Conspiração 5.

Um conto erótico de Lukinha
Categoria: Heterossexual
Contém 4497 palavras
Data: 26/01/2026 14:48:03
Última revisão: 26/01/2026 15:24:28

Ainda no passado:

Plaft! O som seco de um tapa cortou o ar. Não houve reclamação. Pelo contrário.

— Bate que eu gamo ainda mais, seu puto. Mas bate forte, corninho safado. Bate… e depois me fode até eu cansar. Quando ele se juntar a nós, vou sentar muito naquele corno também.

“Caralho. Que gente doente. Esquisita”. A hipocrisia do meu próprio pensamento me atingiu logo em seguida. “Se quem está ali é um corninho safado… eu sou o quê? O corno cego? O corno manso? O corno covarde?”

— Eles são perfeitos um para o outro. Ele é um tapado, encostado, que não sabe apreciar o que tem em casa. Quer o quê? Que eu o obrigue a foder a própria esposa? Que eu pegue na piroca dele e enfie na buceta dela? Se ele não dá conta, se não quer… melhor eu do que qualquer um avulso da rua.

Ele parou de falar e a segurou pelo cabelo, fazendo com que ficasse de pé novamente. Ele deslizou a boca pelo pescoço dela, até o decote do vestido. Pegou o tecido com os dentes e puxou para baixo, expondo um seio, com a aréola castanha já endurecida pelo tesão.

— Tá excitada, né, puta? — Ele provocou, com a voz num tom mais grave.

Ele abocanhou o mamilo, iniciando uma sucção forte, audível até da minha posição. Ela jogou a cabeça para trás, os olhos fechados, a boca aberta num suspiro rouco.

— Porra, corninho... assim...

Com uma mão, ele apertou o outro seio, os dedos afundando na carne macia, torcendo o mamilo entre o polegar e o indicador. Ela arqueou as costas, um gemido mais agudo escapando. A outra mão dele subiu a barra do vestido, encontrando a coxa. Não havia calcinha. O dedo dele deslizou direto, sem cerimônia, para o meio das pernas dela.

Eu vi o movimento do braço dele, a tensão nos músculos, enquanto ele trabalhava. E ouvi um som úmido, espesso, de dedos entrando e saindo.

— Já tá encharcada, sua vagabunda. — Ele disse, sorrindo com malícia. — Pensando na outra putinha ou no marido? Ou nos dois?

— Sim... — O suspiro dela foi quase um choro de necessidade. — Sim, porra, fala mais…

Ele puxou os dedos para fora, visivelmente brilhantes sob a lua cheia que resolveu sair de trás das nuvens.

— Lambe. Limpa a sua sujeira. — Ela já enfiava os dedos dentro de sua boca e ela obedeceu, sugando com total submissão.

A luz do luar, forte e decisiva, dissipou o mistério. Era mesmo Bruno e Lívia.

— Vira. Agacha. Quero ver essa raba linda. — Bruno a empurrou contra o tronco áspero da árvore mais próxima.

Lívia se virou, ofegante, apoiando as mãos na casca da árvore. O vestido subiu, revelando as nádegas voluptuosas, totalmente expostas. Bruno ficou parado por um segundo, admirando. Depois, a palma da mão dele se ergueu e desceu num tapa seco, que ecoou pelo pomar. A marca vermelha apareceu instantaneamente.

Ela gemeu alto, empurrando o quadril para trás, se oferecendo.

— Isso, sua cadela no cio. Tá querendo pau, putinha. — As mãos dele abriram as nádegas, expondo tudo.

O meu ponto de vista era perfeito, obsceno. O cuzinho delicado, liso, quase piscando de desejo. E após uma ligeira virada de corpo, o clitóris, inchado e exposto, os lábios internos vermelhos e inchados, babando um fluido que escorria pelas coxas.

Bruno desabotoou a calça, puxando para baixo rapidamente, trazendo junto a cueca.

Caralho! Não era só o tamanho, embora fosse grande, espessa, com uma cabeça roxa e bulbosa que parecia latejar. Era a autoridade com que ele segurava aquilo. Como se fosse uma extensão natural do seu controle. Meu pau parecia minúsculo perto daquela jeba monstruosa.

