Entre Irmãos - A Distância Entre Nós

Da série Entre Irmãos
Um conto erótico de Mateus
Categoria: Gay
Contém 2229 palavras
Data: 31/01/2026 23:36:15
Última revisão: 31/01/2026 23:48:39

Heitor não precisou de uma explicação formal para entender que algo havia se quebrado. Ele sempre soube ler os intervalos. Mas ele demorou a entender o que exatamente havia se rompido.

Não houve uma cena clara, um instante preciso que pudesse ser apontado como origem da fratura. O que houve foi um acúmulo silencioso, quase imperceptível, de pequenos deslocamentos, olhares que escapavam, conversas interrompidas, uma cautela nova no meu jeito de falar, como se medisse palavras que antes fluíam sem esforço.

Havia uma diferença sutil entre o silêncio confortável, aquele que antes compartilhava comigo, feito de presença, e o silêncio que agora se impunha. O último vinha carregado de escolhas não ditas, de conversas ocorridas em outros cômodos, em outros vínculos, em outras lealdades.

A sensação de traição não veio como um choque, mas como um frio lento, que se instala quando se percebe que algo essencial deixou de estar onde sempre esteve.

O que mais o feriu não foi uma palavra atravessada, nem um gesto brusco. Foi a constatação lenta e inevitável de que todos haviam decidido algo sem ele. Rafael, ao escolher o que atacar. Júlia, ao escolher o que falar. Eu, ao escolher o que adiar. E talvez até ele mesmo, por ter acreditado que o afeto entre nós era um terreno sólido demais para ruir sem aviso.

Ele se deu conta, com um misto de lucidez e desalento, de que havia sido o último a saber. Não por falta de atenção, disso Heitor nunca foi acusado, mas porque confiar também é baixar a guarda. E ele confiara. Em mim. Na ideia de que, entre nós, as coisas seriam sempre ditas, claras e transparentes.

Heitor se sentiu traído não por um ato específico, mas por um rearranjo invisível do mundo. Como se, de repente, estivesse ocupando um lugar que não reconhecia, periférico, dispensável, facilmente administrável. Isso o atingiu em cheio porque sempre se orgulhara de ser inteiro nas relações. De não negociar presença. De não amar pela metade.

O que mais doeu não foi a possibilidade de ter sido preterido. Foi a constatação de ter sido excluído. Excluído das conversas difíceis. Excluído das decisões que o atravessavam. Excluído do direito de reagir enquanto ainda havia tempo.

A dor veio limpa, sem histeria. Veio como uma certeza. Ele se fechou não por estratégia, mas por instinto. Não havia mais espaço para perguntas quando a resposta parecia estar espalhada em cada gesto evitado. Pela primeira vez, Heitor não quis nomear as coisas. Preferiu o recolhimento à exposição de uma ferida que ainda pulsava demais.

Heitor se sentia traído por todos porque, de alguma forma, todos haviam escolhido o caminho que o deixava de fora. Não como inimigo, mas como alguém a ser administrado, uma presença incômoda, um afeto que precisava ser contornado em vez de enfrentado.

E isso o feriu mais do que qualquer verdade dita de forma brutal jamais feriria. Ele não explodiu. Não cobrou. Não fez cena. O afastamento veio quase como um mecanismo de autopreservação: se não havia espaço para ele naquilo que estava sendo construído, então talvez fosse preciso sair antes que a exclusão se tornasse definitiva.

Eu, por outro lado, comecei a entender tarde. Só percebi a extensão do que havia feito quando o silêncio de Heitor ganhou densidade. No início, achei que era apenas um tempo. Um respiro necessário. Uma pausa que eu precisava para organizar os meus próprios sentimentos, alinhar pensamentos, encontrar as palavras certas, antes de encarar Heitor de novo.

Sempre fui assim: cuidadoso, racional, convencido de que o impacto das decisões podia ser calibrado se o momento fosse bem escolhido, que algumas verdades precisavam de preparo e que o improviso poderia ser cruel.

Dessa vez, não foi. Eu havia cometido um erro fundamental: confundira cautela com omissão. Quando me dei conta, Heitor já não estava apenas quieto, estava distante. E não era um distanciamento defensivo, daqueles que pedem resgate. Era um afastamento resignado, quase educado, como quem aceita que não é mais parte da equação.

O afastamento de Heitor não veio acompanhado de cobranças, e isso me desarmou completamente. Não houve cenas, nem ultimatos. Houve um esvaziamento progressivo, quase elegante, que me deixou sem onde me apoiar. A ausência de confronto revelou algo que eu não havia previsto: Heitor não estava esperando explicações. Estava tirando conclusões.

Foi aí que entendi. Entendi que subestimara o impacto das minhas próprias escolhas. Entendi que decidir sem incluir também é decidir contra. Entendi que, ao tentar controlar o dano, acabara o ampliando.

