Corpos, Desejos e Silêncio... Historias que Nunca Ousamos Dizer. Capítulo 15 — A trilha sob a pele

Um conto erótico de Bernardo
Categoria: Gay
Contém 4878 palavras
Data: 27/01/2026 20:43:17

Eu fiquei parado.

Não foi uma decisão consciente.

Foi como se o corpo tivesse entendido antes da mente que aquilo não era apenas uma cena — era um abalo.

Meus olhos permaneceram presos à imagem à frente, incapazes de buscar qualquer outro ponto da mata. O verde ao redor desapareceu. A trilha, até então apenas um caminho, tornou-se uma moldura estreita para algo que não cabia ali.

Sem perceber, meus dedos se fecharam com mais força sobre a mão de Jonas.

Ele sentiu.

Seu corpo se aproximou instintivamente do meu, ficando logo atrás, quase me envolvendo, como se tentasse me ancorar naquele instante suspenso. Seu peito tocava minhas costas, e a respiração dele mudou quando seus olhos finalmente encontraram o mesmo ponto que os meus.

— Caramba… — ele murmurou, baixo, quase sem ar. — Olha aquilo.

— Meu Deus… — escapou de mim, num sussurro que mal reconheci como minha própria voz.

À frente, parcialmente encobertos por pedras e vegetação, dois corpos se moviam com uma intensidade que destoava completamente do silêncio da mata. Não havia pudor, nem pressa, nem tentativa de contenção. Era bruto. Era quente. Era real demais.

O homem que dominava a cena tinha um corpo que eu reconheceria em qualquer lugar.

Moreno, pele marcada pelo suor que escorria em linhas irregulares pelas costas largas. Os músculos tensionavam e relaxavam num ritmo hipnótico, como se cada movimento fosse inevitável. A bermuda estava arriada nas pernas, esquecida, inútil, enquanto ele mantinha o outro homem preso contra si.

A respiração dele era alta. Rasgada. Animal.

— Hhh… — o som escapava do peito dele, misturado a palavras soltas, fragmentadas, ditas entre dentes. Não havia preocupação com quem pudesse ouvir. Pelo contrário: parecia haver prazer naquele risco.

O outro rapaz… era diferente. Mais jovem, talvez da minha idade ou menos — O corpo mais magro, entregue, reagindo a cada impacto, a cada comando murmurado ao pé do ouvido. As roupas dele também estavam abertas, fora de lugar, como se tivessem sido arrancadas da consciência antes mesmo do corpo.

— Olha como ele domina… — Jonas comentou, quase sem perceber que falava. — Como se o mundo inteiro tivesse parado ali.

— Jonas… — eu disse, num tom que misturava alerta e súplica.

Ele pareceu acordar.

— A gente… a gente precisa sair daqui. — Houve um silêncio curto antes de ele completar: — Só que… pra sair, a gente vai ter que passar por eles.

Meu estômago se contraiu.

— Não tem outro caminho? — perguntei, mesmo sabendo a resposta.

— Voltar vai levar muito tempo. E… — ele respirou fundo — do jeito que eles estão, não vão nem perceber a gente passando.

Foi quando aconteceu.

Um passo em falso. Uma pedra solta. Um estalo seco quebrando o ar.

Meu coração disparou.

O homem moreno ergueu o rosto imediatamente, os olhos varrendo o espaço ao redor. O corpo dele, no entanto, não parou. Não houve recuo. Não houve interrupção. Pelo contrário: os movimentos se intensificaram, como se o som tivesse sido combustível.

— A gente não pode fazer barulho — Jonas sussurrou, tenso. — Não agora.

Eu assenti, mas algo em mim já não estava inteiro.

Uma pressão estranha se formou no peito. Um misto de choque, incredulidade e uma dor antiga que eu não sabia nomear. Minha mente repetia, como um eco absurdo:

Eu não acredito no que eu tô vendo.

O corpo dele… eu conhecia aquele corpo. A postura. A maneira como ocupava espaço. A forma como parecia confortável demais naquele papel de domínio, como se aquilo fosse natural, familiar.

O suor brilhava sob a luz filtrada entre as árvores. O cabelo escuro, levemente desgrenhado. A mandíbula tensa. O som grave que ele soltava, entre um movimento e outro, atravessava a trilha como um chamado perigoso.

Recobrei a consciência quando Jonas apertou minha mão.