Ele alinhou a cabeça na entrada na xoxota, que já pulsava ansiosa, mas não enfiou. Esfregou. A cabeça larga do pênis passou para cima e para baixo no sulco inteiro, do buraco apertado na base até o clitóris no topo. Cada passada deixava a cabeça da rola mais brilhante. Lívia tremia, os dedos cravados na casca da árvore, espasmos de frustração e tesão saindo dela.

— Por favor… Bruno, por favor…

— Pedindo bonitinho, é? — Ele bateu o pau nas nádegas dela. — Fala o que você é.

— Eu… eu sou uma puta… sua puta…

— E o que você quer?

— Quero seu pau… quero você me fodendo até eu não aguentar mais…

Ele sorriu, um sorriso que eu nunca vira. Então, com um movimento que não foi rápido nem lento, mas definitivo, ele a penetrou.

Lívia gritou. Não um grito de dor, mas de preenchimento brutal, de um alongamento súbito e total. Eu vi a xoxota se abrir para recebê-lo, os lábios se esticando em volta da base grossa. Ele enfiou tudo, de uma vez, até as bolas pesadas e cabeludas se encostarem na pele dela com um baque abafado.

Ele ficou parado, enterrado até o talo, os músculos das costas tensionados.

— Caralho, putinha… que boceta apertada… que boceta de vagabunda gostosa…

Então começou. Não foi um ritmo normal. Foi um ataque. Estocadas profundas. Cada retirada era quase total. A cabeça roxa quase saindo antes de ele cravar para dentro novamente, com toda a força do quadril.

O som era úmido e pesado, das coxas dele batendo contra a bunda dela, das estocadas selvagens, da buceta já tão molhada que parecia engolir cada centímetro com um ruído de sucção.

— Ahhhhhhhh… Porra! Assim! — Lívia gritava a cada entrada, a voz falhando, a saliva escorrendo do canto da boca aberta.

Seus seios balançavam violentamente para frente e para trás com o impacto, os mamilos endurecidos desenhando círculos no ar.

Bruno era um mestre. Eu odiava admitir, mas era verdade. Ele não só metia. Ele dominava.

Uma mão agarrou o quadril dela, os dedos afundando na carne, guiando o ritmo. A outra foi para a nuca, enrolando nos cabelos e puxando a cabeça para trás, arqueando suas costas.

— Toma, sua cadela. Você gosta, não gosta? Gosta de ser a segunda, a puta de apoio? Mas com título oficial de namorada?

— Gosto! Gosto, caralho! Ela é uma puta e eu sou outra! Você fode as duas! Sem distinção. Ahhhhhhh…

Ele riu, baixo e sujo, e aumentou o ritmo. A visão era de uma profanação pura. A forma como o corpo dela se dobrava sob o dele, como cada músculo dele se flexionava com uma potência animal, a pele coberta de um suor frio que brilhava. Eu conseguia sentir o cheiro trazido pelo vento. Um odor adocicado e salgado de sexo e suor.

De repente, ele tirou o pau completamente de dentro dela. Lívia gemeu de desespero.

— Não para…

— Quieta. — Ele a fez se virar de frente, suas costas agora contra a árvore.

Os olhos dela estavam vidrados, a maquiagem manchada. Ele pegou uma das pernas dela pelo joelho e ergueu, abrindo-a ainda mais. Então, agachando um pouco, ele se realinhou e estocou novamente, num ângulo diferente, mais profundo.

— Ughhnn! — O som que saiu dela foi rouco, arrancado do fundo do peito.

Ele agora batia direto no fundo dela, e eu conseguia ver os músculos do baixo ventre se contraindo a cada impacto. Com a mão livre, Bruno desceu entre os corpos e achou o clitóris, inchado e saliente. Ele não acariciou. Esfregou com o polegar, rápido, em círculos precisos.

A reação foi instantânea. O corpo dela enrijeceu, a boca se abriu num grito silencioso, por apenas um segundo, antes que uma confissão saísse.

— Eu vou… vou… Bruno, eu vou gozar…

— Goza, então. Goza nesse pau que depois vai meter na sua amiguinha. Finge que eu sou o Ricardo se quiser.

Foi o que bastou. Um tremor violento tomou conta dela, das pernas até os ombros. A buceta pareceu apertar ainda mais em volta do pau dele, pulsando, e um jorro quente e transparente escorreu do ponto onde eles se uniam, descendo pelas coxas dele. O cheiro ficou mais intenso, acre e doce.

