As semanas que seguiram o início da minha transformação pareceram se fundir em uma única e longa estação de descobertas sob o céu de grafite de Curitiba. O frio não era apenas climático; era um convite ao recolhimento e à experimentação. Enquanto a cidade se fechava em casacos pesados, eu florescia em uma paleta de cores e texturas que eu nunca ousara tocar. O meu "eu" de antes, o garoto de moletom cinza que tentava passar despercebido pelos corredores da Reitoria, estava sendo lentamente substituído por algo muito mais complexo e vibrante.
Meu corpo estava mudando de forma visível. Meu cabelo rosa, que antes era mantido em um corte curto, agora ganhava comprimento e peso. Ele já batia nos ombros, e embora eu gostasse de prendê-lo em coques altos para estudar, era um penteado rebelde: as mechas do antigo corte repicado escapavam, moldando meu rosto com fios rosa que insistiam em ficar soltos. Eu comecei a apreciar essa estética bagunçada e feminina. As unhas também eram um marco; abandonei as postiças e comecei a cuidar das minhas unhas naturais. Com paciência e vitaminas que a Martina me indicou, elas cresceram fortes e longas, e eu as mantinha sempre em um formato amendoado, pintadas com aquele vermelho profundo que se tornara minha marca registrada.
Nesse período, o guarda-roupa da Martina tornou-se meu santuário. Ela tinha peças de boutique que raramente usava, mas que em mim pareciam encontrar um propósito. Sobretudos de lã acinturados, saias midi plissadas e blusas de seda que deslizavam pela pele. Lembro-me de uma tarde em que fomos ao shopping em uma "noite das meninas". Eu estava usando uma das saias dela e meu sobretudo rosa. Pela primeira vez, a linha entre o que o mundo via e o que eu sentia se dissolveu tanto que, naturalmente, acabei acompanhando a Martina até o banheiro feminino. O medo inicial de ser "descoberto" foi substituído por uma estranha sensação de pertencimento. Ninguém questionou. Para aquelas mulheres ali, eu era apenas mais uma garota de cabelo rosa retocando o batom.
Essa transição trouxe uma mudança na forma como as pessoas se referiam a mim. Comecei a ser chamado por pronomes femininos com mais frequência, tanto por desconhecidos quanto, às vezes, por Martina em momentos de carinho. Embora eu ainda preferisse os pronomes masculinos — eu me sentia um homem, apenas um homem que amava a feminilidade —, o uso do "ela" já não me irritava. Se não fosse feito com a intenção clara de me ofender, eu apenas deixava de lado, aceitando que a imagem que eu projetava agora era fluida o suficiente para confundir as mentes mais rígidas.
Minhas noites com o Caio na república tornaram-se o laboratório final dessa metamorfose. Nossos encontros ainda eram marcados pela divisão clara de papéis, mas o sexo ganhara uma densidade nova. Ele ficava fascinado com a evolução das minhas unhas naturais arranhando suas costas e com o volume do meu cabelo rosa espalhado pelo travesseiro. Eu ainda era a sua Pérola, a parte passiva que ele possuía com uma urgência quase possessiva. Eu amava o peso dele sobre mim, a sensação de ser dominado por aquele gigante moreno enquanto ele sussurrava o quanto eu estava ficando linda com aquelas roupas "roubadas" da Martina. Era um prazer visceral, de entrega total, onde eu explorava cada limite da minha submissão.
Mas nem tudo era deleite. Com a Martina, a dinâmica era outra. Ela me adorava de uma forma quase artística. Martina amava me ver vestido com suas calcinhas de renda, peças que ela escolhia a dedo para mim. Ela me colocava sobre o sofá de veludo e me devorava com um oral lento e autoritário, suas mãos segurando minhas coxas enquanto eu me perdia no prazer que ela me proporcionava. Ela era a dominante, a mestre que me ensinava a amar o meu próprio corpo em roupas que o mundo dizia que não eram para mim. Eu vivia esses dois amores de forma separada, mas complementar: o Caio me dava o peso e a proteção da masculinidade bruta; Martina me dava a liberdade e o domínio da feminilidade sofisticada.
No entanto, conforme o semestre chegava ao fim e a pressão das provas aumentava, senti que o papel de "Pérola" estava começando a ficar pequeno. Eu amava ser possuído por ele e guiado por ela, mas o crescimento das minhas unhas e do meu cabelo parecia simbolizar algo maior: eu estava ganhando garras. Eu queria saber o que aconteceria se eu, com toda a feminilidade que conquistei, decidisse tomar as rédeas. O plano para a última sexta-feira de semestre começou a se formar na minha mente como um roteiro de cinema. Eu não seria apenas o garoto de saia esperando o comando; eu seria o comando.
