Primo, eu ainda te amo! | Capítulo 08: Primo, você é meu.

Um conto erótico de Th1ago-
Categoria: Gay
Contém 4803 palavras
Data: 05/01/2026 01:25:59

A noite estava tão silenciosa que parecia prender a respiração comigo. Eu estava deitado na espreguiçadeira de frente para a piscina, com as pernas estendidas e as mãos apoiadas no peito, sentindo o cheiro úmido do gramado recém-molhado pela rega automática.

O ar morno da madrugada misturava o perfume doce das flores do jardim com o cheiro leve de cloro da água parada, que refletia pedaços da lua como se fossem moedas caídas ali por acaso. A superfície brilhava devagar cada vez que o vento tocava, e eu ficava observando as ondulações como quem observa um pensamento andando por dentro da cabeça.

Lá no fundo, depois do muro dos fundos, o barulho dos grilos formava uma trilha sonora contínua, quase hipnótica. Era aquele tipo de som que deixava a madrugada viva, como se tivesse pulmões e fosse respirando junto comigo. E eu fiquei ali sem perceber o tempo passando, só sentindo aquele vazio meio cheio, aquela mistura de calma e ansiedade que só aparece quando alguma coisa dentro da gente está mudando.

Eu nem ouvi os passos. Só percebi quando uma sombra se inclinou perto de mim e o cheiro familiar de sabonete de banho, misturado com o perfume amadeirado do Caíque, tomou o ar ao meu redor. Ele colocou as mãos nos meus ombros e, com um toque lento, me fez inclinar para a frente. Senti o colchão esticar atrás de mim e, quando voltei o corpo, ele já estava sentado ali, encaixando o peito nas minhas costas como se seu corpo tivesse sido moldado na mesma fôrma que o meu.

O calor dele me envolveu de um jeito imediato.

Ele encostou o queixo no meu ombro, respirou fundo no meu pescoço e, depois de um segundo, cheirou meu cabelo devagar, como se aquele gesto fosse algum tipo de ritual só nosso.

— Já são duas da manhã — ele murmurou com a voz rouca, aquela voz de fim de noite que sempre parece mais verdadeira. — Por que você ainda não foi pro quarto?

Eu fechei os olhos. A respiração dele no meu pescoço deixou um arrepio subir pela minha nuca inteira. Fiquei tentando organizar o que eu queria dizer, mas as palavras escapavam como água entre os dedos.

— Pode parecer bobo… — falei num fio de voz, já sentindo o rosto quente. — Mas desde o primeiro dia que cheguei aqui… eu nunca dormi sozinho sem você. Nem uma noite. Nem quando eu tava mal. Nem quando a gente ainda não tinha… isso aqui.

Ele ficou totalmente imóvel atrás de mim. Senti até o coração dele prender uma batida.

— E agora que a sua irmã vai ficar no seu quarto… e vamos dormir separados… eu não sei como vai ser. Dormir sozinho de novo. Parece que tem alguma coisa faltando.

Por um instante, achei que ele fosse rir ou me chamar de exagerado. Mas Caíque não disse nada. Ao invés disso, passou os dedos devagar pelos fios do meu cabelo, como quem organiza algo precioso, e apoiou a mão inteira na lateral da minha cabeça, acariciando do jeito que ele sabe que me acalma.

A palma dele era quente, grande, firme. E eu encostei um pouco mais, sem nem perceber que estava fazendo isso.

— Se você quiser dormir agora… — ele disse devagar, com a voz baixa, quase soprada no meu ouvido. — A gente pode dormir aqui fora mesmo.

Eu abri os olhos. A piscina refletia nossos dois corpos como borrões azulados.

— Aqui? — perguntei.

— Aqui — ele repetiu. E abraçou minha cintura com os dois braços, encaixando o peito dele nas minhas costas até ficar colado. — Tipo um acampamento. Só eu e você. O céu, a piscina e esses grilos chatos que não se calam nunca.

Eu ri baixinho. Mas quando olhei pra água, quando senti o corpo dele colado no meu, quando ouvi a respiração calma dele atrás de mim, percebi que fazia sentido. Até demais.

Caíque continuou me abraçando, com o queixo apoiado no meu ombro, o corpo firme atrás do meu. A noite tinha um brilho quente, como se o céu estivesse olhando por cima da gente. O ar morno passava pela minha pele enquanto o vento mexia de leve o cabelo dele, que às vezes roçava na minha bochecha.