Bruno não parou. Ele continuou metendo, aproveitando as contrações, os rostos distorcidos num misto de prazer extremo e quase dor.

— Isso, putinha… ordenha… aperta esse pau, vadia…

Ele estava no limite também. Era perceptível.

— Onde? — Ele rosnou. — Onde você quer que eu goze, sua puta?

— Dentro! — Ela gritou, os olhos revirados. — Goza dentro, por favor, me enche! Ahhh…

Ele prendeu o quadril dela e enterrou-se uma última vez, fundo, ficando imóvel. Um rugido baixo saiu de sua garganta.

— Porra! Que bucetinha incrível…

Ele se contraía visivelmente, e Lívia tremia a cada pulsação, sentindo o fluxo quente inundando seu interior.

Ele permaneceu assim por longos segundos, ofegante, esvaziando-se dentro dela. Curtindo o momento, sem imaginar que eram observados.

Finalmente, ele se retirou, lentamente. O som foi de um tampão sendo puxado, seguido por um fio grosso e branco que começou a escorrer imediatamente da abertura inchada e vermelha dela, descendo pela perna.

Confrontá-los naquele momento talvez fosse o mais lógico. Mas eu estava preso entre a confusão e a dor. A tristeza de confirmar minhas suspeitas pesava muito mais do que qualquer curiosidade ou excitação doentia que aquela cena pudesse provocar.

Me afastei com cuidado, tentando não fazer barulho, mas ainda assim captei o final da conversa.

— Ainda acho que a gente pisou na bola. — Disse Lívia, a voz baixa. — O que vamos falar pro Ricardo se ele perguntar onde fomos à tarde?

— Ricardo não é o santo que você imagina. — Respondeu ele, sem hesitar. — Pode ser um soca fofo, não um comedor como eu, mas moral para nos criticar… ele não tem.

Houve um breve silêncio.

— Se o que vocês me contaram for mesmo verdade… — Lívia disse, por fim — Então talvez você esteja certo.

Aquilo não era exatamente uma mentira. Eu nunca fui santo. Mas a dor apertando meu peito naquele momento, abafou qualquer tentativa de absolvição que eles achassem justa. A hipocrisia também pesava no meu peito.

Saí do pomar como quem foge de um incêndio silencioso. Não corri. Não tropecei. Meu corpo seguia em linha reta, mas a cabeça estava em guerra.

Cada passo para longe daquelas árvores parecia me puxar mais fundo no que eu tinha acabado de descobrir.

Não havia mais dúvida. Não depois das palavras ditas sem pudor, sem cuidado, sem medo de serem ouvidas. Falavam dela. Falavam de mim. Falavam de nós. Como se eu fosse apenas uma peça que ainda não tinha sido encaixada no tabuleiro.

‘Mariana, minha amada traidora”. O nome dela martelava na minha mente como um erro que eu me recusei a revisar por tempo demais. A mulher que eu amava. A mulher com quem eu dividia a cama, a casa, os planos. Tudo o que eu achava sólido agora tinha rachaduras profundas demais para ignorar.

E Bruno. Meu melhor amigo. Meu sócio. O homem em quem eu confiava de olhos fechados. Descobrir que ele era outro, não diferente, mas oposto ao que eu acreditava, doeu mais do que eu esperava admitir.

Não era só traição. Era uma encenação. Uma convivência construída sobre um personagem que nunca existiu.

Voltei para dentro da casa em silêncio. Cada cômodo parecia me observar, cúmplice involuntário de uma mentira que vinha sendo encenada diante de mim há sabe-se lá quanto tempo.

No quarto, Mariana estava apagada, assim como eu a deixei, entregue ao sono como se nada estivesse fora do lugar. A imagem quase me fez rir. Não por humor, mas por incredulidade. Como alguém consegue dormir assim depois de costurar acordos infieis pelas minhas costas?

Aproximei-me devagar. Observei seu rosto. Tentei encontrar algum sinal da mulher que eu pensava conhecer. Não havia culpa estampada. Não havia tensão. Apenas tranquilidade. Aquela tranquilidade que só quem acha que está no controle consegue ter.

Foi ali que a raiva tentou subir. Veio quente, impulsiva, pedindo confronto, exigindo respostas imediatas. Mas eu a engoli. Raiva cega não resolve. Nunca resolveu. Eu precisava pensar.

