ESPECIAL BRUNA: A TRINDADE QUEBRADA
Acordei antes do despertador. De novo. Eram 04:58 da manhã de um domingo que prometia ser tudo, menos sagrado.
O quarto estava mergulhado naquela luz cinzenta e morta, a hora em que os fantasmas são mais reais que as pessoas, a hora em que a biologia grita mais alto que a moral. O ar condicionado zumbia baixo, um som artificial que tentava mascarar o silêncio pesado da casa. Ao meu lado, o Bruno respirava num ritmo profundo, quase gutural. O braço dele, pesado e quente, estava jogado sobre minha cintura.
Fiquei imóvel, sentindo o peso daquele braço. Uma tonelada de carne e osso.
Antes, esse peso significava proteção. Significava "sou seu marido, estou aqui". Hoje, nessa manhã de domingo, parecia uma âncora de ferro enferrujado arrastando-me para o fundo de um lago turvo.
Olhei para o teto, onde as sombras das árvores lá fora desenhavam formas que minha mente exausta tentava decifrar. Pareciam garras. Pareciam bocas abertas.
*Quem sou eu hoje?*
A pergunta não era retórica. Era uma negociação de reféns dentro do meu próprio crânio, uma guerra civil silenciosa.
O comitê já estava reunido, em sessão extraordinária desde que abri os olhos.
*Você é a esposa dele*, sussurrou a voz da **Bruna Esposa**, com aquele tom maternal e levemente histérico que soava suspeitosamente parecida com a da minha mãe. *A mulher que fez votos diante de Deus e da família. A enfermeira competente que sabe que o perigo químico já passou, mas o trauma ficou. Olha para ele, Bruna. Ele foi violado. Ele é um homem bom que cometeu o erro de confiar no vizinho naquele fatídico dia. Ele te ama.*
Revirei os olhos mentalmente, sentindo o familiar gosto de bílis na boca.
*Ah, cala a boca, sua frígida hipócrita*, respondeu a **Bruna Vadia**, espreguiçando-se na base da minha espinha como um gato no cio, enviando um choque elétrico fantasma direto para o meio das minhas pernas, fazendo minha buceta contrair involuntariamente contra o lençol de algodão egípcio. *Você não é enfermeira agora. Você é a fêmea que gozou três vezes seguidas com o pau de um vizinho gordo e feio entalado na garganta até quase vomitar. Você é a mulher que sentiu o cheiro de suor azedo e cebola dele e, em vez de sentir nojo, abriu mais as pernas. O Bruno já está limpo da droga, querida. Se ele está tremendo agora, é porque é frouxo mesmo. E você quer saber se ele aguenta o tranco ou se ele é só mais um obstáculo.*
E então, fria, calculista e com uma prancheta imaginária na mão, a **Bruna Analista** ajustou os óculos metafóricos no canto esquerdo do meu cérebro. *Vamos aos fatos, senhoras. Fato um: Bruno foi sedado involuntariamente há dias. Como profissional de saúde, sei que a meia-vida de qualquer benzodiazepínico comum já expirou. O sangue dele está limpo. Não há mais desculpa fisiológica para a passividade. Fato dois: nós transamos com Osvaldo enquanto ele estava apagado no sofá. Fato três: a resposta fisiológica de Bruna foi de excitação nível 10, indicando uma dissociação completa entre ética e desejo. A variável crítica de hoje é: sem a droga no sistema, o Bruno vai lutar ou vai dobrar os joelhos por covardia pura?*
Fechei os olhos com força, tentando silenciar o ruído.
A lembrança daquela noite veio como um soco no estômago. O Bruno... ele mudou. Aquela performance de macho alfa ontem, os tapas que deixaram minha bunda vermelha, a possessividade ao me foder por trás enquanto eu falava com o "Osvaldo imaginário". *Você é minha, não dele.*
Foi excitante?
A **Bruna Vadia** ronronou, lambendo os beiços mentais: *Foi. Foi quente pra caralho. Foi o que a gente sempre implorou silenciosamente que ele fosse.*
A **Bruna Analista** interveio com ceticismo clínico: *Foi uma atuação. Uma resposta traumática de sobrecompensação. Ele está tentando recuperar território performando uma masculinidade agressiva que não é natural para a psique dele. É o grito do animal encurralado. É insustentável.*
Levantei da cama com o cuidado de uma ladra, movendo o braço do Bruno centímetro por centímetro até conseguir escapar. O alívio de não ter mais o peso dele sobre mim foi imediato – e veio acompanhado de uma pontada aguda de culpa. Fui para o banheiro, pisando na ponta dos pés no piso frio.
