Corpos, Desejos e Silêncio... Historias que Nunca Ousamos Dizer. 14 — O que permanece quando tudo silencia

Um conto erótico de Bernardo
Categoria: Gay
Contém 6520 palavras
Data: 25/01/2026 00:20:03
Última revisão: 25/01/2026 00:25:22

Depois de tudo o que tinha acontecido naquele dia, o corpo ainda parecia em estado de suspensão. Não era exatamente cansaço físico — era outra coisa, um tipo de exaustão que vinha de dentro, como se cada pensamento tivesse passado o dia inteiro correndo uma maratona silenciosa.

Desci para a cozinha com a sacola da padaria ainda na mão. O cheiro de pão fresco se misturou ao da casa, aquele cheiro que só casa de pais tem, uma mistura de café passado, detergente neutro e tempo. Meus pais já estavam sentados à mesa, conversando sobre coisas simples, dessas que não exigem resposta elaborada, só presença.

— Comprou coisa boa? — minha mãe perguntou, abrindo um sorriso quando me viu.

— Comprei — respondi, colocando os pães e o bolo sobre a mesa. — Achei que dava pra um café da tarde.

Sentamos. Comi devagar, mais observando do que falando. O açúcar do bolo, o café quente descendo pela garganta, tudo parecia me puxar de volta para um lugar seguro, quase infantil. Era como se aquele momento doméstico fosse um contraponto necessário a tudo o que tinha acontecido horas antes.

Fiquei ali por um tempo curto, mas suficiente. O suficiente para ouvir, responder, sorrir. Depois, o dia foi escorrendo naturalmente para a noite. Jantamos cedo. Não mexi muito no celular. Deixei ele de lado propositalmente, como quem vira o rosto para não encarar um espelho.

Quando subi para o quarto, a decisão de dormir cedo não foi exatamente pensada — foi sentida. Tomei um banho rápido, troquei de roupa e, já deitado, peguei o celular mais por reflexo do que por vontade. As notificações estavam lá. Eu vi. Mas não abri.

Havia dias em que o silêncio era uma escolha necessária.

Apaguei a luz, virei de lado e, talvez pela primeira vez em muito tempo, o sono veio rápido. Um sono pesado, profundo, desses que não dão espaço nem para sonho.

Acordei antes do despertador.

O quarto ainda estava meio escuro, a luz da manhã entrando tímida pela fresta da cortina. Peguei o celular para ver as horas e fiquei alguns segundos apenas encarando a tela acesa, como se aquilo fosse um sinal de que o dia realmente tinha começado.

Foi aí que decidi responder.

A primeira mensagem era do Arthuro. Uma de boa noite da noite anterior. Logo abaixo, uma de bom dia, enviada cedo. Simples, sem cobrança explícita, mas com aquela presença constante que ele tinha aprendido a ocupar na minha vida quase sem pedir permissão.

Abri a conversa.

— Não esquece que no fim de semana a gente vai comemorar. E não adianta tentar escapar. Sábado à noite eu quero te ver.

Sorri sozinho. Balancei a cabeça, ainda meio sonolento, e respondi do jeito mais econômico possível. Um bonequinho e bom dia. Depois, escrevi:

— Bom dia. Tudo bem, desde que não varasse a noite inteira.

Enviei. Era o meu jeito de concordar sem prometer demais.

A mensagem do Yan vinha logo depois. Boa noite. Respondi com um bom dia simples, desejando um excelente dia. Sem prolongar. Sem abrir margem.

Já a conversa com o Arthur — estava diferente. Havia duas mensagens não lidas.

— Você chegou bem?

— Por que você não me responde?

Comecei a digitar uma resposta. Apaguei. Digitei de novo. Apaguei outra vez. Respirei fundo e decidi mandar um áudio. Era mais fácil deixar a voz carregar o tom certo.

— Oi, Arthur… bom dia. Desculpa por ontem. Acabei ficando bem cansado, me distraí com meus pais e dormi cedo. Por isso não respondi. Mas eu tô bem, viu? Pronto pro dia de hoje… e pro que vier depois também.

Esse “pro que vier depois” saiu com um leve sorriso de canto, quase um sarcasmo carinhoso. Finalizei desejando bom dia e dizendo que, se ele precisasse de qualquer coisa, eu estava ali.

Coloquei o celular de lado e desci para preparar o café da manhã. A casa ainda estava silenciosa. Meus pais dormiam. O cheiro do café subindo enquanto eu mexia a colher na xícara trouxe uma sensação estranhamente reconfortante.

Enquanto a cafeteira terminava seu trabalho, o celular vibrou na bancada.

Era o Arthur respondendo.

Ele disse que tinha ficado preocupado por eu não ter avisado que cheguei bem. Que, depois de tudo o que tinha acontecido entre a gente, isso tinha ficado mais forte nele. Disse também que hoje teria só um retorno médico e o resto do dia livre, já que, com a perna lesionada, o trabalho seguia mais de casa do que de qualquer outro lugar.

Li com atenção. Não respondi na hora. Terminei meu café, ouvi meus pais acordando, trocamos bom dia. Disse que sairia mais cedo para o trabalho porque queria chegar antes ao colégio para corrigir algumas provas.

Subi, terminei de me arrumar e saí.

O ar da manhã ainda estava fresco quando fechei o portão. Andava já quase chegando ao ponto de ônibus quando o celular tocou.