Eles tinham um plano. Um acordo. Um roteiro onde eu entrava sem saber que tinha sido escalado. Mariana não estava apenas traindo, ela estava preparando o terreno. Me conduzindo, pouco a pouco, para um mundo de luxúria… e que eu talvez tivesse aceitado se tivesse sido convidado sem mentiras ou armações.

Então não. Não era hora de falar. Nem de acusar. Muito menos explodir. Era hora de observar. De ouvir mais. De entender até onde aquilo ia.

Uma coisa ficou clara naquela noite: Eu não conhecia as pessoas com quem dividia a vida.

Saí do quarto. Fiquei alguns minutos parado no corredor, ouvindo o som distante da música, das risadas, de copo batendo em copo. A festa seguia viva, pulsando, como se nada tivesse sido quebrado naquela noite. Como se eu não tivesse acabado de ouvir meu nome, ainda que não dito, sendo moldado na boca de outras pessoas.

Desci. Peguei uma cerveja sem lembrar de ter pedido. Depois outra. O gosto amargo ajudava a empurrar o nó na garganta para um canto menos urgente. Não resolvia nada, mas anestesiava. E, naquele momento, era o máximo que eu conseguia oferecer a mim mesmo.

As conversas ao redor vinham e iam. Alguém me chamava, eu respondia. Alguém ria, eu acompanhava. Por fora, eu ainda era parte daquilo. Por dentro, eu observava tudo como quem assiste a uma peça sabendo o final.

Foi quando vi os dois. Bruno e Lívia surgiram juntos, atravessando o quintal iluminado. Não corriam. Não pareciam apressados. Voltavam como quem nunca saiu. Como se aquelas horas não tivessem existido.

Bruno abriu um sorriso largo ao me ver.

— Cara, te procurei antes… você sumiu.

Dei um gole longo na cerveja antes de responder.

— Engraçado. Eu também procurei vocês mais cedo. Coincidência, né? — O tom saiu leve demais para ser acusação. Pesado demais para ser brincadeira.

Bruno riu, coçou a nuca.

— Foi coisa rápida. A gente precisava… sei lá, esfriar a cabeça. Muito barulho aqui. Fomos buscar umas coisas, e encontramos alguns conhecidos…

— Imagino. — Respondi, o interrompendo, olhando por cima do copo, sem fixar em ninguém. — Tem coisas que a gente só faz, e se der merda, vê como resolve depois.

O sorriso dele hesitou por um segundo. Nada que alguém desatento notasse. Mas Lívia notou. Ela me encarou com mais atenção do que antes. Não desviou o olhar. Havia curiosidade ali. E outra coisa. Algo mais atento. Mais cauteloso.

— Você tá bem, Ricardo? — Ela perguntou, com uma suavidade ensaiada.

— Tô. — respondi. — Por que não estaria?

Ela franziu levemente a testa, como se tentasse decidir se aquilo era verdade ou provocação. Bruno bateu no meu ombro, exageradamente animado.

— Você já bebeu demais. Isso é raro.

— Resolvi compensar. — Falei. — Tem noites que pedem isso. Noites em que precisamos anestesiar para seguir vivendo.

Lívia desviou o olhar primeiro. Ela sabia. Não sabia tudo. Mas sabia que eu desconfiava de alguma coisa. E isso bastava para mudar o clima. Ela puxou para longe. Eu via a desconfiança em seu olhar, a forma agitada que ela tentava convencê-lo de alguma coisa. Mas estavam afastados, eu podia imaginar o que discutiam.

Mais tarde, quando o álcool já tinha feito seu trabalho com minha língua, Bruno tentou cumprir o papel de sempre. Aproximou-se outra vez, mas falou baixo.

— Vem, cara. Você não tá legal. Vamos subir.

Olhei para ele. Depois para Lívia, que estava a poucos passos, encostada na mesa, me observando como quem espera um movimento errado.

Sorri. Um sorriso torto, que não combinava comigo e me levantei.

— Ainda não. — Falei. — Tô bem aqui.

Dei um passo na direção dela. Não invadi espaço. Não toquei. Só me aproximei o suficiente para que ela sentisse.

— Além do mais… — Completei, a voz baixa, quase casual. — Sempre achei falta de educação ignorar quem claramente gosta da nossa companhia. Quem anseia pelo que a gente tem a oferecer.