— Assim você não dorme sozinho. — ele completou, sem soltar meu corpo.

Eu senti o coração apertar de um jeito bom, como se tivesse sido puxado por dentro. Acariciei o antebraço dele com os dedos e deixei minha cabeça cair para trás, encostando no peito dele. Ele apertou meus braços numa resposta silenciosa, tão suave quanto um beijo.

O jardim estava inteiro iluminado pelos postes baixos de luz amarela. Tudo aquilo parecia um cenário montado só pra gente. O cheiro das plantas, da água, da noite quente… Caíque atrás de mim… o toque dele… Era como se cada detalhe estivesse dizendo: fica.

E eu fiquei. Sem pressa. Sem medo. Sem pensar em mais nada além do corpo dele respirando junto com o meu, em perfeita sintonia com o barulho dos grilos e a água imóvel da piscina que refletia o céu como um segredo compartilhado.

Eu não sabia o que ia acontecer amanhã. Não sabia como seria a semana com a Júlia ali. Não sabia nem o que estava acontecendo direito dentro de mim. Mas naquele momento, só naquele momento… eu sabia que não queria sair de perto dele.

Nem acordado.

Nem dormindo.

Nem nunca.

Eu não lembro exatamente em que momento da madrugada eu dormi. Só lembro do som dos grilos ficando cada vez mais distante, da respiração do Caíque atrás de mim ficando mais lenta, do calor do corpo dele me envolvendo pela cintura como se fosse um cobertor vivo. Em algum instante, a noite simplesmente apagou.

Quando abri os olhos de novo, foi por causa de uma luz forte batendo direto no meu rosto. O sol da manhã estava bem por cima da piscina, refletindo na água e acertando meus olhos como uma lanterna celestial. Minhas costas reclamaram imediatamente. A espreguiçadeira parecia bem mais macia quando eu tinha adormecido. Agora parecia uma tábua antiga.

Me espreguicei devagar, soltando um gemido baixo de dor. Assim que mexi os braços, senti Caíque se remexendo atrás de mim. Ele abriu os olhos meio fechados, com o cabelo completamente amassado, e antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele me puxou pela nuca e encostou a boca dele na minha. Um beijo quente, lento, e tão de bom dia que parecia ter gosto de sol.

— Bom dia — ele sussurrou, ainda colando a testa na minha.

— Bom dia — respondi, rindo baixinho enquanto massageava a parte baixa da minha coluna. — Acho que eu vou morrer. Minhas costas acabaram.

— Eu também tô arrebentado — ele riu, esfregando o ombro como se tivesse carregado sacos de tijolo a madrugada toda. — Dormir aqui não vai dar certo mais não.

— Nunca mais — falei, tentando levantar. — Eu tô torto.

— Bora levantar antes que alguém veja. Temos que ir pra escola — Caíque disse, ainda com aquele sorriso preguiçoso que deixava o rosto dele bonito de olhar.

Entramos na casa sem fazer barulho nenhum e assim que abrimos a porta de vidro, o clima mudou imediatamente. Meu tio estava sentado no sofá da sala, totalmente sério, falando ao telefone com a testa franzida. Ele estava de camisa social, como se já tivesse começado o dia horas antes. A cena pareceu um choque térmico, saímos de uma madrugada leve para um ar pesado de responsabilidade.

Quando ele nos viu entrando, desligou na hora e se levantou.

— O que vocês estavam fazendo lá fora a essa hora? — perguntou.

Eu senti minhas palavras evaporarem. — E-eu… a gente… eu só…

— A gente foi ver a constelação que aparece antes do amanhecer — Caíque interrompeu, rápido, com a cara mais cínica e convincente do mundo. — Eu acordei cedo e chamei o Alec pra ver. Eu curto essas coisas, sabe? Céu, estrelas…

Meu tio levantou uma sobrancelha, desconfiado, mas não insistiu. Ele sempre teve uma ponta de dificuldade em conversar com o Caíque.

— Vocês têm que se arrumar. Não se atrasem.

Saímos quase correndo da sala. Senti o olhar do meu tio queimando minha nuca até virarmos no corredor. Quando chegamos na porta do quarto, abrimos devagar. A Júlia estava deitada no meio da cama, dormindo profundamente, abraçada a um travesseiro enorme, com uma meia de cada cor e o cabelo espalhado como uma tempestade. O quarto parecia ter sido reivindicado por ela completamente.

