Conspiração 6.

Um conto erótico de Lukinha
Categoria: Heterossexual
Contém 4513 palavras
Data: 28/01/2026 15:21:33
Última revisão: 28/01/2026 16:37:05

Eu já estava sendo reconduzido à cela quando o advogado me chamou, num gesto rápido, antes que nos separassem de vez.

— O habeas corpus foi concedido. — Disse, em voz baixa. — O desembargador deferiu. Reconheceu excesso da cautelar. Você vai responder em liberdade.

Ele já tinha me explicado aquilo antes, mas havia algo no jeito dele que me deixou em alerta. Uma cautela excessiva. Um cuidado que não combinava com boas notícias.

— Então eu saio hoje? — Perguntei.

Ele respirou fundo antes de responder.

— Talvez não. Ainda não.

Aquela frase pesou mais do que eu esperava.

— O alvará de soltura ainda precisa ser expedido pelo cartório, validado e encaminhado oficialmente à delegacia. — Ele explicou. — Na prática, só deve chegar amanhã cedo.

Passei a mão no rosto, sentindo a frustração subir como um nó na garganta.

— Mais uma noite…

— Eu sei. — Disse ele, num tom quase solidário. — Mas é burocracia, não tem jeito. Não muda o cenário. Amanhã você sai, com certeza. Com sorte, ainda hoje mais tarde.

Burocracia. Uma palavra pequena demais para justificar mais uma noite trancado.

— No pior cenário, tenta passar por essa noite. — Ele continuou. — Amanhã tudo muda. E você vai precisar estar com a cabeça no lugar.

Assenti em silêncio e ele se despediu, prometendo agilizar o que estivesse ao alcance dele.

Minutos depois, eu estava sozinho outra vez. A porta se fechou atrás de mim com o mesmo som seco de sempre. Me deitei no colchão fino, sentindo o arame do estrado ranger sob o meu peso, e encarei o teto manchado da cela.

Ali, ficou claro que aquela última noite não seria apenas de espera. Seria de ansiedade também.

Sozinho outra vez, sem nada para fazer além de esperar, a mente começou a vagar por conta própria. O barulho distante da delegacia foi ficando abafado. As vozes, os passos, o som metálico das grades… tudo foi se dissolvendo aos poucos, como se eu estivesse me afastando dali sem sair do lugar.

Era inevitável. Quando o corpo para, a memória assume o controle.

Deitado naquele colchão estreito, com o teto manchado como único horizonte, fui puxado de volta para memórias amargas, vivas, para os meus próprios fantasmas do passado. Aquela que eu achava ser a pior época do meu casamento, da minha amizade com Bruno, voltou inteira. Sem cortes. Sem filtros.

{…}

Sete anos atrás:

O silêncio entre nós não durou muito. Nunca dura quando a verdade já está toda espalhada pelo chão.

— Fala. — Eu disse, a voz mais baixa agora, quase um pedido disfarçado de ordem. — Fala logo o que você acha que sabe.

Mariana soltou uma risada curta. Sem humor nenhum.

— Que eu acho? — Ela balançou a cabeça. — Ricardo, você ainda insiste nisso… nessa ideia de que sempre esteve no controle da narrativa.

Ela deu dois passos pela sala, como se organizasse os pensamentos. Ou as lembranças.

— Você se lembra da Larissa?

O nome veio limpo. Simples. E ainda assim atravessou meu peito como um soco seco.

— Larissa? — Tentei reagir rápido demais. — Isso não tem nada a ver…

— Tem tudo. — Ela cortou. — E você sabe que tem.

Meu silêncio me entregou antes que eu pudesse inventar qualquer coisa.

— Eu sabia que você tinha ficado com ela. O Bruno também. — Mariana continuou, a voz firme, quase clínica. — Sabia desde aquela época. Quando você se fazia de amigo leal. Mas pelas costas…

Engoli em seco.

— Aquilo foi… — Tentei rebater, mas nem eu mesmo acreditei no que vinha depois.

— Foi o quê, Ricardo? — Ela se virou de uma vez, os olhos queimando. — Um deslize? Uma noite? Um momento de fraqueza?

E deu um passo na minha direção.

— Você sabia que o Bruno era apaixonado por ela. Sabia. E mesmo assim escolheu passar por cima. Não porque amava. Mas porque quis.

A palavra “quis” caiu pesada entre nós.

— Você traiu um amigo. O que enchia para dizer que era um irmão. — Ela completou. — Você decidiu que ele valia menos que o seu prazer.