Jonas

— Oi, Bernardo, bom dia. Tudo bem? — a voz do Jonas veio do outro lado, animada. — Tô passando aí perto da sua casa. Como ainda tá cedo, tô indo direto pra escola. Queria saber se você aceita uma carona.

Olhei em volta. O ponto já estava ali.

— Oi, Jonas, bom dia. Eu já saí de casa, tô quase no ponto. Mas se você for passar por aqui, aceito sim.

Não deu dois minutos. O carro encostou. Entrei.

— Nossa, muito obrigado. Você me salvou de pegar transporte público hoje — falei, ajeitando a bolsa.

— Que isso, cara. É meu caminho — ele respondeu sorrindo. — E aí, como você tá? Bom dia.

Enquanto falava, ele apoiou a mão na minha perna, um toque breve, natural demais para ser um acidente, leve demais para ser uma afirmação. Um aperto rápido, quase um cumprimento corporal.

— Bom dia… tô bem, graças a Deus — respondi, mantendo a voz estável. — Dormi bem. Acordei mais cedo pra adiantar correção de prova e preparar umas aulas.

— Que ótimo — ele disse. — Eu tô bem animado pra trilha de amanhã.

Falamos disso pelo caminho. Dos detalhes, do percurso, do quanto fazia tempo que eu não fazia algo assim. Havia uma leveza na conversa, um tipo de cumplicidade confortável.

Chegamos ao colégio. Ele estacionou, descemos juntos. Cada um seguiu para sua sala.

Entrei na sala dos professores com aquela sensação estranha de quem carrega muita coisa por dentro, mas segue funcionando normalmente por fora.

O dia realmente começou depois da primeira aula.

As primeiras horas passaram com uma leveza rara. Era sexta-feira, e isso sempre mudava o humor da escola. Os alunos estavam mais soltos, mais falantes, menos tensos com provas ou cobranças. Eu percebia isso nos olhares, nos risos mais fáceis, até na forma como se acomodavam nas cadeiras.

Dei aula atrás de aula quase no automático, mas um automático confortável. Eu estava presente, atento, mas com a cabeça curiosamente organizada, como se tudo tivesse encontrado um certo eixo depois da noite anterior. Em alguns momentos, enquanto explicava algum conteúdo, minha mente escorregava brevemente para pensamentos soltos — imagens, frases, sensações —, mas nada que me tirasse do lugar.

Quando percebi, já era hora do almoço.

Como vinha acontecendo nos últimos dias, havia um acordo silencioso entre mim e o Jonas. Não precisava confirmar. Eu apenas peguei minhas coisas e fui até a sala dele.

Bati na porta com os nós dos dedos, duas vezes.

— Entra — ouvi a voz dele.

Abri a porta e o encontrei sentado à mesa, o computador aberto, os óculos apoiados no rosto, concentrado.

— Oi — falei, encostando levemente no batente da porta.

Ele levantou o olhar e sorriu de imediato.

— Você se importa de esperar só mais uns dez minutinhos? No máximo. Tô só finalizando uns e-mails aqui e a gente já vai.

— Tudo bem — respondi. — Eu espero do lado de fora.

— Não precisa não — ele disse rápido. — Se quiser, pode aguardar aqui.

Pensei por um segundo e balancei a cabeça.

— Vou te esperar ali fora enquanto respondo umas mensagens.

Ele assentiu, voltou para o teclado, e eu fechei a porta com cuidado.

Encostei na parede do corredor e puxei o celular do bolso. Desbloqueei a tela sem expectativa alguma. A única notificação era do Yan.

E não era uma mensagem comum.

Era uma foto.

Abri.

Yan e Arthuro estavam lado a lado, sorrindo, suados, claramente na mesma academia. Os dois com aquele ar leve de quem acabou de treinar e ainda estava sob efeito da endorfina. Logo abaixo da foto, um vídeo curto: os dois acenando para a câmera, rindo, mandando algum tipo de saudação que eu não consegui ouvir naquele momento.

Sorri sem perceber.

Aquele tipo de sorriso espontâneo, quase automático.

Gravei um áudio para o Yan.

— Vocês dois assim fica difícil, hein? Dois milhões… bom trabalho pra vocês.

Enviei.

A resposta veio rápido, com risadas digitadas, e logo depois a frase:

“Não fica tão difícil de escolher. A sua escolha acho que já até foi feita, né?”

Acompanhei com um emoji sugestivo, brincalhão.

Sorri para mim mesmo e, com dois ou três toques na tela, marquei a resposta com um coração. Em seguida, mandei um emoji de beijo.

Foi simples. Leve.

Quando levantei o olhar, o Jonas já estava ali, parado à minha frente.

— Vamos? — ele perguntou, com aquele sorriso tranquilo que parecia já fazer parte do meu cotidiano.

— Vamos.

— Hoje a gente vai de carro de novo. Pensei em almoçar naquele restaurante perto do shopping, o que fica um pouco mais distante.

Inclinei a cabeça de leve.

— Hum… então você gostou da culinária de lá.

Ele riu.

— Gostei. Achei interessante. O preço é bom, o ambiente é reservado…

— Tá bom — interrompi, sorrindo. — Nesse ponto você ganhou.

Descemos juntos até o estacionamento. Entramos no carro. Ele ligou o som, colocou uma música baixa, colocou os óculos de sol e seguimos conversando sobre a escola.

O almoço foi exatamente como vinha sendo: conversas leves, comentários sobre alunos, sobre a próxima semana. Ele perguntou se eu estava animado para assumir o novo cargo, já que eu tinha sido aprovado no concurso em outra escola.

