O Garoto Rosa – Parte 5: Entre Linhas e Entrelinhas

Da série Nick
Um conto erótico de Nick
Categoria: Trans
Contém 1696 palavras
Data: 28/01/2026 05:39:49

Acordar na manhã seguinte foi um exercício de memória sensorial profunda. Cada vez que eu me espreguiçava sob o edredom da minha república, sentia um músculo diferente reclamando — um lembrete vívido da força do Caio e daquela tarde exaustiva que parecia ter deixado marcas até na minha alma. No espelho do banheiro, enquanto o vapor do chuveiro embaçava o vidro, notei uma marca leve, quase imperceptível, na base do meu pescoço. Sorri sozinho, passando os dedos ali, sentindo o relevo da pele. Eu, o garoto que saiu do interior achando que ditaria as regras da sedução, estava descobrindo que ser a "caça" em Curitiba era muito mais viciante do que eu imaginava. Minha conversa interna estava uma bagunça deliciosa: uma parte de mim ainda sentia o peso do corpo do Caio e a segurança daquela pegada bruta, mas a outra, movida por uma curiosidade insistente, já estava projetando o próximo encontro com a Martina. Eu estava me tornando um viciado no contraste entre a testosterona de estátua grega do veterano e a dominação elétrica daquela loirinha.

Apesar do cansaço físico, eu não podia deixar meu estilo de lado; precisava de uma armadura que exaltasse minha confiança e, ao mesmo tempo, brincasse com essa nova dualidade. Escolhi uma saia plissada longa, preta, com uma fenda lateral generosa que revelava minha perna a cada passo e deixava o coturno em evidência. Por cima, uma camisa social branca, bem engomada e impecável, com a gola fechada até o último botão para acomodar minha gargantilha de metal prateado, que brilhava discretamente sob a luz fluorescente da faculdade. Nos pés, um coturno preto sem salto, mas com uma plataforma média e macia. O cabelo rosa estava solto e bem cuidado, emoldurando meu rosto que teimava em manter um rubor constante.

A aula de Introdução ao Cinema parecia caminhar em câmera lenta. Sentei-me ao lado de Martina, que hoje exalava aquele perfume cítrico e marcante que parecia preencher todo o meu campo olfativo. Ela não perdeu tempo; assim que me acomodei, ela se inclinou, deixando o ombro encostar no meu de forma pesada, quase possessiva. Por baixo da mesa, ela buscou minha mão. Nossos dedos se entrelaçaram de um jeito natural, as unhas dela arranhando levemente a palma da minha mão. Era um gesto de carinho, mas com uma voltagem de segundas intenções que me distraía totalmente do telão.

Foi quando senti meu celular vibrar no bolso. Era uma mensagem do Caio: "Ainda sentindo o chá de raba aqui. Foca na aula, menininho. Vejo você mais tarde?". Senti um calor subir pelo peito, uma mistura de proteção e desejo bruto. Respondi com um sorrisinho travesso, escondendo a tela da Martina com o corpo: "Hoje não aguentaria, gigante... preciso dar um descanso para o meu bumbum rs. Mas podemos tomar um café na sala dos alunos no intervalo?".

Enquanto eu guardava o aparelho, Martina foi mais rápida do que eu previra. Ela percebeu meu movimento furtivo e, com a ponta dos dedos frios, afastou um milímetro da gola da minha camisa branca.

— Nick... que marquinha é essa aqui? Ontem ela não estava aí — ela sussurrou perto do meu ouvido, a respiração quente contrastando com os dedos gelados. — Travesseiro com dentes? Quem foi que te marcou assim, branquinho? Foi algum daqueles veteranos que ficam te cercando com os olhos?

Senti o sangue subir direto para as minhas bochechas. Tentei desviar o olhar, ajeitando a gola apressadamente e assumindo uma postura enigmática, embora estivesse morrendo de vergonha por dentro.

— Não é nada, Martina... — respondi, tentando manter a voz firme. — Deve ter sido um mau jeito enquanto eu dormia. Coisa de travesseiro mesmo, juro.

Ela deu um sorrisinho de lado, como se tivesse acabado de ganhar uma peça importante no nosso jogo de gato e rato, e apertou minha mão com mais força sob a mesa, como se dissesse: "eu sei, mas vou deixar você fingir".

No intervalo, fomos para a sala dos alunos. O aroma de café coado pairava no ar e a movimentação era grande. Avistei o Caio de longe, sentado em um dos sofás gastos, e ele se aproximou com aquela ginga de quem é dono do próprio espaço. O ar pareceu vibrar quando ele parou na nossa frente.

— E aí, menininho. Esse café está aceitável hoje? — Caio perguntou, a voz grave fazendo meu estômago dar um solavanco. Ele puxou uma cadeira sem pedir licença e sentou-se de frente para nós, os olhos fixos nos meus por um segundo a mais do que o necessário antes de desviar para a Martina.

— Está ótimo, Caio. Essa aqui é a Martina, minha colega de ano — apresentei.

— Prazer, Martina. Então você é a publicitária que está tentando corromper o nosso calouro de Cinema? — Caio estendeu a mão com um sorriso de canto. — Cuidado, Nick. Publicitário é perigoso, eles vendem até a própria sombra se o briefing for bom.

— Prazer — Martina respondeu, apertando a mão dele com firmeza, os olhos semicerrados em uma análise clínica. — E vocês do Cinema são o quê? Poetas incompreendidos? Pelo menos a publicidade move o mundo, Caio. O cinema só tenta explicá-lo... e geralmente falha.