Foi aí que eu percebi o tamanho do meu erro. Subestimara a profundidade do vínculo. Subestimara o quanto o silêncio também comunica. E, sobretudo, subestimara o quanto certas escolhas, uma vez feitas, não admitem edição posterior.

A culpa não veio em forma de desespero, mas de lucidez tardia. Não veio como arrependimento imediato, mas como um peso constante, difícil de localizar. Não era apenas o medo de perder Heitor, era a percepção incômoda de ter sido menos íntegro do que acreditava ser. De ter escolhido o caminho mais confortável acreditando que isso me tornava mais responsável, quando na verdade apenas adiara o inevitável.

Percebi que havia acreditado demais na minha própria capacidade de sustentar contradições, e de menos na sensibilidade de quem estava ao meu lado. Achei que conseguiria manter tudo em equilíbrio, quando, na verdade, estava deslocando pesos que não me cabia mover sozinho.

Eu comecei a me perguntar quando exatamente deixei de ser transparente. E a resposta que surgia, vaga, mas insistente, era sempre a mesma: no momento em que decidi proteger a mim mesmo antes de proteger a relação.

Entre Heitor e eu se formou um espaço novo. Não era ainda um abismo, mas também já não era ponte.

Heitor sentia que havia sido traído por todos porque, de alguma forma, todos escolheram suportar o desconforto da própria consciência em vez de dividir o peso da verdade com ele. E eu começava a entender que algumas escolhas não machucam pelo que são, mas pelo modo como são conduzidas.

Pela primeira vez, considerei que talvez essas escolhas não fossem apenas sobre amor, desejo ou confusão emocional. Talvez fosse sobre responsabilidade. Sobre ter coragem de nomear as coisas enquanto ainda eram reparáveis.

E essa percepção, silenciosa e incômoda, passou a me acompanhar como uma sombra, não agressiva, mas persistente, me lembrando de que algumas perdas não acontecem por excesso de conflito, mas por falta de verdade. E o nome das coisas, aquilo que antes parecia tão simples, agora exigia coragem. Não para ser dito, mas para ser sustentado depois.

__________

O ano virou sem cerimônia. Houve fogos, mensagens automáticas, abraços que não significavam muito. Eu respondia tudo com educação suficiente para não ser questionado. Aprendera a sobreviver socialmente, um talento adquirido à força.

A virada do ano trouxe consigo aquela ilusão coletiva de recomeço, de promessas vagas, mas para Heitor e eu o tempo não abriu janelas: apenas fechou distâncias.

Foi numa manhã abafada de janeiro que a notícia chegou, casual, quase burocrática: a mãe e o padrasto de Heitor, Julia e Rafael decidiram se mudar, de novo. A mãe anunciou a mudança como quem anuncia mais um detalhe logístico da vida, não uma ruptura.

Ela havia encontrado uma casa maior, mais clara, mais adequada à família. Em um bairro novo. Do outro lado da cidade. Um lugar distante o suficiente para exigir planejamento, trânsito, atravessamentos. Um lugar que não cabia no improviso. Uma outra vida, como se fosse possível trocar de pele pelo endereço.

Eu não fiquei realmente surpreso. Aquela família sempre carregara o movimento como identidade. Nunca permaneciam muito tempo no mesmo lugar. Nunca criavam raízes profundas demais, talvez por medo, talvez por hábito, talvez por um tipo específico de instabilidade que se disfarça de recomeço.

Era quase um traço genético: aquela família nunca se fixava. Como ciganos modernos, mudavam de endereço, de casa, de cidade, com a mesma facilidade com que mudavam de roupa, como se a permanência fosse perigosa demais, como se ficar significasse encarar o que se acumula quando nada é deixado para trás.

E, como sempre, todos os filhos acompanharam a decisão, foram todos juntos. Até Rafael. Até a rebeldia cansada de Rafael. Até sua exclusão teatral. Mesmo ele, com sua revolta performática, com a raiva que vestia como identidade, seguiu junto, não por concordância, mas porque ainda estavam todos presos numa codependência silenciosa, num parafuso emocional em que ninguém sabia exatamente onde terminava o outro. Fugiam juntos, sempre.

No fundo, todos eles eram ligados por uma simbiose silenciosa, disfuncional, intensa, inevitável. Brigavam, se feriam, se traíam, mas orbitavam uns aos outros como satélites presos por uma gravidade emocional que ninguém sabia desligar.

Heitor não discutiu. Não questionou. Apenas aceitou, com aquela passividade cansada que eu aprendera a reconhecer tarde demais. Talvez já estivesse desistindo antes mesmo de partir.