— Tô animado — respondi. — Um pouco ansioso também, mas acho que faz parte.

Falamos da trilha, combinamos horário, deixamos tudo alinhado. O clima era confortável, quase doméstico, mas com uma tensão sutil que nunca se dissolvia por completo.

Voltamos para o colégio. A tarde seguiu tranquila. Mais aulas, mais risadas, mais aquela sensação de sexta-feira se esticando.

Quando o expediente acabou, peguei o transporte público de volta para casa. Cheguei em um horário bom. Repeti o ritual: café da tarde, banho, jantar com meus pais. Poucas palavras, muito cansaço bom.

Deitei cedo de novo. Sabia que acordaria antes do sol.

Antes de dormir, reorganizei o despertador. Peguei o celular e mandei mensagem para o Arthur.

Perguntei como tinha sido o dia.

Ele respondeu de forma breve. Disse que foi tranquilo, que o médico tinha falado bem da recuperação, que logo estaria sem a bota ortopédica.

— Que bom — escrevi. — Fico feliz por você.

A conversa morreu ali.

Fui falar com o Yan. Perguntei como tinha sido o dia dele. Ele respondeu animado e perguntou se a gente se veria no fim de semana.

— Meu sábado tá meio cheio — respondi. — Mas domingo talvez a gente consiga almoçar juntos.

Ele se animou de imediato, sugeriu um restaurante novo de frutos do mar.

— Pra mim tá ótimo — escrevi.

Ficamos de confirmar.

Voltei para a conversa com o Arthuro. Mandei mais uma mensagem, perguntando como ele estava se sentindo.

Não houve resposta.

Aquilo me deixou pensativo por alguns segundos. Não exatamente triste, mas atento. Ainda assim, decidi não insistir. Coloquei o celular de lado e dormi.

Acordei às cinco da manhã.

O céu ainda estava escuro, e o silêncio da casa era quase absoluto. Peguei o celular e mandei mensagem para o Jonas. Ele já estava acordado.

Comecei a me arrumar com calma. Tomei banho, escolhi a roupa com cuidado. Optei por uma bermuda confortável, um tênis firme, meias um pouco mais altas e uma regata mais justa ao corpo. Tudo em preto.

Por baixo da bermuda, vesti uma cueca de praia, mais cavada, na cor laranja. Um detalhe que só eu saberia naquele momento, mas que me fazia sorrir.

Peguei a mochila, coloquei o óculos de sol e desci.

Cinco minutos depois, o carro do Jonas encostou.

Entrei e foi impossível não reparar.

Ele estava vestido de forma parecida comigo, também todo de preto. A camiseta deixava à mostra o braço forte, delineado, com uma tatuagem de leão visível — bonita, imponente. O cabelo ainda úmido, mas arrumado. Um sorriso aberto no rosto.

— Bom dia, Bernardo.

— Bom dia.

— Cara, eu tô muito animado pra esse rolê.

Faz tempo que eu não saio só pra me divertir.

— Eu gosto sempre — respondi. — Mas confesso que tô mais animado com a praia depois da trilha.

Ele riu.

— É… como você diz, eu preciso pegar um bronze.

— E como você precisa né?! — provoquei.

Encostei no braço dele de leve, rindo, e apoiei a cabeça ali por um segundo. Ele respondeu colocando a mão na minha perna, apertando de leve, firme, quente.

Seguimos caminho.

E eu soube, naquele instante, que aquele dia ainda guardava muito mais do que apenas uma trilha.

O Trajeto de carro foi mais rápida do que eu esperava.

Sábado, cedo, trânsito quase inexistente. A cidade ainda parecia acordar devagar enquanto a gente seguia pela estrada, conversando sem pressa, com a música baixa preenchendo os silêncios. O sol começava a subir, iluminando tudo de um jeito bonito, quase cinematográfico.

Quando chegamos ao ponto que marcava o início da trilha, já dava para sentir o cheiro do mar misturado com o verde da mata. Aquele tipo de cheiro que não se explica, só se reconhece. Jonas diminuiu a velocidade, observando os arredores, até encontrar o estacionamento improvisado bem na beira da praia.

Descemos do carro.

A primeira coisa que fiz foi olhar para a praia.

Ela era linda. Muito mais bonita do que qualquer foto que eu tivesse visto antes. A extensão era grande, quase intimidante, e a areia parecia se perder no horizonte. O mar estava calmo, mas vivo, respirando em ondas longas e contínuas.

— É realmente muito linda — falei, quase num suspiro.

Jonas ficou ao meu lado, também observando.

— É… a extensão dela é enorme. Parece maior do que a gente imagina quando vê no mapa.

— Eu li que, na verdade, são três praias — comentei. — Não é uma só. Cada trecho tem um nome diferente.

Ele virou o rosto para mim, arqueando levemente a sobrancelha.

— Então você estudou toda a nossa rota, né?

Ri.

— Um pouco. Só pra não me perder no meio do mato.

Deixamos o carro ali mesmo, como combinado. Pegamos apenas o essencial: água, toalha, protetor solar, algumas coisas leves. A ideia era simples — começar o passeio com um banho de cachoeira e terminar com o mar, deixando o sol fazer o resto do trabalho ao longo do dia.

Nos posicionamos na entrada da trilha, onde a mata começava a se fechar, formando um corredor verde. As marcações estavam visíveis, bem sinalizadas. A trilha era em formato de “O”, circular, o que nos permitiria sair praticamente no mesmo ponto onde entramos.

