Cheguei ao trabalho mais cedo naquele dia, tentando enganar a sensação estranha que já me apertava o estômago desde o momento em que atravessei a porta giratória do prédio. O ar condicionado gelado contrastava com o peso que eu sentia no peito, como se algo estivesse fora do lugar. Mal tive tempo de deixar minha bolsa sobre a mesa quando a secretária do Sr. Alencar apareceu, com o olhar tenso e a voz baixa.
— Ele já chegou… e não está em um bom dia.
Aquilo foi mais do que suficiente para confirmar meus piores pressentimentos.
Respirei fundo, ajeitei a postura e segui até a sala dele. Assim que abri a porta, fui atingido por uma atmosfera pesada, quase sufocante. O Sr. Alencar andava de um lado para o outro, a gravata afrouxada, o paletó jogado sobre a cadeira, o celular colado à orelha enquanto gesticulava com a outra mão, claramente irritado.
— Finalmente resolveu aparecer, Akio? — ele disparou assim que me viu, encerrando a ligação de forma brusca.
Engoli em seco.
Antes mesmo que eu pudesse responder, ele começou.
Mandou que eu organizasse relatórios atrasados, ligasse para fornecedores que ele mesmo havia esquecido de responder, resolvesse um problema jurídico que claramente não era da minha alçada e, como se não bastasse, reclamou do café, do ar condicionado, da agenda e até do tom da minha voz — mesmo eu mal tendo falado.
Cada frase vinha carregada de impaciência, sarcasmo e um desprezo que me fazia sentir menor a cada segundo.
— E faça isso rápido. Hoje eu não tenho paciência pra incompetência — ele concluiu, apontando para a porta.
Saí da sala com o coração acelerado e a mandíbula travada, tentando manter a dignidade enquanto caminhava pelo corredor. Foi então que encontrei Lucca encostado perto da copiadora, com aquele olhar atento demais para quem já sabia de algo.
— Ei… — ele me chamou, em tom baixo. — Não leva pro lado pessoal.
Revirei os olhos, cansado.
— Difícil não levar.
Lucca se aproximou um pouco mais, certificando-se de que ninguém estava por perto.
— Aparentemente, um dos sócios do Sr. Alencar vinha desviando dinheiro. Ele descobriu ontem à noite. Está sendo roubado há meses.
Aquilo fez tudo se encaixar.
O estresse. A raiva desmedida. A explosão constante.
— Então eu sou só o saco de pancadas do dia — murmurei.
Lucca deu de ombros.
— Hoje, sim.
Voltei para minha sala minúscula e mergulhei no caos de tarefas. O tempo passou arrastado, cada minuto pesado como uma hora inteira. Quando finalmente olhei o relógio, já tinha se passado mais de uma hora.
Foi então que ouvi.
— AKIO!
O grito ecoou pelo escritório inteiro.
Levei um susto e me levantei imediatamente. O Sr. Alencar estava parado na porta da sala, o rosto vermelho, os olhos faiscando.
— Vamos viajar — ele disse, seco. — Negócios urgentes.
— Viajar… agora? — perguntei, confuso.
— Sim. Preciso de um jatinho. Em menos de duas horas. Dá seu jeito. E você vai comigo.
Meu cérebro demorou alguns segundos para processar.
— Senhor… eu não tenho roupas aqui, nem coisas pessoais. Não estava me preparando pra—
— Isso não é problema meu, Akio — ele me cortou, já se afastando. — Resolva.
Fiquei parado por alguns segundos, sentindo uma mistura de incredulidade, cansaço e um leve desespero. Ainda assim, fiz o que sempre fazia: obedeci.
Duas horas depois — ou algo muito próximo disso — eu estava dentro de um jatinho particular, sentado de forma rígida, encarando o nada pela pequena janela oval. Minha cara estava fechada, os ombros tensos, o corpo inteiro pedindo descanso.
O Sr. Alencar, por outro lado, não parava de reclamar.
— Está quente demais aqui — resmungou, mexendo no colarinho da camisa.
