— Jom, onde você quer que eu guarde as antiguidades e os baús na casa grande?
O dialeto do norte chamou minha atenção do meu esboço. Procurei Tan, o carpinteiro-chefe local em Chiang Mai, o subempreiteiro que trabalhava para minha empresa, onde eu era arquiteto designado.
— O armazém já está cheio?
— Não, senhor, mas não tenho certeza se as coisas no baú são valiosas, caso construtores as estraguem, duvido que consigam pagar à dama.
— O que tem dentro? Deixe-me dar uma olhada.
Fechando meu caderno de desenho, deixei o pavilhão à beira-mar e desci o caminho de laterita pelo gramado recém-regado. O vento quente soprava suavemente, trazendo consigo o agradável aroma de Lantoms que chegava ao meu nariz. As flores brancas haviam caído no gramado e pareciam pequenos pontos na grama verde brilhante.
Abaixei-me e peguei um, após sentir seu cheiro, o deixei cair no bolso da minha camisa. Se fosse antes, as flores teriam sido plantadas em templos, não em residências, pois o significado de seu nome era sinistro, indicando miséria.
No entanto, depois que o nome foi em toda a Tailândia.
Esta casa foi uma exceção, já que o proprietário anterior já cultivava as árvores há muito tempo. Não tinha certeza se o antigo proprietário era progressista demais para aceitar as velhas crenças ou se ele estava tão desolado e infeliz que encheu o quintal de Lantoms como lembrança.
Desde o pavilhão em frente ao mar ladeado pelos Lantoms e através do gramado espaçoso, abria-se espaço para a enorme casa antiga que se presume tivera cem anos. O edifício de dois andares foi construído ao estilo manila misturado com arquitetura colonial. O primeiro andar tinha paredes de tijolos pintados em concreto, curvados em uma sequência de arcos brancos uniformemente espaçados acima dos caminhos. O último andar era feito de teca quase preta, os telhados eram de quatro águas e duas águas. Os proprietários devem ter sido ricos desde seus ancestrais para possuir tal propriedade com uma grande casa ao lado do rio Ping.
Passei por baixo do arco e subi as escadas até a grande varanda que circundava os dois lados da casa sob as sombras do telhado protetor.
As pinturas nos postes de madeira e no corrimão entalhado descascaram devido à idade, mas a madeira resistiu forte. Dois baús grossos e pesados estavam no chão da varanda, ladeados por um construtor esperando uma ordem sobre o que fazer com eles.
— Vamos ver o que tem dentro. Se for ouro, podemos segurar? — Eu provoquei quando me aproximei.
Tirei o grande chaveiro da minha cintura. O grande dono da casa me deixou todas as chaves caso eu precisasse. O anel continha uma chave de casa, chaves de quarto e chaves pequenas para armários e gavetas.
Eu tentei cada uma delas até encontrar a certa.
Abri o bau e fiquei surpreso porque consistia em pilhas organizadas de quadros, cada uma embrulhada em um pano como se fosse um tesouro do proprietário. Abri o outro baú e também estava cheio de imagens emolduradas, mas também havia um grosso recipiente de madeira escura do tamanho de uma caixa de guardanapos.
A tampa era curva e bem fechada. Peguei-o e tentei fazê-lo funcionar com as chaves, mas nenhuma funcionou.
Devolvi a pequena caixa de madeira ao baú e prendi o chaveiro no meu cinto antes de examinar cuidadosamente as fotos, uma a uma.
— Hmm...? Todos desenhos feitos a lápis! —Eu olhei para eles, atordoado.
Cada pintura era velha, o papel era amarelo. As manchas nos óculos dificultavam a visão, embora o estilo fosse familiar. A maioria das imagens apresentava diferentes ângulos da propriedade: a casa grande, a casa pequena e algumas paisagens. Alguns foram desenhados em detalhes e alguns foram esboçados grosseiramente, como se o artista fosse preguiçoso demais para ser meticuloso. E então eu encontrei algo interessante.
Era um esboço da estação ferroviária de Chiang Mai no passado, que era visivelmente diferente do prédio atual. Isso significava que a imagem deve ter sido desenhada antes da Segunda Guerra Mundial, antes que os Aliados bombardear-se a estação para destruir a rota de transporte japonesa. Foi restaurado anos depois.
— Uau, acho que é absolutamente valioso, Tan. Quero dizer, historicamente. Olha, há várias fotos desta casa grande e da casa pequena, aparentemente antes de algumas reformas. Está vendo aqui, Tan? A sacada dos fundos da casa grande. está intacta.
— Será que é o artista no quarto daquela época?
— Não sei.— Eu neguei com a cabeça. — Mas é definitivamente algo emocionalmente precioso para o dono da casa, considerando como eles foram preservados nos baús. Por que não os colocamos na casinha por enquanto? Ninguém entra lá e pode ser trancado totalmente.
