De manhã, peguei o táxi, com minha mala, para percorrer o canteiro de obras conforme o planejado. Quando cheguei, fiquei surpreso ao ver os construtores reunidos em frente à casa pequena, haja vista que nosso trabalho atual fosse reformar a casa grande.
— O que houve, Tan? — Eu perguntei antes mesmo de chegar lá.
— O galho quebrou e atingiu o telhado da casa ontem à noite, Jom — explicou Tan. — No topo da escada.
Olhei para cima e vi um galho do tamanho de uma coxa preso no teto.
— Uau, espera! Ele perfurou o teto?
— E também o chão da sacada! Disseram que o vento estava forte ontem à noite, como se fosse chover.
— Ele atingiu outras partes do telhado principal?
Preocupado, fui para a casinha. O telhado e o piso poderiam ser consertados, mas eu estava com medo de que as coisas dentro fossem danificadas ou roubadas... Ontem havia uma sombra.
A casinha era um prédio de teca de dois andares. O grande telhado que cobria a casa era de quatro águas, enquanto os telhados laterais eram de duas águas com uma parte que se estendia sobre a escada externa em forma de L que conduzia ao andar de cima.
Evitei as tábuas de pouso perfuradas pelo galho caído. Car@###! Eu não encomendei os materiais para a casinha e agora preciso consertá-la. Olhei para o teto. Uma fileira de telhas foi arruinada. Três alças quebradas. A viga estava a salvo, felizmente!
Subi até o último andar e atravessei a varanda, que contornava a casa em forma de U, até o corredor interno. Abri a porta do quarto para verificar as coisas ali guardadas. O quarto estava escuro, mesmo que fosse meio-dia. Fui até a janela e a abri para deixar a luz entrar. O quarto estava como quando cheguei ontem. O telhado estava intacto. A cama de dossel estava encostada na parede, sem nenhum outro móvel à vista. Suspirei de alívio ao ver os dois baús em segurança em seus devidos lugares, sem nenhum sinal de tentativa de arrombamento das fechaduras.
Eu movo meus olhos para a parede. Uma foto emoldurada enfeitava a parede de madeira. Mostrava um senhor, o antigo dono da casa, que parecia ser um Phraya [1], junto a sua esposa, seus dois filhos e uma filha. Os cinco estavam parados no gramado em frente ao casarão, com expressões inexpressivas como as de pessoas do passado, puxadas ao tirar fotos. Eles não sorriam alegremente ou faziam sinais de paz como as pessoas modernas.
Eu levantei minha cabeça. A foto era muito antiga, mas surpreendentemente eu não estava com medo. Em tese uma foto dessas, de mortos, não deveria nos assombrar? Ela não deveria acalmar meu coração como está o está fazendo agora.
Pelo que Thanet havia me contado, a atual dama proprietária do imóvel era a sobrinha que se mudou aos Estados Unidos e deixou a casa abandonada por dez anos. O motivo era que ela estava com o coração partido pelo general, seu marido, levando descaradamente a amante da idade de seu filho, para eventos sociais sem os cuidados e respeito para com a sua esposa. Consequentemente, ela levou os filhos para estudar nos Estados Unidos e planejava nunca mais voltar.
Dessa forma, seus filhos não teriam que assistir seu pai idolatrar seu amante na mídia. Eu me perguntei a que o fez mudar de ideia e querer voltar agora… Respeitei a foto (com sinal de reverência) e sussurrei:
— Se você quer que eu conserte esta casa com sucesso, mantenha o vento e a chuva sob controle até eu voltar.
Fechei a sala e encontrei Tan no gramado.
— Preciso encomendar madeira e telhas para consertar o telhado da casinha o mais rápido possível. Por favor, diga aos construtores para se livrarem do galho primeiro. Cuidado para não quebrar mais nada.
— Tudo bem! — Tan prometeu. — O espírito guardião da casa provavelmente não queria que você fugisse e decidiu pará-lo.
Eu ri!! O humor de um velho com certeza alegrou o clima.
— Bobagem. Estarei de volta em dois dias.
Tirei meu telefone do bolso para relatar o problema à minha empresa para que eu pudesse fazer o pedido rapidamente. O sinal estava tão ruim que tive que me aproximar do rio para fazer uma ligação adequada. Eu precisava lidar com isso antes da minha hora de partida. Esperei pelo Ohm por anos. Eu não deixaria que um galho caindo no telhado me atrapalhasse!
Depois de lutar para fazer a ligação e uma longa explicação, finalmente terminei. Corri até a frente do imóvel para chamar um táxi que me levaria ao aeroporto.
