Tum!
— Ai!
O Comandante me empurra, fazendo-me cair de bunda no chão.
— Eu não fiz nada! — rosna o Comandante Yai, apontando para mim nervoso. — Ele é um louco! Se despiu em qualquer lugar sem a menor preocupação.
— Eu? Não! Eu não fiz isso! — berro. — O pano estava solto quando acordei. Tentei arrumar, mas não consegui, e o Comandante Yai não quis me ajudar.
O Comandante In fica em silêncio por um momento e depois cai na gargalhada. Por fim, o Capitão Mun é chamado para salvar a pátria.
A atmosfera é hilariamente constrangedora. O Capitão Mun aperta os lábios com força enquanto amarra apressadamente o pano para mim. O rosto do Comandante Yai ainda alterna tons de vermelho e verde, parecendo o deus Indra furioso. O Comandante In tenta manter a pose pelo bem do irmão, mas falha. O pescoço e a barriga dele ficam tensos de tanto segurar o riso. Ele então segue o irmão, que sai bufando da tenda.
No final da manhã, já me tornei o assunto do momento entre as carroças e os soldados valentes.
— Quanta audácia a sua, Ai-Jom, tirar o pano na tenda do comandante. Tenho que tirar o chapéu para você.
O Capitão Mun dá gargalhadas, com o rosto vermelho e as mãos segurando a barriga. Todos cochicham e riem disso durante toda a viagem da manhã, realmente entretidos. Mas quando o Comandante In ou o Comandante Yai passam a cavalo, eles calam a boca e focam na estrada. Estou terrivelmente desanimado e não consigo evitar de corrigi-lo:
— Eu não tirei o pano. Ele se soltou sozinho. Eu nunca usei isso antes. Você sabe disso.
Alguém se importa com a minha explicação...? Não. Aqueles que estão com medo demais para rir na minha frente viram as costas ou olham para outra direção, embora seus ombros tremam violentamente. Serei a fofoca da vez para sempre, hein? Da última vez, bati no pavilhão à beira-mar do Khun-Yai e virei o barco. É um belo progresso desta vez, já que meu pano caiu na frente dele. Além disso, o Capitão Mun — ou Ming — é uma pedra no sapato em todas as vidas.
Ao meio-dia, a comitiva para para um descanso. Noto que os bosques nesta área não são tão fechados quanto os que atravessamos ontem na mata. Sento-me, encosto as costas em uma rocha e estico as pernas. Sinto dores por todo o corpo, como se minha alma estivesse saindo do corpo. Os outros não parecem tão cansados quanto eu. Eles vivem nesta época onde as pessoas trabalham principalmente na terra para sobreviver, então seus corpos são firmes e mais fortes que os de um homem da cidade como eu. Além disso, estão mais familiarizados com a paisagem e o clima.
Suspiro fundo quando o grilhão nos meus tornozelos se move e os fere. A pele ao redor dos meus tornozelos e ossos está machucada pelo contato com os anéis de metal a cada passo. Não foi tão ruim ontem, pois eu estava com minhas roupas velhas que incluíam calças compridas. As barras protegiam minha pele do contato direto com o metal. Agora, uso algo que parece um taparrabo na altura das coxas. Meus sapatos de couro preto foram jogados em uma carroça, substituídos por sandálias rasas feitas de couro e cordas. Nada protege minha pele do atrito. Acaricio meus tornozelos suavemente e me encolho ao tocar a parte que arde.
Levo um susto ao avistar o Comandante Yai trotando por perto em seu cavalo. Ele está olhando para cá, então nossos olhos se encontram. Não sorrio para ele apenas para ser ignorado novamente como ontem. Em vez disso, tento transmitir por telepatia que o odeio. O Comandante Yai desvia o olhar sem se importar. Solto um suspiro. Seria ótimo se eu pudesse odiá-lo ao menos dez por cento, porque, na verdade, não o odeio nem um pouco. É impossível odiar a pessoa que tem o rosto de quem você ama de todo o coração.
Quando chega a hora de continuar a jornada, levanto-me e manco até minha posição ao lado do Capitão Mun.
— Capitão Mun, você tem alguns retalhos de tecido? — pergunto. — Por favor, me dê alguns para amarrar nos tornozelos. Caso contrário, não conseguirei caminhar mais nem um passo.
O Capitão Mun observa os arranhões vermelhos nos meus tornozelos e concorda, embora reclame que sou cheio de frescura. Ele busca um pano em uma das carroças de bagagem e o rasga em tiras longas e finas. Antes que eu consiga amarrá-las, ouço o trote do Comandante In se aproximando em seu cavalo.