Eu olhei para o Caíque e ele abriu um sorriso discreto, apontando para o chão e fazendo sinal de silêncio com o dedo. Pegamos nossos uniformes quase como ladrões entrando numa mansão, desviando de objetos invisíveis, andando de lado, segurando a respiração quando o colchão dela rangia minimamente. Cada um foi tomar banho em um banheiro diferente, porque qualquer outro cenário seria pedir para o universo brincar com nossa sorte.

Quando descemos para tomar café, o cheiro de pão quente e café passado tomou a cozinha inteira. A Olga estava circulando como se tivesse três pares de braços.

— Sentem meninos, comam logo. Vocês estão pálidos, parece até que não dormiram — ela disse enquanto colocava queijo e frutas na mesa.

Eu e Caíque trocamos um olhar rápido, segurando o riso.

— Dormimos sim, Olga — falei, tentando parecer natural, mesmo com o ombro travado.

— Dormimos muito — Caíque comentou, fazendo uma cara tão séria que deu vontade de rir.

Ela desviou o olhar para o fogão, balançando a cabeça sem acreditar. Depois de alguns minutos de café bem comportado, descemos para a garagem.

O carro estava quente por dentro, com aquele cheiro de couro que sempre me dava a sensação de riqueza que eu ainda não entendia muito bem. Assim que entrou, Caíque pressionou um botão no painel. Uma parede interna subiu atrás dos bancos da frente, deixando a gente totalmente isolado do motorista. Só nós dois naquele pequeno mundo fechado.

Assim que a divisória travou no lugar, ele se virou completamente para mim. O rosto dele estava sério, mas não era preocupação. Era intensidade. Daquelas que dá vontade de ajeitar a postura.

Eu senti o coração acelerar sem pedir permissão.

Toquei a mão dele devagar, entrelacei nossos dedos e beijei o dorso da mão dele.

— Por que você tá quieto? — perguntei, procurando o olhar dele como quem procura calor.

Ele prendeu a respiração por um segundo antes de responder.

— Porque a gente vai ter que ser muito cuidadoso. — A voz dele era baixa, firme. — Na escola, aqui em casa. Com meus pais. Com a Júlia. Com todo mundo. Tudo isso que tá acontecendo entre a gente… precisa ser só nosso por enquanto.

Meu peito apertou, mas não doeu. Senti uma coisa estranha, acho que foi aquele tipo de aperto que diz que a coisa é real e que é grande.

— Eu sei — respondi. — Mas eu tô aqui.

Ele apertou minha mão com força, como se dissesse sem palavras: eu também.

O carro seguia num silêncio confortável, quase como se a divisória tivesse engolido todos os sons do mundo lá fora. Caíque ainda segurava minha mão, passando o polegar pelo meu dedo como se estivesse desenhando um mapa secreto na minha pele. E eu… eu devia estar com a expressão mais idiota do planeta. Um sorriso solto, leve, meio desgovernado, daqueles que escapam sem pedir permissão.

Foi só quando percebi que eu tava sorrindo sozinho, feito alguém que acabou de ouvir um segredo proibido, que eu virei pra ele.

— Você falou “o que temos” — eu disse, meu coração fazendo pequenos cambalhotas dentro do peito. — O que a gente tem, Caíque?

Ele me encarou com aquela calma perigosa que só ele tinha. Os olhos escuros, brilhando como se guardassem algo que ainda não tinha sido totalmente revelado. Ele respirou fundo antes de responder, sem nem piscar.

— A gente tem química. — A voz dele era firme, íntima. — A gente tem paixão. — Ele aproximou o rosto um pouco, só o suficiente pra minha respiração tropeçar. — E eu tô… amando tudo isso. Amando você aqui comigo assim. Eu espero que um dia a gente possa ficar junto sem preocupação nenhuma. Sem esconder. Sem olhar pros lados. Isso… claro… se você quiser.

O mundo ficou quente. Pequeno. Intenso. Parecia que tudo dentro de mim tava sendo aceso ao mesmo tempo. Meu sorriso abriu mais ainda, tão espontâneo que minhas bochechas até doeram.

— Eu quero — respondi, e não precisava pensar nem meio segundo. — É a primeira vez que eu me sinto assim com alguém. De verdade.

Ele sorriu também, mas o sorriso dele tinha algo diferente. Era profundo, quase orgulhoso, quase terno demais pra ser do Caíque que todo mundo conhecia. Ele soltou minha mão só pra pegar meu rosto com as duas mãos, puxando-me devagar, como se eu fosse algo precioso demais pra ser tocado de qualquer jeito.