Fechei os olhos por um instante.
Respirei fundo.
E, por dentro, pedi silenciosamente pra morrer.
Perdi a noção do tempo durante o voo. Salvador surgiu pela janela do jatinho como um borrão de azul intenso e branco estourado pelo sol, e foi ali que tive certeza de que aquele dia ainda estava longe de acabar. Assim que as rodas tocaram o chão, o Sr. Alencar já começou o espetáculo particular dele, reclamando do pouso, do vento, do atraso inexistente e até do jeito como o piloto anunciava as informações.
— Isso aqui está quente demais, desconfortável demais, barulhento demais — ele resmungava, enquanto o piloto tentava manter a calma profissional.
O clima dentro do jatinho ficou ainda mais pesado quando o Sr. Alencar implicou com a rota, com o tempo de voo e com algo que, honestamente, eu nem entendi. Só sei que o piloto respirou fundo mais de uma vez antes de abrir a porta. Quando finalmente descemos, o ar quente de Salvador me atingiu como um soco no rosto. Era um calor diferente, denso, quase palpável, grudando na pele no mesmo segundo.
Seguimos direto para o Corredor da Vitória. O bairro parecia saído de outra realidade: prédios altos, imponentes, varandas enormes de frente para o mar, tudo muito bonito e… distante de qualquer ideia de “negócios urgentes”. Eu observava pela janela do carro, tentando entender o que exatamente estávamos fazendo ali.
O carro parou em frente a um prédio luxuoso. Fomos recebidos por um homem de sorriso ensaiado, postura arrogante e um olhar que parecia medir as pessoas de cima a baixo.
— Então esse é o famoso Sr. Alencar — disse ele, apertando a mão do meu chefe com força exagerada. — Entre, por favor.
Assim que entramos no apartamento, tive certeza: aquilo não era reunião, nem negociação. Era um bate-papo. Um encontro entre dois egos inflados.
O homem mal olhou para mim antes de falar:
— Você pode esperar do lado de fora da sala. Assuntos particulares.
Assenti em silêncio, engolindo a irritação. Fiquei parado no corredor, encostado na parede, sentindo o suor escorrer lentamente pelas costas, preso dentro daquele terno social que parecia cada vez mais uma punição. O tempo passava devagar demais. O som abafado das vozes vinha da sala, misturado a risadas ocasionais, como se o mundo estivesse acontecendo longe de mim.
Meu pé batia no chão sem que eu percebesse. Cruzei os braços, descruzei, olhei o relógio dezenas de vezes. O ar parecia parado, pesado, e minha paciência evaporava junto com qualquer traço de bom humor.
Quando a porta finalmente se abriu, já era mais tarde do que eu gostaria. Para minha surpresa, foi o próprio Sr. Alencar quem saiu.
— Akio — chamou, com um tom quase… normal. — Vamos sair um pouco.
Demorei um segundo para entender, mas segui atrás dele. Entramos no carro novamente, e ele mandou o motorista seguir para a Igreja do Bonfim. O lugar era bonito, cheio de gente, cores, fitinhas balançando ao vento. Eu tentei apreciar, mas o calor tornava tudo mais difícil.
— Que calor insuportável — o Sr. Alencar reclamou, pela milésima vez. — Como alguém consegue viver aqui?
Eu apenas concordei com um aceno vago, já me sentindo meio tonto.
Depois, seguimos para o Farol da Barra. O sol refletia no mar de um jeito quase cegante, e a brisa que vinha do oceano parecia uma promessa que nunca se cumpria totalmente. Caminhamos um pouco, e eu ainda tentava entender o roteiro daquele dia quando, de repente, o Sr. Alencar parou.
Sem aviso algum, ele começou a tirar a roupa.
Primeiro o paletó. Depois a camisa. Em seguida, a calça.
— Segura isso — disse, jogando tudo nos meus braços.
Fiquei completamente travado, segurando um amontoado de roupas caras, enquanto ele ficava ali, só de cueca, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Sem sequer olhar para trás, ele correu em direção ao mar e entrou na água, rindo, mergulhando como alguém em férias.