— Se a gente não passar agora, vai acabar ficando preso aqui — ele disse. — Uma hora ou outra, eles vão notar.

Eu queria responder. Queria me mover. Mas minhas pernas pareciam não me obedecer.

Foi então que os dois mudaram de posição.

O homem moreno se sentou sobre uma pedra larga, sólida, como se fosse um trono improvisado. O outro rapaz foi puxado para o colo dele, de costas, completamente encaixado naquele corpo maior.

E ali… ali o choque foi total.

Ele ficou exatamente de frente para onde estávamos.

Protegidos pela vegetação, invisíveis. Mas próximos demais.

— Eu não sei o que fazer… — confessei, num fio de voz.

— A gente precisa ir. Agora. — Jonas foi firme.

Respirei fundo. Fechei os olhos por um segundo. Quando os abri, a decisão já tinha sido tomada por ele.

Jonas me puxou.

Demos os primeiros passos tentando parecer apenas dois corpos passando pela trilha. Mas o som dos nossos pés denunciava a presença.

Os olhos dele encontraram os meus.

Não houve espanto.

Não houve surpresa.

Houve reconhecimento.

E então, como se aquilo fosse parte do jogo, ele sorriu.

Um sorriso torto. Seguro. Safado.

Ao mesmo tempo, intensificou os movimentos, o corpo se impondo ainda mais sobre o outro rapaz. A voz dele ecoou, grave, carregada de comando:

— Vai… continua… isso.

O rapaz no colo não se virou, mas era impossível não perceber nossa presença. Ele olhou por cima do ombro, confuso, ofegante.

— Tio… tem gente aqui.

A resposta veio imediata, desdenhosa:

— Deixa. — Um riso baixo. — Plateia.

Meu corpo inteiro se contraiu.

Então ele levantou a mão livre e fez um gesto claro. Um convite descarado.

Jonas olhou pra mim.

Eu puxei sua mão com força suficiente para não deixar dúvida.

Ele entendeu.

— Aproveita aí, cara — Jonas disse, firme, sem agressividade. — A gente só tá passando.

O sorriso do Sr. Juan permaneceu sobre aquele convite...

Mesmo diante da recusa de Jonas, ele insistiu.

O sorriso do Sr. Juan — aquele sorriso largo, confiante, indecente demais para aquele cenário — permaneceu aberto, quase provocador, como se a negativa fosse apenas parte do jogo.

— Que isso, cara? — ele falou, com a voz arrastada, carregada de malícia. — Vem cá. Já estão aí mesmo… é só chegar e aproveitar.

O tom era leve, mas o convite vinha pesado, quase como uma ordem disfarçada. O corpo dele não demonstrava nenhum sinal de recuo. Pelo contrário. Havia ali uma tranquilidade perturbadora, como se aquela trilha fosse território conhecido, como se o risco fizesse parte do prazer.

Nesse instante, o rapaz que estava no colo dele soltou um gemido mais alto, involuntário, a voz falhando entre uma respiração e outra.

— Tio... Juan… por favor… mete... mais forte… — a frase se perdeu, engolida pelo próprio fôlego.

Aquilo foi demais.

Eu desviei o olhar por um segundo, não por pudor, mas por um incômodo profundo, quase físico. Havia algo de invasivo naquela insistência, algo que atravessava um limite que não era apenas moral, mas humano.

— Eles estão fazendo o que querem — eu murmurei, mais para mim do que para Jonas — todo mundo tem seus desejos, seus fetiches… mas não precisa importunar os outros. Nem insistir assim.

Jonas assentiu lentamente.

— É… eu concordo.

Houve uma pausa curta, carregada.

— Mas… — ele começou.

Eu o olhei de lado.

— Mas?

Ele respirou fundo antes de continuar, como se estivesse escolhendo as palavras com cuidado.

— Eu não tenho como não admitir que eles estavam curtindo. E… parecia estar gostoso.

Meu olhar se prendeu ao dele imediatamente.

— Nossa, Jonas…

Ele ergueu as mãos num gesto quase defensivo, meio rindo, meio sério.

— Calma. Não é algo que eu faria. Não daquele jeito, naquele lugar. Mas… me deu tesão. Eu não vou mentir. Mexeu comigo.

O corpo dele denunciava antes mesmo das palavras. A cueca marcava mais do que antes, o volume evidente sob o tecido, o andar um pouco mais rígido, como se estivesse tentando ignorar a própria excitação.