O beijo veio lento. Muito lento. Um beijo que não precisava provar nada, não precisava correr, não precisava esconder quem éramos ali dentro daquele carro. Era um beijo que dizia “eu sinto”, sem abrir a boca pra falar. A boca dele encontrou a minha com calma, com carinho, com aquela intensidade que parecia queimar sem machucar. Cada toque parecia um capítulo novo começando.

Quando ele se afastou, encostou a testa na minha e fechou os olhos por um segundo.

Ficamos assim. Mãos dadas. Polegares entrelaçados. Corações em desordem organizada.

Até o carro virar a última esquina que levava à escola.

Eu achei que estava preparado para a “vida real” lá fora, mas assim que o carro estacionou em frente à escola, meu coração pareceu entrar num labirinto escuro. A do carro se abriu como se a liberdade do mundo estivesse invadindo nosso pequeno esconderijo.

Ele me olhou pela última vez antes de sair. Um olhar rápido, mas profundo, que parecia dizer tudo que não poderíamos dizer ali fora.

— Lembra do que eu falei — ele murmurou. — Cuidado. E… calma.

Eu assenti. Mas calma era justamente o que meu peito não tinha.

Assim que ele colocou o pé no pátio da escola, como se a cena tivesse sido ensaiada, Bianca surgiu do nada, um salto, um perfume doce demais, um brilho exagerado. Eu só consegui pensar que ela parecia uma daquelas borboletas que pousam sem pedir licença onde querem.

— Caiqueee! — Ela alongou o nome como se fosse música.

E antes que eu piscasse, ela já estava jogando os braços no pescoço dele e dando um beijo estalado na bochecha dele. Bem perto da boca para o meu gosto. Bem longe do que eu conseguiria suportar com tranquilidade.

Eu senti meu estômago virar um nó. Um nó apertado, quente, irritante.

Caíque endureceu um pouco, só quem conhece ele perceberia, mas devolveu um sorriso educado. Educado demais.

— Oi, Bianca.

Eu parei alguns passos atrás, abraçando meu material como se fosse um escudo. O som dos alunos entrando, as conversas, as risadas… tudo virou pano de fundo. Só existiam eles dois ali. E eu vendo.

Bianca ficou na frente dele, empinando o corpo, brincando com o cabelo, sorrindo daquele jeito planejado que tinha destino certo.

— Achei que você ia me mandar mensagem ontem! — ela disse, dando um tapinha no braço dele.

Ele desviou os olhos só um segundo. Para mim. Rápido. Quase invisível. Mas suficiente para incendiar meu peito.

— Eu… tava cansado — ele respondeu.

Mentira. Ele estava dormindo comigo na espreguiçadeira, com o nariz no meu cabelo. Dormindo comigo. Mas ela não precisava — e nunca poderia — saber disso.

Eu virei o rosto para não demonstrar nada, mas parecia que meu sangue estava fervendo. Era ciúme. Era mais forte do que eu queria admitir.

E doía.

Caíque percebeu. Eu sentia. Eu via no jeito que o ombro dele ficou tenso, no jeito que ele engoliu seco antes de Bianca continuar falando sem parar.

— O grupo tá planejando ir no shopping hoje, você vai, né? — ela insistiu, inclinando mais ainda o corpo para ele.

Ele respirou fundo. Um fundo que eu reconheci como “estou ficando irritado, mas preciso manter a pose”.

— Não sei ainda.

Foi quando os olhos dela finalmente encontraram os meus. Um deslizar de cima a baixo, um julgamento silencioso.

— Ah… é o novato, né? — ela disse, com um sorriso enviesado.

Eu só assenti. Não tinha nem voz.

Caíque cortou o momento na hora.

— Vamos, Alec. A gente vai se atrasar.

Meu nome saiu firme, como se fosse um puxão. Como se fosse dele.

E algo dentro de mim acendeu outra vez.

Bianca arqueou a sobrancelha, surpresa pela atenção dele em mim, mas não disse nada. Ainda.

Caíque passou pela lateral dela e parou ao meu lado. Só um segundo — um segundo que ninguém mais parecia notar — e o braço dele roçou no meu. De propósito. Um toque rápido. Pequeno. Mas tão cheio de intenção que me desmontou inteiro.