— Remova os grilhões — ordena ele.
O Capitão Mun parece estupefato.
— Mas o Comandante Yai...
O Comandante In faz uma cara de irritado.
— Estou mandando tirar, então tire. Não pergunte mais nada.
O Capitão Mun obedece e remove os ferros. Sinto um alívio absoluto por minhas pernas estarem finalmente livres. Meus pulsos ainda estão acorrentados, mas não é tão pesado e doloroso ao caminhar quanto o grilhão dos tornozelos era. O Comandante In observa os hematomas ao redor dos meus tornozelos e franze a testa.
— A pele dele é estranhamente frágil. Essas pequenas peças de metal chegaram a cortar a carne.
Ele tira um lenço preso em seu cinto e o joga para mim. Eu o pego antes de conseguir processar qualquer coisa. É um lenço de cor marfim limpo, com a borda cuidadosamente bordada em um padrão minúsculo. Quando o Comandante In afasta seu cavalo, vejo o Capitão Mun me olhando com olhos maliciosos. Ele levanta a sobrancelha para perguntar qual tecido eu usarei: o que o Comandante In jogou ou o retalho sujo que ele pegou aleatoriamente da carroça.
Respondo com um sorriso e me agacho para limpar o sangue dos ferimentos com o lenço do Comandante In, sem hesitação. Ouço o Capitão Mun resmungando algo como... "Eu sabia".
À noite, acampamos na mata novamente. As posições das tendas e o sistema de sentinelas são os mesmos. Sou pego de surpresa quando o Capitão Mun destrava os grilhões dos meus braços na hora de dormir.
— O comandante disse que você não precisa mais ficar acorrentado — diz ele.
Fico feliz por poder mover meus membros livremente, mas ainda me pergunto qual comandante foi. O Comandante Yai ou o Comandante In?
— Onde eu durmo esta noite? — No mesmo lugar — ele responde. — O comandante não me deu nenhuma ordem diferente.
Sigo o Capitão Mun até a tenda do Comandante Yai, com o coração martelando só de pensar em enfrentá-lo novamente. Quando chegamos, o Comandante Yai já está lá dentro. O Capitão Mun se retira, deixando-me com dificuldade para respirar ali dentro com o Comandante Yai. Sento-me reservadamente no meu canto. A fonte de luz para esta noite vem de uma vela acesa em um suporte de latão ao lado do colchão dele. Ele olha para mim e baixa os olhos para os meus tornozelos.
Eu envolvi um deles com o lenço do Comandante In, já que a pele estava esfolada. Deixo o outro desamarrado porque está apenas vermelho e um pouco roxo.
— É do Comandante In — explico com uma voz tímida, como se fosse culpado, embora eu não o tenha roubado.
O Comandante Yai não diz nada. Ele desvia o olhar com o rosto inexpressivo e assume uma posição de prece. Ao vê-lo fazer isso, percebo que eu também deveria fazer uma oração. Ajoelho-me e fecho os olhos, então rezo mentalmente, sem murmurar como o Comandante Yai, temendo interrompê-lo. Rezo às Três Joias para que me protejam do perigo e não permitam que mais nenhuma desgraça me alcance.
Depois, espero em silêncio até que ele termine sua prece. Ele apaga a luz e se deita. Desta vez, não pergunto se posso dormir e enrolo o cobertor para servir de travesseiro, já que o ar não está frio esta noite. Quando esfriar pela manhã, eu o estenderei para servir de cobertor novamente. Antes que minha cabeça toque o "travesseiro", o Comandante Yai fala com uma voz gelada:
— Se o seu pano se soltar de novo esta noite, eu vou chicotear suas costas no chão.
Deito-me de costas para ele. Trinco o maxilar com força, com medo de perder a cabeça e retrucar. Deixa eu te perguntar uma coisa: quem soltaria o próprio pano por diversão? Ele falou como se eu tivesse feito de propósito. A tenda agora cai no silêncio.
Fico ali de olhos abertos no escuro, e meus pensamentos começam a vagar por todo tipo de coisa. O Comandante Yai provavelmente não dormiu de imediato, mas não diz mais nada. Só consigo suspirar. Ele obviamente não tem intenção de conversar comigo. Só me deixa dormir aqui porque "se deve manter o inimigo por perto". Ele parece ser mais habilidoso em combate do que todos aqui. Se eu tentasse algum truque, seria fácil para ele se livrar de mim. Isso é melhor do que me deixar lá fora para causar um estrago pior. Eu poderia cortar a garganta dos soldados adormecidos, roubar as carroças de comida ou trazer outros bandidos para roubá-los.
