenchia a casa com uma melancolia confortável, quase ensaiada. Eu fiquei ali, parado, ouvindo. Tive a sensação incômoda de estar assistindo a uma cena que se repetia há meses. Heitor não me olhou de imediato. Continuou tocando, absorto, como se o mundo estivesse suspenso naquele dedilhado lento.
— E aí... Você pegou alguma recuperação esse ano? — perguntou, de repente, sem levantar os olhos.
A pergunta caiu como um corpo estranho no silêncio. Eu senti algo se partir, pequeno e definitivo. Não era a pergunta em si. Era tudo o que ela revelava.
Eu nunca tinha ficado de recuperação na vida. Nunca. Era estudioso, dedicado, tirava notas boas. Aquela era uma preocupação que não me dizia respeito, e o fato de Heitor não saber disso, depois de tantos meses, foi devastador.
Eu entendi ali que Heitor não me via. Eu percebi, com uma clareza real, que Heitor não sabia nada sobre mim. Nada concreto. Nada real. Ele não via minha rotina. Não sabia como eram meus dias, meus esforços, minhas conquistas silenciosas.
Não sabia o que me dava orgulho, o que me dava medo, o que me exigia energia. Heitor nunca tinha realmente olhado para mim, apenas para o lugar que eu ocupava na sua própria vida. Via apenas o que eu representava para ele: companhia, desejo, alívio, espelho emocional.
— Não — respondi, seco — Nunca peguei recuperação.
Heitor finalmente levantou os olhos, distraído.
— Ah… que bom – ele riu de leve – É que eu não lembro direito dessas coisas.
E voltou a tocar. Foi isso. Nenhuma curiosidade. Nenhuma pergunta a mais. Nenhum interesse real.
Eu senti uma mistura amarga de tristeza e clareza, que, abruptamente, virou completo desprezo. Como um senso absurdo de realização, percebi, de repente, quase numa epifania, que passara meses esperando que aquela relação crescesse, enquanto Heitor permanecia exatamente onde sempre esteve, centrado em si mesmo, absorvido na própria melancolia, usando a paixão como refúgio, não como construção. E foi ali que tudo se rompeu.
— Esse é o problema — eu disse, com a voz estranhamente calma — Você não sabe nada sobre mim.
Heitor franziu a testa.
— Como assim?
Eu respirei fundo.
— A gente precisa conversar.
Heitor parou de tocar, contrariado.
— Agora?
— Agora.
Fomos para o quarto. Me sentei no peitoril da janela, como tantas vezes antes. Mas, pela primeira vez, não havia ansiedade. Apenas cansaço. Sentia o coração bater forte, mas não havia mais confusão.
— Eu esperei — disse, com calma — Esperei que isso virasse algo de verdade. Que você me enxergasse além do que eu te faço sentir.
Heitor franziu a testa.
— Do que você tá falando?
— Você não sabe nada da minha vida, Heitor — a voz saiu firme — Não sabe como eu vou na escola. Não sabe o que eu planejo. Não sabe nem no que eu sou bom. Não sabe o que eu faço, o que eu quero, o que eu passo. Você nunca soube. Nunca quis saber.
Heitor riu, nervoso.
— Claro que eu sei. Você tá exagerando.
— Não tô — respondi — Você só se importa comigo enquanto eu tô aqui, enquanto eu te preencho. Mas você nunca se importou com quem eu sou de verdade.
Heitor parecia perdido, como se estivesse sendo confrontado por algo que nunca tinha considerado.
— Isso não é justo.
— Não é justo, mesmo — respondi — Mas é a verdade.
O silêncio se instalou.
— Desculpa — disse Heitor, a voz trêmula — Mas eu tô tentando… eu juro que tô.
Permaneci em silêncio. Observava. Pela primeira vez, não me sentia responsável por consertar nada.
— Mas você some. Não me atende, não aparece… — Heitor respirou fundo, os olhos brilhando — Eu não aguento essa distância. Eu preciso de você.
E ali aconteceu algo irreversível. Eu percebi que não sentia mais orgulho daquele lugar que ocupava na vida de Heitor. Só peso.
— Heitor… — comecei, com cuidado — Eu não posso mais.
O silêncio que se seguiu foi denso, quase físico.
— Não pode o quê? — Heitor perguntou, rindo nervoso — Me abandonar agora? Logo agora? Então é isso? Você vai me deixar agora?
Senti o impacto da palavra, mas não recuei.
— Não é abandono. É limite.
Heitor balançou a cabeça, como se recusasse a entender.