Começamos a caminhar.

A temperatura dentro da mata era diferente. Mais úmida, mais quente, mas ao mesmo tempo agradável. O som dos nossos passos se misturava com o canto dos pássaros e o farfalhar das folhas. Não havia muitas pessoas. Em alguns trechos, parecia que éramos só nós dois ali.

Conversávamos enquanto caminhávamos. Comentários soltos, risadas, observações sobre o lugar. A trilha era tranquila, plana na maior parte do tempo, convidativa. A cada curva, uma nova paisagem se abria.

Em algum momento, sem perceber exatamente quando, o assunto mudou.

Jonas ficou um pouco mais quieto, caminhando ao meu lado, até que falou:

— Posso te fazer uma pergunta meio pessoal?

Olhei para ele, curioso.

— Pode.

— Você… não sente falta de ter alguém? Digo, uma companhia fixa. Alguém pra fazer esses passeios, pra dividir as coisas do dia a dia?

Continuei andando por alguns passos antes de responder. Parei perto de uma árvore, puxei a garrafa da mochila e bebi um pouco de água. Jonas parou também.

Encostei levemente o ombro no dele, mais por proximidade do que por intenção consciente, e falei:

— Talvez isso soe diferente pra você agora, porque você acabou de sair de um relacionamento… mas pra mim não é exatamente assim.

Ele me olhava com atenção.

— Eu já te falei antes… eu tenho amigos, pessoas com quem eu posso contar. E, sinceramente, isso sempre me bastou.

Ele franziu a testa de leve.

— Mas não é a mesma coisa que ter um parceiro, né? Aquela pessoa que te manda mensagem no fim do dia, que faz planos com você…

Respirei fundo.

— Pode ser. Mas como eu não tive isso de forma contínua na minha vida, não é algo que eu sinta falta. Eu me acostumei a ser solo em muitos momentos. Sempre acompanhado, sim, mas ainda assim… só.

Ele sorriu de um jeito diferente.

— Eu gosto disso em você — disse. — Apesar de você ser bem mais novo do que eu…

Cheguei mais perto dele, interrompendo.

— Não é o que parece, né?

Ele me olhou, surpreso.

— Se a gente olhar bem… em aparência, a gente parece ter a mesma idade. Você é bem jovial. Eu nunca diria que você passou dos vinte e cinco.

Jonas riu, um riso aberto, gostoso de ouvir.

— Obrigado.

Seguimos andando, mas o clima tinha mudado. Não era desconfortável — pelo contrário. Era denso. Presente.

O calor começou a apertar mais. O sol atravessava a copa das árvores em feixes de luz que tocavam a pele de forma insistente.

Jonas levou a mão à barra da camiseta, puxou para cima e tirou a camisa com um movimento simples, jogando-a sobre o ombro.

E eu parei.

Eu sabia que o corpo dele era bonito. Já tinha visto antes, por cima da roupa. Mas ali, naquele contexto, foi diferente.

O corpo do Jonas era definido de forma precisa. Ombros largos, peitoral firme, braços fortes, músculos bem desenhados sem exagero. A pele clara contrastava com a tatuagem do leão no braço, que parecia ainda mais viva sob a luz natural. Havia algo de seguro na forma como ele se sustentava ali, relaxado, confiante.

Meu olhar percorreu cada detalhe sem que eu conseguisse disfarçar totalmente. Era como se eu estivesse escaneando ele, absorvendo aquela imagem.

Ele percebeu.

Sorriu.

— Vamos? — disse, com a camisa ainda pendurada no ombro.

— Vamos — respondi, tentando soar normal.

Dei o mesmo gesto que ele. Puxei minha camiseta e tirei devagar, sentindo o ar quente tocar minha pele. Continuei andando, mas agora consciente do olhar dele sobre mim.

— Você não tá com calor? — ele perguntou.

— Tá quente mesmo — respondi.

O olhar dele passeou pelo meu corpo. Eu não tinha o volume dele. Mas eu sabia do meu corpo. Alto, bronzeado, firme, atletico e definido. Um corpo que carregava sol, movimento, saúde.

— Saúde, hein — ele comentou, com um meio sorriso.

Ri, um pouco sem graça.

— Obrigado… eu nem ando me cuidando tanto.

— Quando a gente passa de uma certa idade, precisa se cuidar — ele brincou.

Continuamos andando até encontrar a placa que indicava a cachoeira.

O som da água já podia ser ouvido, suave, contínuo.

Não era uma cachoeira grande. Era mais como uma queda d’água que alimentava uma piscina natural, cercada de pedras lisas e vegetação.

Jonas parou e me olhou.

— Vamos entrar?

Olhei para a água. Clara. Mas dava pra ver que era gelada.

— Tá bem fria…

Ele riu.

— Ué, você não é peixe de água salgada? Acho que água doce não vai te fazer tão mal assim.

Eu sorrio para o Jonas, mas antes de qualquer movimento meu corpo parece pausar por um segundo inteiro.

Meus olhos percorrem tudo ao redor.

A cachoeira se abre diante de nós como um refúgio secreto. A queda d’água não é alta, mas é constante, criando um véu transparente que se desfaz em gotas finas ao tocar a piscina natural. As pedras ao redor são grandes, lisas, algumas cobertas por musgo, outras quentes por causa do sol que começa a vencer a copa das árvores. A luz atravessa as folhas em feixes irregulares, desenhando sombras no chão, na água, nos nossos corpos.