Tranquei a porta. Acendi a luz. O zumbido da lâmpada fluorescente parecia alto demais.
A mulher que me encarava no espelho parecia uma estranha. Olheiras profundas e roxas sob os olhos azuis que costumavam brilhar de confiança profissional. O cabelo loiro desgrenhado, embaraçado de um sono inquieto e suado. A camisola de seda creme que o Bruno me deu de aniversário – cara, elegante, "de esposa troféu" – parecia uma fantasia mal ajustada, um figurino de uma peça que eu já não queria mais encenar.
Toquei meu pescoço. A marca roxa que o Osvaldo deixou – aquele chupão vulgar e possessivo, feito para marcar território como um cachorro mijando num poste – já tinha sumido visualmente, mas eu ainda a sentia queimando sob a pele, pulsando como um segundo coração.
Abri a torneira. Lavei o rosto com água gelada, tentando chocar meu sistema, tentando acordar a Bruna racional.
— Ele drogou seu marido — disse para o reflexo, movendo os lábios sem som, encarando minhas pupilas dilatadas. Ele colocou alguma coisa na bebida. Ele cometeu um crime. Ele é um predador, Bruna.
A indignação surgiu, quente e justa. Como enfermeira, eu sabia exatamente o risco que o Bruno correu. Depressão respiratória. Broncoaspiração se ele tivesse vomitado enquanto dormia no sofá. O Osvaldo poderia ter matado o Bruno. Ele brincou com a vida do meu marido, do homem que paga as contas, do homem que segura minha mão em público, só para ter acesso ao meu corpo. O fato de o Bruno estar bem *agora* não apaga o risco que ele correu *então*.
Isso era imperdoável.
*Não é?*
*Ele fez o que você queria que alguém fizesse*, a voz da **Bruna Vadia** sussurrou de volta, distorcida e maliciosa, vindo do ralo da pia. *Ele tirou a responsabilidade de você. Ele apagou o Bruno para que você não precisasse se preocupar com o olhar de "corno triste" dele. Ele te deu permissão absoluta. Ele criou o vácuo moral onde você pôde ser livre. Você gozou como nunca na vida porque não tinha ninguém para julgar. Nem mesmo o Bruno.*
Apertei a porcelana da pia até os dedos ficarem brancos, as unhas quase arranhando o esmalte.
A verdade é que eu sempre fui duas. Ou três. Ou mil estilhaços colados com cuspe, convenções sociais e plantões de doze horas para não pensar na vida.
Havia a Bruna que casou com o Bruno. A Bruna que queria segurança, estabilidade, um homem bonito, fit e gentil que nunca levantaria a voz, que dividiria as tarefas domésticas. Um homem que pedia permissão antes de tocar, que perguntava "está bom assim, amor?" e parava se eu franzisse a testa. O marido perfeito de Instagram, o genro que toda sogra quer.
E havia a Bruna que eu tranquei no porão da minha psique aos vinte anos, amarrada e amordaçada com fitas de "boa conduta". A Bruna que olhava para os homens rudes na rua – os pedreiros sujos de cal, os seguranças truculentos, os caminhoneiros com braços gordos e tatuagens desbotadas – e sentia uma umidade vergonhosa e incontrolável. A Bruna que tinha fantasias de ser usada, não amada. De ser objeto, não sujeito. De ser um buraco, não uma parceira.
O Bruno... pobre, doce e ingênuo Bruno. Ele tentou abrir a porta do porão. Com suas fantasias de cuckold, ele achou que estava apenas brincando com fogo controlado. Ele achou que podia passear com o monstro na coleira de veludo. Ele não sabia que estava soltando um incêndio florestal que consumiria a casa inteira.
E o Osvaldo?
O Osvaldo não era o fogo. Ele era a gasolina jogada na fogueira.
Ele era nojento. Objetivamente. Gordo, com aquela barriga que pendia sobre o cinto, suado mesmo parado, com aquele sorriso de sapo e dentes amarelados de café e cigarro barato. A antítese estética de tudo que eu aprendi que deveria desejar. O oposto do Bruno. O pesadelo da minha mãe.