Os olhos de Lívia se arregalaram por uma fração de segundo. O suficiente. Ela não recuou. Mas também não sorriu.

— Ricardo… — Ela deu um passo atrás, receosa.

Bruno riu alto, quebrando o momento.

— Cê tá vendo coisa onde não tem, Lívia. Ele só tá bêbado.

Talvez eu estivesse. Provavelmente estava. Inclinei levemente a cabeça, ainda olhando para ela.

— Às vezes, a gente demora a entender, mas acaba ficando ciente. — Eu disse. — Só escolhe fingir que não.

E emendei:

— O pior cego… alguma coisa assim.

Bruno tentou me puxar de novo.

— Vamos, irmão.

Acabei deixando que ele me levasse, e enquanto subíamos, senti o olhar de Lívia cravado nas minhas costas. Um olhar de alerta, de preocupação. Eu ainda não tinha confrontado ninguém. Mas também não era mais o homem que fingia não ver.

Só de estar perto deles eu me sentia enjoado. Mesmo sem forças, me desvencilhei de Bruno. Disse qualquer coisa vaga, um gesto com a mão, um “daqui a pouco eu subo”, e me afastei. Caminhei até a sala como se o corpo estivesse no automático, enquanto a cabeça continuava presa no pomar, nas vozes, nas palavras que eu não conseguia mais “desouvir”.

O sofá estava frio. Nem um pouco convidativo. Melhor assim. Não havia a menor condição de deitar ao lado da Mariana. A simples ideia de dividir o mesmo espaço com aquela mulher manipuladora me deu enjoo. Não era só a traição. Era a mentira. O teatro. A naturalidade com que ela transitava entre mim e os outros, como se nada estivesse errado.

O álcool fez o resto. Apaguei. Um sono limpo, sem sonhos ou pesadelos. Um blackout total.

Acordei com a voz dela.

— Ricardo… amor… já é de manhã.

Abri os olhos devagar. A cabeça pesada, a boca amarga, o estômago revirado. Mariana estava ali, de pé, arrumada demais para aquela hora. Bonita. Familiar. E, ainda assim, estranha.

Não respondi, apenas me sentei. Passei a mão no rosto, sentindo a barba por fazer. A raiva veio inteira, compacta, sem grito, sem cena. Só ocupando tudo.

Me levantei e entrei no banheiro, trancando a porta atrás de mim. A água fria no rosto não levou nada embora. Só deixou tudo mais nítido.

Quando saí, minutos depois, já no quarto, ela tentou dizer alguma coisa, mas eu já estava abrindo a mala pequena, dobrando as roupas sem cuidado, jogando tudo ali dentro.

— Que bicho te mordeu? — Ela perguntou, cautelosa. — Aconteceu alguma coisa?

Não respondi. Fechei a mala com força. Peguei as chaves do carro sobre a cômoda. Depois o celular.

Ela se aproximou um passo.

— Ricardo…

Parei. Virei devagar. Meu tom saiu firme demais para aquela hora da manhã.

— Onde você, o Bruno e a Lívia foram ontem à tarde? — A pergunta saiu seca, direta.

Ela piscou uma vez. Depois sorriu. Um sorriso pequeno, automático.

— Era pra ser rapidinho… faltavam algumas coisas para o churrasco. No caminho, acabamos encontrando conhecidos na cidade… quando vimos, o tempo passou.

Eu sustentei seu olhar. Não discuti. Não rebati. Só ouvi. Quando ela terminou, voltei para a mala e fechei de vez, encerrando o assunto. Se fosse para ela mentir, era melhor eu nem ter perguntado.

— Estamos indo. — Eu disse, com a voz firme. — Não vou esperar.

Vi o corpo dela entrar em alerta. Ela me conhecia. Conhecia aquele tom, aquela economia de palavras. Sabia que não era hora de confronto.

— Eu devia ter te avisado… — Ela tentou. — Desculpa. Não foi…

Eu já estava na porta, saindo, não dando a mínima atenção para suas mentiras. Nem olhei para trás.

— Se não estiver no carro em cinco minutos, vou te deixar pra trás.

O som da porta se fechando foi baixo, mas definitivo. E, enquanto eu caminhava para fora da casa, tive a certeza incômoda de que algo tinha se quebrado. Não em explosão, não em grito… mas em silêncio.