— Todo mundo tem um desejo guardado — ele continuou, a voz mais baixa. — Um fetiche que aparece quando a gente menos espera.

Eu suspirei.

— Eu concordo. Mas não é só sobre ter vontade. É sobre como, onde, com quem… tem limites.

— É — ele respondeu. — Enfim… um dia a gente conversa melhor sobre isso. Sobre o que cada um gosta, o que desperta.

Seguimos andando.

Cada passo para longe daquela cena parecia aliviar o ar, mas a imagem continuava grudada em mim, como se tivesse se infiltrado sob a pele. A trilha se estendia à frente, mas minha mente já não estava ali.

Como alguém se coloca numa posição dessas?

Meu pensamento correu solto, quase descontrolado.

No meio de uma trilha. À luz do dia. Ele é pai. É um homem feito. Meu Deus…

Balancei a cabeça, tentando afastar aquilo.

Não. Eu não quero nem pensar nisso.

Mas havia algo pior.

E se ele tivesse falado meu nome?

E se Jonas tivesse percebido que ele me conhecia?

Que ele me conhece mais do que deveria?

Fiquei olhando para o nada, os olhos perdidos entre folhas e galhos, quando Jonas apertou minha mão.

— Bernardo… vamos.

Respirei fundo.

— Vamos. Eu só quero sair daqui.

— Falta pouco — ele disse, tentando soar tranquilo. — A praia já tá ali na frente. Mais duas curvas e a gente chega.

Ele entrelaçou os dedos nos meus, firme, presente. Olhei de relance para o corpo dele e não havia mais como negar: a excitação permanecia. Não era exagerada, nem exibida, mas estava ali, latente, pulsando sob a roupa, misturada com adrenalina, curiosidade e aquele silêncio carregado que ficou entre nós.

Será que, se eu não estivesse aqui…

O pensamento veio rápido demais.

Não. Não acho que ele seria capaz disso.

Afasto a ideia quase imediatamente.

Jonas deslizou a mão para a minha cintura enquanto caminhávamos, o toque quente, tranquilizador. Aproximou o rosto do meu.

— Desculpa por te fazer ver algo assim.

— Não é culpa sua — respondi, sincero. — Você não tem controle sobre o que os outros fazem.

— De certo modo, fui eu que te chamei pra essa trilha…

Eu parei por um segundo, fazendo-o parar comigo.

— Jonas… em qualquer lugar existem pessoas inconvenientes. Pessoas que fazem coisas assim. A gente não tá imune, seja aqui ou em qualquer outro lugar.

Ele me olhou atento.

— E tá tudo bem. Somos adultos. Não é nada que a gente não tenha visto… ou vivido.

Ele soltou uma risada curta.

— É. Mas geralmente a gente faz entre quatro paredes, né?

Inclinei a cabeça, aproximando meu rosto do dele.

— Nem sempre. Mas não exposto assim. Não com estranhos passando.

Ele encostou a testa na minha, o toque suave, íntimo. Me deu um beijo rápido, quente, suficiente para me puxar de volta para o presente.

— A gente já tá chegando.

— Graças a Deus — respondi, aliviado. — Eu só preciso de um banho de mar… e muito sol pra renovar meu bronzeado.

Ele riu, aquele riso fácil que me desarma.

— E hoje você me ajuda a pegar esse bronze.

Seguimos andando, a trilha se abrindo, a luz ficando mais clara à frente.

Mas eu sabia.

Algumas imagens não ficam na mata.

Elas seguem com a gente.

Assim que a trilha se abriu por completo e a areia clara surgiu diante da gente, senti como se o corpo finalmente pudesse respirar de novo.

O cheiro do mar veio primeiro. Depois o som — aquele vai e vem constante das ondas quebrando, misturado às vozes distantes, ao vento passando leve pela pele ainda quente do esforço da caminhada.

Jonas olhou ao redor, abriu um sorriso largo e disse:

— Seja bem-vindo de volta ao seu habitat natural.

Eu sorri imediatamente, quase rindo de alívio.

— Ai, graças a Deus… chegamos.

Ele se espreguiçou, os ombros largos se abrindo sob o sol que já começava a ganhar força.

— Olha, eu vou ali pegar um guarda-sol e umas cadeiras pra gente sentar. Apesar de ainda estar cedo, o sol já tá castigando.

