— Jom... Poh-Jomkwan, acorde.
O toque em minha bochecha me faz abrir os olhos sobressaltado. Sob a sombra das árvores, na varanda que circunda a casa de teca construída no Sétimo Reinado, enquanto as folhas balançam com a brisa, minha cabeça repousa no colo de alguém. O rosto pairando sobre o meu exibe um sorriso satisfeito.
— Teve um sonho bom? Sobre o que era? Eu estava nele?
Seus olhos escuros e profundos são brincalhões. Eu os encaro enfeitiçado. Khun-Yai está bem aqui na minha frente, vestido com uma camisa de cânhamo branca e calças de cetim. Seu traje de costume. Uma leve sombra de barba delineia sua mandíbula afiada. Estendo a mão e toco seu rosto, deslizando os dedos suavemente por sua estrutura facial, com medo
de que ele desapareça.
A fragrância de Lantoms flutua no vento.
E então, eu acordo. Um rosto quase idêntico aparece acima de mim. Apesar das pequenas diferenças nos detalhes e no tom de pele, a maneira como ele me olha é exatamente a mesma. O Comandante Yai está olhando para mim, com um galho de Lantoms na mão, roçando as flores da minha bochecha até o meu nariz.
— Com o que você sonhou? Eu estava lá?
Pisco os olhos. Ao perceber que estou na tenda do Comandante Yai, envolvo-o com meus braços em um sobressalto. Ele parece surpreso; murmura um som de curiosidade, mas ainda assim acaricia minhas costas.
— Senti sua falta.
— Estou bem aqui.
— Ainda sinto sua falta.
O Comandante Yai solta uma risadinha.
— Que adorável. Está com medo de que eu não caia perdidamente de amores por você?
Observo a luz fraca banhando o lado de fora da tenda, ouvindo o cantar distante dos galos. A claridade já aumentou lá fora. Movimento meu corpo.
— É manhã. Já vou indo.
— Fique e faça uma refeição comigo. O cozinheiro servirá em breve.
— Não. — Balanço a cabeça. — Eu não sou um comandante ou uma autoridade de alto escalão. É inapropriado me comportar como o chefe deles. Vou comer com o Capitão Mun e os soldados.
— Como é adorável da sua parte ser tão humilde.
Adorável, hein...? É por isso que ele me amou por quase metade da noite e explorou cada centímetro do meu corpo?
— Você consegue levantar e andar? — O Comandante Yai toca meu cotovelo.
Lanço um olhar de soslaio para ele. Ele fala com uma voz tão gentil, mas não se conteve nem um pouco ontem à noite.
— Eu não vou sair cambaleando e gemendo enquanto massageio meus quadris na frente dos outros para me humilhar. Não se preocupe.
Puxo meu armo de volta e bufo, mas o Comandante apenas sorri. O ar do amanhecer é fresco. A luz do sol ficará mais forte mais tarde, suponho, como nos outros dias. Esgueiro-me até a área ocupada pela fila de carroças para me banhar. Felizmente, todos estão ocupados demais com suas rotinas para me prestar atenção pela manhã, e ninguém costuma se lavar a essa hora do dia. Eu preciso, no entanto. Preciso esfregar e tirar o que o Comandante Yai deixou no meu corpo.
Assim que o sol atinge o topo das árvores, junto-me ao círculo de refeição dos soldados e do Capitão Mun. Cada um deles está notavelmente enérgico hoje, já que passaremos outra noite aqui, o que significa mais tempo para passear pela aldeia.
— Quem ganhou ontem à noite? Você ou o Comandante Yai? — Capitão Mun pergunta enquanto comemos.
Quase me engasgo e escondo rapidamente bebendo no tubo de bambu. Respondo resmungando:
— Nós nos revezamos ganhando e perdendo, Capitão Mun. No total... bem, foi um empate.
— Se nenhum de vocês ganhou de forma clara, acho que o Comandante Yai vai exigir outra revanche hoje à noite, Jom.
Esboço um sorriso tímido, sem ter certeza de que tipo de revanche será. Por sorte, o assunto muda. Eles concordam em cavalgar até a aldeia depois de terminarem o café da manhã. Capitão Mun aponta o dedo para o soldado chamado Kab. Da última vez, ele flertou com uma mulher em Baan Thung Hin e quase começou uma briga com os moradores locais.
— Não cause problemas desta vez. Certifique-se de que a mulher com quem você vai flertar não seja casada.