Respirei fundo, procurando alguma brecha.

— Isso foi antes de você. — Argumentei, sem convicção. — Antes da gente existir de verdade.

Mariana não sorriu. Estava triste. Cansada. Preparando o argumento para coisa maior.

— Não, Ricardo. — Ela negou devagar. — Isso foi antes de você assumir quem você é de verdade.

Ela virou o rosto por um segundo, calculando se deveria continuar. E por fim, não recuou.

— E sabe o que mais eu sei?

Meu corpo inteiro entrou em alerta.

— No primeiro ano do nosso casamento… — Ela começou, pausando de propósito — Larissa já não morava mais aqui, mas veio passar uns dias na cidade.

O ar simplesmente saiu dos meus pulmões.

— Não… — Murmurei, mais para mim do que para ela.

— Sim. — A confirmação veio calma demais. — Você achou que ninguém percebeu. Achou que era só uma visita inocente, um café entre amigos, uma conversa que precisava ser colocada em dia.

Ela se aproximou outra vez, agora bem perto.

— Mas eu soube, Ricardo. Soube do lugar. Do horário. De tudo.

Minha boca abriu, mas nenhuma palavra saiu.

— Você nunca confessou. — Ela continuou. — Nunca teve coragem. Preferiu construir esse casamento em cima de um segredo podre e depois bancar o marido traído quando finalmente as consequências vieram.

As lágrimas estavam ali, contidas, mas a voz de Mariana não falhou.

— Então não me olhe como se eu fosse a única vilã dessa história. — Ela respirou fundo. — Eu errei. Eu sei que errei. Mas eu não fui a primeira a quebrar o acordo.

Ficamos parados. Frente a frente. Sem mais nada para jogar na mesa. E naquele silêncio pesado, sufocante, eu entendi uma coisa que nunca tinha admitido: Eu não estava pagando pelo que Mariana fez. Eu estava pagando pelo que sempre fui, e fingia não ser.

Mariana caminhou até a porta da sala, a mão já no batente, mas não saiu. Virou-se devagar.

— Sabe… — Ela continuou, com um meio sorriso torto. — você pode até continuar me vendo como quiser.

Cruzei os braços, defensivo, mas ela já não se importava mais.

— Como o brinquedo do Bruno e da Lívia. — Ela fez questão de olhar nos meus olhos. — A putinha, como você jogou na minha cara antes.

A palavra ficou suspensa no ar. Feia. Crua.

— Mas isso. — Ela continuou, sem elevar a voz — Não nasceu do nada. Não caiu do céu. Isso é consequência, Ricardo.

Dei um passo à frente.

— Consequência de quê? — Retruquei. — Só se for das suas escolhas.

Ela soltou uma risada seca.

— Não! Das suas. Esse é o caminho que você escolheu para nós.

Respirou fundo, como quem se prepara para um último mergulho. Mas ela tinha mais a dizer.

— Você traiu primeiro. — Disse, simples, direto. — E depois teve a coragem de subir num pedestal moral que nunca foi seu. Nunca deveria ter sido.

— Eu errei uma vez! — Explodi. — Uma única vez! Nunca mais a vi. Nunca repeti.

Ela ergueu a sobrancelha, incrédula.

— Uma, dez, mil… — Respondeu, fria. — Não importa.

E deu um passo na minha direção, o olhar firme, quase didático.

— O número não muda o fato, Ricardo. Você abriu a porta. Você cruzou a fronteira.

Minha voz saiu mais baixa, quase suplicante.

— Mas eu me arrependi…

— Arrependimento não apaga a ação. — Ela cortou. — Só alivia a sua consciência.

O silêncio durou um segundo. Dois. Mas logo foi quebrado por ela.

— Eu apenas segui. — Mariana continuou. — Alarguei os limites. Vivi dentro de um parâmetro que você mesmo estabeleceu.

— Isso é diferente. — Argumentei, buscando qualquer desculpa. — Você transformou isso num jogo. Num acordo. Em algo contínuo.

Ela inclinou a cabeça, observando.

— Diferente pra quem? — Perguntou. — Pra mim? Ou pra você, que precisava acreditar que ainda era melhor do que eu?

As palavras me acertaram em cheio.

— Você quer saber o que mais dói? — Ela disse, a voz finalmente trincando. — Não foi você ter me traído. Foi você ter fingido que nunca fez nada errado… enquanto me olhava de cima, como se eu fosse a única coisa quebrada nessa relação.

Me senti pequeno. Encurralado.