O som é hipnótico. Água caindo, água correndo, água respirando.

E então, sem pressa alguma, como se tivesse plena consciência do efeito que causaria, Jonas começa a se despir.

Primeiro o tênis. Ele se apoia levemente em uma pedra, abaixa o corpo com calma, desfaz os cadarços e puxa um pé de cada vez. Depois as meias, retiradas num gesto simples, quase automático. Em seguida, ele passa as mãos pela cintura e solta o botão da bermuda.

Meu olhar acompanha tudo.

A bermuda escorrega pelas coxas dele devagar, revelando o corpo forte, sólido, ainda sem marcas de sol, mas claramente bem cuidado. Quando a peça cai no chão, o que fica à mostra me prende completamente a atenção.

Jonas está usando uma cueca de praia em um tom marrom escuro, quase terroso. A cor contrasta de um jeito inesperado com a pele clara dele, criando um sombreado que valoriza cada linha do corpo. A cueca se ajusta perfeitamente, firme, segura, desenhando o que não precisa ser explicado. O tecido molhado da umidade do ar já começa a aderir levemente à pele.

Minha respiração muda sem que eu perceba.

Meus olhos percorrem o abdômen dele, o desenho natural dos músculos, o caminho que o olhar insiste em fazer sem pedir permissão. Subo para o peitoral, largo, bem sustentado, e paro na tatuagem do leão no braço. Ali, sob a luz filtrada da mata, ela parece ainda mais viva, mais intensa. O leão parece me encarar também, como se fosse parte dele, extensão daquela presença confiante.

Eu engulo em seco.

E então percebo que estou sendo observado.

Não com pressa. Não com voracidade. Mas com atenção.

Jonas nota meu silêncio, meu olhar fixo, e não diz nada. Apenas sustenta o momento.

Aquilo me provoca.

Sem dizer uma palavra, começo a tirar minhas roupas também.

Primeiro o tênis. Depois a meia. O chão frio toca a sola dos meus pés e me desperta ainda mais. Em seguida, puxo o short com calma, sentindo o tecido deslizar pelo meu corpo. Quando fico apenas de cueca, não faço questão de disfarçar.

A minha cueca é mais cavada, em um tom de laranja queimado, quase solar. Ela expõe bem mais a minha pele, e ali fica evidente o contraste do meu bronzeado. A marca clara, onde o sol não chegou antes, desenha uma divisão nítida, quase provocativa. Sei que aquilo chama atenção.

Jonas olha.

Olha de verdade.

Sinto o peso do olhar dele percorrendo minhas pernas, minha cintura, subindo devagar. Não há pressa. Não há vergonha. Só curiosidade misturada com algo mais profundo.

Olho de volta para ele e digo, quase rindo, mas com a voz baixa:

— É… chegou a hora.

Ele sorri.

Entramos na água.

O primeiro contato é um choque. A água é fria, mais fria do que eu esperava, e meu corpo reage imediatamente. Dou um passo em falso ao pisar numa pedra submersa, escorrego levemente para o lado e, por instinto, me apoio no ombro dele.

Jonas reage rápido.

Uma mão firme no meu ombro, a outra segura minha cintura com segurança.

— Cuidado, hein? — ele diz, rindo. — Não quero sair daqui direto pro hospital.

Sinto o toque dele. A mão quente contrastando com a água gelada. Meu corpo inteiro responde.

— Não, tranquilo… obrigado — respondo, recuperando o equilíbrio.

Ele fica um pouco sem jeito, mas não se afasta de imediato.

— Que nada. A gente tá aqui pra se ajudar.

Continuamos entrando juntos, lado a lado. A água sobe até a cintura, envolvendo nossos corpos, criando pequenas ondas que se chocam entre si. A corrente é leve, mas constante.

— Tá bem gelado — comento, respirando fundo.

— Pra mim tá perfeito — ele responde, relaxado.

— Ah… então tudo bem — digo, fingindo bravura.

Dou um mergulho rápido, deixando a água cobrir minha cabeça. O choque é intenso, mas revigorante. Subo rindo, passando a mão pelo cabelo molhado.

Jonas faz o mesmo logo depois. Mergulha, molha o cabelo, emerge sorrindo, com gotas escorrendo pelo rosto, pelo pescoço, pelo peito.

— Nossa… isso aqui é perfeito — digo, ainda ofegante. — Muito bom.

Ele me olha, sério por um segundo.

— Estar aqui nesse ambiente… — ele começa.

— …é como esquecer — completo.

— …do mundo — ele diz. — É viver só o agora. Acho que é isso que você gosta, né? De viver o agora.

Dou de ombros, sincero.

— É… mas eu sempre tô com a cabeça no futuro. Às vezes no passado também.

— Te entendo — ele responde.

Ele se aproxima um pouco mais.

— Mas vamos aproveitar o agora. Olha… não tem ninguém aqui na cachoeira.

Olho ao redor. Só mata, água, pedra e nós dois.

— Talvez a gente tenha chegado muito cedo.

— Melhor ainda.

Entre risos, jogo água nele. Ele revida. A água voa, espirra, bate no rosto, no corpo. Rimos como se fôssemos só dois garotos esquecidos do tempo.

Nadamos um pouco, explorando o espaço. A água nos carrega. Em determinado momento, voltamos para a beira. Eu me apoio numa pedra esticada, sentando. Ele se senta em outra, de frente para mim.