— Vem — ele disse baixinho, sem olhar para mim. — Anda.

Fui.

Mas o ciúme ficou ali, latejando no fundo da garganta. Eu sabia que não tinha o direito de fazer cena nenhuma. Não tinha nome, status, título, nada que me colocasse no lugar de “pode encostar”, “pode reclamar”, “pode afastar Bianca do caminho”.

Eu só tinha o que tínhamos dentro do carro. O que ninguém podia ver.

E aquilo me consumia.

Entramos no corredor principal da escola. Caíque caminhava ao meu lado, mas com um palmo de distância entre nós. Um palmo que parecia um abismo. A cada passo eu sentia a brisa da manhã esfriar aquilo que tinha sido tão quente na madrugada.

Ele estava quieto. Mais quieto do que o normal. Pensando. Ou guardando algo.

Eu respirei fundo. Me virei um pouco para ele, quase sussurrando:

— Ela… gosta de você, né?

Ele engoliu o ar. Não esperava a pergunta.

— Alec… — ele começou, sem ironia, sem deboche. — Eu falei pra você lá no carro. O que eu quero…

Ele parou quando um grupo de alunos passou por nós correndo.

Depois retomou, olhando reto:

— O que eu quero é você. — disse ele me encarando — Primo, eu sou seu.

Meu coração deu um tropeço tão forte que eu quase errei o passo.

Caíque continuou:

— Mas aqui é diferente. Aqui tem gente olhando. Tem gente falando. E… a Bianca acha que tem algum tipo de direito sobre mim. Mas não tem. Não mais.

Eu senti o ar ficar mais leve. Um pouco. Só um pouco.

— Você ficou incomodado? — ele perguntou, sem disfarçar a curiosidade.

Eu soltei uma risada curta, nervosa.

— Claro que fiquei.

Ele sorriu. Um sorriso pequeno, mas cheio de significado.

— Bom. Eu também fico quando alguém fala com você demais, tipo aquele seu amigo lá...

A gente virou para o corredor das salas. E antes de qualquer aluno olhar pra gente, ele se aproximou um pouco, só o suficiente para que eu ouvisse:

— E isso… — ele murmurou. — Isso significa que a gente tem alguma coisa de verdade.

Senti meu rosto esquentar. Meu peito abrir. Meu coração virar luz.

Eu ainda estava sorrindo quando Bianca reapareceu no fundo do corredor olhando a gente com uma expressão diferente.

Uma expressão que dizia: tem algo errado aqui.

Algo que ela ainda não entendia.

Mas ia querer entender.

O corredor já estava ficando cheio. Grupos surgiam de todos os lados, aquele caos organizado de todo início de manhã. Eu ainda sentia a marca quente do que Caíque disse ecoando no peito quando, de repente, um grupo barulhento da minha turma apareceu.

— Olha ele aí! O Alec bebedeira! — um dos meninos gritou, como se estivesse anunciando um campeão olímpico.

Outro bateu no meu ombro com um entusiasmo que quase me jogou contra a parede.

— Mano, você virou lenda na festa da Júlia! Juro que eu nunca vi alguém beber daquele jeito e continuar em pé. Você é fenômeno!

Meu olhar procurou Caíque que estava encostado nos armários com cara de poucos amigos, parece que agora era a vez dele sentir ciúmes.

Alguns meninos começaram a imitar a forma como, aparentemente, eu estava dançando no final da noite. Algo entre uma minhoca desengonçada e um poste tentando ganhar vida.

Eu só consegui rir, meio sem graça, meio aliviado por não lembrarem das partes que envolveram Matheus tentando empurrar bebida goela abaixo.

A Júlia surgiu logo atrás, radiante como sempre.

— Alec, pelo amor de Deus, você foi o auge da minha festa! — ela disse, segurando meu rosto entre as mãos por um instante. — Já quero outra pra semana que vem, porque eu preciso ver esse show de novo. E você não vai ter desculpa pra fugir.

Antes que eu pudesse responder, eles começaram a me puxar em bloco para a sala de aula.

Olhei para trás de relance.

Caíque ficou lá parado no corredor, sozinho. Um contraste absurdo com toda a bagunça ao redor dele. Ele não sorriu, não acenou. Só ficou ali, quieto, assistindo a cena com um olhar que misturava ciúme, preocupação e um daqueles pensamentos internos que ele sempre tenta esconder mas que eu já começo a saber ler.

O estômago dele falava pelos olhos.