— Tudo bem — respondi. — Eu já vou arrumar minha canga e o espaço pra gente ficar.

Ele assentiu e seguiu em direção a uma barraca próxima, enquanto eu escolhia um ponto da areia com mais espaço, mais vento, mais sossego. Estendi a canga com cuidado, alisei o tecido como se estivesse preparando um pequeno território nosso ali.

Foi quando peguei o celular.

A vibração veio discreta, mas suficiente para chamar minha atenção.

Número desconhecido.

Abri.

E meu estômago revirou.

A mensagem era direta, quase agressiva:

— O que você estava fazendo naquela trilha?

Antes que eu pudesse reagir, outra notificação.

— Você gostou do que viu? rs 😈

E mais uma.

— Quem é esse cara que tá com você?

Meu coração acelerou num misto de raiva e incredulidade. E então, logo abaixo, surgiu um aviso de áudio recebido.

Hesitei por um segundo. Achei que pudesse haver alguma explicação, alguma tentativa de justificativa. Apertei play.

O que veio em seguida foi apenas som. Respiração pesada. Gemidos abafados. Ruídos íntimos demais para qualquer contexto aceitável.

Era um áudio de escuta única.

Meu rosto esquentou, não de desejo, mas de repulsa.

— Que horror… — murmurei sozinho.

Desliguei o áudio imediatamente.

Que homem escroto.

Pensei em responder, mas desisti. A mensagem já havia sido aberta. Ignorei. Bloqueei a tela. Guardei o celular como quem tenta enterrar um pensamento incômodo.

Foi nesse momento que Jonas voltou, carregando o guarda-sol e as cadeiras com facilidade.

— Pronto — disse ele, já abrindo o guarda-sol e fincando na areia. — Agora sim.

Assenti, tentando afastar qualquer vestígio do que tinha acabado de acontecer. Peguei o bronzeador da bolsa e comecei a espalhar pelo corpo, sem pressa, sentindo o toque das próprias mãos deslizando pela pele ainda um pouco úmida.

Passei nos braços, no peito, no abdômen, nas pernas.

Jonas me observava com um sorriso curioso.

— Então esse é o segredo pra sair bem bronzeado?

Ri.

— É… você pode me ajudar?

Virei de costas para ele, ainda de pé. Jonas se aproximou, pegou o frasco da minha mão e começou a espalhar o bronzeador pelas minhas costas com movimentos lentos, firmes. As mãos dele eram quentes, seguras. Desciam pelos ombros, passavam pela coluna, alcançavam a lombar.

Depois desceram mais.

Pelas pernas. Pelas coxas.

Os dedos demoraram um pouco mais ali, na parte interna, logo abaixo da dobra da coxa. Ele se inclinou e falou baixo, quase colando a boca no meu ouvido:

— Assim tá bom?

Senti o corpo dele encostar no meu, a proximidade íntima, deliberada.

— Tá maravilhoso — respondi, sem hesitar. — Agora a sua vez.

Ele riu.

Coloquei os óculos escuros, virei o boné para trás, o cabelo ainda úmido caindo pela testa, e peguei o bronzeador.

— Na verdade — ele começou — me dá que eu…

— Não — interrompi, sorrindo. — Deixa que eu vou ter esse prazer.

Comecei a espalhar o bronzeador pelo corpo dele. Era um corpo bonito, forte sem exagero, definido com cuidado. Passei pelos braços, pelo peito, pelo abdômen firme. Me detive um pouco mais ao redor da tatuagem do leão, espalhando o protetor com atenção.

— Então hoje eu vou sair daqui com marca de sunga igual você — ele comentou.

Aproximei a boca do ouvido dele.

— Não igual a minha — murmurei. — Uma marca bem bonita. Inclusive… eu gosto bastante.

Ele riu e beijou meu rosto.

Passei o bronzeador na frente, depois pedi para ele virar. As costas largas, os músculos bem desenhados sob a pele. Quando desci para as pernas, não resisti.

— Nossa… suas coxas são muito bem marcadas.

— Anos de musculação — ele respondeu, rindo. — Eu te disse. Depois dos trinta a gente precisa se cuidar.

— Então desculpa — falei, provocando — mas chegar aos trinta e poucos com esse rosto e esse corpo… você tá fazendo algo muito certo.

Ele riu alto.