Voltamos para casa quase em silêncio absoluto. O carro parecia menor, abafado pelo que não era dito. Mariana até tentou puxar conversa duas ou três vezes, frases soltas, perguntas neutras, mas desistiu rápido. Ela me conhecia o suficiente para saber quando eu já tinha erguido um muro.

Assim que chegamos, entrei com as malas, deixei tudo largado no canto da sala e saí de novo. Não bati a porta. Não fiz cena. Eu só precisava andar. Respirar. Sumir de mim mesmo por algumas horas.

Caminhei sem rumo pelo bairro, atravessei ruas conhecidas como se fossem territórios estrangeiros. Cada passo era uma tentativa frustrada de organizar pensamentos que se atropelavam: imagens, falas, risadas abafadas, palavras ditas em sussurro no pomar. O rosto de Mariana se misturava ao do Bruno, à voz da Lívia, tudo embaralhado num nó difícil de desfazer.

Quando voltei, já era noite. A casa estava silenciosa. Luz baixa na sala. Mariana sentada no sofá, imóvel, como se estivesse me esperando há horas. Bastou eu fechar a porta para ela se levantar.

— Onde você esteve o dia inteiro? — Ela perguntou, com a voz controlada demais para ser natural.

Soltei uma risada curta, sem humor.

— Ué… — Larguei as chaves sobre o aparador. — Achei que dar satisfação não fosse mais uma exigência entre a gente.

Ela empalideceu na hora. Os olhos marejaram rápido demais, como se aquela resposta tivesse acertado um alvo que ela vinha tentando proteger.

— Eu já te expliquei… — Ela disse, dando um passo na minha direção. — Ontem não era pra ter demorado. Foi um acaso. A gente saiu pra comprar umas coisas…

— Você é uma ótima atriz… — interrompi, sem elevar a voz. — Sabia disso? Os mentirosos quase sempre são.

Aquilo doeu nela. Deu pra ver.

— Não fala assim comigo. — Mariana rebateu, mais firme. Até um pouco ofendida. — Eu exijo respeito, Ricardo. Você não tem o direito de me tratar desse jeito.

Foi ali que algo em mim quebrou de vez.

— Respeito? — Dei um passo à frente. — Você quer falar de respeito agora?

Ela abriu a boca para responder, mas não deixei.

— Eu sei de tudo, Mariana. Tudo. — As palavras saíram pesadas, carregadas. — Eu vi. Eu ouvi. Eu juntei as peças que vocês acharam que eu nunca ia enxergar.

O rosto dela perdeu a cor.

— Do quê você tá falando? — Ela ainda tentou disfarçar.

— Para! — Falei seco. — Não faz isso. Não comigo.

Respirei fundo, mas a raiva já tinha passado do ponto de controle.

— Você acha mesmo que eu sou tão idiota assim? A ponto de não perceber que você virou brinquedo do Bruno e da Lívia? A putinha dos dois.

Ela levou a mão à boca, como se tivesse levado um tapa.

— Não fala isso! — Sua voz saiu trêmula. — Você não sabe do que está falando!

— Sei sim. — Retruquei. — Sei até demais. Eles mesmo revelaram.

Respirei fundo, tentando me controlar, não ceder ao ódio, não deixar as coisas saírem ainda mais do controle.

— Sei do acordo para me convencer. Sei das conversas, sei do joguinho sujo. Sei que vocês riam de mim enquanto eu trabalhava, enquanto eu confiava.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Ela respirava rápido, os olhos brilhando de raiva, não só de culpa.

— Engraçado você falar em traição. — Ela disse, por fim, com a voz baixa e venenosa. — Logo você.

Aquilo me pegou de surpresa.

— O quê?

Ela me encarou como eu nunca tinha visto antes. Sem medo. Sem recuo.

— Não finge. — Ela continuou. — Você sabe muito bem do que eu tô falando.

E deu um passo à frente, tentando me acuar.

— Você também me traiu, Ricardo. Eu descobri. Por acaso, como você diz. E doeu. Doeu em mim e no Bruno.

Senti o chão ceder sob os pés.

— O que eu fiz… — Ela completou, com os olhos cheios d’água, mas a voz firme — Foi devolver na mesma moeda. Do jeito que eu sabia que ia te machucar. Do mesmo jeito que você me machucou primeiro.