— Você nunca quis igualdade. — Ela concluiu. — Quis vantagem.

Mariana abriu a porta.

— Então pode me chamar do que quiser, Ricardo. — Ela me olhou por cima do ombro. — Só não se esqueça: eu só joguei o jogo que você começou.

E saiu.

A porta fechou devagar, sem estrondo. Mas o barulho que ficou dentro de mim foi ensurdecedor. Mariana saiu da sala sem bater a porta. Não foi uma fuga. Foi pior: foi uma retirada.

Fiquei ali alguns segundos, parado no meio da sala, sentindo o peso das palavras ainda vibrando no ar. O silêncio da casa parecia maior do que qualquer grito. Peguei as chaves do carro, o celular, a carteira. Não levei mala. Não levei roupa. Não levei nada que parecesse uma despedida e saí também.

Dirigi sem rumo, sem destino, sem planejamento. As ruas passavam como cenários vazios, postes, semáforos, rostos que eu não via. Era como se o mundo estivesse funcionando normalmente enquanto, dentro de mim, tudo tivesse parado.

Parei num hotel qualquer, desses que ninguém pergunta nada. Assinei o nome no balcão sem olhar para o atendente. Subi para o quarto como quem sobe para um lugar onde não precisa fingir. Fechei a porta. E ali, finalmente, desabei. Não foi um choro bonito. Não foi drama cinematográfico. Foi cansaço. Foi vergonha. Foi a sensação de descobrir que eu não era o homem que sempre acreditei ser.

O que seria uma noite virou duas. Depois três. Depois quatro dias. O mundo lá fora seguia em frente. Eu não.

No segundo dia, o celular começou a vibrar. Bruno me mandava mensagens várias vezes ao dia. Primeiro, mensagens objetivas:

“Você não veio hoje.”

“Tem cliente cobrando.”

“As investigações estão paradas.”

“Onde você tá, cara?”

Não respondi e, no terceiro dia, o tom mudou.

“Ricardo, a gente precisa conversar.”

“Você não pode sumir assim.”

“Independente de tudo, ainda temos compromissos.”

Continuei em silêncio. Eu lia as mensagens, apagava a tela, virava o rosto para o teto do quarto. Cada palavra era um lembrete do tipo de homem que eu tinha sido.

No final do terceiro dia, o nome que eu evitava apareceu na tela: Mariana. A primeira mensagem veio seca, direta:

“Você vai mesmo sumir, Ricardo?”

Fiquei olhando para o celular como se ele pudesse responder por mim. Horas depois, outra notificação:

“Vai se esconder agora que tudo veio à tona?”

O quarto parecia menor. Eu me sentia vazio.

No dia seguinte, veio a frase que me atravessou como uma lâmina:

“Você jogou a merda no ventilador… e me deixou sozinha pra limpar. Covarde.”

Fechei os olhos.Respirei fundo. Mas não respondi. Ela insistiu.

“Eu aguentei a verdade. Aguentei o que fiz e o que você fez.”

Cada frase era um golpe preciso, sem gritos, sem insultos. Só verdade.

A última mensagem chegou no fim da tarde:

“Eu suporto tudo, menos você fugindo.”

Fiquei sentado na beira da cama, com o celular na mão, olhando para a tela apagada. Desde aquela noite, da volta da chácara, eu entendi que fugir não me protegia de nada. Só me transformava exatamente no tipo de homem que eu sempre critiquei. E talvez, eu estivesse realmente com medo de olhar para mim mesmo.

Voltei pra casa no fim da tarde. Não mandei aviso. Não pedi permissão. Era hora de parar de fugir.

Mariana estava sentada à mesa da cozinha, com o celular largado ao lado, como se tivesse acabado de soltar a última mensagem no vazio. Quando me viu, não sorriu. Também não chorou. Só suspirou cansada.

— Demorou. — Ela disse, sem ironia. Só constatação.

Puxei a cadeira e me sentei. O silêncio entre nós já não era mais medo. Era desgaste.

— A gente precisa conversar. — Ela disse. — De verdade. Sem teatro. Sem fuga.

Ela respirou fundo, como quem se prepara para algo que já sabe, mas precisa confirmar.

— Então começa. — Ela disse. — Me diz por quê.

Fez uma pausa curta.

— Por que você me traiu, Ricardo?

Engoli em seco. Aquela pergunta não vinha com raiva. Vinha com cansaço. E aquilo doía mais.

— Não foi falta de amor. — Comecei, sabendo que nenhuma frase começando assim soa bem. — Foi fraqueza.