Mas Deus... como ele entendia a **Bruna Vadia**.
Ele não tentava me agradar. Ele não tentava ser romântico. Ele olhava para mim e via a sujeira. E ele não queria limpar a sujeira. Ele queria rolar nela comigo. Ele validava a minha podridão.
Voltei para o quarto, o coração batendo descompassado. Peguei meu celular na mesa de cabeceira com cuidado cirúrgico. A luz da tela feriu meus olhos.
05:22. Uma notificação.
**Osvaldo:** *"Domingo ainda tá de pé? Ou seu maridinho desistiu?"*
Meu dedo pairou sobre a tela iluminada.
A **Bruna Esposa** gritou, histérica: *Bloqueia! Mostra para o Bruno agora! Vamos na delegacia! Faz um B.O.! Ele é um abusador!*
A **Bruna Analista** ponderou, fria: *Se bloquearmos agora, perdemos a alavancagem tática. Ele tem provas. Vídeos. Precisamos saber o que ele quer. Precisamos controlar a narrativa antes de queimar as pontes. O silêncio é uma resposta, mas é uma resposta fraca.*
A **Bruna Vadia**... ela apenas sorriu, sentindo o útero contrair dolorosamente. *Responde. Diz que estamos indo. Diz que você mal pode esperar para sentir o cheiro dele de novo. Diz que o Bruno não importa. Diz que você precisa sentir aquele peso nojento em cima de você.*
Não respondi. Apenas olhei para a mensagem. "Seu maridinho". O diminutivo. O desprezo. A arrogância absoluta de quem sabe que tem o poder. Ele achava que tinha vencido. Que tinha nos quebrado.
Talvez tivesse.
Olhei para o Bruno dormindo. Tão pacífico. Tão... inocente?
Não. Inocência é uma palavra forte demais para um homem que pedia para ouvir detalhes de como outro macho fodeu a esposa, gemendo enquanto ouvia.
Mas ele não merecia ser drogado. A raiva voltou, mais focada dessa vez. Raiva protetora. O Osvaldo cruzou uma linha que não era sexual, era criminal. Ele tirou a agência do Bruno. E, por extensão, tirou a legitimidade da minha transgressão. Se o Bruno estava apagado, ele não era um cuckold, ele era uma vítima. E eu... eu não era uma esposa hotwife. Eu era uma traidora oportunista.
Isso me sujava de um jeito que eu não gostava. Ou gostava?
Fui para a cozinha fazer café. A casa estava silenciosa, aquele silêncio de domingo de manhã que precede os sinos da igreja ou as ressacas morais. A cafeteira gorgolejou, um som doméstico reconfortante que parecia absurdamente deslocado no meio da minha crise existencial. O cheiro do café subiu, rico e familiar.
Sentei na ilha da cozinha. O granito frio contra minhas coxas através da seda da camisola.
O mesmo lugar onde...
Fechei os olhos. A imagem veio nítida, sobrepondo-se à realidade da cozinha limpa. O Osvaldo me prensando contra esse balcão. O cheiro dele – almíscar barato e testosterona velha. A força bruta com que ele segurou meu quadril, os dedos gordos afundando na minha carne. A forma como ele riu quando eu disse não, sabendo que meu corpo dizia sim.
— Para com isso, Bruna — murmurei para a cozinha vazia, levando a caneca aos lábios trêmulos. O café queimou minha língua, uma dor bem-vinda.
Peguei meu notebook que estava largado sobre a mesa de jantar. Precisava organizar minha mente. Abri um documento em branco. O cursor piscava, exigindo uma definição.
**Lista de Fatos:**
1. **Osvaldo é perigoso.** Ele não respeita limites, nem legais nem morais. A droga no copo do Bruno prova que ele é um sociopata funcional. Ele não joga o jogo; ele quebra o tabuleiro.
2. **Bruno está instável.** O efeito da droga já passou, o sangue está limpo. O que resta agora é puramente psicológico. A oscilação entre o corno passivo e o marido dominador mostra que ele está perdendo o controle da própria fantasia. Ele é uma bomba-relógio emocional.
3. **Eu estou...**
O cursor piscou. Uma, duas, três vezes.
*Eu estou o quê?*
*Comprometida?* Não totalmente.
*Vítima?* Não inteiramente. Eu consenti com o sexo. Eu busquei o sexo. Eu abri a porta.