Ficamos ali, um diante do outro, cercados por verdades jogadas como estilhaços.

Naquele momento eu entendi: não havia mais inocentes naquela casa, heróis ou vilões. Nem mocinhos e nem bandidos. Havia apenas verdade. Nua e crua.

{…}

De volta ao presente:

Fui tirado dos meus pensamentos pelo som metálico das grades sendo atingidas pelo cassetete do carcereiro.

— Ricardo, acorda. Dia de boas notícias.

Abri os olhos devagar. Boas notícias não faziam parte do meu vocabulário desde o dia fatídico. Não ali dentro.

— Boas notícias? — Perguntei, desconfiado, quase esperando o golpe escondido atrás da frase. — Para mim?

O carcereiro deu de ombros, com aquele ar burocrático de quem só transmite mensagens.

— Melhor você falar direto com seu advogado. Vamos?

O caminho até a sala parecia mais longo do que o normal. Cada passo ecoava na minha cabeça como uma pergunta sem resposta. Tentei não criar expectativa. Expectativa ali dentro era uma forma elegante de sofrimento.

Meu advogado já estava sentado quando entrei. Diferente das outras vezes, ele não trazia o semblante fechado nem aquela postura de quem prepara más notícias com antecedência. Havia algo contido. Controlado. Um brilho discreto nos olhos.

— Sente-se, Ricardo — Ele disse, apontando a cadeira à frente dele.

Me sentei devagar.

— Consegui um habeas corpus.

A frase caiu no ar entre nós.

— Como assim? — Perguntei, sem conseguir esconder a surpresa.

— É isso mesmo. — Ele foi direto. — Você vai responder em liberdade. Por enquanto.

Meu coração acelerou, mas não foi alegria o que senti. Foi medo. Medo do “mas” que sempre vem depois.

— Isso não significa absolvição. — Ele continuou, como se lesse meus pensamentos. — Não é inocência declarada, nem vitória no processo. É nossa estratégia.

Ele abriu a pasta e empurrou alguns papéis na minha direção.

— O juiz entendeu que você é réu primário, tem endereço fixo, trabalho, bons antecedentes funcionais… e que não há risco imediato de fuga.

Ele sorriu antes de continuar, me encorajando a acreditar.

— Além disso, o novo depoimento fortaleceu a tese de que o caso não é tão cruel e vingativo quanto parecia no início.

— Então eu vou sair daqui? — Perguntei, ainda sem acreditar.

— Vai. — Ele fez uma pausa. — Mas com medidas cautelares.

— Quais?

— Nada fora do esperado. — Enumerou com calma. — Você não pode se ausentar da comarca, deve comparecer sempre que intimado, não pode se aproximar de familiares da vítima, nem se meter em novas confusões. Qualquer deslize, você volta. Sem segunda chance.

Assenti em silêncio.

— E deixa eu ser muito claro com você, Ricardo. — Ele disse, inclinando o corpo para frente. — Isso aqui não é um presente. É fôlego. É tempo. E tempo só é útil se você souber o que fazer com ele.

Olhei para minhas mãos. Livres. Mas tremendo.

— Lá fora, você vai ter que sustentar a versão que escolheu. Sem contradição, sem explosão emocional, sem atitudes impulsivas. — Ele me encarou firme. — Você foi policial, sabe como as coisas funcionam.

— Entendido… — Murmurei.

— Ótimo. Porque agora não é mais sobre provar inocência, você já se declarou culpado. É sobre sobreviver ao processo com o menor dano possível.

Ele fechou a pasta.

— Em algumas horas você deve ser liberado. Aproveite esse tempo para colocar a cabeça no lugar. Vou avisar aos seus pais e a sua esposa.

Levantei-me ainda atordoado.

— Doutor… — Parei antes de sair. — Obrigado.

Ele sustentou meu olhar por alguns segundos antes de responder.

— Só estou fazendo o meu trabalho.

Ao sair da sala, fui tomado por uma sensação estranha. Eu estava prestes a deixar aquele espaço de concreto, grades e vigilância constante… mas algo dentro de mim continuava preso. Talvez mais do que antes.

Desde que tudo começou, tive certeza de uma coisa: o julgamento mais difícil não aconteceria no fórum, mas assim que eu pudesse agir livremente.