Ela soltou uma risada amarga.

— Fraqueza não explica tudo. — Ela me encarou. — E Larissa?

O nome caiu entre nós como um copo quebrando no chão.

— Você sabia que o Bruno era apaixonado por ela. — Continuou. — Sempre soube. Mesmo assim, escolheu passar por cima da amizade. Escolheu o prazer.

A voz dela tremeu pela primeira vez.

— E não vem me dizer que você amava aquela mulher. Você nunca amou a Larissa.

Fechei os olhos por um instante. Não adiantava negar. Nem maquiar.

— Você tem razão. — Respondi. — Eu nunca amei a Larissa.

Ela assentiu devagar, como se aquilo confirmasse algo que já carregava há anos.

— Então por quê?

Respirei fundo. Era agora ou nunca.

— Porque eu fui fraco.

Abri os olhos e sustentei o olhar dela.

— Preciso começar do início, lá de trás, antes de você e eu.

Respirei fundo, ajeitei o corpo na cadeira e decidi ser totalmente honesto.

— Aquela noite… nada foi planejado. A gente tinha bebido. O Bruno tinha sido rejeitado por ela mais uma vez. Não estava lá. E eu… eu podia mentir, dizer que fui seduzido, que foi inevitável porque ela era bonita, provocante. Mas isso seria covardia.

Mariana não desviou o olhar.

— Continua.

— A verdade é que eu vi uma oportunidade… e aceitei.

As palavras saíram pesadas.

— Eu sabia o que estava fazendo. Sabia do sentimento do Bruno. Sabia que era errado. E mesmo assim, fui.

Ela fechou os olhos, mas não me interrompeu.

— Depois disso, eu tentei me afastar. — Continuei. — Juro que tentei. Mas não tive força. A Larissa tinha um jeito… ela fazia você se sentir o centro do mundo. Como se, por algumas horas, nada mais importasse.

Balancei a cabeça, envergonhado.

— Não era amor. Era vaidade. Ego. Eu me sentia especial. Único. E gostei disso mais do que devia.

O silêncio voltou a se espalhar pela cozinha.

— Então você escolheu se sentir especial. — Mariana disse, por fim — Mesmo que isso significasse trair seu melhor amigo… e depois, mais tarde, a sua esposa.

Assenti.

— Sim.

Ela se levantou devagar e começou a andar pela cozinha, inquieta.

— Sabe o que mais me machuca nisso tudo? — Perguntou, sem me encarar. — Não foi só a traição. Foi você ter agido como se fosse diferente. Melhor.

Aquelas palavras acertaram em cheio.

— Eu sei. — Respondi, cabisbaixo. — E é por isso que eu não tenho mais como apontar o dedo pra você. Nem pro Bruno. Nem ninguém.

Engoli o nó na garganta.

— Eu abri essa porta, Mariana. E fingi que ela nunca existiu.

Ela parou. Ficou de costas pra mim por alguns segundos. Quando se virou, os olhos estavam marejados, mas firmes. Ela respirou fundo, passou a mão pelo rosto e assentiu devagar.

— Ok! — Disse, com a voz baixa. — Eu não concordo. Nunca vou concordar.

Ela fez uma pausa curta, amarga.

— Mas eu entendo. Mesmo que isso seja ainda pior do que eu imaginava.

Ela voltou a se sentar à mesa, de frente para mim agora.

— Mas isso foi antes de mim. — Continuou. — Antes do nosso casamento. Antes da promessa.

Ela inclinou o corpo para a frente, apoiando os cotovelos na mesa.

— E depois, Ricardo? Depois que a gente já estava junto. Depois de você jurar que eu era prioridade. Por quê?

Abri a boca, mas ela levantou a mão, me interrompendo.

— Você sabia que a Larissa só voltou para a cidade porque estava falando de novo com o Bruno?

Senti o estômago afundar.

— Você sabia que, na cabeça dele, aquela visita era só pra encontrá-lo? Que ele estava ansioso, criando expectativa, se iludindo outra vez?

Meu silêncio foi resposta suficiente.

— Sabia, não sabia? — insistiu. — Sabia… e mesmo assim fez.

Ela balançou a cabeça, incrédula.

— Você fez de novo, Ricardo.

A voz começou a falhar, mas ela não recuou.

— Se colocou no lugar que nunca foi seu. No lugar que deveria ter sido dele.

Respirei fundo, tentando encontrar alguma defesa que não soasse patética. Não havia.