Sinceramente, eu queria dizer a ele que o pior estrago que sou capaz de causar é talvez roncar. Quase uma hora depois, ainda estou acordado. Pior, as coisas se tornam mais vívidas no escuro. Consigo sentir o cheiro da mata e dos artigos de couro. Consigo ouvir a respiração dele, um ritmo constante que me faz imaginar seu peito subindo e descendo no mesmo compasso. Fecho os olhos com essa amargura de saudade. Ele está a poucos centímetros de distância, mas parece que estamos em mundos diferentes. Talvez seja porque o coração dele está longe de mim. Será que possuímos memórias do futuro...? Acho que não. Além disso, nem deveriam ser chamadas de memórias.
Nesta noite, sonho com o Khun-Yai. Um sonho vindo dessa saudade louca e avassaladora, um mecanismo da mente humana que nos ajuda a lidar com a realidade. Aliviando a dor com doçura. No sonho, estou em frente à grande casa de Luang The Nititham em 1928 (B.Epela manhã, onde os servos seguem suas rotinas. Tudo parece normal, como se não fosse um sonho. Mas, no fundo, isso parece estranhamente surreal. Talvez minha consciência se apegue firmemente à realidade.
Khun-Yai não está com Khun-Kae na casa. Estico o pescoço e olho cada cômodo, esperando encontrá-lo estudando com o Luang ou com o professor estrangeiro, mas ele não está em lugar nenhum. Procuro-o inquieto no jardim e no pavilhão à beira-mar. Quando não o encontro, começo a gritar e chorar. Finalmente, eu o encontro. Khun-Yai está lendo em uma cadeira na varanda da casa pequena, sob a sombra da grande árvore e a luz fraca do sol. Ele sorri quando me vê. O sorriso é tão caloroso que meu coração quase derrete.
— Poh-Jom... Eu estive esperando por tanto tempo. Onde você esteve?
Subo as escadas correndo com o coração disparado, quase me lançando sobre ele. Não consigo expressar em palavras o quanto senti falta de sua voz e de sua presença. Envolvo meus braços na cintura dele e enterro meu rosto em seu peito.
— Onde você esteve, Khun-Yai? Eu procurei por você em todo lugar e não conseguia te achar. Você não estava em lugar nenhum. Meu coração estava prestes a quebrar.
— Eu nunca fui a lugar nenhum. Estou sentado aqui há muito tempo, esperando por Poh-Jom. Estava achando que você estava por aí vadiando.
Aperto o abraço, soluçando violentamente. Lágrimas correm pelo meu rosto. Khun-Yai as limpa com suas mãos grandes.
— Você está chorando como uma criança. Não chore.
Seguro as mãos dele e as beijo. Minhas lágrimas se espalham por sua pele.
— Senti sua falta, Khun-Yai. Senti tanto a sua falta. Por favor, nunca mais me deixe.
— Eu nunca deixei você. Nem uma única vez — ele me conforta com sua voz ressonante. — Bom espírito... não queime. Bom espírito... retorne para o meu Poh-Jomkwan.
E eu acordo.
Abro os olhos para a visão embaçada diante de mim, meu peito ainda subindo e descendo por causa dos soluços. Lágrimas mancham minhas bochechas enquanto ajusto minha visão e sentimentos, tentando compreender o que estou olhando. A luz fraca banhando o tecido da tenda pelo lado de fora, a estrutura da tenda e as mãos de um homem presas entre as minhas. Pisquei para afastar as lágrimas e tentei o meu melhor para identificar em que período da vida eu estava. O rosto encantador, idêntico ao do meu sonho, paira sobre mim. Ele veste trajes antigos, com a testa franzida. E eu murmuro.
— C... Comandante Yai.
Solto as mãos dele no segundo em que ele as puxa de volta.
O Comandante Yai estreita os olhos, os lábios levemente cerrados, o olhar cheio de perguntas. Passo os olhos ao redor, atordoado, meu coração sentindo-se fraco com os mesmos sentimentos que tive no sonho, embora mais vazio. Fungo, e as palavras escapam da minha boca sem pensar muito.
— Me desculpe.
O Comandante Yai não diz nada. Ele me olha com olhos cheios de perplexidade, depois se levanta e sai da tenda. Eu me impulsiono para cima e esfrego o rosto, desejando não ter acordado. A jornada recomeça no final da manhã. O ambiente está mais animado do que nos outros dias, pois logo chegaremos à aldeia onde os viajantes costumam buscar abrigo temporário e estocar mantimentos. Não estou no clima para conversar ou apreciar a paisagem, embora meus braços e pernas não estejam mais acorrentados. Só consigo pensar que seja o que Deus quiser. Ao meio-dia, chegamos à pequena aldeia, Baan Thung Hin.