— Você tá dizendo isso porque tá confuso. Porque é jovem. Porque ouviu besteira de gente que não sabe o que a gente tem.
Ele se aproximou um passo.
— Eu te amo, Mateus — disse Heitor, quase automaticamente, como se isso resolvesse tudo – Você sabe disso.
Eu balancei a cabeça, devagar, sentindo um aperto no peito. E foi ali que a idealização morreu. Porque eu entendi, com uma clareza dolorosa, que amor não devia soar como uma cobrança desesperada.
— Eu sei que você acha que ama — respondi, com voz firme — Mas isso que a gente tem… não tá me fazendo bem. Você ama o que eu sou pra você. Não quem eu sou, de verdade. Eu sei que você sente algo por mim. Mas isso não é amor de verdade. É projeção. É medo de ficar sozinho.
A frase doeu em nós dois. Foi ali que Heitor percebeu que estava perdendo algo que sempre achou garantido. A postura mudou. O corpo encolheu. Heitor riu, um riso curto, quebrado.
— Então é isso? Depois de tudo? Depois de tudo que eu fiz por você?
— É justamente por isso — respondi — Porque eu virei tudo. Seu refúgio, seu alívio, sua obsessão. E eu não posso ser isso.
Heitor caiu sentado na cama, como se as pernas tivessem falhado.
— Você não entende… — murmurou — Você é a única coisa que ainda faz sentido.
A frase veio como um soco. Senti vontade de chorar, mas me mantive inteiro.
— E isso não é justo comigo.
A voz já vinha embargada.
— Não faz isso — Heitor pediu — Não agora. Eu… eu tô mal. Você sabe disso.
Eu senti o aperto no peito. Sabia. Sempre soubera.
— Eu sei. Eu sei disso há meses, Heitor. E eu fiquei do seu lado durante todo esse tempo. Mas ficar não tá me ajudando, nem a você. Eu não posso continuar sendo o lugar onde você se esconde.
Heitor se levantou de novo, desesperado, dessa vez sem nenhuma máscara.
— Fica – pediu, sem orgulho algum – Eu posso mudar. Eu juro. Eu começo a estudar. A trabalhar. Eu faço qualquer coisa, prometo. Só não vai embora. Me diz o que você quer que eu seja.
Senti os olhos marejarem.
— Eu não quero que você seja ninguém por mim. Esse é justamente o problema. Você tem que querer por si mesmo.
Heitor parou na minha frente. A voz falhou.
— Não vai embora. Não agora. Fica. Só fica. Eu não aguento sem você.
A súplica veio crua, sem charme, sem controle. Era a inversão completa da dinâmica que um dia me seduzira. O homem que antes controlava agora implorava. O homem seguro, distante, provocador, agora tremia. Eu senti lágrimas escorrerem, mas não confundi mais compaixão com amor.
— Eu não posso mais te esperar — disse, com doçura dolorosa — Eu tô começando a minha vida. E você… você tá parado. Eu não posso te ajudar. E não posso me perder tentando.
Heitor chorou, não tentou esconder. Não tentou parecer forte. Sem orgulho. Sem disfarce. E, ainda assim, não voltei atrás. Porque amadurecer, às vezes, é aceitar ser o vilão na história de alguém.
— Fica comigo — repetia — Por favor. Você é tudo que eu tenho.
Eu me levantei, sentindo o peso daquele adeus se acomodar no meu corpo. Heitor tentou me segurar pelo braço. Me soltei com delicadeza.
— Eu também te amo — disse — Mas amar não é suficiente quando só um cresce. Se cuida. De verdade.
E fui embora. Quando saí da casa de Heitor, senti uma dor funda, mas limpa. Não era culpa. Não era dúvida. Era luto.
Naquela noite, sozinho no quarto, eu chorei como não chorava há muito tempo. Não só por Heitor, mas pela versão idealizada dele que precisei deixar para trás, pela intensidade que confundira com profundidade, pela fantasia de que amar alguém significava permanecer, mesmo quando tudo já tinha parado de crescer.
Entendi, enfim, que o primeiro, ou segundo, amor raramente é o definitivo, mas quase sempre é o mais difícil de desidealizar. Porque não dói perder a pessoa. Dói perder o que a gente acreditou que ela poderia ser. Desidealizar doeu. Mas também libertou. E, pela primeira vez em muito tempo, senti que o futuro, ainda incerto, finalmente me pertencia.
Entendi, enfim, que amar alguém não significa permanecer a qualquer custo. E que desidealizar não matava o amor, apenas o colocava no lugar certo: o passado.