Quando terminou de virar de frente, enquanto eu ainda finalizava o bronzeador, meu olhar escapou instintivamente para a saída distante da trilha.

Foi aí que vi.

O rapaz.

Era o mesmo de antes. Ele saiu da trilha apressado, ajustando a roupa, sem olhar para trás. Não entrou na praia. Seguiu para fora daquele espaço, quase fugindo.

Procurei por Juan.

Nada.

Nenhum sinal.

Terminei de passar o bronzeador em Jonas, tentando manter a expressão neutra. Nos deitamos lado a lado, sentindo o calor do sol começar a envolver o corpo.

— Tá sendo muito bom fazer esse passeio com você — ele disse, depois de um tempo.

Sorri. Peguei a bolsa e tirei um pote com frutas. Entreguei um garfo de plástico para ele e fiquei com outro.

— Tá sendo mesmo — respondi, levando um morango à boca. — A companhia tá sendo agradável. Tudo o que tá acontecendo até agora… tá sendo muito agradável.

Ele riu.

— Quase tudo, né? Exceto…

Levantei o dedo.

— Não precisa falar. Exceto nada. Tá ótimo.

— Acho que já tá fazendo efeito — ele disse, me olhando. — Olha você. Já tá menos pálido.

— Em compensação — respondi — você também já mudou de cor.

— E você… — ele completou — só reafirma esse bronze.

— Eu não deixo ele apagar.

Continuamos ali, conversando sobre música, viagens, pequenas histórias da vida. Dividimos as frutas. Peguei uma uva e levei até a boca dele.

Quando ele mordeu, eu me aproximei e mordi a outra ponta.

Ele sorriu.

— Que delícia…

Passei a mão pelo abdômen dele, sentindo o relevo do tanquinho, aquele caminho marcado na lateral da cintura.

— Por que um leão? — perguntei, apontando para a tatuagem.

— Dizem que o leão é o rei da selva — ele respondeu. — Um dos maiores predadores.

— Isso quer dizer…?

Ele lambeu os lábios, devagar.

— Que eu me identifico bastante.

Sorri.

— Então você quer ser o rei da selva?

— Se você for a presa… — ele disse, baixo — eu não me importo em ser predador todo dia.

Ri, afastando a mão do corpo dele.

— Acho que o sol ainda tá fraco. O bronze não pegou completamente.

— Ainda tá cedo — ele respondeu.

Virei de lado, peguei o celular.

Nova vibração.

Número do Juan, novamente.

— Você não vai me responder mesmo, né?

Fechei os olhos por um segundo. Jonas estava de costas, tranquilo, entregue ao sol.

Respirei fundo e digitei:

— Você não deveria nem me mandar mensagem. Olha o que você faz. No meio de uma trilha.

A resposta veio quase instantânea.

— Nada demais. Eu só estava me divertindo. Mas e você? Na mata também? Com um homem?

— Os dois só de cueca?

Minha mão tremeu de raiva.

— Eu não te devo satisfação nenhuma. Não me mande mensagem de novo.

Algumas risadas digitadas surgiram na tela.

— Uma hora ou outra a gente vai ter que conversar. Não adianta fugir de mim.

Bloqueei a tela.

Desliguei o celular.

Permaneci ali por alguns segundos, ainda com o corpo próximo ao de Jonas, sentindo o calor dele misturado ao meu, quando ele se moveu devagar. Ele virou de frente para mim, o tronco inclinado, os olhos fixos nos meus. Havia algo de decidido naquele olhar, mas também leveza.

— Vamos entrar no mar — ele disse, simples, quase como um convite inevitável.

Sorri de lado, sem afastar o corpo do dele.

— Vamos ficar só mais um pouco aqui — respondi. — Dá pra pegar um bronze legal… depois a gente entra.

Jonas concordou com a cabeça, tranquilo.

— Tudo bem.

Fiquei alguns segundos em silêncio e então pensei alto:

— Mas tem um porém… onde a gente vai deixar as coisas? Só tá nós dois.

Ele olhou em volta, demoradamente. Virou a cabeça para um lado, depois para o outro. A praia estava calma, poucas pessoas espalhadas, todas relativamente distantes. Jonas parecia avaliar o espaço com atenção, como quem planeja algo simples, mas seguro.

— A gente tá bem perto da orla — explicou. — Faz assim: deixamos aqui o guarda-sol e as coisas menos importantes. O resto a gente leva ali no carro. Não tá longe.