A rota estreita que serpenteia pela mata abre-se para uma estrada mais larga com rastros de carroças, pegadas e animais, indicando que a estrada é usada com frequência. A comitiva real para na borda da mata. Diante de nós, há uma vasta pastagem que se estende até a aldeia. Consigo ver os telhados de muitas casas ao longe. Eles montam as tendas ao redor da borda da pastagem, bem longe das terras cultivadas e dos campos de arroz dos aldeões. Um pequeno riacho corre por perto, a fonte de água para as fazendas da aldeia. Sento-me ao lado de uma carroça e observo os servos descarregarem os equipamentos e montarem as tendas. Todos os oito cavalos estão amarrados nas árvores perto do riacho, pastando sem preocupação.
— Precisa de ajuda? — pergunto a um servo. Uma pilha de cobertores está em seus braços.
Com os olhos arregalados, ele balança a cabeça rapidamente e se afasta de mim. Eles ainda devem acreditar que sou um erro neste lugar, um homem misterioso com um passado desconhecido. Bem, não posso culpá-los. Pouco depois, o Capitão Mun vem até mim com outros quatro soldados. Eles não estão mais com os uniformes e agora usam roupas casuais. O Capitão Mun tagarela com um rosto alegre:
— Vou visitar o mercado. Dizem que a bebida de Baan Thung Hin é forte. Quero provar.
— Quantas vezes você vai "provar", Capitão Mun? Você acabou com metade do pote da última vez — um dos soldados retruca divertido. — Pare de dar desculpas. Admita logo que está morrendo de vontade de beber.
O Capitão Mun levanta o pé para chutar o homem, mas ele se esquiva e ri alto. Isso faz o Capitão Mun rir também. Só consigo esboçar um sorriso vago diante da situação.
— Vamos, levante-se — diz o Capitão Mun para mim. — Preciso te carregar no colo?
Olho para ele confuso.
— Hum...? Eu posso ir com vocês?
— O comandante me mandou ficar de olho em você. Eu tenho escolha a não ser te levar junto?
Levanto-me como ordenado e me junto ao grupo. A distância deste ponto até a aldeia é bem longa. Ficaremos com as costas suadas sem cavalos ou carroças. Mesmo assim, todos parecem enérgicos, apesar do sol escaldante, provocando-se uns aos outros pelo caminho. Eu apenas observo e escuto em silêncio.
Na metade do caminho, paramos quando um grupo de homens imponentes aparece atrás de um bosque e da vegetação alta na lateral, supostamente à nossa espera. Meu coração dispara ao notar que esses homens estão totalmente armados com espadas, machados e bestas, cada um deles nos fixando com olhares hostis. Um deles fala num rosnado:
— Quem são vocês?
O Capitão Mun e seus soldados trocam olhares cautelosos, então ele pergunta de volta:
— Quem são vocês? Por que estão bloqueando nosso caminho?
— Responda-me — o outro cara aponta a espada de forma intimidadora. Vendo que as coisas estão piorando, o Capitão Mun diz:
— Somos soldados viajando de passagem.
— Soldados ou bandidos? — o outro cara insiste. Ele nos avalia de cima a baixo. — Soldados fugindo de uma batalha perdida fatalmente se tornam bandidos.
— O bandido é você! — um dos companheiros do Capitão Mun rebate, indignado por ser acusado. — Vocês é que estão escondidos na mata. Se não fossem bandidos, quem mais seria?
— Quer sentir o gosto da minha espada, bastardo?!
O Capitão Mun e seus amigos desembainham suas espadas abruptamente, e os outros homens não perdem um segundo. Tudo acontece muito rápido. Eles avançam uns contra os outros e lutam com suas armas. Eu recuo vacilante, com o coração na mão de medo.
Sou o único aqui desarmado! Ouço um zunido no ar acima da minha cabeça e olho para cima. Uma lança voa pelo campo e crava no chão. Ela cai precisamente no meio dos homens que lutavam, interrompendo a briga em um instante. Viro a cabeça em choque na direção de onde a lança foi arremessada. Um cavalo de guerra surge por cima da grama alta, veloz como o vento. Seu relincho reverbera vigorosamente pelo campo quando o cavaleiro o faz galopar com toda a força. Observo com um frio na barriga. Embora a visão esteja em contraluz, reconheço aquela figura robusta no cavalo: é o Comandante Yai! Ele ordena que parem a luta, destemido diante das armas dos estranhos ao redor. Seus olhos ardentes varrem o local antes de ele proferir com uma voz poderosa e rouca:
— O que está acontecendo? Por que estão todos lutando?