Ele queria estar ali comigo. E não podia.

Entrei na sala ainda com aquela sensação quente no peito. O barulho diminuiu um pouco. Felipe já estava no lugar de sempre, mochila aberta, cara de sono eterno.

— E aí, sumido — ele disse, com aquela voz arrastada típica de quem não acordou completamente. — Achei que você tinha morrido ontem.

— Eu? — puxei a cadeira. — Você que sumiu.

Felipe colocou a mão na testa, como se lembrasse de algo vergonhoso.

— Mano… mano… quase passei vergonha com a Júlia. Juro. Eu tava muito perto de falar besteira pra ela. Você me abandonou na hora H. Eu te mandei mensagem e você nem respondeu. Zero, nada, sumiço total.

Engoli seco. Ele falava alto demais. A sala era barulhenta, mas ainda assim parecia que o teto iria ouvir minha vida inteira.

— É… aconteceu uma parada — eu disse, baixando o tom.

Felipe arregalou os olhos, já interessado.

— Ah não. Lá vem. Conta.

Respirei fundo. E contei.

Contei do Matheus vindo pra cima de mim, do jeito irritante dele, da bebida sendo empurrada, de eu quase explodir. Contei do desafio idiota que fizeram com meu nome. Contei de como Caíque apareceu do nada no meio da bagunça e me tirou dali como se estivesse carregando um tesouro em perigo.

Felipe ouviu tudo muito quieto, o que por si só já era estranho.

Quando terminei, ele piscou devagar.

— Então… deixa eu ver se eu entendi. — Ele juntou as mãos como se estivesse fazendo uma análise séria. — O Caíque entrou numa festa que nem era da turma dele… pra te tirar de uma situação de merda… te levou embora… e ainda cuidou de você depois?

— É.

Felipe mordeu o lábio, pensativo. Depois riu, nada sutil.

Felipe se ajeitou na cadeira, apoiou os cotovelos na mesa e ficou me olhando como se estivesse juntando peças de um quebra-cabeça invisível. Ele esperava que eu continuasse falando, mas eu omiti exatamente a parte que queimava em mim: eu e Caíque.

Ainda não era hora. Talvez porque aquilo parecia frágil demais para ser tocado na luz da sala. Talvez porque eu ainda estava tentando entender o que éramos.

— E cara… — Felipe suspirou, a culpa escorrendo pela voz. — Eu preciso pedir desculpa. Sério. Eu devia ter te ajudado. Te tirado de lá. Te defendido. Sei lá, qualquer coisa. Mas fiquei preso naquela rodinha idiota com a Júlia e deixei você sozinho. Foi muita vacilação minha.

— Ei — falei baixinho, encostando o cotovelo no dele. — Não fala assim. Não foi culpa sua.

Ele franziu o cenho, como quem ainda não se perdoou.

— Foi sim. Você tava passando sufoco e eu nem vi.

— Felipe… — respirei fundo. — Eu fiquei mal, mas tô bem agora. E você sempre me ajuda. Sempre. Não precisa ficar carregando isso.

Ele desviou o olhar, mexendo no estojo, claramente querendo acreditar em mim, mas tropeçando no próprio remorso.

Então aproveitei a chance de mudar a energia.

— Tá… e você e a Júlia? — ergui uma sobrancelha. — Rolou alguma coisa? Porque vocês tavam bem… íntimos na festa.

Felipe quase engasgou com o ar.

— Intensos. A gente tava intensos, Alec — corrigiu, teatral, colocando a mão no peito. — Quase uma novela das nove. Juro que, se tivesse trilha sonora, seria algo forte, sei lá, tipo um Rock bem pesado.

Ri alto, esquecendo por alguns segundos do peso que eu carregava no peito.

Ele continuou:

— A gente conversou muito, riu muito, ficou bem colado… achei que ia rolar alguma coisa de verdade.

— E aí? — perguntei, sincero.

Felipe fez um gesto largo com as mãos.

— Aí nada. No dia seguinte ela estava sóbria e… mano… ela parecia outra pessoa. Nem olhou muito pra mim. Suave, educada, mas distante. Sei lá. Fiquei com a sensação de que ela arrependeu de ter ficado tão próxima de mim. Ou que percebeu que eu não sou o tipo que ela curte.

— Não fala isso — falei. — A Júlia é assim com todo mundo. Ela é calor e gelo dependendo do horário. E você sabe… festa não é realidade. É tipo… um universo paralelo.