— Eu me certifiquei da última vez. Bem, não causarei problemas de novo. Só vou procurar bebida. Não vou nem olhar para as damas.
Kab esfrega o braço do Capitão Mun de forma bajuladora.
— Pui! — Capitão Mun cospe, mas Kab levanta seu prato bem na hora. — Conte essa conversa fiada para um cachorro. Um galanteador como você nunca consegue se segurar. Não me traga problemas de novo. Desta vez, vou deixar você apanhando até virar polpa na aldeia.
— Ai-Jom, você vem com a gente? — Capitão Mun me pergunta. Balanço a cabeça.
— Vão sem mim. Vou ficar aqui. Estou cansado. Talvez eu tire uma soneca à tarde.
Depois que o Capitão Mun e seu bando descem a encosta em direção à aldeia, fico por perto das carroças dos servos. Observo-os cortando varas de bambu em pedaços menores e os ajudo com tarefas triviais. O sol brilha forte pouco depois e fico encharcado de suor. Eu continuaria trabalhando se fosse em outro dia, mas minha batalha com o Comandante Yai ontem à noite drenou bastante as minhas forças. Decido descansar em um monte gramado próximo. Parece sereno, perfeito para uma soneca. Após alguns passos, dou de cara com o Comandante In.
— Comandante In — cumprimento.
— Oh... Jom, você não vai para a aldeia com os soldados? — Ele me oferece um pequeno sorriso.
Por que sinto que o sorriso dele não é tão brilhante quanto o normal? Seus olhos estão mais nublados do que antes. Será que ele está de ressaca porque bebeu demais ontem...? Ah, certo, é inevitável ficar preocupado quando quem você ama adoece. E você fica ainda mais perturbado se o relacionamento é um segredo. Tudo o que você pode fazer é olhar de longe com preocupação. Você não pode nem cuidar deles ao seu lado. Balanço a cabeça.
— Vou descansar debaixo daquela árvore ali por um tempo, mas provavelmente vou colher algumas frutas silvestres com os cozinheiros mais tarde.
— Leve uma faca com você. Quando a cobra rastejou pelo caminho da última vez, você deu um pulo de medo.
Eu rio. Sempre encontrávamos cobras ou animais selvagens durante a viagem. Os soldados e servos sabiam lidar com eles sem dificuldade. Pelo contrário, eu saía correndo.
— Hum... vou levar uma faca e um pedaço de pau. Obrigado, Comandante In.
Ele assente levemente e se afasta pesadamente. Meus olhos seguem suas costas. Sinto-me um pouco preocupado, mas não sei como ajudá-lo. O problema dele é perigoso demais para eu me envolver ou tentar ajudar.
— Que olhar de saudade é esse que você tem pelo In. Não tem medo de que alguém perceba?
A voz do Comandante Yai atrás de mim me assusta. Giro sobre os calcanhares e o vejo em seu cavalo com uma expressão carrancuda.
— Como assim um olhar de saudade, Comandante Yai? É assim que eu costumo olhar para ele. Todo mundo sabe o quanto o Comandante In é gentil. Do que o senhor vai me acusar desta vez?
O Comandante Yai observa o Comandante In se afastar à distância. Ele murmura:
— In, meu irmão, é um homem muito charmoso.
— Sim?
— Você não tem chance, Jom. Todas as mulheres em Seehasingkorn estão de olho no In, mas ele não entrega seu coração a nenhuma.
Solto uma risadinha baixa. Ele está achando que vou me encantar pelo Comandante In? Eu já fui, de fato, mas esses sentimentos queimaram sem deixar sequer uma faísca.
— Eu não preciso de uma chance. Eu não quero o Comandante In.
— Não olhe para ele, então.
— Oh... Comandante Yai, se não olharmos um para o outro, deveríamos conversar de olhos fechados? O senhor está com ciúmes ou o quê?
Eu disse isso sem pensar muito, mas o Comandante Yai fica desconcertado. Ele hesita, como se quisesse argumentar, mas não conseguisse. Suas orelhas ficam um pouco vermelhas. Olho para ele maravilhado. Santo Deus... uma pessoa com a pele tão áspera quanto couro de búfalo sob o sol está corando.
— Essa sua boca é bastante descuidada com as palavras. Eu deveria te dar uma surra como lição.