O Capitão Mun e os outros soldados não baixam as armas. Ele responde:
— Esses homens nos atacaram primeiro, Comandante. Receio que sejam bandidos tentando nos roubar.
Aqueles homens robustos ficam atônitos ao ouvir como o Capitão Mun se dirigiu ao Comandante Yai.
— Você perdeu o juízo, Capitão?! — esbraveja o Comandante Yai. — As espadas e facas deles são feitas do aço fino de Baan Thung Hin. Como poderiam ser bandidos?!
No fim, o conflito é resolvido quando ambas as partes percebem que ninguém ali é bandido. O grupo que bloqueava nosso caminho era formado por jovens da aldeia que se voluntariaram para guardar o vilarejo. Bandidos têm atacado povoados ultimamente, então eles se ajudam para proteger o que é deles.
O Comandante Yai precisa cavalgar até a aldeia para encontrar o Chefe do Vilarejo, Nankum. Mesmo que tenha sido um mal-entendido impulsivo de ambos os lados e os ferimentos não sejam graves, ele considera necessário se desculpar oficialmente para evitar atritos futuros.
Eu acabo sobrando na história, mesmo sem ter feito nada além de ficar tremendo perto da briga. Tenho que me agachar no gramado junto com o Capitão Mun e seu bando na casa do Chefe Nankum, curvando-me em pedido de desculpas por ferir os homens do Chefe sem querer.
— Meus homens agiram precipitadamente. Por favor, perdoe-os, Poh-Nan — pede o Comandante Yai. Apesar de sua postura imponente de sempre, ele parece humilde na presença de alguém mais velho. Nankum balança a cabeça; é um senhor de uns cinquenta anos, mas ainda parece saudável e tem um temperamento bondoso.
— Precisa se desculpar por um assunto desses? Meus homens não são diferentes. Eles ficam de cabeça quente por qualquer coisa e sempre correm para a briga.
Os tais homens desviam o olhar, embora estivessem nos desafiando ferozmente instantes atrás. Assim, as coisas são resolvidas pacificamente. Nankum ordena que seus servos tragam nozes de betel e tabaco para o banco de bambu para receber os convidados.
— Mae-Ing, Jumpa, preparem uma refeição para nossos convidados.
Mas o Comandante Yai recusa.
— Por favor, não se incomode, Poh-Nan. Preciso retornar ao acampamento para guardar Sua Alteza Real, então não posso demorar. Eu apreciaria apenas uma tigela da água de chuva com jasmim daquele pote de barro ali na cerca.
Eu paraliso e olho para ele, atordoado por um momento... Ele acabou de dizer "água de chuva com jasmim"?
Logo, uma garota chamada Jumpa, filha de Nankum, eu presumo, traz uma tigela de prata com água da chuva e algumas flores de jasmim flutuando, e a coloca diante do Comandante Yai.
Ele toma um gole lentamente, com uma postura que desperta um turbilhão de emoções no meu peito. Sua expressão e seu olhar, revigorados pela água aromatizada... Ele é, definitivamente, o meu Khun-Yai. Aperto os punhos no colo, encarando-o inevitavelmente, com o coração tomado por uma saudade indescritível.
— Obrigado, Mae-Jumpa — diz o Comandante Yai ao pousar a tigela.
Jumpa se contorce de timidez, e eu faço uma careta sem pensar.
Eu entendo que, quando uma jovem ouve uma voz grave vinda de um homem digno e destemido, ela vai acabar se derretendo toda. Mesmo assim, não consigo evitar uma pontada no coração. Que patético. Estou agindo como a vilã de novela mexicana que tem inveja da mocinha. Sem contar que o galã nem liga para mim. Baixo o olhar e tento impedir que meus pensamentos piorem.
Após as despedidas educadas, o Comandante Yai volta a cavalo para o acampamento. Já o Capitão Mun, seu bando e eu ficamos na aldeia como planejado. Embora Baan Thung Hin seja pequena, seu mercado é bem movimentado. Suponho que seja por ser um ponto de parada para viajantes descansarem e comprarem comida.
Passeamos pelo mercado repleto de mercadores. Ambos os lados da rua estão alinhados com barracas vendendo roupas e equipamentos diversos. Há comidas de aparência estranha, utensílios, frutas silvestres e plantas que nunca vi na vida. Se fosse na minha época, eu estaria empolgado, tirando fotos de tudo para postar, impressionado com a vibe antiga. Mas, como não sou um turista e nem sei qual é o meu status nesta era — prisioneiro? milagre? erro? — o mercado não me parece tão atraente.