*Cúmplice?* Provavelmente.
A **Bruna Analista** tentava manter o controle, focando no risco hipotético: *Ele pode ter filmado. É uma possibilidade estatística alta. Devemos nos preparar para chantagem.*
Mas foi aí que a **Bruna Vadia** riu, um som obsceno no fundo da minha mente, quebrando a barreira do subconsciente e inundando minha memória com a verdade crua que eu tentava reprimir:
*Hipotético? Você sabe que não é hipotético, querida. Você viu a luz vermelha. Naquela noite, entre os livros de autoajuda baratos na estante, aquela luzinha piscando como um olho do diabo. A Esposa fingiu que não viu. A Analista tentou dizer que era o roteador. Mas eu... eu vi. E eu não me escondi. Eu olhei para a lente. Eu arqueei as costas **para** a câmera. Eu gemi o nome dele olhando para a objetiva, eternizando sua traição em 4K. Você não foi flagrada, Bruna; você performou. Você queria que ficasse gravado. Você deu a ele a munição, municiou a arma e destravou o gatilho.*
Apertei as têmporas, tentando empurrar essa voz de volta para o esgoto de onde ela veio. *Não. Eu não fiz isso. Eu estava bêbada. Eu não vi.*
*Você viu*, a voz insistiu. *E você adorou a ideia de ser imortalizada como a puta dele.*
*E se o Bruno falhar?*, a voz continuou, implacável. *E se a gente chegar lá e o Osvaldo, com aquela calma bovina e inabalável de psicopata, simplesmente dominar a situação de novo? Se ele virar o cuckold submisso na frente do predador, mesmo estando sóbrio?*
*Você quer ver isso, não quer?*, a voz acusou. *Você quer ver quem vence a briga de cães. Você quer saber quem é o dono da coleira.*
Não é sobre amor. Não mais. É sobre biologia. É sobre hierarquia.
Ouvi passos na escada. Fechei o notebook rapidamente, como uma adolescente escondendo um diário proibido. O coração disparado, a culpa queimando meu rosto.
O Bruno apareceu na porta da cozinha. Cabelo amassado, rosto inchado de sono, vestindo apenas uma cueca boxer branca. Ele parecia... menor. Sem a postura de "homem no comando" da noite anterior. Sem a armadura. Apenas um homem cansado, lidando com a ressaca moral da própria humilhação. Havia olheiras profundas. Ele parecia uma criança perdida.
— Bom dia, amor — ele disse, a voz rouca, pigarreando. Ele evitou meu olhar por um segundo.
— Bom dia. — Minha voz saiu neutra. Clínica. A voz da enfermeira-chefe no início do turno, empurrando a memória do vídeo para o fundo da mente.
Ele veio até mim, arrastando os pés, e me beijou na testa. Um beijo suave, hesitante, quase um pedido de desculpas antecipado. Senti o cheiro dele – sabonete caro, amaciante e sono. Tão limpo. Tão estéril. Tão diferente do cheiro ácido e vivo do Osvaldo.
— Você viu a mensagem? — ele perguntou, encostando na pia, cruzando os braços sobre o peito nu, como se sentisse frio. Ele sabia. Claro que sabia. Ele deve ter visto a notificação acender o quarto durante a noite e fingiu dormir para não ter que lidar com isso na hora.
— Vi.
— Você respondeu? — Havia um tremor na voz dele. Medo de que eu tivesse respondido? Ou esperança perversa de que eu tivesse?
— Não. Eu não respondi.
Ele assentiu, pegando uma xícara. As mãos dele tremiam levemente ao segurar a cafeteira. Eu sabia, clinicamente, que não era mais efeito da droga. Era ansiedade pura. Era medo.
— A gente vai lá — ele disse, tentando firmar a voz, estufando o peito nu, tentando invocar o homem de ontem à noite. — Depois do almoço. Vamos acabar com essa palhaçada. Ele vai ouvir. Ninguém faz o que ele fez comigo na minha casa.
— Bruno... — comecei, a **Bruna Analista** assumindo o comando, tentando injetar racionalidade cirúrgica, tentando proteger o castelo de cartas. — Você tem certeza de que é uma boa ideia ir lá pessoalmente? Ele é imprevisível. O que ele fez... colocar algo na sua bebida... isso mostra que ele não tem freios morais. Ele pode ter uma arma. Ele pode ser louco.