— Boa ideia.— Tan assentiu.
Enrolei as imagens no pano e as coloquei de volta, então meus olhos captaram uma pequena foto emoldurada encostada na parede interna do segundo baú. Peguei-a para verificar. Era uma imagem do pavilhão voltada para o mar diferente da atual.
Presumi que tivesse sido construído simultaneamente com a casa grande, mas foi demolido devido ao abandono e substituído por uma nova.
Meu coração parou estranhamente enquanto olhava para a imagem. Eu me senti feliz e triste. Um sorriso cintilou no canto da minha boca, embora eu não tivesse ideia do porquê.
Parei de sorrir antes que Tan pudesse perceber. Limpei a garganta e instrui ao construtor:
— Coloque isso no quarto da casinha. Vou abrir a entrada para você.
Depois que o construtor guardou tudo como eu desejava, desci as escadas com Tan.
— Quando a senhora da casa chegará, Jom?— perguntou Tan.
— Quarta-feira,— respondi. — Ela vem com os filhos.
A referida senhora era a proprietária do imóvel e a cliente contratou a minha empresa para reformar o casarão, inclusive ampliando-o para transformá-lo em uma galeria. A julgar pelas imagens preservadas nesses dois baús, imaginei que elas estariam em exibição após a conclusão da expansão.
Na verdade, dada a proporção e escala do projeto, não haveria necessidade de entrar em contato com um escritório de arquitetura em Bangkok.
Chiang Mai tem toneladas de escritórios de arquitetura e empreiteiros competentes que cobrariam menos do que os escritórios de Bangkok.
Mas a minha pergunta foi respondida pela explicação de Thanet, o arquiteto-chefe da minha empresa:
— Jom, o cliente solicitou especificamente a equipe de arquitetura que renovou a antiga casa em Khlong San para realizar este projeto.
— Uau... É longe em Chiang Mai e nem é um grande projeto. Porque o cliente escolheu nossa empresa? Será que ele quer uma chave na mão?
Um projeto chave na mão é um contrato que inclui projeto e construção, ou seja, a empresa se encarrega do processo de projeto, construção e envio da equipe para supervisionar a construção até que o projeto seja concluído.
— Não seja por isso! A dona da casa é uma dama da alta sociedade, velha amiga do pai do presidente. Ela e sua família ainda estão no exterior, então ela prefere que um conhecido cuide disso. Essa é uma boa razão?
Hum... era a razão dos ricos com conexões.
— Por que a equipe de arquitetura que renovou a casa em Khlong San especificamente?
— Arquitetos são bonitos, eu acho [brincou Thanet]
Mas consegui dar um sorriso orgulhoso.
— Você foi visto na revista Un e na sua entrevista. Você fez um estágio em Chiang Mai, certo? — Perguntou Thanet.
— Bom,(aumentei minha voz) escolhi fazer um estágio lá por dois meses durante a universidade. No entanto, Un (colega de trabalho de Jom) aceitará ir? Sua esposa está em estágio avançado de gestação. Um deles era outro arquiteto que havia trabalhado comigo no projeto Khlong San.
— Ele não vai —. Thanet balançou a cabeça.
— Ah, isso significa...
— Sim, você vai sozinho.
Minha boca se abriu para argumentar: Poxa...! Só porque eu sou solteiro e não tenho família não significa que eu sou ilimitadamente livre para fazer tudo. A vida é conveniente em Bangkok. Muitos dos meus amigos estão lá. E ser solteiro é sofrer bullying?!!
— Aumento salarial de 2,5. — disse Thanet.— Mmm...?!!
— Espere, deixe-me recuperar o fôlego!aumento de 2,5 é a taxa para arquitetos responsáveis por projetos no exterior!
— Com uma tarifa de gastos diária e uma taxa de lavanderia. Não há campo de construção, então se você alugar um apartamento, a empresa pagará por isso.— Thanet me bombardeou com benefícios.
— Hum...— pensei muito.
Depois de ponderar... por dez segundos respondi:
—De qualquer forma, sinto saudades de Chiang Mai...
E lá estava eu, em Chiang Mai, em frente a um casarão centenário, praticando o dialeto do norte que um dia entendi como estagiário.
Eu entendia e compreendia os significados das palavras, mas ainda não era bom em falar.
— Vou deixar para você na segunda-feira,—lembrei a Tan. — Pois vou me atrasar. Talvez à tarde.
Tan consentiu acenando e prometeu:
— Não se preocupe. Você estará de volta amanhã, correto?
— Sim — eu respondi.— Amanhã será sábado e eu iria supervisionar a construção pela manhã e partindo para Bangkok à tarde.
Eu voltaria para Chiang Mai na segunda-feira, após duas noites.