O Capitão Mun e seus amigos dão uma olhada nas vitrines antes de irem ao que interessa: uma barraca de comida que vende bebida alcoólica. Eles pedem aguardente e vários pratos. Também avisam uns aos outros para não exagerarem, pois alguns estão de sentinela hoje e o Comandante Yai pode puni-los.
O Capitão Mun é gentil o suficiente para me dar um pouco de carne de cervo grelhada. Como um pedaço, tentando não pensar nos olhos grandes e redondos do bicho. Depois de ficarem um pouco "altos", todos apontam para uma mulher Mon que passa carregando cestos. Ela é lindíssima, com um corpo escultural. Eles perdem o fôlego e começam a se cutucar, contando piadinhas sujas. O Capitão Mun, mais interessado que todos, levanta-se esticando o pescoço.
— Esperem por mim aqui — diz ele, virando-se para um dos amigos. — Ai-Son, vem comigo. Aquela mulher é uma beleza. Como posso deixá-la passar sem fazer nada?
Sem escolha, espero quieto pela volta dele. Depois de um tempo, as coisas degringolam. Os soldados começam a dar em cima das mulheres da aldeia, o que irrita os homens da mesa ao lado. Começo a me preocupar, com medo de outra briga. Vale lembrar que sou uma pessoa comum, sem habilidades de luta. Quando um homem começa a gritar, decido me levantar.
— Vou procurar o Capitão Mun.
Ninguém me dá atenção, pois estão todos focados na briga da mesa vizinha, o que é ótimo. Saio da barraca e sigo pelo caminho onde o Capitão Mun desapareceu.
Vago por algum tempo e percebo que estou perdido. Não encontro o Capitão Mun e não sei voltar para a barraca. Olho ansioso para os lados. O céu está escurecendo conforme o crepúsculo cai. Se eu não os encontrar logo, o que vou fazer? Dormir na rua? E se a comitiva partir sem mim...? Começo a entrar em pânico, girando tonto de ansiedade, mas então avisto alguém.
...Comandante In.
Ele não está com o uniforme completo de soldado como vi pela manhã, mas veste um pano enrolado até a altura das coxas e está sem camisa, revelando seu peito musculoso. Marcho em sua direção e abro a boca para chamá-lo, mas é tarde demais; estou longe demais. O Comandante In olha ao redor antes de entrar em uma loja.
Apresso o passo atrás dele. Quando entro na loja, paro. Hum...? Ele está comprando ornamentos femininos. Fico meio hesitante e decido sair de fininho para esperar na entrada, sentindo que é um assunto pessoal e que ele provavelmente não quer ninguém bisbilhotando. Mas não tiro os olhos dele de longe, com medo de perdê-lo de vista. O Comandante In gasta um tempo escolhendo e finalmente compra um grampo de cabelo. Ele pede ao dono da loja para embrulhá-lo em um pano de seda com um padrão bonito.
Eu sorrio. Comandante In... por quem você está apaixonado? Se ele está comprando em segredo, presumo que a mulher deva ser alguma dama da realeza. Ele realmente olhou em volta antes de entrar. Aproveito a chance quando ele entrega a moeda ao mercador para me afastar da entrada da loja e me esconder atrás de uma barraca de bananas. Assim que o Comandante In se afasta alguns passos da loja, chamo seu nome.
— Ah. Comandante In.
Ele se vira e parece surpreso ao me ver ali. Rapidamente, enfia o embrulho de seda no cós da roupa, como se não quisesse que ninguém visse. Tarde demais. Eu assisti do começo ao fim.
— Comandante In, eu me perdi do Capitão Mun e andei em círculos várias vezes. Não vi ninguém além do senhor. Poderia me mostrar o caminho de volta para o acampamento?
Ele não pensa muito, apenas assente e diz:
— Venha comigo.
Sigo o Comandante In em silêncio. Quando chegamos a uma barraca que vende carnes secas variadas, avisto seu cavalo amarrado na árvore atrás. O Comandante In paga ao dono da barraca e puxa seu cavalo para a estrada.
— Suba — ele ordena.
Assustado, olho para ele e para o cavalo, alternando o olhar com incerteza. Andar a cavalo com o Comandante In... é permitido? Acho que sim, já que ele fica me encarando, esperando que eu faça o que foi dito. Observo o animal com ansiedade. Nunca montei nem um cavalo comum, e este é um cavalo de guerra enorme e formidável. Como eu subo? O Comandante In percebe minha hesitação.
— Segure nos meus ombros e coloque o pé no estribo.