Felipe riu, balançando a cabeça.

— Ah, Alec… tu sempre tenta deixar as coisas bonitas.

— Eu tento deixar menos tristes — corrigi, levantando uma das sobrancelhas.

Ele me deu um sorriso torto. Um sorriso de amigo, daqueles que dizem “obrigado” sem precisar falar.

Mas enquanto Felipe falava sobre a Júlia, algo cutucava minha mente por trás da conversa:

Caíque no corredor.

Parado.

Me olhando ser levado pelos outros.

Com ciúme na boca e preocupação nos olhos.

Eu tentava agir normal, conversando sobre festa, sobre a Júlia, sobre qualquer coisa.

Mas meu coração…

meu coração ainda estava sentado com ele no banco do carro, segurando sua mão, ouvindo ele dizer:

“o que temos”.

E eu dizendo que queria.

A aula passou rápido demais. Ou talvez tenha sido eu que passei por ela sem realmente estar ali.

As vozes dos professores viraram ruído de fundo, o quadro parecia sempre fora de foco, e eu me peguei mais de uma vez rabiscando o canto do caderno sem perceber o que estava fazendo. Toda vez que o pensamento escapava, ele ia parar no mesmo lugar: no carro, no jeito que Caíque tinha me olhado, na forma como ele disse “o que temos” como se fosse algo precioso, frágil, quase secreto.

Quando o sinal tocou, eu levei um susto. A sala inteira começou a se mover ao mesmo tempo, cadeiras arrastando, mochilas sendo jogadas nas costas, conversas se cruzando no ar. Felipe se levantou do meu lado, batendo a mão na mesa.

— Bora? — ele perguntou.

Assenti, ainda meio fora do corpo.

Saímos juntos, misturados no fluxo de alunos indo em direção ao pátio. O sol da tarde entrava forte pelos corredores, desenhando sombras longas no chão. Eu avistei Caíque mais à frente, caminhando com alguns colegas. O corpo dele tinha aquele jeito relaxado de quem não carrega peso nenhum nos ombros. Só de vê-lo, algo em mim já se ajeitava por dentro.

Acelerei um pouco o passo.

Foi quando tudo aconteceu.

Bianca surgiu correndo pelo pátio, como se estivesse atrasada para alguma coisa importante. O cabelo solto balançava de um lado pro outro, a mochila pendurada em um ombro só. Antes que eu entendesse o que estava acontecendo, ela alcançou Caíque por trás e pulou nele num abraço rápido, impulsivo.

Ele ainda tentou virar o rosto, surpreso.

Mas não teve tempo.

Bianca se colocou na frente dele, segurou o rosto dele com as duas mãos e o beijou.

Não foi um beijo rápido.

Não foi discreto.

Não foi nada que pudesse ser confundido.

Foi um beijão.

O mundo inteiro pareceu parar naquele segundo.

Eu fiquei imóvel, no meio do pátio, com o barulho ao redor ficando distante, como se alguém tivesse mergulhado minha cabeça debaixo d’água. Meu peito apertou de um jeito estranho, quase físico. Não era raiva. Não era ciúme puro.

Era… queda.

Como se eu tivesse dado um passo em falso e o chão tivesse simplesmente desaparecido.

Caíque não me viu. Ou talvez tenha visto, mas não teve tempo de reagir. Bianca ainda falava alguma coisa, rindo, encostada nele, enquanto segurava a mão dele como se aquilo fosse natural. Como se fosse óbvio. Como se sempre tivesse sido assim.

Eu engoli em seco.

Senti os olhos arderem, mas não chorei. Não ali. Não na frente de todo mundo. Apenas fiquei parado, encarando a cena, tentando convencer meu corpo a se mexer e falhando miseravelmente.

Ao meu lado, Felipe também parou.

Eu senti o olhar dele em mim antes mesmo de virar o rosto. Quando olhei, encontrei a expressão dele mudando. O sorriso leve que ele trazia segundos antes desapareceu, dando lugar a um silêncio atento, quase desconfiado.

Ele alternou o olhar entre mim e a cena à frente.

Uma vez.

Duas.

E então ficou me observando.

Como se, naquele instante, alguma coisa tivesse finalmente se encaixado para ele.

Eu voltei a olhar para Caíque e Bianca, congelado, com o coração pesado demais para caber no peito.

E ali, no meio do pátio cheio, cercado de gente e barulho, eu tive a sensação nítida de que algo dentro de mim tinha acabado de se quebrar.

