Você fecha a porta atrás de si e o mundo fica do lado de fora, como se tivesse sido gentilmente desligado. A casa respira mais devagar, e você também. O silêncio não é vazio; ele envolve, aquece, convida. Você sente o próprio corpo ganhar contornos mais nítidos, como se cada pensamento fosse uma luz baixa acendendo por dentro. A atenção se volta para a respiração, longa, consciente, descendo pelo peito, pousando no ventre, ficando ali por um instante a mais do que o habitual. Há uma suavidade no ar, um tempo que se alonga, e você percebe que não há pressa alguma. Apenas presença. Apenas você, e a memória dele surgindo com a delicadeza de quem sabe esperar.
Pensar nele não é um gesto inocente, e você sabe. Existe uma regra não dita, uma linha que não deveria ser cruzada, e ainda assim o pensamento atravessa com elegância, sem pedir permissão. Você lembra do modo como ele olha sem tocar, da voz baixa que parece saber exatamente onde repousar. Não há culpa nisso, apenas a consciência clara de que é proibido porque é verdadeiro demais. O desejo cresce nesse espaço silencioso entre o que é permitido e o que é inevitável. Você sente um calor discreto subir, espalhar-se, como se o corpo reconhecesse antes da mente admitir. A moral observa à distância, mas não interfere. Não hoje.
Você se move devagar, não para provocar, mas para sentir. Cada gesto é medido, como se alguém estivesse conduzindo o ritmo sem estar presente. E de certo modo está. Você imagina a atenção dele sobre você, não invasiva, apenas firme, guiando sem tocar. Isso faz com que seus sentidos se tornem mais atentos, mais abertos. A pele parece escutar. A respiração se aprofunda novamente, obediente a um compasso que não foi combinado, mas é claro. Você percebe como o controle não vem da força, e sim da calma. Da certeza de que a espera também é um ato de domínio.
À medida que o pensamento se aprofunda, o corpo responde em pequenas ondas. Um arrepio leve, quase imperceptível, depois outro. A pulsação interna se torna mais clara, como um sussurro constante lembrando que você está viva, alerta, entregue. Você se permite explorar essas sensações sem pressa, como quem percorre um caminho conhecido sob uma nova luz. Nada é explícito, tudo é intenso. A antecipação faz o trabalho silencioso, acumulando tensão de forma elegante, fazendo com que cada segundo pese um pouco mais. Você percebe que o desejo não pede permissão ao corpo; ele se instala, ocupa espaço, transforma o agora.
Quando o momento parece prestes a se completar, você não corre para um fim. Deixa que a sensação permaneça, suspensa, vibrando suavemente sob a pele. O pensamento nele continua ali, ativo, observando, presente, mesmo sem palavras. E quando o silêncio retorna, ele não apaga o que foi despertado. Fica um resíduo quente, uma atenção expandida, um corpo mais sensível ao próprio ritmo. Você sabe que algo foi acionado, e não precisa se resolver agora. O desejo permanece, consciente, elegante, esperando o próximo olhar, a próxima lembrança, a próxima vez em que o mundo, outra vez, ficará do lado de fora.