— Hum… — pensei por um instante. — Tudo bem então.

Comecei a separar algumas coisas com calma. Coloquei o celular e a carteira na bolsinha menor. Jonas fez o mesmo, concentrado, os movimentos firmes, seguros. Quando terminou, ele falou:

— Vou lá levar e já volto, tá?

— Tá — respondi, e antes que ele se afastasse, acrescentei: — Você pode fazer um favor?

Mexi novamente na bolsa, abrindo a carteira.

— Traz uma água de coco pra mim?

Jonas sorriu.

— Tá, mas eu pago.

— Tudo bem.

Ele saiu pela areia com passos rápidos, quase uma corrida leve. Fiquei observando. O corpo dele em movimento chamava atenção sem esforço. As costas largas, o bronzeado já mais intenso, os músculos bem definidos se movendo naturalmente. A cueca marrom marcava o quadril e fazia um contraste bonito com a pele. Havia algo muito masculino naquele jeito de andar, naquela presença inteira.

De onde eu estava, ainda deitado, consegui acompanhar o trajeto: ele indo até o carro, depois até o quiosque, e voltando. Quando retornou, trazia duas garrafas de água de coco.

— Podia ter trazido o coco — brinquei.

Jonas riu, sem reclamar.

Bebemos ali mesmo, lado a lado. O líquido gelado descia refrescando o corpo quente. Depois, espontaneamente, falei:

— Vamos ao mar.

Ele concordou. Quando se levantou, estendeu a mão para mim. Segurei, e ele me puxou com firmeza. Olhamos ao redor e percebemos algumas pessoas pedindo para outras tomarem conta das coisas. Fizemos o mesmo, já que não tínhamos muitos pertences.

Seguimos em direção ao mar. Jonas se aproximou do meu corpo, primeiro ombro com ombro, depois cintura com cintura. Ele segurou minha mão por alguns passos e, logo em seguida, soltou, passando o braço pela minha cintura. O toque era firme, íntimo, natural.

Entrei na água primeiro, sentindo o choque gelado subir pelas pernas. Jonas veio logo depois. Ficamos ali, na beira, com o corpo parcialmente imerso, a água salgada envolvendo a pele. Chutei a água de leve, rindo.

— Como é bom isso, né? — ele comentou. — Essa liberdade.

— É… é muito bom — respondi. — Poder aproveitar assim.

Jonas se aproximou mais e me beijou. Um beijo intenso, molhado, carregado de desejo contido. Enquanto me beijava, a mão dele percorreu meu corpo até repousar na minha bunda. Ele murmurou meu nome:

— Bernardo…

Olhei para ele.

— Oi?

Ele riu, um riso baixo, cúmplice.

— Você não se importa, né?

— Com o quê?

— Com o meu toque.

— Não — respondi. — Se for gostoso desse jeito.

Senti a mão dele apertar, depois deslizar, invadindo a cueca por trás. Suspirei sem perceber. Jonas riu de novo. Instintivamente, ele pegou minha mão e a guiou até a cintura dele, fazendo com que eu introduzisse a mão dentro da cueca.

— Nossa, Jonas… você já tá assim?

Ele sorriu, olhando direto nos meus olhos.

— Você já tinha percebido, né? Desde a trilha…

Ele apertou mais minha bunda. Eu confirmei com a cabeça. Apertei o pau dele e senti pulsar. Tirei a mão, rindo.

— Vamos dar um tempo aqui — falei.

Mas ele já havia levado a mão para a frente da minha cueca.

— Caralho… é muito grande.

— Olha quem fala — respondi, rindo.

Nossos corpos se colaram mais. Apoiei as mãos nos ombros dele, enquanto Jonas segurava minha cintura com as duas mãos. Nos beijamos ali mesmo, dentro da água.

— Acho que agora a gente pode sair do mar — sugeri.

— Acho que nem tanto — ele riu. — Eu ainda tô meio duro aqui.

Quando saímos, dava pra ver o volume marcado na cueca dele.

— Que volume é esse? — provoquei.

— É… — ele respondeu. — Fico bem animado perto de você.

Seguimos para o chuveirão. A água escorria pelos corpos, levando o resto do bronzeador. Jonas observou a própria marquinha.

— Nossa, ficou muito boa.

— Você pega bronze rápido — comentei.