— Não é que a Larissa seja de alguém. — Mariana continuou, antes que eu dissesse qualquer coisa. — Ela não pertence a ninguém, óbvio, mas o seu melhor amigo… aquele que você diz amar como irmão… que te perdoou no passado mesmo que você não saiba. Que nunca te cobrou. Nunca jogou isso na sua cara. Engoliu a dor sozinho…

As palavras vinham como golpes certeiros.

— E mesmo assim, você foi lá… e fez de novo.

Ela riu. Um riso amargo, de incredulidade.

— E o pior não foi só repetir o erro. Foi me puxar pra dentro dele.

Senti a garganta fechar.

— Você não traiu sozinho. — Ela disse, a voz embargada. — Você me arrastou junto.

Seus olhos marejaram, mas o tom permaneceu firme.

— Me transformou em alguém que eu nunca imaginei que poderia ser.

O silêncio caiu pesado entre nós.

— Cada vez que você se colocava acima de tudo. — Mariana concluiu — Acima de mim, acima do Bruno, acima de qualquer limite… você empurrava a gente um pouco mais para o abismo.

Ela respirou fundo, tentando se acalmar.

— E agora quer saber por que tudo saiu do controle?

Me encarou, sem piedade.

— Saiu do controle porque você abriu a porta duas vezes. E fingiu que tinha sido acidente.

Eu não tinha mais o que dizer. Não porque faltassem palavras. Mas porque nenhuma delas me absolvia.

Mariana permaneceu alguns segundos em silêncio. Depois se levantou, como se tivesse tomado uma decisão interna.

— Já que estamos colocando tudo às claras… — Ela disse, enfim. — Eu também preciso dizer a verdade.

Meu corpo inteiro se retesou. Eu sabia que não viria nada fácil dali. Ainda assim, não disse nada. Não interrompi.

Ela se levantou devagar, foi até a bancada da cozinha e pegou a chaleira ainda quente. O vapor subiu quando ela despejou a água na xícara. As mãos tremiam levemente. Mariana abriu o envelope de chá de ervas, mergulhou o saquinho no líquido e ficou ali, de costas para mim, mexendo o chá como se aquele gesto simples pudesse organizar o caos dentro dela.

— Eu e o Bruno já tínhamos um passado. — Ela começou, sem se virar. — Sim… fomos amantes.

Fez uma pausa curta, respirando fundo.

— Era mais uma amizade colorida do que uma relação de verdade.

O silêncio entre nós se adensou.

— Eu sempre soube que o Bruno amava outra pessoa. — Continuou. — Sempre soube. Ele nunca escondeu isso de mim.

Ela deu um meio sorriso triste.

— E mesmo assim, quando ele nos apresentou… quando eu me permiti te conhecer melhor… eu me apaixonei. Rápido demais.

Ela se virou, apoiando-se na bancada.

— Você parecia diferente de tudo que eu conhecia. Seguro. Determinado. Alguém que sabia o que queria da vida.

Ela tomou um gole do chá, como se precisasse daquilo para seguir.

— O Bruno nunca falou mal de você. Nunca. — Disse, com firmeza. — Pelo contrário. Sempre te defendeu. Sempre me incentivou. Dizia que você era um homem bom. Que eu estava fazendo a escolha certa.

Mariana baixou o olhar.

— E eu acreditei.

A xícara tremeu levemente em sua mão.

— Mesmo quando você estava ausente por causa do trabalho… eu acreditava. Achava que você fazia tudo aquilo por nós. Pela nossa vida. Pelo futuro que você prometia.

Respirou fundo, e a voz saiu mais baixa.

— Eu não tinha muito pra comparar, Ricardo. Eu sou órfã. Fui criada pela minha avó. Cresci aprendendo a me virar sozinha… apesar de toda ajuda dos pais do Bruno, que me tratavam como família também. Mas com você, pela primeira vez, eu quis acreditar em alguém.

Ela levantou os olhos para mim.

— Me entreguei inteira às suas promessas.

O peso daquilo me atravessou.

— Tivemos problemas, mas você tentou melhorar. E então… — Ela fez uma pausa para respirar. — No nosso primeiro ano de casamento, Ricardo….

O silêncio voltou a se instalar.

— Eu descobri a traição sozinha, sabe? — Ela disse, enfim. — Não foi o Bruno. Não foi ninguém te denunciando. Foi detalhe. Horário que não fechava. Um cheiro que não era meu. Uma mudança sutil em você.

Ela fechou os olhos por um instante.