Balanço a cabeça, jogando água do cabelo, e algumas gotas atingem o rosto dele.

— Eu gostei muito disso aqui — ele diz. — Tô gostando muito do passeio.

— Eu também — respondo. — E… tô gostando da nossa amizade.

Ele sorri, mas o olhar muda.

— Eu também tô gostando da nossa amizade — repete, com um tom diferente.

Ele se inclina levemente.

— Bernardo.

— Oi?

— Você já imaginou a gente tão próximo assim antes?

Respiro fundo.

— Jonas… dificilmente eu me imaginei em algumas situações. Mas poder falar da minha nova rotina, você ter sido tão receptivo, me ajudar com o deslocamento das aulas… isso aproximou a gente. Eu não imaginava muito isso do seu lado.

— Poucas pessoas imaginam — ele diz. — Eu não sou tão aberto assim, principalmente no trabalho.

— Eu também não — concordo. — Ainda mais lá… com pessoas bem mais vanguardistas, mais velhas. Às vezes os assuntos não conversam.

— É — ele confirma. — Realmente não conversam.

Levanto.

— Vamos dar mais um mergulho?

— Vamos.

Entramos juntos de novo. Ele segura em mim, eu seguro no ombro dele.

— Pra você não cair — ele diz. — Eu tô aqui pra te segurar.

— Obrigado — sorrio. — Vamos disputar? Até aquela pedra ali.

— Eu adoro uma disputa — ele responde. — E raramente eu perco.

— Eu também adoro disputar — digo. — E ganhar.

Pulo primeiro. Ele vem logo atrás. Nada com facilidade e me ultrapassa rápido.

— Isso não vale! — reclamo.

— Claro que vale! — ele ri.

Volta rápido, eu sigo. Ele chega antes.

— Pode desistir — ele provoca. — Eu já ganhei.

— Porra, cara… assim não valeu.

Ele se aproxima.

— Valeu sim. Você pulou primeiro… e perdeu.

— É… perdi.

— Quem perde paga uma aposta.

— Se for aposta…

— Não exatamente, mas…

— Mas?

Ele ri, joga água em mim.

— Tudo bem. Você já pagou. Tá sendo minha companhia hoje.

— Estamos sendo companhia um do outro.

— Que seja o primeiro de muitos rolês.

— Se o convite for sempre assim… eu aceito todos.

Ele ri.

— Vai ser sempre assim… ou melhor.

Rimos juntos. Ele se aproxima de novo. Muito perto.

— Bernardo…

Olho pra ele, meio sem jeito. Eu estava, sem perceber, admirando o corpo dele de novo.

— Hoje você vai me ajudar a sair daqui bronzeado igual você, né?

— Tudo bem — respondo. — Se é isso que você quer… eu te ajudo. No que você quiser.

— No que eu quiser? — ele pergunta, aproximando mais.

— É… te ajudo.

Ele encosta a mão na minha cintura. Sinto o calor, a intenção. A outra mão sobe devagar e toca meu rosto.

— Tem algo que eu quero — ele diz baixo. — E você pode me ajudar.

Ele se inclina.

Respiro fundo.

Fecho os olhos.

Quando sinto o rosto dele perto demais, desvio levemente e falo, no ouvido dele:

— Jonas… eu acho melhor não.

Eu digo isso ainda muito perto dele. Perto demais.

Ele não solta as mãos do meu corpo. Pelo contrário. Mantém uma na minha cintura, a outra ainda próxima do meu rosto. Os olhos dele não se afastam dos meus nem por um segundo. Não há surpresa neles. Há curiosidade. Há desejo. Há cuidado.

— Por quê? — ele pergunta, baixo. — Eu não entendi.

Engulo em seco. Minha respiração está irregular. Aproximo ainda mais, até nossas testas se tocarem. O contato é quente, íntimo demais para alguém que acabou de dizer “não”.

— Não é que eu não queira… — começo, a voz falhando um pouco. — Não é que eu não tenha vontade. Nem desejo.

Ele franze levemente o cenho.

— Então por quê?

Viro o rosto de lado, como se buscasse ar. Seguro no ombro dele, sentindo a firmeza do corpo, a segurança daquele toque.

— É que… como eu já te falei… minha vida é um caos.

Antes que eu termine, ele me puxa um pouco mais para perto, com mais firmeza, e completa por mim:

— …pra mais uma pessoa na sua vida.

Fecho os olhos por um instante.

— Exatamente.

Ele suspira, mas não se afasta.

— Entendo — diz. — Mas não era viver o agora?

Abro os olhos de novo.

— Sempre vai ser viver o agora — respondo. — Mas, Jonas… tem tanta coisa acontecendo.

Ele aperta minha cintura um pouco mais, o toque mais decidido.

— Então deixa só mais uma acontecer.

— Jonas…

Ele me olha por mais alguns segundos, como se estivesse medindo cada palavra, cada reação. Então afrouxa o aperto, as mãos deslizam para longe, dando espaço.

— Tudo bem — ele diz. — Eu te entendo. E te respeito.

O afastamento dele cria um vazio imediato.

Instintivamente, seguro o braço dele antes que ele se afaste de vez.

— Eu acho que você entende quando eu digo que não é que eu não queira… — digo rápido. — É só que, nesse momento…

— …nesse momento não é pra acontecer — ele completa, com suavidade.

— Nesse momento…

E aí acontece.