Tan ficou na casa pequena, observando os construtores cortarem o galho em pedaços menores para facilitar a remoção do mesmo, mas quando ele se virou para olhar para mim, ele ficou paralisado, com o rosto pálido como se tivesse acabado de ver um fantasma. Eu estremeci e disse:
— O que houve, Tan? Você está tendo insolação? Descanse um pouco.
— Você não estava na casinha?
— Não. — Eu balancei minha cabeça. — Eu desci por um momento.
— Acabei de ver você na sacada, você me chamou e estava prestes a descer, mas aí o Noi me perguntou se eu queria que ele cortasse o galho inteiro. Eu parei para responder e quando me virei novamente, você tinha sumido!
— Pois teus olhos te preparam uma peça. Eu estou no telefone há meia hora na parte de trás do quintal, o sinal é mais forte lá.
— Bom… — Tan engoliu a seco com os olhos arregalados e terminou aí.
— Que...
— Alguns o chamam de espectro — disse Tan em voz baixa. — Aparece quando essa pessoa está prestes a sofrer uma má sorte.
Eu fiquei sem palavras. Era como um doppelgänger ou o gêmeo do mal? O Tan com certeza era moderno. Eu presumi que ele assistia a muitos filmes. Ele até conhecia lendas urbanas estrangeiras.
— Bobagem.
— Mas se você tiver que dirigir, tenha cuidado. E se tiver a chance, vá e faça alguma oferenda.
— Obrigado por sua preocupação, mas fique tranquilo.— Eu sorri. — Hoje eu vou de táxi!
No momento em que o táxi parou, pulei para dentro, com medo de perder meu voo. O carro disparou pela estrada que contornava o fosso da cidade velha, lindamente ladeado por árvores douradas com cachos de flores amarelas desabrochando. Árvores Bungor roxas e rosadas cobriam a grama com suas pétalas caindo. Foi uma visão tão espetacular que desejei que a Autoridade de Turismo da Tailândia promovesse seriamente esta área. Talvez pudesse equilibrar como os tailandeses voavam para o Japão para ver as flores de cerejeira na mesma época do ano. Infelizmente, o ar estava carregado de poeira e fumaça. Estava nublado como se estivesse na Névoa. É o ponto fraco de Chiang Mai durante esta época do ano, onde a taxa de smog (poluição) está acima do padrão.
O uso de máscaras é promovido, mas é melhor abster-se de atividades ao ar livre para prevenir doenças respiratórias. Peguei o avião por causa do último anúncio de embarque. Levei cerca de uma hora no avião para finalmente chegar a Bangkok. Enquanto pegava a conexão ferroviária do aeroporto de Suvarnabhumi para a estação Phaya Thai, enviei uma mensagem de texto para minha irmã informando-a de que visitaria minha casa em Chonburi em duas semanas. Ela respondeu:
— Compre cachorros-quentes para mim, a mamãe quer morangos doces. O papai não quer nada. Basta comprar qualquer coisa para ele. Qualquer coisa. Ele pode comer tudo de qualquer maneira.
Eu sorri com a resposta da minha irmã. Minha família morava em Chonburi. Eles possuíam uma marca de loja de conveniência que se expandia por toda a Tailândia. Minha irmã, Somjeed, estava no último ano da universidade. Eu poderia ir para casa esta semana, mas adiei porque queria ver alguém que meus pais provavelmente também gostariam de conhecer. Eu não estava livre esta semana, mas podia esperar. Eu esperei por anos, afinal de contas. ... Ah, meu amado!
Estamos juntos há quase quatro anos. Nós nos conhecemos quando eu era um estudante de arquitetura do quarto ano e Ohm estava no último ano da mesma universidade, estudando economia. Ohm veio passar um tempo com seu amigo no dormitório onde aluguei um quarto. Nós nos encontramos na frente do elevador, então continuamos nos encontrando na universidade, no hall da residência e no hall do elevador. Um dia ele finalmente parou no ponto de ônibus em que eu estava e perguntou se eu precisava de uma carona.
Nossa história não foi tão emocionante quanto a dos livros, que eram cheios de lutas e disputas de amor. Era simples e natural, embora muitas vezes fizesse meu coração bater mais forte. Foi um dos momentos mais felizes da minha vida. Nós nos beijamos pela primeira vez no carro dele, no estacionamento do dormitório em um dia de chuva. Estava chovendo tão forte que eu não conseguia ouvir mais nada. No entanto, eu consegui ouvir a voz dele clara como o dia quando me disse: "Te amo".
Uma frase curta porém extremamente impactante. Não importa quantos anos tenham se passado, essas palavras ainda estão claras em minha mente. Eu sinto como se as tivesse ouvido apenas alguns minutos atrás. Mesmo que Ohm tenha ido estudar no exterior, causando nossa separação, meus sentimentos por ele e o impacto causado por essas palavras nunca desapareceram.