— Eu não queria acreditar. Mas a verdade foi se impondo.

Ela respirou fundo antes de continuar.

— Eu procurei o Bruno porque eu estava despedaçada. Precisava de alguém que me conhecesse… que me dissesse que eu não estava ficando louca.

Mariana engoliu em seco.

— E foi aí que tudo ficou ainda pior…

Ela me encarou, sem fugir.

— Ele investigou. Não por maldade. Por preocupação.

A voz falhou.

— E descobriu que era a Larissa.

Senti o impacto como um soco silencioso.

— Ele podia ter mentido pra mim. Podia ter te protegido. — Mariana disse, com amargura. — Mas não fez. Porque já tinha doído demais da primeira vez. Se fosse com qualquer outra mulher, ele teria sido leal a você, mesmo que você não merecesse.

A xícara pousou na bancada com um leve tilintar.

— Nós dois estávamos quebrados, Ricardo. Eu, traída. Ele, revivendo a mesma ferida. E a história que já existia entre nós… facilitou tudo.

Ela não se justificava. Apenas constatava.

— Não foi vingança. Não foi plano. — Disse, com a voz firme, apesar dos olhos marejados. — Foi fraqueza. Foi carência. Foi uma dor mal resolvida se encontrando no mesmo lugar.

Dando um passo em minha direção, ela repetiu.

— Você abriu a porta primeiro.

E fez uma pausa.

— O resto… foi consequência.

Ela não gritava. Não acusava mais. A verdade estava inteira entre nós. E nenhum dos dois sairia ileso dela.

Mariana respirou fundo outra vez. O chá já esfriava na xícara, esquecido entre os dedos.

— No começo… — Ela disse, escolhendo as palavras com cuidado — Era apenas carência…

E ergueu os olhos para mim, firme.

— Talvez aquela lógica distorcida de que chifre cruzado não dói. De que equilibra as coisas. De que me faria recuperar algum controle.

Soltou um riso sem humor.

— Mas não funciona assim, né?

Ela apoiou-se na bancada, como se o próprio corpo estivesse cansado.

— A convivência foi fazendo o resto. Você quebrando promessas. Dizendo que ia mudar… e logo depois voltando a priorizar o trabalho. Sempre o trabalho.

A voz dela não tinha raiva. Tinha desgaste.

— A traição. A mentira. E, principalmente, a ausência.

Fez um gesto vago com a mão, como quem aponta um espaço vazio.

— E o Bruno estava ali. Presente. Atento. Carinhoso. — Ela continuou. — Ele não prometia. Não dizia que ia mudar a vida inteira por mim. Ele só… estava.

Mais uma pausa curta.

— Cumpria o que dizia. Voltava quando dizia que voltaria. Ligava quando dizia que ligaria.

Ela me encarou, sem desviar.

— Um porto seguro, Ricardo. Algo que você quis ser.

O silêncio pesou entre nós.

— Não foi premeditado… — Disse ela, mais baixo — mas começou a criar raiz.

Um suspiro de cansaço escapou.

— E quando eu me dei conta, já estava fundo demais pra fingir que era só um erro pontual.

Ela ergueu a mão, quase num reflexo de defesa.

— Não. — Ela disse, antes que eu dissesse qualquer coisa. — Eu não amo o Bruno. Não como amei você.

Aquilo doeu. Mas doeu menos do que eu esperava.

— O que eu senti por você foi diferente. Foi entrega. Projeto de vida. Esperança.

Seus olhos marejaram novamente.

— Mas o Bruno virou presença. Segurança. Constância.

A voz falhou por um segundo, mas ela seguiu.

— Onde você deixou vazio… ele ocupou. Onde você deixou promessas quebradas… ele manteve o chão firme.

Ela respirou fundo, como se aquilo fosse a parte mais difícil de admitir.

— E o que era errado começou a parecer… lógico.

As confissões se seguiram.

— Não foi certo. Nunca certo. Mas compreensível. Sustentável. Menos doloroso do que esperar por algo que nunca vinha.

O peso daquela confissão ficou suspenso no ar.

— Eu me perdi nisso, Ricardo. — Disse, por fim. — Não porque eu quisesse te destruir. Mas porque eu já estava machucada demais para continuar fingindo que estava tudo bem.

Ela não chorava. E aquilo, de certa forma, doía ainda mais.

Mariana ficou alguns segundos em silêncio antes de continuar. O vapor do chá já tinha sumido, mas ela ainda segurava a xícara, como se aquilo a mantivesse ancorada.