Um turbilhão.

Imagens surgem na minha cabeça como flashes desordenados. Arthuro. Arthur. Yan. Momentos, palavras, promessas, confusões. Tudo em poucos segundos. Um peso. Um conflito. Um nó.

Fecho os olhos.

Quando abro, puxo Jonas de leve e deposito um beijo rápido, quase tímido, no canto da boca dele.

Um selinho.

Mas carregado de significado.

Ele paralisa por um segundo.

Depois sorri de lado, aproxima a boca do meu ouvido e sussurra:

— Desse jeito… você vai me confundir. O que você quer, Bernardo?

Minha resposta sai honesta demais:

— Eu não sei o que eu quero… mas eu quero você agora.

É o suficiente.

A mão dele sobe pela minha nuca, os dedos se embrenham no meu cabelo, firmes. A outra volta para minha cintura. Ele me puxa e me beija de verdade.

O beijo é intenso, quente, lento e profundo. Não há pressa. Não há dúvida. Só presença.

Sou mais alto que ele, e isso faz com que eu me incline levemente. Minhas mãos encontram as costas dele, largas, fortes, quentes sob a água que ainda escorre pelos nossos corpos. Uma mão, depois a outra, espalmadas, sentindo cada músculo, cada tensão.

A boca dele se encaixa perfeitamente na minha. O beijo ganha ritmo. Línguas se encontram, se reconhecem, se provocam. O mundo desaparece.

Sinto a mão dele deslizar pelas minhas costas, descer pela lateral do meu corpo até a cintura. Os dedos encontram o limite da cueca e, num gesto instintivo, firme, ele aperta minha bunda, me puxando ainda mais para si.

O choque do toque me faz arfar contra a boca dele.

Quando nos afastamos só o suficiente para respirar, sorrio, ainda ofegante.

— Você é mais safado do que eu imaginava.

Ele ri, com aquele sorriso aberto, quase juvenil.

— Desculpa… é instinto.

— Tudo bem — respondo. — Não tem problema.

Ele não perde tempo. Me puxa de novo, deposita outro beijo, mais curto, mais provocador, e pergunta:

— Mas… o que você queria falar?

Desvio o olhar por um instante, olho ao redor, a cachoeira, a mata, o santuário silencioso que nos envolve.

— É que eu sou uma pessoa que preserva muito as amizades — digo. — A gente tá se conhecendo… e como eu já te falei várias vezes, minha vida é um caos. Você não imagina o tanto de coisa que tá acontecendo.

Ele me escuta com atenção total.

— Se você quiser se abrir… falar… — ele diz. — Eu sempre vou te escutar. Você pode compartilhar o que acontece com você.

Dou um sorriso sem graça.

— Se eu compartilhar metade… talvez você não me olhe com os mesmos olhos que me olha agora.

Ele ri baixo.

— Eu já vi muita coisa acontecer. Acho que não é algo que a vai me assustar.

Respiro fundo.

— Mas você já pensou que essa vontade pode ser carência? — questiono. — Você saiu de um relacionamento há pouco tempo…

Ele balança a cabeça.

— Já pensei. Mas não é carência. É vontade.

Ele se aproxima de novo.

— Quando você falou sobre viver o agora… eu pensei muito nisso. É o agora que eu quero viver. Aqui. Só nós dois. Nesse lugar. Na praia. Nesse momento.

Ele faz uma pausa.

— Depois… a gente segue a vida como ela sempre foi. Como dois professores amigos.

Seguro os braços dele, sério.

— Tem certeza? — pergunto. — Você consegue seguir assim? Sem grandes envolvimentos?

Ele sorri.

— Se eu não tentar, nunca vou saber.

Não respondo com palavras.

Apenas o abraço.

Encosto a cabeça no ombro dele, sentindo o cheiro da pele molhada, o calor do corpo. Ficamos assim por alguns segundos, respirando juntos.

Então voltamos a nos beijar.

Beijos longos. Beijos lentos. Beijos que exploram. As mãos percorrem corpos esculturais, definidos pelo sol, pela água, pelo desejo contido. Tudo ali é intenso.

— Você beija muito bem — ele murmura.

Sorrio.

— Beijo é consequência — respondo. — Se os dois gostam… o beijo sempre vai ser bom.

Rimos juntos.

Mas algo ainda pesa.

— Só tem uma coisa que me preocupa — confesso.

— O quê?

— Magoar pessoas.

Ele me encara.

— Pessoas ?

— É… pessoas, no plural.

Ele fica em silêncio por um segundo.

— Isso significa que, mesmo solteiro… você tem alguém?

— É… mais ou menos isso.

Dou um sorriso leve.

— Mas… vamos viver o agora?

Sem esperar resposta, puxo ele e pulamos juntos na água.

Rimos.

Mergulhamos.

Quando voltamos à superfície, no meio da cachoeira, com a água caindo sobre nossos corpos, nos beijamos de novo. Ali, cobertos pela água, pela mata, pelo momento.

Decidimos voltar.

Saímos da água devagar, com o corpo ainda quente, a pele arrepiada pelo contraste da cachoeira e do ar. Voltamos para as pedras onde deixamos nossas coisas. A água escorria pelos nossos corpos, marcando músculos, desenhando sombras naturais sobre a pele ainda bronzeada.

Jonas pega o celular, franze a testa ao olhar a tela e diz:

— Acho que agora já dá pra gente voltar pra praia, né?