Continua…

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Comentários

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O Ricardo não é santo, mas como a Mariana descobriu essa possível traição?? O quanto o próprio Bruno não influenciou nessa situação do Ricardo pra continuar comendo a Mariana?? E sabe sei lá, se o Bruno e a Mariana não armaram pro Ricardo cometer essa traição, pra que eles tivessem esse trunfo na mão e envolver o Ricardo no bacanal deles. E eu repito, esse jeito invasivo e falso do Bruno me dá nojo, pq ele nitidamente é o malandro que fica se gabando por trás.

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Pelo jeito não tem santo na história e pelo que está acontecendo no futuro, esses erros do passado foram perdoados, mas pelo jeito alguém não gostou ou se arrependeu disso ter acontecido 🤷🏻‍♂️

Estou curioso com os desdobramento dos acontecimentos futuros e também com o que aconteceu no passado 🤭

Ótimo história, vou tentar acompanhar essa "ao vivo" 😂

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Tomara que não demore muito, ancioso pela contribuição, caso possa, me informe ok aosoriorj1950@gmail.com obrigado

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Dias 12, 16, 22, 24 e 26. Mais rápido que isso, só se eu abandonar trabalho e família. 😂😂😂

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— Tá com ciúmes, é? Logo você, que come a mulher dele desde que virou homem. E ainda juntou os dois.

Trecho da conversa entre o Bruno e Lívia.

Qual traição poderia acontecer do Ricardo sobre a Mariana e ainda afetar o Bruno, se o Bruno e a Mariana se pegam antes mesmo dela conhecer o Ricardo, não bate as narrativas, a Mariana começou o relacionamento já traindo com Bruno, como ela poderia estar dando um troco, mesmo que o Ricardo tenha transado com a Lívia, seria muita hipocrisia chamar de troco uma continuação descarada do trio traidor. Ou será que entendi tudo errado rsrsrs.

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Na próxima parte já responderei essa dúvida.

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Tuas tramas estão ficando cada vez mais intrínsecas, expondo a natureza humana de forma visceral, está tudo de uma forma ainda mais fluída, nua, crua e portanto interessante, a curiosidade explode.

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Eu fiz alguns contos de traição e vingança, mas sempre com um vilão e uma vítima. Geralmente as mulheres sendo a parte traidora.

Querendo ou não, a gente acaba influenciado pelo mundo ao redor, pois mulheres realmente são ótimas vilãs nesse tipo de história. Parece que ninguém se interessa por um homem traidor e manipulador, nem mesmo as leitoras mulheres.

Pra fazer diferente, só mesmo uma história em que ninguém é totalmente puro, nem totalmente sombrio.

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Kkkkkkk vai escrever ainda néh, kkkkk assassinar uma pessoa e botar a culpa no Ricardo é ser deveras sombrio... ou não...

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Mas por que colocaram a culpa nele? 🤔

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Entendi, o Lado Negro da Força está mais difundido que possamos perceber. HuHuHuaHahahahah sinistramente Lynchiano.

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Excelente como tudo que vc escreve, mas se cabe a ''critica'': não sei em quantos capitulos vc pretende encerrar o conto, mas até agora, na minha visão ignorante de leitor, a história não caminhou, nada se desenvolveu, ainda que paradoxal pelo que acabei de escrever, estou adorando o conto.

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Temos um crime, alguém sendo incriminado, o protagonista é preso, escolhe estratégia em vez de condenação desenhada, uma traição dupla, que se revela consequência... Como assim não caminhou? Em cinco capítulos já aconteceu coisa a beça. E ainda tem muito mais pra acontecer.

Esse capítulo ainda trouxe reviravolta, desconstrução de um falso santo...

Talvez o "não caminhou" seja sua forma de dizer que o desenvolvimento está diferente do que você espera.

(É só minha forma de interagir com os leitores. Críticas são importantes para um autor. Não fico chateado e nem levo para o coração. Só gosto dessa troca honesta de opiniões.)

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Estranho...

Cada vez mais estranho.

Se ela está só devolvendo, então ele também montou um plano junto com a amiga dela e o namorado para manipular ela?

E o que sempre se diz: dois errados não formam um certo.

Falta sabermos exatamente o Ricardo fez.

Falta sabermos quem montou toda a cena incriminando ele. E como.

E, principalmente, falta sabermos quem vai ficar ou não com quem...

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Olha so !!! O Ricardo também não é um santo !!!

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