Fugaz (Final)

Da série Fugaz
Um conto erótico de Bayoux
Categoria: Heterossexual
Contém 1494 palavras
Data: 28/01/2026 17:56:40

Estou no limbo. Tudo é escuro. Ao longe, um pequeno ponto luminoso brilha. Ao meu lado, uma porta fechada se desenha.

Uma voz tensa sussurra em meus ouvidos com um alerta: “Não vá para a luz, Eduard. Não vá para a luz.”

A luz é tentadora, a saída da escuridão, mas parece tão distante que me desanima. Abro a porta. Lá dentro é noite, só há mais escuridão. A voz sussurrante diz: “Entre, Eduard. A verdade o espera.”

Vou caminhando por um terreno irregular e, à medida que meus olhos se acostumam, dou-me conta que vou por uma trilha na floresta. Ao longe, uma clareira tenuemente iluminada pela lua cheia aparece à frente.

Três ninfas belas e totalmente nuas dançam ao redor da clareira formando um círculo, vejo seus cabelos longos, loiros, castanhos e ruivos, soltos ao sabor de seus movimentos.

Os seios pequenos e rijos estão tão duros de excitação e juventude que mal se movem.

Seus pelos pubianos fartos adornam os ventres como troféus a serem oferecidos a ele, o homem nú posicionado ao centro, que possui os olhos vidrados num transe enquanto entoa versos misteriosos com voz grave e profunda.

Eu conheço aquelas palavras. Eu conheço aquele homem. Eu conheço aquelas jovens nuas.

Meu Germain, o verdadeiro Saint Germain, está recitando os versos do Putamatri enquanto Bubba, Haylin e Jojo dançam livremente à sua volta. Ele as controla com aqueles versos, está enfeitiçando-as.

Quando termina, as três se aproximam dele. Elas o acariciam, esfregam seus corpos juvenis ao dele, o lambem e o beijam, deixam que as toque em suas partes enquanto estimulam seu membro.

Ele as possui vigorosamente, uma após outra, vai e vem entre elas desfrutando de seus corpos e criando o vínculo carnal necessário para transferir sua energia mística às suas novas servas.

Num emaranhado de corpos femininos se contorcendo, Saint Germain as obriga a provar de sua semente, despejando-a na boca de cada uma enquanto vai ditando o destino que lhes reserva.

Brasil, 2025, ele ordena à Jojo. Estados Unidos, 1950, diz para Haylin. Alemanha, 1741, escuta Bubba, já engolindo os fluidos de Saint Germain.

O ritual está completo. Vejo ao longe pela trilha um castelo sobre uma montanha escarpada, quando a voz sussurrante me ordena que siga até lá.

Ingresso pelos portões desertos, atravesso salões frios e vazios feitos de pedra, subo uma escadaria circular em direção ao alto de uma torre. Lá encontro outra vez a Saint Germain.

Está sobre uma mulher, comendo-a, chupando-lhe os seios, encaixado em meio a ela enquanto mantém o par de pernas torneadas e brancas esticadas no ar com suas mãos, parecendo uma ave de rapina dilacerando sua presa.

Vejo como o membro rijo de Saint Germain penetra vigorosamente suas intimidades e um brilho além da umidade do desejo emana deste encontro.

Ele a está sugando, extraindo a energia vital que ela, a sua vez, roubou de outro homem no destino ao qual foi enviada.

Essa mulher é uma das ninfas da floresta, justamente a feiticeira que se encarga de mim e que conheço como Bubba. A energia que Saint Germain recebe dela ao realizar o coito vibra em cada célula de meu corpo em reconhecimento. É a mesma energia que a feiticeira retira de mim quando me obriga a possuí-la.

Para mim fica claro, muito claro: O segredo da longevidade lendária de Saint Germain provém dessa rede de feitiçaria que montou para seu gozo.

E o ciclo se renova, a cada remessa entregada num coito a Saint Germain por uma de suas servas, a acólita mesma recebe sua fração e aumenta seu poder. É uma relação de troca, ao circular esta energia roubada ele prolonga sua vida e elas se tornam capazes de viajar mais longe no tempo e no espaço.

Desço as escadas enjoado. Eu fui um mero objeto gerador de energia, nunca houve atração verdadeira entre eu e Bubba, nunca passei disso. Ao atravessar um dois salões rumo à saída, percebo que está diferente.

Velas longas crepitam presas às paredes e agora existem móveis de veludo e tapetes espalhados, denotando uma riqueza semelhante à que um dia usufruí.

Sentados, Bubba e Saint Germain discutem. Ela está nervosa e ele, contrariado. O ambiente é tenso e a energia entre eles é como uma língua de fogo chicoteando solta no ar.