Caio soltou uma gargalhada alta, genuinamente divertido. Ficamos ali por uns vinte minutos jogando conversa fora. Notei o jeito protetor dele; ele corrigia minha postura de brincadeira, perguntava se eu estava comendo bem e, nas entrelinhas, soltava indiretas que só eu entendia, lembrando-me de que, apesar da nossa nova amizade "acadêmica", ele ainda queria muito mais de mim.

Quando o sinal tocou e o Caio se despediu com um toque discreto no meu ombro, Martina esperou ele sumir pelo corredor para me encarar.

— "Menininho", Nick? Sério? — Ela começou, com um tom de puro deboche. — E aquela marca no seu pescoço... Os pontos se ligam sozinhos. O veterano brutamontes e o calouro de saia... é quase um clichê. Relaxa, eu não sou do tipo ciumenta, mas não vai me abandonar por causa do gigante moreno, entendeu? Estamos nos tornando bons amigos... e eu gosto de ter você por perto.

Entramos na biblioteca e nos escondemos entre as estantes de Teoria da Imagem, onde o cheiro de papel antigo parecia abafar o som do mundo lá fora. O clima de estudo durou pouco. Martina fechou o livro de repente e me encurralou contra a estante de madeira fria. O beijo dela veio rápido, dominante, com gosto de menta e uma urgência que me roubou o fôlego. Minhas mãos encontraram a cintura dela, sentindo a pele quente acima da saia, enquanto a língua dela explorava a minha com uma fome que dizia que ela pretendia marcar o território dela também.

O fim de semana na república trouxe um respiro necessário. Em vez de baladas, decidi curtir a "família" que estava formando ali. Tivemos uma noite de jogos de tabuleiro na sala comum, com todos jogando War e discutindo estratégias entre fatias de pizza barata e risadas altas. Passei boa parte do domingo na cozinha, tomando chá com a dona da casa e ouvindo suas histórias, sentindo que Curitiba estava, finalmente, me abraçando.

Durante a segunda semana, a rotina se estabilizou. Eu e Martina viramos uma cena comum na Federal: mãos dadas nas aulas de história da arte, beijos roubados nos cantos mal iluminados do auditório e uma intimidade que crescia a cada conversa. Com o Caio, o laço também se apertou. Ele se tornou meu porto seguro; nos falávamos todos os dias. Ele me ajudava com os equipamentos de luz, me protegia de veteranos babacas e mantinha aquele olhar de quem estava apenas esperando o meu corpo pedir pelo dele novamente.

Na quinta-feira, enquanto dividíamos um lanche, Martina lançou o convite com um olhar brilhante:

— Sábado vamos ao Parque Barigui. Quero você bem gatinho. Queria te ver de vestidinho de camponesa, sabe? Bem camponesa moderna para eu desfilar com você pelo parque.

Eu ri, achando que era piada, mas na sexta-feira, depois da aula, me vi no shopping. Comprei um vestido curto, com estampa floral delicada e manguinhas bufantes. Ao chegar em casa, olhei para a sacola e depois para o celular, onde uma mensagem do Caio dizia apenas: "Dorme bem, menininho. Sonha com a gente". Eu estava no centro de um furacão, e o sábado no parque prometia ser o dia em que o sol finalmente revelaria todas as minhas cores.

Naquela noite de sexta-feira, o silêncio do meu quarto na república era preenchido apenas pelo som baixo de uma playlist de jazz que eu havia colocado para tocar. Eu estava sentado no meio da cama, com as pernas cruzadas e o kit de manicure espalhado sobre o edredom. Fazia muito tempo que eu não me dedicava àquele ritual, mas a ocasião pedia algo especial. Com as mãos firmes e um foco quase meditativo, comecei a pintar as unhas dos pés. Escolhi um vermelho intenso, profundo, e finalizei com uma francesinha impecável, um detalhe clássico que destacava a brancura da minha pele e a delicadeza dos meus dedos. Ver meus pés assim, tão bem cuidados e femininos, me dava uma sensação de poder que eu mal conseguia explicar.

O vestido de camponesa estava estendido logo à minha frente, as manguinhas bufantes e a estampa floral parecendo ganhar vida sob a luz suave do abajur. Eu alternava o olhar entre o esmalte secando e aquela peça de roupa que seria minha "fantasia" para o dia seguinte. Um impulso travesso tomou conta de mim. Peguei o celular, bati uma foto rápida apenas dos meus pés recém-pintados, com a barra do vestido aparecendo discretamente no fundo da imagem, e enviei para o Caio.

"A Martina me desafiou a ir de camponesa amanhã no Barigui..." — digitei, sentindo meu coração acelerar enquanto o cursor piscava. — "O que você acha, gigante? Gostaria de me ver assim também, ou prefere quando eu não estou usando nada?"

Bloqueei a tela do celular antes mesmo de ver se ele ficaria online, sentindo um frio na barriga que misturava o medo da resposta com o tesão da provocação. Eu estava brincando com fogo, mas, pela primeira vez, eu não me importava nem um pouco em sair queimado. O sábado no parque não seria apenas um passeio; seria o teste definitivo para o novo Nick que estava florescendo em Curitiba.

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Foto de perfil de Sayuri MendesSayuri MendesContos: 61Seguidores: 64Seguindo: 4Mensagem uma pessoa hoje sem genero, estou terminando medicina e resolvi contar a minha vida e como cheguei aqui, me tornei que sou depois de minhas experiencias, um ser simplismente inrrotulavel

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