Quando eu recebi o novo endereço, demorei alguns segundos para entender o que realmente sentia. Não era saudade. Não era dor imediata. Era fechamento. A mudança física fez o que nenhuma conversa conseguiu fazer: tornou o afastamento irreversível.

Antes, Heitor estava a duas quadras de distância, perto o suficiente para existir como possibilidade. A proximidade mantinha aberta uma porta imaginária. Bastava atravessar duas ruas para que o passado respirasse outra vez. Agora havia avenidas, trânsito, bairros inteiros entre nós. Distância real. Mensurável. Inevitável.

Antes, a distância entre nós era um gesto contido, uma palavra não dita, uma espera curta demais para virar ausência. Duas quadras. Um encontro possível. Um acaso no caminho. A proximidade do bairro conspirava a favor do retorno. Agora, não.

Agora havia ônibus, avenidas, ruas que eu só conhecia de nome. Havia o cansaço do deslocamento, o peso de “marcar” algo, a necessidade de querer muito. E eu percebi, com um nó incômodo no peito, que o querer já não era o mesmo, não por falta de sentimento, mas por excesso de feridas.

E algo dentro de mim compreendeu, com uma clareza quase cruel, que certos vínculos sobrevivem apenas enquanto a geografia ajuda. Sem o acaso dos encontros. Sem a conveniência da proximidade. Sem a desculpa da vizinhança. O amor, se ainda existia, teria de atravessar quilômetros. E amores feridos raramente fazem esse esforço.

Nos primeiros dias, eu ainda abria o celular algumas vezes esperando uma mensagem. Depois percebi que não era exatamente Heitor que eu aguardava, era a versão antiga de mim mesmo, aquela que acreditava que sentimentos fortes sempre produzem retornos inevitáveis. Só que não produzem não. Às vezes só produzem silêncio.

Nós tentamos, no início. Mensagens espaçadas. Promessas vagas de visita. Um “qualquer dia desses” que nunca se materializava. Cada conversa parecia exigir mais energia do que antes, como se o vínculo tivesse se tornado um esforço consciente, e não mais um impulso natural.

A cidade cresceu entre nós como um muro invisível. Os lugares compartilhados perderam função. O bar da esquina já não era território comum. A rua onde havíamos caminhado discutindo filosofia barata e dores verdadeiras virou apenas uma rua comum. O banco da praça, cenário de confidências, virou madeira e ferrugem.

A distância expôs o que já estava frágil. Sem o corpo próximo, sem o hábito, sem o cotidiano compartilhado, o que restava entre Heitor e eu era apenas aquilo que nunca tínhamos conseguido organizar direito: sentimento bruto, culpa mal resolvida, carinho atravessado por mágoa. Nada que sobrevivesse sozinho.

A memória começou a perder pontos de ancoragem física. E isso é quando o passado começa, de fato, a morrer. Eu percebi algo incômodo: a distância não doía como imaginara. Ela não dilacerava, ela apagava. Lentamente. Com método. E o apagamento é mais trágico que a dor. Porque a dor prova que algo ainda pulsa. O apagamento prova que algo terminou.

Eu percebi, então, que havia subestimado tudo. Subestimara o impacto das minhas próprias escolhas. Subestimara o quanto Heitor precisava de mim naquele momento específico da vida dele. Subestimara, sobretudo, o fato de que algumas relações só existem enquanto o mundo conspira para mantê-las próximas.

Numa tarde qualquer, meses depois, me dei conta de que eu já conseguia pensar em Heitor sem que o corpo reagisse. Nenhum aperto súbito. Nenhuma vertigem emocional. Apenas um eco. Foi então que entendi, com uma maturidade que não pedi, mas recebi, que o primeiro amor não é aquele que dura. É aquele que forma cicatriz estrutural. Não some. Não domina. Mas sustenta uma parte da arquitetura interna, invisível, permanente.

Quando a cidade se expandiu entre nós, o amor não soube atravessar. Heitor se tornou uma lembrança viva, não um presente. Alguém que existia em outra parte do mapa e, lentamente, em outra parte da minha vida. Não houve briga final, nem despedida clara. Apenas o desgaste silencioso que transforma o “nós” em passado sem cerimônia.

A cidade seguiu crescendo. E entre dois pontos distantes dela, existiam dois caras que já haviam sido um mundo um para o outro, agora reduzidos a coordenadas separadas no mapa e na memória. Se quisessem se encontrar de novo, precisariam escolher isso. E, às vezes, o amor acaba não por falta de sentimento, mas por falta de escolha.

Eu continuei onde estava. Heitor seguiu para longe. E foi nesse intervalo, entre um bairro e outro, entre o que foi e o que não seria mais, que eu entendi, com uma lucidez dolorosa, que a distância não destruiu o amor. Ela apenas revelou que ele já não era suficiente para sustentar tudo o que havia sido quebrado.

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