— Se não houver mais nada, irei para casa agora, Jom. Meus homens estão esperando no caminhão.— Tan fez biquinho para o caminhão onde os construtores estavam juntos na parte traseira.
Eu olhei para o meu relógio. Eram cinco horas da tarde. Esses construtores eram pontuais! especialmente quando chegava a hora de bater o ponto.
— Claro, Tan. Até amanhã.
— Também não volte tarde para casa. Chiang Mai está empoeirada agora. Se você tropeçar em alguma raiz e for nocauteado aqui sozinho, ninguém vai te salvar.
— Bem, meu cadáver não vai apodrecer depois de apenas uma noite.— Eu disse com uma risada.
Tan ligou o motor e partiu. Sentei-me no último degrau da escada na frente da casa e abri meu caderno de desenho para retomar o trabalho no qual havia feito uma pausa antes. O projeto foi concluído internamente na forma de plantas, mas muitos detalhes tiveram que ser adicionados durante a construção. Haviam diversas peças para consertar devido a problemas inesperados e peças que os planos não cobriam totalmente. Até o ladrilho, os construtores me perguntaram se deveria ser estendido do centro ou começar do lado esquerdo ou direito para um resultado ideal.
O pitoresco das coisas teve que ser decidido pelos arquitetos. Sentei-me à sombra da amendoeira de Bengala que se estendia sobre o telhado que cobria a escada externa, com uma brisa ocasional me refrescando.
Por alguma razão, eu gostava mais da casinha do que da casa grande.
Era uma casa de teca de dois andares adequada para uma família pequena, não gigantesca e com vários cômodos como a casa grande. Fiquei muito tempo ali e parei de desenhar quando o céu escureceu.
Levantei-me e espreguicei-me para aliviar a dor antes de me afastar da cabana enquanto pensava onde jantar.
Atravessei a grama sob o céu acinzentado da tarde.
De repente, calafrios percorreram minha espinha. Era como se alguém estivesse me observando.
— ...Poh vamos.
Virei bruscamente em direção à casinha... Na sacada superior, vislumbrei algo semelhante a uma sombra humana. Eu sabia que não havia ninguém lá. Acabei de sair a alguns metros de distância. Se alguém tivesse subido as escadas, eu teria notado. Era um fantasma?
Senti calafrios se espalhando por todas as minhas extremidades, me virei e fui embora sem sequer pensar em comprovar alguma coisa. O cheiro de Lantoms chegou ao meu nariz, mais forte do que à tarde, mas eu estava no gramado da frente! Como podem ser tão aromáticos?
Assim que entrei no meu carro, liguei o motor e acelerei para fora da propriedade sem olhar para trás. Para ser sincero, nem ao menos me atrevi a olhar pelo espelho retrovisor.
Não importa o quanto eu amasse os Lantoms, isso não significava que eu poderia lidar com todas essas situações.
Quinze minutos depois, curti a música no restaurante à beira do rio Ping, do mesmo lado do templo Ket Karam, perto da igreja e de várias galerias da região. O restaurante era um gastrobar que servia comida durante o dia e música ao vivo à noite.
Em uma noite de sexta-feira, estava lotado de pessoas que chegaram cedo para conseguir boas mesas e ficaram até tarde da noite.
A música tocada pela banda na esquina afugentou meu susto recente.
Eu pedi um Frankfurter acompanhado de uma cerveja gelada. Parte de mim queria chamar os engenheiros, mas mudei de ideia. Esses caras bebiam álcool como se fosse água, engolindo-o continuamente sem nenhum sinal de parar. Hoje à noite eu me contentei com uma lata de cerveja.
Eu não queria ficar bêbado ou sentir minha cabeça confusa durante meu trajeto amanhã.
Observando a atmosfera e a música, logo esqueci o terrível incidente na casinha. Peguei meu telefone e verifiquei pela enésima vez se os detalhes do voo e do hotel que eu havia reservado por duas noites estavam corretos.
Em seguida, acessei a galeria do meu celular e rolei as fotos do canteiro de obras até encontrar aquelas que queria ver.
Era a foto de um homem com as mãos atrás do pescoço e sorrindo fracamente para a câmera com a Catedral de Westminster, na Inglaterra, como pano de fundo.
Ele era alto, bonito, com ombros largos e uma personalidade calorosa.
Ele estava voando da Inglaterra para a Tailândia depois de estudar lá por quatro anos.
Meu coração inchou ao ver seu sorriso, o desejo se desenrolando em meu peito. Toquei gentilmente a tela e sussurrei:
— Até amanhã.
Ohm... o primeiro e único namorado da minha vida.
A frase pode não estar errada, mas também pode não estar certa. Não porque não pudesse prever se algo nos mudaria no futuro, mas porque não fazia ideia de que a definição da minha 'vida' iria além do significado e do tempo, muito mais do que eu esperava neste momento.