Bubba tem os cabelos vermelhos revoltos e as faces enrubescidas de raiva. Ela se recusa a seguir servindo-o, e o motivo sou eu. Bubba observa como está acabando com minha vida e a de minha família e quer romper o acordo, mas Saint Germain se recusa e ameaça a ela.

Bubba foge pelo tempo e o espaço, atravessa diferentes países e décadas levando-me com ela, mas está limitada aos portais abertos por Saint Germain para suas servas naquela noite na clareira.

Uma perseguição por diversas épocas se inicia, Bubba usa os portais e me arrasta de um lugar para outro, mas só logra permanecer em cada um deles por um dia. Aonde quer que cheguemos, o tempo inicia uma contagem regressiva e corre para trás, até esgotar-se.

Por isso mudamos tanto. Quando Bubba assume a forma de Haylin, é cada vez num hotel de beira de estrada diferente nos Estados Unidos dos anos cinquenta. Quando ela é Jojo, sempre ficamos numa favela diferente no Brasil de outro milênio.

Bubba segue sorvendo minha energia, necessita dela para atravessar os portais e nos transportar ao próximo destino, até o fatídico dia em que Saint Germain nos descobre e a partir daí finge querer me libertar, ora se passando por um velho amigo, ora pretendendo ser um desconhecido.

Não há limites para o velho. Seu plano: instigar-me a escrever minha própria versão do Putamatri. Esse rito seria capaz de libertar-me de Bubba, é bem certo, mas o faria acabando com minha própria existência. Livre de mim, ele espera que Bubba volte à servidão que lhe jurou na clareira, como as outras.

Enquanto essa trama se desenrolava numa realidade um tanto confusa para mim, Saint Germain não se conformou e decidiu pressionar ainda mais.

Plantou-se em meu palácio, viveu de minha riqueza e usurpou as mulheres de minha família, enquanto me mantinha em estado vegetativo, esperando pelo retorno de Bubba ao seu domínio.

Saio do castelo e volto correndo pela trilha na floresta até a porta que antes atravessei. Saint Germain é o verdadeiro inimigo e talvez seja tarde demais para detê-lo.

Cruzo a porta e outra vez estou no limbo, meu coração bate acelerado e o ar me falta, de tão agitado que estou com tudo o que vi.

“Agora sim, vá para a luz. A verdade se revelou e você precisa voltar!” - a voz suave sussurra uma última vez.

O brilho da luz se intensifica enquanto me aproximo até quase me cegar, eu fecho os olhos e sigo avançando, obstinado a voltar para mim mesmo, recobrar quem eu era e enfrentar a realidade, a minha realidade, sem ilusões ou fantasias.

Acordo outra vez em meu corpo. Estou sentado no chão do apartamento, numa sala vazia. As frias paredes brancas ecoam meus passos desesperados, enquanto percorro os quartos, vendo que tudo está vazio também. Não há mais móveis, nem objetos, nem pessoas. Só eu e o vazio.

Não há Bubba, nem Haylin ou Jojo, nem nenhuma das mulheres com quem eu vinha saindo ultimamente nas noites de esbórnia. Não há Hanna, nem Charlotte ou Heidy, minha família se foi sem deixar rastros.

Desço as escadas do prédio, é fim de tarde e a livraria do térreo está quase fechando. Meu amigo Germain me vê entrando e vem ao meu encontro, com expressão séria no rosto.

– Edu, estava preocupado. Você desapareceu por días!

– Oi Germain… É, eu estava… Estava meio perdido, sabe?

– Bem, mas você voltou na hora exata. A Editora quer publicar o seu livro. Eles acham que vai vender bem, que dá até um filme.

– Aquela doideira sobre Saint Germain e as feiticeiras que viajam no tempo? Sério mesmo?

– É. Disseram que se trata de uma alegoria sobre os homens de meia idade em crise, abandonando a família e saindo com jovenzinhas, até perderem tudo o que construíram.

– Quem diria. Eu escrevi pensando em falar sobre nossa incapacidade de compreender a existência, de discernir o que é real do que não é. Acho que eles não entenderam nada.

– E eu achei que era sobre estarmos todos tão presos em nosso cotidiano que precisamos sonhar e nos distrair para suportar a vida como é, com todo o seu ruído e confusão. Acho que também não entendi nada.

– Que engraçado, eu escrevi algo que ninguém entende e agora vou ficar rico por isso. Imagino que a editora vai querer mudar um monte de coisas, amarrando as pontas soltas para fazer mais sentido.

– Não acho. Eles querem do jeito que está, meio doido mesmo. Acham que assim parece mais inteligente. Só pediram pra mudar o título: “Putamatri” não é vendável.

– Eu concordo, não gostava desse nome mesmo. Estou pensando em chamar de “Fugaz”!

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