— *Se* ele colocou? — Ele virou para mim, os olhos faiscando com uma raiva súbita e genuína, o rosto ficando vermelho. — Bruna, eu apaguei! Eu nunca apago assim! Eu bebi duas cervejas! Ele me tirou de cena na minha própria sala pra foder minha mulher!
Senti uma pontada de orgulho instintivo. *Aí está.* A indignação. O Bruno estava finalmente agindo como o homem ultrajado que deveria ser. A **Bruna Esposa** suspirou aliviada. Isso me fez inclinar fisicamente para ele. Essa raiva era sexy. Essa raiva era justa. Era a prova de vida.
— Eu sei, amor. Eu sei. — Levantei e coloquei a mão no braço dele, apertando o bíceps tenso. A pele estava quente. — Eu estou do seu lado. O que ele fez foi crime. Nós vamos resolver isso.
— Exato. — Ele cobriu minha mão com a dele, apertando forte demais. — Mas ir lá... confrontar ele... e se ele ficar violento? E se ele tentar alguma coisa?
Bruno riu. Uma risada seca, sem humor, tentando evocar uma confiança que eu não tinha certeza se era real.
— O Osvaldo? Violento? Ele é um gordo sedentário, Bruna. Ele mal consegue subir a escada sem ofegar. Eu treino cinco dias por semana. Eu levanto o peso dele no supino. Eu quebro ele no meio se precisar. Ontem à noite... você viu. Eu não sou mais aquele passivo idiota.
Olhei para ele. Olhei para os bíceps definidos do meu marido. Para o abdômen trincado. Esteticamente, ele era superior em tudo. Numa luta justa, num ringue com regras, o Bruno mataria o Osvaldo.
Mas a vida não é um ringue. E o Osvaldo não luta justo. O Osvaldo luta com faca na bota e areia nos olhos. E com vídeos secretos.
*Você quebra ele no meio?*
A imagem do Bruno tentando bater no Osvaldo me veio à mente. E logo foi substituída pela imagem do Osvaldo segurando o Bruno pelo pescoço apenas com a força do olhar e da gravidade, rindo enquanto o Bruno tentava socá-lo inutilmente. O Osvaldo tem aquela força de quem não tem nada a perder. A força da rua. A força da malícia.
E, pior... o Osvaldo tem a vantagem psicológica. Ele tem a nossa vergonha. Ele tem a minha buceta no histórico do celular dele. E a minha parte vadia sabe que eu ajudei a colocar ela lá.
— Tudo bem — eu disse, apertando o braço dele, tentando passar uma força que eu não tinha. — Nós vamos. Juntos.
O resto da manhã passou num borrão de tensão doméstica insuportável. Tentamos assistir TV, tentamos ler, mas o ar estava elétrico, carregado de estática. Fizemos o almoço em silêncio – grelhados e salada, a dieta do casal perfeito que está apodrecendo por dentro. O Bruno comia mecanicamente, o maxilar tenso, os olhos perdidos no vazio. Eu via ele ensaiando o discurso na cabeça. Ele cerrava os punhos. Respirava fundo. Estava se preparando para a batalha da vida dele.
Eu? Eu fui me arrumar.
Subi para o quarto. Abri o closet. O cheiro de lavanda dos sachês parecia enjoativo, sufocante.
A **Bruna Esposa** sugeriu imediatamente, quase implorando: *Jeans largo e camiseta. Algo fechado. Sóbrio. Cores neutras. Você vai lá para terminar, para exigir respeito, para acusar um crime. Não dê a ele nenhuma munição visual. Não seja cúmplice.*
A **Bruna Vadia** riu, jogando a cabeça para trás no fundo da minha mente escura: *Ah, para de ser chata. Coloca aquele vestido preto curto. Aquele que marca os mamilos. Aquele que não precisa de calcinha. Vamos ver se o Bruno consegue manter o discurso de "respeito" quando vir o pau do Osvaldo marcando na calça de moletom suja e perceber que eu estou molhada por causa disso. Vamos ver o circo.*
A **Bruna Analista** vetou ambas e decidiu com frieza pragmática: *Legging cinza e top de academia, com a jaqueta de couro do Bruno por cima. Prático. Se precisar correr ou lutar, você está pronta. Mas também... é uma jogada psicológica dupla. Lembra como o Osvaldo é obcecado pelas suas roupas de ginástica? Lembra como ele disse que a bunda ficava "fenomenal" nessa legging? É uma arma. Use-a. Vamos distraí-lo enquanto o Bruno ataca. E vamos lembrar ao Bruno o que ele está defendendo.*
Vesti a legging cinza. O tecido elástico abraçou minhas coxas e bunda como uma segunda pele, delineando cada curva. A mesma legging que o Bruno elogiou (e depois arrancou com raiva) ontem. Coloquei um top preto que sustentava bem os seios, deixando o colo à mostra. E a jaqueta de couro do Bruno por cima. O zíper aberto. O cheiro de couro e do perfume do Bruno na jaqueta me dava uma sensação de armadura, de pertencimento a ele.