— Epa… — respondo, com um sorriso fácil. — A melhor parte.

Ele ri, inclina um pouco o corpo em minha direção.

— Pensei que a melhor parte fosse…

Ele não termina a frase.

Eu completo do meu jeito: puxo-o pela nuca e o beijo. Um beijo rápido, cúmplice, cheio de riso no meio.

— Essa é uma parte surpresa — digo. — Uma surpresa muito boa.

Ele sorri daquele jeito que mistura malícia e leveza.

— Os celulares estão completamente sem rede — comenta. — Dá uma olhada no seu também.

Confiro o meu.

— É… o meu também.

Levanto o celular e, quase instintivamente, falo:

— Vamos tirar umas fotos aqui.

Tiramos fotos um do outro. Ele, de pé sobre as pedras, com a luz batendo no corpo ainda molhado. Eu, apoiado numa rocha, tentando capturar o contraste da água, da mata, da pele.

Depois posiciono o celular para uma foto juntos.

Aquela foto…

Aquela ficou diferente.

Encosto a cabeça no ombro dele, meu pescoço repousa ali naturalmente. Ele ajusta o enquadramento com calma. O clique registra algo que parece mais do que um passeio. Parece um instante de pertencimento.

— Ficou bonita — ele diz, olhando a tela. — Bem… de casal.

Sorrio, sem negar.

— Vamos?

— Vamos.

Recolhemos tudo. Colocamos tênis, meias. Eu decido seguir só de sunga mesmo, sentindo o corpo livre, leve. Iniciamos a trilha.

— A gente veio por aqui — Jonas aponta. — Agora é só fechar a rota em O. Uns vinte, trinta minutos no máximo.

— Perfeito.

Sem dizer nada, ele pega minha mão.

Não é um gesto ensaiado. É instintivo.

Seguimos de mãos dadas, andando entre árvores, sombras, galhos baixos. Conversamos coisas soltas, leves. Até que ele quebra o silêncio:

— Não quero ser invasivo, mas…

— Pode falar — digo. — Pode falar, Jonas.

Ele hesita.

— Não… melhor não.

— Pode falar — insisto, sorrindo.

Ele ri, balança a cabeça.

— Melhor só aproveitar.

Paro por um segundo, puxo-o levemente e dou um selinho ali mesmo, no meio da trilha.

— Acho que a gente tem liberdade pra falar de muita coisa — digo. — Inclusive o que você quiser perguntar. E isso vale de mim pra você também, né?

Ele assente.

— Você é uma das poucas pessoas com quem eu me sinto à vontade pra falar da minha vida… sem medo de ser julgado.

— Não tem por quê — respondo.

— É viver o agora — ele completa. — Sem cobranças.

— Totalmente sem cobranças.

Seguimos.

Tiro algumas fotos da trilha. De repente, paro e digo:

— Jonas.

— Oi?

Olho pra ele, só isso.

— Nada… só queria te olhar.

Ele ri.

— Seu bobo.

Depois, sério:

— Você é muito bonito, Bernardo.

— Ah, para — respondo. — Você é um lindo. Olha esse corpo, olha tudo isso que você é.

Ele suspira.

— Nem todo mundo valoriza. Acham que é só isso aqui fora. Mas eu sou mais.

— Eu sei — digo. — O que aproxima as pessoas é isso: o que tem por dentro. O resto… é a chave final.

Ele sorri.

Continuamos andando até o trecho da trilha ficar mais fechado. A vegetação se adensa. O som muda.

Então ouvimos.

Um ruído abafado. Ritmado. Respirações entrecortadas. Um som grave, intenso, que não vem da mata.

Jonas franze o cenho.

— Tá ouvindo isso?

— Tô.

— Vamos devagar…

Olho o celular de novo.

— Sem rede.

Nos aproximamos com cuidado. Os sons ficam mais claros. Uma respiração ofegante, pesada. Um gemido baixo, contido, depois outro, mais intenso. O som de corpos em movimento, pele contra pele, sem preocupação alguma com silêncio.

— Cara… — Jonas sussurra. — Tem alguém aqui.

— Tem gente transando — digo, quase rindo de nervoso.

Avançamos mais um pouco, escondidos pela vegetação.

— Olha lá… — ele aponta.

Quando meus olhos alcançam a cena, algo dentro de mim trava.

O impacto não é só pelo que vejo.

É por quem eu vejo.

Um corpo imponente, conhecido. A postura. A maneira como se move. A presença dominante, segura. A forma como controla o ritmo, o espaço, o outro corpo completamente entregue à situação.

O homem desconhecido está vulnerável, exposto, rendido ao momento. A respiração dele é alta, irregular. Dá pra ouvir o ar sendo puxado com força, os sons escapando sem filtro. As roupas deles estão abertas, entre as pernas.

Mas é o outro…

O outro eu conheço.

Não preciso ver o rosto inteiro. O corpo fala. O jeito de se mover fala. A energia fala.

Ele olha ao redor, alerta, mas não se importa o suficiente para parar. Está tomado pelo desejo, pela adrenalina do lugar, pela intensidade do momento. Não há pudor. Não há medo. Só entrega ao impulso.

Sinto meus dedos apertarem a mão do Jonas com força, quase sem perceber.

Meu peito aperta.

Minha mente entra em silêncio.

Eu conheço aquele corpo.

E vê-lo ali — daquele jeito — mexe comigo mais do que eu poderia imaginar.

Fico parado, observando, sem conseguir desviar o olhar...

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