Eu fiquei parado no calçadão, de terno, gravata, sapato social, sentindo-me o maior idiota daquele litoral inteiro. Pessoas passavam, algumas olhavam curiosas, outras nem tanto. Eu só conseguia encarar o Sr. Alencar na água, incrédulo, tentando processar aquela cena absurda.
Depois de um tempo que pareceu longo demais, ele saiu da água, pingando, sem a menor pressa. Pegou uma toalha de algum vendedor ambulante, se secou por cima e caminhou tranquilamente até um quiosque.
— Vou tomar uma água de coco — anunciou.
E lá fui eu atrás, carregando as roupas, quase passando mal de tanto calor, com a visão meio turva e a cabeça latejando, enquanto ele bebia a água gelada como se aquele tivesse sido, desde o início, o plano mais lógico do mundo.
O calor venceu.
Simples assim.
Eu senti o suor escorrendo pelo rosto, pelas costas, pela alma, e alguma coisa dentro de mim simplesmente quebrou. Olhei para o Sr. Alencar ali, tranquilo, segurando a água de coco como se estivesse em um passeio turístico perfeitamente planejado, enquanto eu parecia prestes a desmaiar em público.
— Eu vou morrer — declarei, sem pensar, a voz rouca, quase dramática.
Ele me encarou por cima do canudo, franzindo a testa.
— Como é que é?
— Vou morrer aqui, agora, de calor, de estresse, de tudo — continuei, já largando as roupas dele em cima do banco do quiosque. — Se for pra morrer, que seja na água.
Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, comecei a arrancar minha própria roupa. Gravata fora. Paletó jogado de qualquer jeito. Camisa aberta às pressas, calça descendo sem nenhuma dignidade. Em segundos, eu estava ali, só de cueca, ignorando completamente os olhares ao redor.
— Akio, você enlouqueceu?! — ele gritou.
Não respondi.
Saí quase correndo em direção ao mar e me joguei na água como se estivesse fugindo da própria existência. O choque frio foi imediato, brutal e absolutamente maravilhoso. Afundei por um segundo, depois emergi, respirando fundo, sentindo o corpo finalmente parar de reclamar.
Fiquei ali alguns minutos, boiando, deixando o barulho do mundo se dissolver. Quando voltei para a areia, pingando dos cabelos até os pés, me sentia outra pessoa — ou pelo menos uma versão menos prestes a colapsar.
O Sr. Alencar me olhava como se eu tivesse cometido um crime grave contra a ordem natural do universo.
— Eu… não acredito que você fez isso — disse ele, incrédulo.
Peguei minha roupa, ainda molhada, tentando não pensar muito nas consequências.
— Acredite — respondi, ofegante. — Eu precisava.
Ele suspirou, passou a mão no rosto e então olhou para o céu, como se pedisse paciência a alguma entidade superior.
— Chega. Vamos embora. Precisamos ir para o hotel.
Assenti automaticamente, já pegando o celular.
— Você reservou, certo? — ele perguntou, de repente, estreitando os olhos.
Travei.
— Então… não.
O silêncio durou exatamente dois segundos antes da explosão.
Veio uma bronca monumental. Ele reclamou da minha falta de previsão, da minha incompetência logística, da minha existência profissional inteira. Eu apenas deixei, olhando para a tela do celular, com o coração ainda acelerado e a cueca secando ao vento.
Enquanto ele falava, meus dedos voavam. Abri aplicativos, comparei preços, ignorei a pressão. Quando finalmente encontrei algo disponível, respirei aliviado.
— Pronto — interrompi. — Hotel reservado. Praça Castro Alves.
Ele parou de falar.
Me encarou por alguns segundos, ainda irritado, mas agora sem munição imediata.
— Ótimo — resmungou, virando-se. — Então anda. Antes que eu mude de ideia.
E lá fomos nós, eu ainda meio molhado, exausto e derrotado, tentando entender em que momento da vida aquilo tudo tinha passado a ser normal.
Continua...