Se fosse antes, eu estaria aterrorizado. Antes, eu sentia medo só de ele passar por perto quem dirá ouvindo ameaças. Agora, eu sei que o Comandante Yai é rígido e feroz quando está em serviço. Quando está comigo, porém, ele mostra o lado que só revela às pessoas particularmente próximas. Ele se torna a versão "tigre fofo" de si mesmo, tocando-me aqui e ali, derretendo-me com suas palavras doces, e eu deixo que ele me devore com prazer. Como eu não discuto, ele abandona o assunto. O Comandante Yai estende a mão.
— Suba no cavalo comigo.
— Onde vamos?
— Apenas suba, como eu disse.
Ele me puxa para cima do cavalo e galopamos além da colina, entrando na mata. Avançamos por entre os bosques subindo a encosta até alcançarmos uma rocha suspensa, protegida por galhos que se estendem. Deste ponto, conseguimos ver toda a área do nosso
acampamento.
Percebi por que, onde quer que acampássemos, o Comandante Yai costumava desaparecer. Ele estava patrulhando de longe, da mesma forma que faz agora. Mesmo com a brisa, gotas de suor escorrem de trás da minha orelha até o pescoço. O Comandante as limpa com os nós dos dedos.
— Está com calor?
— Eu ajudei os servos a cortar as varas de bambu, então estive suando. Vou me sentir melhor depois de descansar por aqui.
— Por que você suportaria isso? Eu vou refrescar você.
— Como? — Eu me viro para ele. Não me diga que ele vai me abanar.
O Comandante Yai não responde. Ele guia o cavalo para o outro lado. Pouco depois, estamos mergulhados no riacho gelado. A água está no nível do peito e é cristalina. Envolvo meus braços ao redor dele por trás e beijo seu ombro. Sua pele é de um marrom claro sob a luz do sol e embelezada por músculos firmes, contrastando completamente com a minha pele.
Ele se vira para me beijar e eu rio, com cócegas. A barba que ele não faz há pelo menos três dias está agora rala e rígida, arranhando minha bochecha e meu pescoço.
— O senhor me ameaçou com um chicote agora há pouco, mas agora não para de me beijar.
Faço um biquinho de irritação travessa. O Comandante lança um olhar para mim.
— Você acha que eu teria coragem de te chicotear? Um chicote na sua pele seria uma punhalada no meu coração.
Ele segura minha cintura e beija minha bochecha com força. Eu sorrio e deslizo os dedos por sua mandíbula.
— Sua barba cresceu. Quer que eu a faça?
— Você não gosta?
Paro para pensar antes de responder.
— Eu gosto. Gosto de você tanto com a pele lisa quanto com barba. Não há nada em você de que eu não goste.
Os olhos dele brilham.
— Jom-Jao, você é um mestre nas palavras doces. Devo recompensá-lo.
O abraço frouxo em minha cintura se aperta. Fixo meus olhos em seu rosto bonito coberto por gotículas de água. Seu sorriso e olhar são tão amorosos. Quando ele aproxima os lábios, fecho os olhos. O beijo sensorial nos leva a algo mais intenso. Entrelaço minhas pernas ao redor do corpo dele debaixo da água enquanto suas mãos grandes apertam meus quadris.
O Comandante Yai me carrega para a parte rasa. Seu beijo em minha pele queima como fogo, fazendo-me perder o controle das emoções. Um gemido escapa da minha boca quando ele entra em mim. Enterro minhas unhas em suas costas largas e as arranho em linhas longas enquanto ele me invade implacavelmente. Gotas de água nos meus dedos respingam na superfície do riacho na altura das coxas dele. Meu corpo estremece com essa sensação sensual que ele inflamou.
O Comandante move a cintura mais rápido e meu corpo balança no ritmo de suas estocadas. Chamo seu nome repetidamente até que estrelas se dispersam por trás das minhas pálpebras. Meu corpo se contrai quando ele libera sua carga, e então apoio o rosto em seu ombro, satisfeito.
Voltamos para a rocha suspensa. Deito minha cabeça no colo do Comandante Yai sob a sombra das árvores, contemplando a vista distante dos bosques que descem pelas colinas, minha mão segurando a dele. Sinto-me tão feliz que isso chega a me assustar. Levo a mão dele aos meus lábios.
— Comandante Yai, ficaremos juntos, certo?
— Jom-Jao, por que pergunta uma coisa dessas? Entregamos nosso amor um ao outro. Com quem estaríamos, se não um com o outro? — Ele enrola uma mecha de cabelo da minha têmpora no dedo. — Assim que voltarmos para casa, eu o levarei comigo. Temos terras cultivadas por alguns servos. Podemos cuidar delas juntos quando você morar comigo.