— Lá atrás… antes de você. — Disse, enfim — eu e o Bruno vivemos algumas coisas diferentes.

Levantou os olhos, buscando os meus.

— Não era promiscuidade. Não era bagunça. Era… liberdade.

Deu de ombros.

— A gente se permitia sentir sem egoísmo. Sem posse. Sem cobrança. Curtir, desejar, experimentar… sem a obrigação de encaixar isso num molde.

Eu apenas ouvia, sem interromper.

— Funcionava porque ninguém prometia eternidade… Aí eu te conheci.

O tom mudou. Não suavizou, apenas se aprofundou.

— E eu quis outra coisa. Quis sonhar de novo. Construir. Acreditar.

Sua voz embargou de leve.

— Abandonei tudo aquilo sem ressentimento. Sem dúvida. Porque eu tinha escolhido você, Ricardo. Escolhi dedicar minha vida ao homem que eu acreditava ser o meu lar.

Ela segurou o olhar por mais um segundo do que o confortável.

— Quando tudo virou piada… quando o respeito virou exceção… — Ela balançou a cabeça, em um sinal negativo. — Quando eu e o Bruno deixamos de ser algo casual, o caos ficou grande demais.

Mariana caminhou até a janela, apoiando a mão no vidro.

— Foi aí que a Lívia reapareceu.

E virou-se devagar para mim.

— Alguém do passado. Conhecida. Segura.

Seu sorriso não chegou aos olhos.

— Ela servia perfeitamente para o que a gente precisava naquele momento: A namorada do Bruno. A cortina perfeita. — Ela pausou mais uma vez. — A desculpa ideal para desviar qualquer foco do que realmente estava acontecendo entre nós.

O silêncio voltou a se instalar.

— E antes que você diga… sim, eu sei. — Disse ela, antecipando. — O reencontro entre você e a Larissa foi rápido. Curto. Você caiu em si logo depois…

Ela suspirou.

— Mas já era tarde. — e olhou direto pra mim. — A porta que você abriu… não tinha mais como ser fechada.

Aquela frase ficou ecoando.

— Foi com a Lívia… — Continuou. — …que eu comecei a entender coisas que nunca tinham sido ditas para mim…

A voz dela ficou mais baixa, mais íntima.

— Que sexo não é só a união do masculino com o feminino. Que não é sobre gênero, papel ou regra. É sobre presença, verdade, consentimento.

Ela respirou fundo, como quem atravessa uma fronteira interna.

— Eu descobri que não precisava viver limitada ao tradicional. Ao que me ensinaram. Ao que a religião colocou como única forma possível de amar.

Houve coragem ali. E medo também.

— E eu gostei. — Ela disse, sem desviar. — Gostei de me reconhecer assim.

Uma pausa curta.

— Não como alguém perdida… mas como alguém que finalmente parou de mentir pra si mesma.

Ela alisava a asa da xícara, como se as respostas estivessem ali.

— Eu não me vejo mais como uma pessoa monogâmica, Ricardo.

Não houve desafio naquela frase. Só constatação.

— Não porque você falhou. — Completou. — Mas porque eu acordei para algo que já estava em mim antes de você… e que eu silenciei por amor.

Ela voltou a respirar fundo, cansada.

— O problema é que, quando você acordou, já era tarde demais… eu já estava desperta há muito tempo.

Ela me encarou sem medo, olhando fundo nos meus olhos.

— Então sim, Ricardo! Você tem razão: eu sou mesmo o brinquedo da Lívia e do Bruno. A putinha dos dois.

O que eu disse de forma pejorativa, Mariana transformou em orgulho, em identidade. E não havia a mínima hesitação ou constrangimento em suas palavras.

Continua…

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Comentários

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Essa Mariana é muito puta, vadia e manipuladora, adora inverter a situação, o cara errou? Errou e muito ao trai-la, duas vezes mas se estava ruim pra ela, porque não se separou do marido, já que encontrou esse porto tão seguro que ela afirma que é o Bruno? Não, preferiu viver na vadiagem com o amigo talarico e com outra vadia, que é a Lívia.

Outro ponto ridículo no argumento dela é essa defesa e exaltação veemente do Bruno, o cara que come ela pelas costa do amigo/marido é o certinho, e o pontual é o bomzão, volto a perguntar: porque não largou o marido e foi morar com o bambam?

Nota: não são críticas ao conto, mas sim a personalidade da Mariana.

Conto muito bom, esperando ansioso os próximos capítulos.