Os ombros do Comandante In são incrivelmente firmes. Eu os agarro e consigo me impulsionar para cima com o estribo, com uma ajudinha dele. Ele monta no cavalo atrás de mim, agarra as rédeas e sinaliza para o animal se mover. O cavalo trota pela área residencial até a borda da pastagem e, de repente, dispara. Eu dou um grito quando o cavalo começa a galopar.
— Por que está berrando? — ele pergunta.
Com os olhos arregalados, agarro a crina com força.
— Comandante In, eu nunca andei a cavalo antes! É a minha primeira vez! Poderia ir mais devagar? Eeeeiiiii!
O Comandante In não reduz a velocidade. Pelo contrário, vai ainda mais rápido. Meu coração pula no ritmo do galope. Grito de novo quando ele faz o cavalo pular por cima do riacho estreito, como se estivesse me provocando, e ri da minha reação. Agora que o momento de adrenalina passou, começo a rir também, um pouco enlouquecido. Se eu tivesse levado um susto e caído, o que ele faria? Acho que ele simplesmente me puxaria de volta e riria ainda mais alto.
Pensando bem, isso é meio estranho. Apesar de ser a imagem cuspida e escarrada do Ohm, ele possui muitos aspectos distintos do Ohm da minha era. O Ohm é solene e mais maduro, enquanto o Comandante In é um "potro jovem", galante e audaz. Ele é charmoso de um jeito diferente. Logo, chegamos à borda da pastagem do outro lado, onde nosso acampamento está localizado. O Comandante In guia o cavalo por entre as carroças e diminui o passo ao avistar o Comandante Yai. Fico tenso automaticamente quando o Comandante Yai lança seu olhar sobre nós. Notando minha reação, o Comandante In diz:
— Agora veja, meu irmão não é tão cruel e sem coração quanto você pensa. Ele é um homem de uma bondade tremenda. Mas como ele é o chefe da guarda da comitiva real, não pode se dar ao luxo de ser descuidado. Se ele cometer o menor erro, sofrerá a punição.
Escuto sem argumentar. O Comandante In para o cavalo quando chegamos mais perto. Nós dois descemos e caminhamos em direção ao Comandante Yai.
— Ele se perdeu dos soldados e vagou pelo mercado até que eu o vi e o trouxe comigo — explica o Comandante In ao irmão.
O Comandante Yai, sem fazer alarde, assente e diz ao irmão para se preparar para uma audiência com a Princesa Amphan assim que Sua Alteza terminar o jantar. Para discutir a jornada dos próximos dias, presumo. O Comandante Yai não me pune, para meu alívio. Meus olhos ficam colados em suas costas enquanto ele se afasta, então falo com o Comandante In:
— Comandante In, quanto ao lenço que o senhor me emprestou, vou lavá-lo e devolvê-lo depois.
Paro ao notar sua expressão. O Comandante In me encara antes de abrir um sorriso largo. Sua voz soa mais melodiosa do que nunca.
— Oh, Jom, em batalha, eu jamais superaria meu irmão. Em outras coisas, no entanto... — Ele abre um sorriso astuto. — Eu não sou nenhum incompetente. Apenas com um relance nos seus olhos, consigo ver através do seu coração que você não guarda má vontade contra meu irmão.
Fico profundamente tocado, imensamente grato por ele me ver de forma positiva, ao contrário dos outros. Antes que eu possa expressar minha gratidão, ele continua:
— Ainda assim, ouça meu aviso, Ai-Jom. Embora o médico real acredite que o destino o trouxe aqui para nos ser útil no futuro, você deve tomar cuidado. Caso contrário, as pessoas não se convencerão de que você foi enviado para o bem desta cidade.
Fico desconcertado, com o coração despencando. O Comandante In se aproxima e sussurra:
— Se você não parar de olhar para o meu irmão com olhos tão cheios de desejo, vão acreditar que você foi enviado para pertencer apenas a ele.
Dito isso, ele ri e puxa seu cavalo, deixando-me boquiaberto. Humpf... Que bobagem foi essa que você soltou, Comandante In?!
À noite, eles acendem uma grande fogueira no campo e se acomodam ao redor dela, em vez de acenderem várias fogueiras menores como nos outros dias. Parece ser aquela noite de relaxamento após dias viajando pela mata. O Comandante Yai e o Comandante In também se juntam ao círculo, embora costumassem descansar em suas tendas e sair apenas ocasionalmente para garantir que tudo estivesse em ordem. Ambos vestem apenas os panos enrolados, sem camisa, presumivelmente para se misturarem aos outros. Sem discriminação. Independentemente disso, eles se destacam pelo caráter único de liderança, pelo modo de falar e pelos modos.
