O sol da tarde queimava o cimento da avenida principal, refletindo-se nas montras dos cafés e nos para-brisas dos veículos que avançavam devagar no trânsito. Entre as vozes masculinas conversando ao celular e o tilintar ocasional de uma moeda no chão, uma figura feminina nua movia-se na calçada: ela caminhava de pés descalços, a pele morena iluminada por gotículas de suor que escorriam da nuca até a curvatura lombar antes de deslizarem entre as nádegas. Não havia camisa, nem saia, nem sequer um cordão de algodão. Estado de nudez absoluta fora, há vários anos, decretado obrigatório para todas as mulheres daquela metrópole costeira, e a cidade inteira parecia ter aceitado o capricho governamental como se fosse uma simples regulamentação de trânsito.
Desde que a lei entrara em vigor, os olhares mudaram de intensidade, mas não de natureza: homens de paletó apertavam o passo para alcançar a visão privilegiada de um mamilo ereto, adolescentes agrupavam-se em esquinas exibindo risinhos nervosos, vendedores ambulantes erguiam as sobrancelhas ao perceber que podiam pôr a mão sem quebrar qualquer norma. Ela, cuja alcunha oficial era Marina, sentira-se humilhada nos primeiros meses, mas agora trazia o corpo erguido pela força do costume e de uma sombria resignação.
A caminhada parecia interminável: a cada dez metros uma mão lhe deslizava pela cintura, outra lhe sondava as coxas, dedos lhe dedilhavam o cabelo como se avaliassem fibra de tecido. Ela reprimia o impulso de afastar as mãos, pois qualquer recusa poderia ser interpretada como insubordinação, punível com detenção ou, pior, com a exposição pública forçada num pelourinho improvisado na praça da Matriz. A certa altura, quando se preparava para atravessar a rua Augusta, um homem rompeu o fluxo de pedestres ao sentir o cheiro acre de suor feminino. Alto, trajando calça jeans surrada e camiseta estampada de uma banda de rock clássico, ele avançou largos passos e posicionou-se rente ao seu corpo antes mesmo que ela tivesse percebido.
A primeira sensação de Marina foi a textura quente dos dedos dele sobre seu ventre: três círculos rápidos que logo migravam para a cicatriz de apendicite, depois subiam deslizando até capturar todo o volume do seio esquerdo. O homem apertou com firmeza, levantando-o suficiente para que o peso natural da gorduda carne produzisse um arrepio de dor e excitação confusas, ambas amplificadas pelo hormônio do medo. Ela parou instintivamente, os joelhos trémulos, peito ofegante. Ao redor, executivos apressados desviavam o olhar, motoristas buzinavam, mas ninguém se deteve para interferir. O costume transformara-se num véu social que encobria o desejo, legitimando-o.
A mão do estranho abandonou o seio apenas para apertar todo o seu torso em concha, como se moldasse barro úmido numa escultura íntima. O polegar roçou o mamilo, tornando-o rijo num estalar de segundos, e aí Marina ergueu a cabeça, tentando devolver um olhar firme. Não conseguiu. Os olhos do homem eram castanhos escuros, quase pretos, com pupilas dilatadas que sugavam luz. Sua boca emitiu um comando rouco e direto. «Quero um boquete agora.» A frase não soou como pedido nem como sugestão, mas como um desfecho inevitável, como se a palavra «agora» fosse um cronômetro que despertara ao toque dos seus dedos. Acomtece que parte da lei exigia que as mulheres aceitassem qualquer pedido para fazer um boquete em quem as exigisse.
Marina sentiu o coração disparar e, um formigamento entre as pernas que a envergonhou. Durante os primeiros anos de lei, ensinara-se a si própria a dissociar mente e carne, mas havia ocasiões, aquelas mais cruas, em que o corpo reagia independentemente. O suor aumentara sob os braços; as faces queimavam. Ela percebeu que a calçada formara um semicículo vago: quatro, talvez cinco homens aguardavam a prontidão com expressões de quem ocupa lugar em fila de banco. Um atirou a mochila ao chão e acendeu cigarro, outro cruzou os braços sorrindo expectante. A cidade prosseguia seu compasso regular: uma bicicleta rangia ao longe, o semáforo clicava, uma porta de banco chiou ao abrir.
Hesitação durou exatamente os segundos necessários para que o homem lhe aprumasse o queixo com a mesma mão que antes massajara seu seio, indicando claramente o próximo movimento. Ela percebeu o deslize do zíper do jeans, o estalo metálico abierto, e viu o volume duro ser libertado num pulo ligeiro — paciente, rijo, já brilhando na glande por uma gota de líquido pré que escorreu como Mercurio prateado. A rua de repente pareceu atingir um silêncio relativo, como se todas as melodias da cidade baixassem volume apenas para que aquele ato fosse ouvido no microfone da vergonha pública.
Marina curvou os joelhos. A peia áspera do cimento ralou-lhe a pele fina, formando um rubor que sangraria se ela tivesse de permanecer ajoelhada por mais de alguns minutos. Em frente agora havia apenas o membro ereto, uma silhueta vascular de tons rosados e púrpura, salpicada de veias azuladas que pulsavam ao ritmo acelerado do coração dele. Ela inspirou: sentia o cheiro salgado de suor masculino misturado a um rasto de desodorante barato, tudo subindo-fazendo-lhe cosquinha nasal. Foi nesse instante que ergueu os olhos, dirigindo ao homem um olhar que combinava súplica, revolta e algo mais estranho — quase um reconhecimento mútuo de que ambos estavam presos num teatro cuja peça nenhum deles escrevera.