— Tenho essa vantagem.

O cabelo molhado dele caiu no rosto. Ele sacudiu a cabeça, jogando água em mim.

— Jonas! — reclamei, rindo.

Ele me beijou, e eu retribuí.

Voltamos às cadeiras. Coloquei os óculos e o boné. Apoiei a cabeça no ombro dele. Conversamos sobre coisas simples: escola, rotina, o retorno dele às aulas na semana seguinte. Tudo fluía com naturalidade.

Depois de um tempo, Jonas falou:

— Vamos dar uma andada pela praia? Dizem que mais à frente é lindo… depois daquela pedra ali. Tem umas árvores.

— Não é tão distante — respondi.

Desarmamos as cadeiras e o guarda-sol. Jonas pegou tudo, carregando com facilidade. Com a outra mão, me puxou para perto. Andamos de mãos dadas.

— A gente tá parecendo um casal — comentei, sorrindo.

— Deixa parecer — ele respondeu. — Pelo menos por hoje.

— Tudo bem… por hoje.

Dei um selinho nele e seguimos.

Passamos pelas pedras, nada difícil. Chegamos a uma parte mais reservada da praia, com sombra, quase deserta. Montamos o guarda-sol mais por logística do que necessidade.

Jonas então apontou para uma placa.

— Olha aquilo.

Aproximei-me para ler.

— O que tá escrito?

Ele franziu a testa.

— Não tô conseguindo ver direito daqui.

Li em voz alta, sentindo um arrepio subir pelo corpo:

— Essa área é destinada ao naturismo… praia de nudismo.

Olhei para ele.

— É uma praia de nudismo.

Jonas riu, surpreso.

— Eu não sabia.

— Nem eu — respondi. — Achei que isso fosse mito.

Ele sorriu, olhando ao redor, depois para mim.

— Pois é… existe.

E ali, naquele instante, soube que a trilha entre nós ainda tinha muito mais a revelar.

A descoberta de que aquela parte da praia era destinada ao nudismo pairou entre nós por alguns segundos, silenciosa. Jonas novamente olhou ao redor com atenção, avaliando o espaço, o movimento quase inexistente, o sossego do lugar.

— Não tem praticamente ninguém aqui — comentou, num tom despreocupado. — A gente não precisa seguir essa regra agora.

Concordei com um aceno de cabeça. Escolhemos um ponto logo abaixo de uma vegetação baixa, onde a sombra era constante. As cadeiras ficaram próximas uma da outra, quase encostadas. O guarda-sol sequer foi aberto.

Assim que nos acomodamos, a proximidade falou mais alto. Deitei de lado e, naturalmente, repousei o corpo sobre o de Jonas. Minha cabeça encontrou o peito dele, uma das minhas mãos descansou sobre seu abdômen ainda quente de sol.

— Dá pra dormir fácil aqui — murmurei. — É fresco, tranquilo… sombra perfeita.

Jonas respirou fundo, passando o braço ao meu redor.

— É… realmente.

Fechei os olhos. Não sei exatamente quanto tempo passou — talvez dez minutos — mas cochilei. Quando despertei, a sensação era de acolhimento. Jonas fazia carinho lento na minha cabeça com uma das mãos, enquanto a outra percorria meu corpo com calma. Minha cabeça ainda estava apoiada em seu peito.

Desci o olhar sem pressa e percebi o volume marcado sob o tecido.

Sorri, abrindo o rosto.

— Você tá em ponto de bala, né?

Jonas riu baixo.

— Tô.

— Isso é um perigo — completei, olhando ao redor.

Algumas poucas pessoas estavam espalhadas pela areia — cinco, seis no máximo — todas nuas, caminhando tranquilamente, conversando, deitando ao sol. Completei:

— Ainda mais sendo uma praia de nudismo.

Ele observou também.

— Então… vamos deixar as coisas aqui e entrar mais um pouco na água. Aproveitar.

Entramos juntos. A água ajudava a refrescar o corpo, mas não parecia diminuir a tensão. Encostados, braços se cruzando, beijos rápidos e discretos.

— É bom que disfarça um pouco — comentei.

Jonas sorriu de lado.

— Mas eu não quero disfarçar.

— Aqui não é o lugar — respondi, ainda sorrindo.

— É… aqui não é.