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Comentários

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Muito difícil ambos não sofrerem muito escondendo tudo...mas é assim que se aprende, né? 😉

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Alguns leitores brasileiros podem estranhar eu referir-me às personagens, sempre no feminino, quer se trate de personagens masculinas os femininas

Em português-PT todos os substantivos terminados em "agem" são do género feminino. Sem exceções.

Viagem, atrelagem, aterragem, embalagem, moagem, personagem, tiragem, embraiagem, viagem, coragem, mensagem, paisagem, passagem, linguagem, homenagem, garagem, etc., são todas do género feminino.

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É claro que coloquei parágrafos no meu comentário anterior, escrito com tanta dificuldade dentro destas janelas ridiculamente minúsculas mas, ao enviá-lo, desapareceram todos, o que lamento.

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Os parágrafos continuaram, amore.

E tô muito feliz em ler todos eles ❤️😍

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Este não é o primeiro conto, da sua autoria, que tenho o prazer de ler no pântano da CDC. Existem alguns autores que me motivam para vir aqui quando recebo alertas das suas edições. O Th1ago é, sem dúvida, um dos que mais desperta o meu interesse.

O seu primor literário deixa-me completamente rendido. E saber que, no Brasil, existe alguém com tal domínio da língua portuguesa enche-me de júbilo.

A Língua é a nossa Pátria e sinto um orgulho enorme de a partilhar consigo. Ultrapassa quaisquer atlânticos e fronteiras.

Além disto, a sua criatividade temática é espantosa.

Todavia constato que recorre ao anacronismo da prolepse em vários dos seus contos.

É claro que usa este estratagema narrativo para suscitar suspense nos leitores desde o início.

Parece-me um exagero desnecessário de permeio com a riqueza dos enredos que tem a criatividade de engendrar e que, por si só, já conquistam o interesse dos leitores.

Acabei de ler, agora mesmo, os oito capítulos deste conto de uma assentada. Absolutamente aliciantes.

Mas o uso da prolepse pesou em mim do princípio ao fim. Nos três últimos capítulos não consegui apreciar a beleza do despertar do amor entre os dois primos adolescentes apesar da excelência da sua narrativa.

Só de saber que tudo vai acabar no casamento de uma personagem, com a outra estaticamente paralisada sentada num banco da assistência, mergulhada numa solidão irreversível, boicota completamente a minha capacidade de apreciar o despontar do amor entre os dois jovens.

No caso deste conto, a prolepse gera um obstáculo impossível de transpor ao longo de toda a restante leitura.

O amor entre as duas personagens soa a falso, cínico, quase oportunista, desde o início, perdendo aquela auréola da ingenuidade da entrega que deslumbra a descoberta do primeiro amor entre adolescentes.

Só me resta a esperança de que aquele casamento não seja o fim do conto. Seria de um sadomasoquismo fatalista que já dói nas estórias gays. É o alentar de uma desesperança de vidas perdidas que nem merecem ser vividas. Triste. De uma tristeza que subjuga a leitura do conto inteiro.

Finalizo com os meus parabéns contundentes que ultrapassam, de longe, a crítica feita.

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Oiê, tudo bem?

Primeiro quero agradecer por seu comentário e dizer que estou muito feliz que está gostando.

Não sei se foi pra você ou outra pessoa que comentei sobre isso em um dos contos, mas temos que levar em consideração que os contos lançados em partes tem uma pegada diferente de um livro inteiro de uma vez.

Aqui lemos as coisas fracionadas, sem saber o que vai acontecer depois, diferente quando o livro está todo publicado e temos toda nossa opinião de uma vez.

Aliás, esse conto não é pra ser um livro único, e sim um livro de duas partes, então, acredito que com essa informação já sabe que pode confiar em mim, né? Hahaha

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É REALMENTE PARECE QUE BIANCA NÃO TEM DOMÍNIO NENHUM SOBRE CAÍQUE. IMAGINA SE TIVESSE. RSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSS

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Estou curtindo cada detalhe desta história, rs! Complicado pra Alec fingir que nada tá acontecendo, quando dentro dele um vendaval de emoções está caindo... Tem muitos altos e baixos vindo aí, continue logo! Rs...

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O ruim de escrever romance adolescente é que eles são adolescentes. Pensamos com a cabeça de hoje adultos mas temos que levar em consideração a idade dos personagens. 😢

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