Olhei no espelho uma última vez. Passei um rímel leve e um gloss. Nada exagerado. Apenas o suficiente para mostrar que eu não estava derrotada, que eu não estava chorando pelos cantos.
*Quem vai vencer hoje, Bruna?*
*A esposa leal que quer justiça pelo marido que foi violado?*
*A analista fria que quer sobreviver ao escândalo e manter o status quo?*
*Ou a puta insaciável que quer ver o mundo queimar e descobrir quem é o verdadeiro dono do picadeiro?*
Respirei fundo, tentando acalmar o tremor nas mãos. Meu coração estava na boca.
Desci as escadas. O Bruno estava na sala, em pé, olhando pela janela em direção à casa do vizinho, como um sentinela. Ele se virou quando ouviu meus passos.
Ele parou. Os olhos dele percorreram meu corpo, descendo pela jaqueta aberta, parando na legging cinza, contornando minhas pernas, fixando-se na minha virilha. Vi a garganta dele trabalhar, o pomo de adão subindo e descendo. Vi a mistura tóxica de desejo, orgulho e ciúme possessivo doentio.
— Você vai assim? — ele perguntou, a voz tensa, rouca.
— É confortável. E... — Hesitei, escolhendo as palavras como quem escolhe munição. — E ele gosta. Vamos usar isso contra ele. É uma distração. Se ele olhar pra mim, ele não olha pra você. E você pega ele.
O Bruno trincou o maxilar. Ele entendeu a tática. Ele odiou, mas entendeu. Ele assentiu, engolindo o orgulho.
— Certo. — Ele estufou o peito, pegando as chaves do carro (hábito nervoso, não íamos dirigir) e colocando no bolso. — Vamos. Fica perto de mim.
Saímos de casa. O sol de domingo estava forte, irônico, iluminando o gramado perfeitamente cortado do nosso subúrbio de classe média alta. A rua estava deserta. Um silêncio de sepulcro pairava sobre o asfalto quente. Ninguém cortava grama. Ninguém passeava com cachorro. O mundo parecia ter parado para assistir.
A casa do Osvaldo era logo ali. A grama dele estava um pouco alta, descuidada, ervas daninhas crescendo nas bordas. A pintura bege descascando levemente nos cantos. A casa do "vizinho horrível". A toca do lobo.
Caminhamos pela calçada. Eram apenas trinta metros, mas cada passo parecia pesar uma tonelada. Eu podia sentir o calor do Bruno ao meu lado. Ele irradiava tensão, os músculos rígidos como pedra.
Meu coração batia forte. Um tambor tribal no meu peito. Não era medo.
Era expectativa. Uma expectativa elétrica, úmida.
A **Bruna Vadia** estava agitada, arranhando as paredes do meu estômago com unhas afiadas. *Ele vai estar esperando. Ele sabe que estamos indo. Ele preparou o palco. Ele quer isso tanto quanto a gente.*
A **Bruna Analista** calculava as probabilidades em tempo real: *Bruno vai começar agressivo, tentando impor dominância física logo de cara. Osvaldo vai usar a calma e a indiferença. Bruno vai se desestabilizar com a falta de reação, porque a agressividade dele precisa de um espelho. E eu vou ter que escolher um lado no momento crítico. Se eu hesitar, o Osvaldo ganha. Se eu apoiar o Bruno demais, o Osvaldo solta os vídeos.*
Eu me aproximei mais do Bruno enquanto andávamos. Inclinei meu corpo na direção dele, roçando meu braço na jaqueta (a jaqueta dele) no braço dele. Um gesto de proteção mútua.