Nos abraçamos, trocamos mais alguns beijos. Mesmo assim, a excitação dele parecia persistir. Olhei novamente para a praia, que começava a receber mais algumas pessoas.

— Quando a gente sair daqui, vai ter que seguir o que a praia manda — falei.

— O quê? Ficar nu?

— É. Algum problema?

Jonas hesitou.

— Aqui?

— Pra você é um problema?

Fiz um movimento discreto, ajeitando as pernas sob a água. Nesse gesto, me libertei da cueca que ainda usava, segurando-o com cuidado.

— Agora eu já tô livre — falei, calmo. — Só falta você.

Ele respirou fundo.

— Se eu sair daqui do jeito que eu tô… o que as pessoas vão pensar?

Aproximei-me mais, puxando-o levemente para dentro da água.

— Deixa eu te ajudar.

Entreguei o que segurava a ele e, com cuidado, ajudei-o a se livrar do que restava. Ao perceber a tensão evidente, não contive o riso.

— Você tá muito duro — provoquei.

— Eu sei.

Olhei para os lados.

— Nem pense. Não vou fazer nada aqui, tá?

— Eu não ia sugerir isso — respondeu rápido. — De jeito nenhum, mas…

— Você precisa dar um jeito nisso.

— Eu sei… só não consigo controlar.

Pensei por um instante.

— Vamos fazer assim: a minha canga tá ali. Quando a gente sair, amarra ela na sua cintura até você se acalmar.

— E você?

— Eu consigo manter o controle. Tô mais relaxado que você.

Ele riu.

— Você não tá com atraso, né?

— Tô bem em dia — respondi. — Já você…

Saí primeiro da água. Jonas veio logo atrás. O olhar dele percorreu meu corpo inteiro, demorando-se especialmente nas marcas deixadas pelo sol. Ele se aproximou e, num impulso, deu um tapa rápido na minha bunda.

— Ai, Jonas!

— Desculpa — riu. — Não resisti. Você tá muito gostoso assim.

— Obrigado — respondi. — Mas vamos logo.

Sentamos nas cadeiras. Ajustei a canga na cintura dele.

— Assim fica melhor, né?

Ele me olhou, recostado, respirando fundo.

— Você tá uma delícia desse jeito… essa marquinha… esse bronze.

— Tenta se concentrar em você.

— Difícil — admitiu. — Tem um homem lindo bem na minha frente.

Observei o entorno.

— Vamos pra aquela parte ali. Tem mais sombra, menos gente.

— Pode ser.

Nos deslocamos. Jonas manteve a canga na cintura. Ajudei a levar as coisas. Escolhemos um ponto ainda mais reservado. Ele ficou sentado, e eu me deitei de costas para ele.

— Nossa… que visão — ouvi ele murmurar.

Senti o corpo dele se aproximar.

— Jonas… isso é lugar público.

— Desculpa — disse. — Mas isso aqui não vai baixar.

— Eu até tô gostando de ficar aqui — confessei. — É diferente.

Ele me olhou com cuidado.

— Posso fazer uma coisa?

— O quê?

— Você só não pode me olhar torto se eu fizer.

Segurei a mão dele.

— Eu confio.

Ele olhou em volta, avaliou o espaço, afastou a canga. Quando me virei para encará-lo de verdade, o impacto foi imediato. O corpo dele, ainda salgado do mar, marcado pelo sol, respirando fundo, completamente entregue àquele momento.

— Jonas… — murmurei.

— Daqui ninguém vê — respondeu.

— Tá… mas o que você pretende fazer?

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Comentários

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Gente que gostosura é essa? Não gosto desse tal de Juan, um verdadeiro estranho. Aí esse Jonas...uff! Uma delícia.

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Foto de perfil de Xandão Sá

O erotismo foi nas alturas, que delicia

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Como é bom receber esse elogio, juro que to tentando entregar ao maximo cada detalhe...

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Foto de perfil de Xandão Sá

vocÊ está tentando de forma excelente. Como leitor fui para dentro da cena, senti o calor, a umidade da mata, a água fria na cachoeira, o arrepio dos corpos excitados, a tensão ante a visão de Juan com o jovem, e todo o envolvimento deliciosamente sensual de Jonas e Bernardo. Já estou shipando esse casal, viu, mas ainda vem muita coisa por aí... Arthur, Arthuro, etc... Só Yan que não sinto muita liga. Acho até que ele força um pouco a conexão com o Ber.

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