Pressiono os lábios em contemplação e pergunto preocupado:
— Quem eu serei na sua casa? As pessoas na sua cidade aceitam dois homens vivendo juntos como amantes?
Ele ri suavemente.
— Quem ficaria feliz em ver seu filho com um parceiro masculino? Ninguém, Jom. Eles se sentiriam humilhados.
— Oh... então sua mãe permitirá que eu more lá?
— Meu pai faleceu há muitos anos. Há apenas minha mãe, que criou a mim, ao In e à minha irmã. Você pode morar lá como meu companheiro. Com o passar do tempo, minha mãe acabará entendendo que você é meu amante.
— Sua mãe é assustadora? — Levanto-me e olho para ele ansioso.
— Minha mãe? Ela é uma mulher quieta, não gosta de resmungar como as idosas de outras casas. É reservada e bem-educada, nunca respondeu mal ao meu pai. Ela me ama profundamente. Conquiste o coração dela com sua virtude, da mesma forma que conquistou o meu.
Assinto, embora ainda preocupado. Como será minha vida daqui em diante? Com o que terei que lidar?
— E quanto às outras pessoas? O que elas vão pensar?
— Viveremos juntos como amantes na minha casa. Não precisamos anunciar para todos na cidade apenas para sermos alvo de fofocas. Se alguém te ofender, mantenha a calma e não dê importância. Minha família e eu te amamos, isso é o suficiente. Ninguém mais importa.
— O senhor não se sentirá humilhado se alguém perguntar ou zombar?
— Eu cortarei a língua deles.
Eu rio.
— O senhor me disse para manter a calma.
— Eu só me submeto a você, Jom. Se outra pessoa me ofender, eu tirarei o sangue dela.
— O senhor se submete mesmo a mim?
— Inteiramente.
— Mentiroso.
Vendo-o franzir a testa confuso, mudo minhas palavras.
— O senhor só está dizendo isso. Não fala sério, fala?
— Oh. Agora você está me pondo como o errado. Venha aqui. Eu vou te contar. — Ele me puxa para um abraço. — Que tal isto? Em todas as vidas, eu serei sempre o segundo para você. Se eu renascer como a lua, você renascerá como Rahu engolindo-me inteiro. Se você renascer como um frango ou um pato, eu renascerei como grão de arroz para você bicar. Se eu renascer como um capacho, você renascerá como...
— Comandante Yai! Eu não quero renascer como um pé!
Eu rio e o empurro, mas ele agarra meus pulsos com força. A maneira como ele olha por cima do meu ombro, com uma expressão subitamente sombria, me faz virar. Abaixo da rocha, avisto cerca de doze homens em seus cavalos galopando em direção ao nosso acampamento.
O Comandante Yai se levanta de um salto e diz:
— Monte no cavalo.
Um momento depois, ele e eu descemos a colina em alta velocidade rumo ao acampamento. Ele me ajuda a desmontar enquanto ordena que o Comandante In e os soldados se preparem. Meu coração martela quando a cavalaria e os espadachins se posicionam em formação. Em seus cavalos, o Comandante Yai e o Comandante In esperam com postura imponente. As espadas duplas do Comandante Yai cruzam-se em suas costas.
Logo, aqueles homens imponentes surgem à distância. Eles galopam em nossa direção e param diante de nós. Eu os observo de relance por trás da linha de carroças e conto doze deles, todos devidamente uniformizados. Os dois homens à frente parecem ser os líderes dos demais. Um deles começa a falar:
— Comandante Yai, Comandante In, os grandes soldados de Seehasingkorn — ele cumprimenta com um sorriso que parece amigável, mas eu sei que não estão aqui com boas intenções. — Eu sou Han Lueang. Este é Han Kaew. Somos soldados de Sua Majestade, o Rei Kham de Chiang Mai.
O homem chamado Han Kaew encara o Comandante Yai e o Comandante In com um olhar desafiador, mas mantém a boca fechada ao lado de Han Lueang.
— Eu sei quem vocês são pelo uniforme. É um prazer encontrar os soldados de Sua Majestade, o Rei Kham, neste lugar — responde o Comandante Yai, sem se abalar. — Vocês estavam de passagem ou têm algum assunto a tratar conosco?
— De fato, temos um assunto com vocês — responde Han Lueang, seu sorriso tornando-se sinistro. — Estou aqui para entregar a ordem do Rei: levar de volta Sua Alteza Real, a Princesa Amphan. Entreguem-nos a princesa, ou tomaremos Sua Alteza Real à força.