— Eu estou com você — sussurrei. E eu queria que fosse verdade. Deus, como eu queria. Eu precisava que fosse verdade. O que o Osvaldo fez foi um crim. O Bruno é meu marido. O Bruno é a vítima. O Bruno é o certo.
O Bruno olhou para mim, grato. O medo nos olhos dele diminuiu um pouco. Ele se sentiu o protetor. Ele precisava disso.
Chegamos à porta da casa do Osvaldo. A madeira estava gasta, verniz descascando. Não havia tapete de boas-vindas. Apenas concreto manchado.
O Bruno olhou para mim. Havia suor na testa dele, brilhando sob o sol impiedoso.
— Pronto? — ele perguntou, mais para si mesmo do que para mim.
— Pronto.
Ele estendeu a mão e tocou a campainha. O dedo dele estava branco de tanta força.
O som ecoou lá dentro, estridente. *Ding-dong*. O som da normalidade prestes a ser estilhaçada.
Esperamos. Cinco segundos. Dez. Vinte. O silêncio pesava.
Ouvimos passos. Passos pesados, arrastados, sem pressa. O som de chinelos de borracha no piso.
A porta se abriu.
E lá estava ele.
Osvaldo.
Ele não estava de moletom. Estava vestindo uma calça jeans velha, desbotada, que apertava na cintura e formava um "muffin top" grotesco, e uma camiseta branca manchada de molho de tomate (ou seria outra coisa?) que esticava sobre a barriga proeminente, desenhando o umbigo fundo como um olho cego. O cabelo ralo estava bagunçado, oleoso. Ele segurava uma lata de cerveja barata numa mão e o celular na outra, a lente apontada casualmente para baixo.
O cheiro dele me atingiu primeiro, como um tapa físico. Cerveja choca, suor antigo, cigarro e aquele cheiro metálico e almiscarado de homem que não toma banho há um dia. O cheiro daquela noite.
Deveria ser repulsivo. Deveria me fazer vomitar, especialmente sabendo que ele é capaz de drogar uma pessoa.
A **Bruna Esposa** teve ânsia de vômito, cobrindo a boca mentalmente com nojo da criminalidade dele.
Mas a **Bruna Vadia**... a Bruna Vadia sentiu o cheiro e, Deus me perdoe, sentiu cheiro de sexo. Cheiro de dominância. Cheiro de realidade. Minha boca salivou. Minhas pernas fraquejaram.
O sorriso dele... aquele sorriso de sapo, largo, úmido e cheio de dentes amarelados. Os olhos pequenos brilhavam com inteligência maliciosa.
— Olha só — ele disse, a voz arrastada, grossa, cheia de escárnio e... prazer genuíno. — O casalzinho feliz veio para o almoço de domingo. Achei que o gatinho tinha comido a língua do marido. Ou que ele ainda tava de ressaca do meu "drink" especial da sexta.
Ele falou da droga. Ele admitiu. Na cara dura. Zombando.
Ele nem olhou para o Bruno. Ignorou a existência física dele, como se o Bruno fosse um móvel.
Ele olhou direto para mim. Para os meus olhos, com uma intensidade que me despiu ali mesmo na calçada, arrancando a jaqueta, o top, a legging. E depois desceu o olhar, lento, insultuoso e proprietário, para a minha virilha, coberta pela legging cinza. Ele sorriu mais largo, lambendo o lábio inferior rachado, reconhecendo a roupa. Reconhecendo a submissão implícita na escolha da roupa.
— Entra — ele disse, dando um passo para trás, abrindo o espaço com um gesto teatral da mão que segurava a cerveja. — A gente tem muito o que conversar. E eu tenho umas coisas pra mostrar pra vocês. Coisas educativas. Sobre quem a Bruna é de verdade.
A **Bruna Esposa** gritou em horror: *Ele é um criminoso! Reage! Bate nele! Grita!*
A **Bruna Analista** notou que o celular na mão dele estava com a luz vermelha acesa. *Ele está gravando de novo. Tudo o que você fizer agora é prova. Cuidado.*
Mas foi a **Bruna Vadia** quem respondeu, num sussurro que só existia na minha câmara de eco mental, lembrando da luzinha vermelha que eu fingi não ver na sexta, enquanto eu dava o primeiro passo hesitante para dentro da cova dos leões, passando perigosamente perto do corpo suado do Osvaldo, sentindo o calor dele irradiar para o meu:
*Que vença o pior.
***