O ar da noite é reconfortante. A brisa sob as estrelas, o calor do fogo e o cheiro apetitoso de peixe grelhado. Eles também bebem, mas mantêm o controle, sem fazer barulho para não incomodar a princesa. Conversam animadamente enquanto saboreiam a bebida e o peixe.
— Ai-Jom, você não precisa mais dormir na tenda do comandante — diz o Capitão Mun. Estou sentado com a infantaria; a cavalaria está mais afastada de nós.
— Ah, por que isso? — pergunto, lançando um olhar furtivo para o Comandante Yai do outro lado da fogueira.
— Que idiota. O comandante viu que você não vai fugir e que não está disfarçado com más intenções, então permitiu que você durma na carroça. Não está feliz?
— Bem... — hesito. — Estou feliz, mas tenho medo de tigres.
— Ugh! Por que tigres ou ursos andariam perto de uma aldeia cheia de gente?
Quanto mais tarde fica, mais animada a atmosfera se torna. Acabo provando a bebida que os amigos do Capitão Mun passam para mim. É feita de milho, perfumada e super forte. Parece que despejei fogo garganta abaixo. Não bebo muito, ciente de que sou fraco para álcool, apenas dou uns goles no que me passam. O Comandante Yai também bebe um pouco, mas não tanto quanto o Comandante In, que não para de virar os copos. Ele parece ser resistente, considerando que continua sóbrio após inúmeras doses.
Noto que o Khun-Yai não mantém aquela expressão de pedra o tempo todo como quando estava comigo. Fica ainda mais evidente agora que ele bebe. Ele brinca de bom humor, conversa, ri e aceita a bebida que seus subordinados oferecem, retribuindo a consideração deles. Em meio à brisa fresca e ao céu estrelado, ouço música ao vento. Parece o som de uma cítara e outros instrumentos.
— De onde vem esse som? — pergunto ao Capitão Mun.
— Das belas damas da realeza. Elas tocam música para Sua Alteza Real. Temos a sorte de ouvir no processo.
Assinto. A música é doce e melódica. Olho através do fogo, que sobe em pequenas faíscas pelo ar, para o rosto encantador do homem do lado oposto. O Comandante Yai ri alegremente quando o Comandante In diz algo que faz os soldados baterem nos joelhos e darem gargalhadas.
Penso na expressão e no jeito dele ao saborear a água com jasmim, e meu coração dispara. Será que ele tem ideia do quão agradável é sua aparência? Reflito enquanto fico um pouco alto por causa do álcool. Fui subitamente exilado da tenda do Comandante Yai para dormir em uma carroça. Parte de mim está aliviada por não ter mais que me sentir intimidado pela presença dele, mas outra parte se sente um tanto vazia.
Embora eu tenha ficado furioso com a falta de gentileza em suas ações repetidas vezes, não posso negar que ele é meu único porto seguro emocional. Khun-Yai, oh... Khun-Yai. A semente do amor que ele plantou em meu coração ainda floresce mesmo no momento mais árido da minha vida, na escuridão sem saída. Mesmo tendo-o encontrado em outra existência, onde ele não me demonstra amizade, os sentimentos fortemente ligados ao meu coração — doces e sentimentais — jamais desaparecem.
Em meio à névoa de confusão na minha cabeça, meus ouvidos captam alguém recitando um verso acompanhando a orquestra das damas reais. A voz é lúdica, como quando eu esfregava o rosto dele com uma toalha embebida em água perfumada.
Mesmo sóbrio, estou bêbado com a bebida do amor. O que você acha que poderia afastá-la? A taça do meio-dia dilui o vinho da manhã, Mas o vinho do amor me mantém bêbado o dia inteiro...
Continuo a observá-lo, sentindo-me inexplicavelmente perturbado comigo mesmo. O Comandante Yai não tem ideia de que se tornou parte do meu devaneio incontrolável, continuando a conversar e brincar com os outros. Seu sorriso é nítido, o mesmo sorriso que um dia foi direcionado a mim. E aqueles belos olhos negros brilhantes.
Como eu não lembraria o quão brincalhões e afetuosos eles eram quando estávamos lado a lado? Eu ficaria feliz em encará-los até o amanhecer. Inclino a cabeça e a apoio no braço, suspirando, incapaz de desviar os olhos do rosto dele. Acho que estou um pouco bêbado, mas sim... não tenho certeza de "em que" estou bêbado.
Forçar os sentimentos a parar é possível, Mas o anseio está fora de questão. Pensamentos descartados, riscados um por um, Mas não se apaga o afeto da mente.
...Hum. Como é que se paquera um homem nesta era...?