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Complicada essa Mariana, a história vai pegar fogo mesmo, espero que o próximo capítulo não demore muito, ancioso, se puder me informe quando sair ok aosoriorj1950@gmail.com obrigado

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Não é mais fácil vc seguir ele e ser notificado via e-mail quando sair um capítulo novo ?

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Traição não é um erro, é uma escolha, e aparentemente a Mariana que diz amar tanto o Ricardo, escolheu enfeitar a testa dele com o Bruno durante anos e anos. Se eu sou traído, não vou dar o gosto de ficar no mesmo nível da pessoa que me traiu. Eu separo, dou uma esculhambada bonita na pessoa e saio comendo quem eu quiser. Agr ficar nessa palhaçada de colocar tudo como culpa do outro, não fode.

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Minha esposa sempre fala que uma traição não justifica outra traição. Que nesse caso ela simplesmente deveria ter terminado já que ela tinha descoberto. E outra na trama não dá para confiar num cara que já teve um "caso" com ela no passado e que já teve problemas na justiça. Na cela em se lembrou que indo para um passeio o "amigo" chega do nada no mesmo lugar é no mínimo estranho e depois o ele bebe algo e começa a passar mal do nada e ainda apaga e tem lapso de memória. Vamos o decorrer da trama eu acho que Bruno junto com Livia e a própria Mariana armaram esse imbróglio para se vingar e tirá-lo de circulação.

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Esse papo todo, pra mim, explica, mas não justifica.

Por enquanto.

Veremos como a sociedade e o casamento sobreviveram a esse caos.

Uma teoria: será que a (agora) Larissa seria quem armou pro Ricardo?

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Caraca que conversa franca.

Prendeu a respiração...3 estrelas

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Amigos, eu tinha esquecido de fazer uma mudança importante antes de postar. A personagem Helena agora se chama Larissa.

Falha minha, já corrigida.

Tem uma Helena no conto do Mark, e eu não quero confundir o leitor, já que ele começou a postar primeiro.

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Pô Lukinhas, aí tu estragou minha piada mano kkkkkk

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Muito bom. O que Helena era do Bruno, pelo que entendi ele era apaixonado por ela, e ela queria o Bruno; falando em traição Mariana ficava com Bruno antes conhece-lo e ocultou isso marido. Pelo jeito nesses 7 anos deve ter rolado muita suruba, pois Mariana disse não querer uma vida monogâmica.

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Ok.

1- Alguém armou para o Ricardo.

2- O Ricardo já pegou a Helena (antes ou depois dela se casar com o Beto ?)

3- Mariana meio que deixou subentendido que se importa muito com o Bruno e seus sentimentos.

4- O Ricardo deve ser um cara muito de saco cheio com a vida.

5- O que levou eles a permanecerem por tanto tempo juntos, o cara tá a 07 anos sabendo que esposa tá dando pro Bruno e continuam trabalhando juntos ? Ele leva ao pé da letra o conceito de sociedade né ?

5- Qual é a história do cara que apareceu morto no aprtamento do Ricardo ?

6- Eles viraram liberais definitivamente ? Ricardo entrou no jogo ?

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Pior vai ser se Bruno já pegou a Anny...🤣🤣🤣

Mesmo o Lukinha tendo mudado o nome da personagem, o comentário foi de antes e da pano pra manga 🤣🤣🤣

Mesmo que já esteja claro que não tem nada a ver... 😝

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legal isso explica o que ele fez mas não explica atitudes que ao meu ver ela devia ter se separado pois a confiança foi para o brejo

Vamos ver porque ainda temos uma lacuna de 7 anos e esse assassinato que tem muita coisa a ser explicado

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Na balança de traição, o Ricardo, ainda que o primeiro é trair, é o mais prejudicado, como explicado no texto foi UMA VEZ e sem sentimentos ''permanentes''. A Mariana além de se debruçar em motivo de terceiro (''pq vc fez isso com o Bruno?''), traiu não só a carne como a alma, se entregando ao casal. Ai era, como se fala na minha terra, ''cada um pegar seu beco'' e seguirem longe da relação, mas como tudo isso aconteceu 7 anos atrás, ainda tem muita coisa pra rolar. Vejamos ...

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Pqp o Ricardo pegou a mulher do Beto 🤣🤣🤣🤣🤣

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Cara a Helena é foda...

Se alguém tinha dúvidas sobre ela, agora não tem mais !

Coitado do Beto mano...

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Não exatamente a mulher. Mas alguém que ele queria que fosse a mulher...

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