Eu fiz toda a viagem sorrindo. Nem o calor que senti quando troquei de estação me incomodou. Eu não conseguia evitar, era mais forte que eu! Eu estava feliz. Fiz o check-in no hotel próximo ao shopping da estação BTS Asok. Eu havia reservado uma suíte júnior, espaçosa, com uma bela vista e uma cama grande. O colchão era incrivelmente macio. Achei bem caro, mas achei que valeria a pena.
Eu não estava pensando em nada pervertido. Depois de sonhar acordado no quarto e rolar na cama sozinho, esperando que duas pessoas rolassem nela amanhã à noite, peguei o ARL para o aeroporto novamente ao anoitecer.
Esperei no portão de desembarque. Um tempo depois, vi a família de Ohm indo para lá, seus pais e Ant, sua irmãzinha. Aproximei-me para cumprimentá-los.
— Boa noite, — eu disse, minhas mãos cruzadas sobre o peito em sinal de respeito.
Eu os tinha visto duas vezes quando Ohm não tinha voado para a Inglaterra. Seus pais pareciam surpresos em me ver, mas muito felizes, enquanto Ant cruzava as mãos sobre o peito e sorriu para mim.
— Jom, já faz um tempo. Como você está? — A mãe de Ohm perguntou.
— Eu tenho estado bem. E vocês dois?
— Estamos velhos, frágeis e fracos, mas não é nada sério. Ah... que bom que você está aqui para recebê-lo. Achei que vocês dois tivessem parado de se falar. Isso é bom! Vocês continuam sendo irmãos.
— Irmãos?! — (É verdade, eu estava confuso. Eu nunca foi irmão de Ohm. Tudo bem... às vezes agiamos assim em áreas públicas, mas quando estávamos sozinhos, sempre éramos outra coisa. E Ohm nunca escondeu isso de sua família.)
Ant foi a primeira a perceber que algo estava errado. Ela franziu a testa antes de estender a mão para segurar meu braço e dizer:
— Jom, já faz um tempo, me compre um café?! Estou com sede. Já voltamos, mãe.
Ela me arrastou para o outro lado onde havia um café. Em vez de pedir seu café, ela se aproximou até que eu pudesse ver claramente seus grandes olhos redondos, então perguntou:
— Você não sabe, não é?
— Não sei?
O aperto estranhamente forte em meu braço me pegou de surpresa. Uma expressão estranha surgiu no rosto de Ant, como se alguém estivesse prestes a gritar de desconforto. Eu também tive um vislumbre de tristeza. Ant tomou fôlego e continuou:
— Quando foi a última vez que você falou com Ohm?
— Conversamos há duas semanas. Ohm disse que voltaria para a Tailândia hoje.
Os olhos da menina se arregalaram em sinal de surpresa!
— E ele disse para você esperá-lo aqui? Uau, isso foi longe demais!
— O quê? Não é grande coisa. Meu vôo durou apenas uma hora.— Eu disse a ela com um sorriso.
— Ohm não me disse para buscá-lo. Ele me disse para esperar em Chiang Mai e ele voaria para lá depois de amanhã, mas eu estava livre, então vim para cá para surpreendê-lo pois sentia sua falta.
Nesse momento Ant parecia que ia chorar e disse:
— Ele sabe que você está aqui?
— Não, é uma surpresa!
— Ai meu Deus... merda, desculpe. Eu não queria xingar. — Ant parecia inquieta, mordendo os lábios e muito preocupada. — Jom é…como devo te contar isto...?
Meu coração sacudiu e eu pensei: O que aconteceu? Será que… Ohm sofreu um acidente? Perguntei:
— O que houve? O que aconteceu com ele? Ele está doente...? O que há de errado com ele? — Eu perguntei rapidamente.
Art balançou a cabeça e disse:
— Não... Vamos fazer o seguinte; Onde fica
o seu hotel?
Eu disse o nome do hotel, ainda confuso.
— Por que você não volta para lá primeiro e eu te ligo. Ou eu vou até lá, pode ser?
Comecei a sentir algo incomum. Uma sensação estranha.
— Por que você não me conta o que está acontecendo? Eu não vou voltar assim.
Ant estava prestes a puxar seus próprios cabelos, mas finalmente ela desistiu, pegou meus braços e começou a falar:
— Jom, me escute! Respire fundo e se recomponha.
— Ohm...!!
Seus olhos instantaneamente se arregalaram em pânico. — Ah! Merda… Tarde demais!