O primeiro contato dos lábios com a glande foi frio, quase reverente: ela abriu a boca o suficiente para cobrir o lábio superior com a pele lisa da cabeça, depois fechou em torno, sentindo o volume aumentar instantaneamente em resposta. O homem gemeu baixo, um som rouco que não chegou a formar palavra, apenas pressão de ar contra dentes. Ela deslizou a língua pela fenda uretral, recolhendo o sabor azedo daquela gota inicial, antes de abocanhar metade do eixo, fazendo-o desaparecer num calor úmido. A nuca foi logo tomada por uma mão masculina que, sem forçar, indicava cadência — lentamente, para que os transeuntes pudessem acompanhar a coreografia. A cidade, de fato, permanecia indiferente, mas os observadores próximos estreitaram o círculo um passo, como se temessem perder detalhes.
Com movimentos de bochecha contraída e sucção lenta, Marina começou a subir e descer, fazendo o seu lábio superior roçar a coroa toda vez que voltava ao topo. A mão dele, antes apenas guia, afundou-lhe agora os dedos nos cabelos, impelindo um vai-e-vem mais curto, mais rápido. Ela sentiu o suor do estranho escorregar pelas têmporas e pingar-lhe no ombro nu, unindo-se ao seu próprio suor em pequena riacho quente. O zumbido do trânsito voltou a crescer, talvez porque o semáforo abrira; carros aceleraram, alguém gritara pedido de cerveja na esquina, uma criança chorou ao ser puxada pela mãe para não ver, mas todos esses sons se distorciam num eco distante, pois tanto ela quanto ele se concentravam na cadência de carne contra carne.
Foi então que ele inclinou ligeiramente o quadril, criando ângulo para penetrar fundo a garganta. Marina sentiu a ponta pressionar o palato mole, desencadeando reflexo nauseoso que conseguiu neutralizar contraindo a base da língua. Ao fazê-lo, provocou contração adicional no eixo, e o homem mordeu o lábio inferior, olhos semicerrados, mas não cedendo o controle da supervisão. Num gesto que mais parecia ritual de posse, ele retirou quase todo o comprimento até restar apenas a glande entre seus lábios e, depois, empurrou de volta devagar, insinuando domínio absoluto sobre o movimento. Ela compreendeu a mensagem e abriu mais a boca, relaxando a garganta, entregando-se agora não por obediência mecânica, mas por uma espécie de selo mudo, uma assinatura que dizia: «Esta carne é de todos.»
Encostou a língua de encontro ao veio inferior, massageando-o com força contrária à pressão que sentia na nuca. O sabor do suco pré-esmiuçado adensara-se, lembrando óxido de cobre misturado com mar salgado. A cada descida, ela imprimia um leve estalar de bochecha que ressoava quase musical dentro da própria cabeça, tal era o silêncio concentrado entre os dois. Quando levantou as pupilas outra vez, viu-o fitá-la com intensidade que não era apenas de desejo, mas de avaliação — como se procurasse descobrir se ela seria capaz de sustentar aquilo até o fim. Marina, por sua vez, devolveu-lhe um brilho nos olhos que disse: «Vá em frente, mas não se engane; não lhe darei o gosto de ver prazer em.minha face.»
O homem tornou a respiração mais irregular; o peito largo erguia-se e descia num ritmo sincronizado com o vai-e-vem de ancas. Ela percebeu o endurecimento final, o inchaço que precedia a ejaculação, e apertou por dentro a boca para aumentar a fricção. Não desviou o olhar. Quando ele exalou o gemido-mais-proximo-de-grito, quatro jatos espessos atingiram-lhe a língua numa sequência quente, salgada, avassaladora. O primeiro espirro encheu-lhe diretamente o fundo da boca; ela engasgou levemente, mas manteve-se firme, deixando que o segundo, o terceiro e o quarto respingassem também lábio externo, queixo e parte do seio erguido, viscosos, brancos, cravejando a própria nudez como se ali estivesse sendo revestida por nova pele — úmida, translúcida, inquestionável.
No momento em que o homem soltou o cabo de seus cabelos e recuou um passo, o membro ainda semi-rígido, o suor que lhe cobria a testa banhava igualmente as têmporas de Marina. Ela permaneceu ajoelhada, sentindo o cimento agora queimar de verdade os ossos do joelho, alguns grãos de areia colados ao sangue inicial. Um filete de esperma escorreu-lhe lábios abaixo, caiu no chão, formando pequena poça que, sob o sol, brilhava como madrepérola. O homem recolheu o zíper, mandando-lhe um leve aceno rápido com sobrancelha, quase um agradecimento servil que contradizia o vigor com que exigira o serviço. Antes de virar costas, murmurou quase imperceptível: «Até mais.» O plural da expressão — «até mais» e não um simples «obrigado» — sugeria que não encerraria ali o ciclo, que a cidade girava e ambos voltariam a reencontrar-se noutras calçadas.
Marina limpou o queixo com costa da mão, recolheu um fio que ameaçava despencar, e levantou-se devagar, reequilibrando o peso nos tornozelos. Sentiu o vento agora mais gelado onde a concha de sêmen resfriava na pele. Ao redor, os observadores dispersaram num suspiro coletivo, como se a cortina se fechasse num picadeiro. Sentiu-se humilhada, era difícil entender como a realidade dela mudou. O trânsito retomou intensidade plena, a vida recomeçou, conectada a uma corrente oculta de energia que percorria toda aquela metrópole de mulheres nuas e mãos famintas. Ela pôs um pé à frente do outro, continuou caminho para o mercado, sentindo o gosto persistente de sal e cobre ao deglutir. E, pela primeira vez em meses, permitiu-se sorrir de canto, não de alegria, mas de singelo reconhecimento: embora a lei lhe arrancasse tecido do corpo, algo dentro dela ainda insistia e estabelecia regras para o ritmo.