Eu segui seu olhar o olhar de pânico dela que se dirigia a Ohm. Ele estava saindo pela porta, empurrando um carrinho com duas malas enormes. Minhas pernas estavam leves, meu coração batendo forte. Ohm ainda era o mesmo, alto, rosto bonito, aparência encantadora e sorriso caloroso. Eu fiquei um pouco surpreso quando o sorriso dele se voltou para alguém próximo a ele.
— Com quem ele vem? — Eu perguntei.
— Essa é... a noiva de Ohm, Kaimook.
Eu balancei minha cabeça em direção a Ant. Ant parecia constrangida.
— Por favor, não faça barulho. Não sei o que fazer agora. Eu sinto muito... Por favor, acalme-se. Eu imploro.
Arrepios percorreram todo o meu corpo enquanto Ant continuava se desculpando como se fosse culpa dela.
— Você não está brincando, está?
Ant balançou a cabeça em sinal de negativa. Eu me virei para Ohm novamente. E agora eu pude ver claramente a mulher agarrando o braço de Ohm com a mão. Ela era bonita, alta e elegante. Ambos se aproximaram e cumprimentaram os pais dele, e eles responderam com prazer. Minha cabeça estava girando, meu cérebro parecia incapaz de processar toda aquela situação.
— A quanto tempo isto...? — Eu disse com voz trêmula.
— Que eles ficaram noivos?... ah, já faz um mês.
O meu mundo caiu…
— Jom! — Ant segurou meu braço, indevidamente desconfortável. Mas não tive pena de ninguém neste momento.
— Eu vou dizer oi! — Puxei meu braço para trás, sem me importar se parecia cruel e rude, e caminhei até Ohm.
Eu não ousava acreditar... Ohm? Aquele que disse que me amava e me beijou suavemente faria tal coisa? Eu não conseguia acreditar. Quando eu estava perto o suficiente para eles perceberem, Ohm se virou.
— Jom...! — O rosto dele ficou pálido.
Eu parei, percebendo imediatamente. No momento em que os nossos olhos se encontraram, ele transmitiu tudo o que Ant havia dito. O Ohm que eu havia perdido estava aqui, mas não da maneira que eu esperava. Cumprimentei Ohm, com o rosto dormente e as mãos geladas.
—Boa noite, Ohm. Bem-vindo de volta à Tailândia.
— Jom... você está aqui? — Ele parecia ainda estar em choque.
Eu o olhei nos olhos. Minhas emoções correram soltas. Eu fiquei chocado... Como ele pôde fazer isso comigo?
— Como não estaria? — Minha voz falhou, mostrando um tom de tristeza.
— Jom...— Ohm não conseguiu dizer mais nada, apenas seus olhos refletiam
preocupação e desculpas.
A dor invadiu meu peito, penetrando com mais intensidade do que qualquer outro sentimento.
— Eu tenho que ir embora agora. Nós conversamos mais tarde.— Eu me virei para seus pais, minhas mãos cruzadas sobre o peito: — Sawasdee Krap!.
O choque foi tanto que nem lembro de como voltei do aeroporto para o hotel. Minha cabeça estava borbulhando de perguntas, enquanto os sentimentos em meu coração eram uma mescla de amor, decepção, raiva, mágoa, descrença, desaprovação. Mas no final, eu tive que acreditar que aquilo tudo foi real.
Afundei na cadeira estofada perto da grande janela que dava para as luzes da cidade. Peguei meu telefone e disquei o número de telefone do qual eu me lembrava muito bem. Ohm respondeu logo, sua voz não estava abafada nem gaguejava, era como se ele não estivesse tentando evitar minha ligação. Ele estava dolorosamente calmo.
— Jom, este não é o melhor momento para conversarmos. Eu irei ao seu
hotel amanhã.
— Por que não agora?
— Não deveriamos conversar agora.
— Por quê? Qual é a diferença? Se você vai partir meu coração de qualquer maneira, vai doer agora ou amanhã. Eu não quero esperar até de manhã. Eu quero conversar agora.
Ele parou do outro lado.
— Não, Jom. Temos que conversar pessoalmente. Confie em mim. Vá descansar. Conversaremos amanhã pela manhã.
Ohm desligou enquanto meu telefone ainda estava na minha mão. Mudei meu olhar para a janela de vidro, não olhando para fora, mas para o reflexo nela. O rosto que eu via todos os dias no espelho parecia diferente hoje. Mostrava tristeza, do tipo que eu nunca havia presenciado antes.
De manhã, Ohm me encontrou conforme prometido. Sentamos um de frente para o outro no canto do restaurante do hotel.
— Desculpe o atraso,— começou Ohm. — Mamãe queria que eu fizesse umas oferendas com ela primeiro.
— Não há necessidade de se desculpar. Não estou bravo com isso.
Ohm congelou.
— Então você está realmente namorando aquela mulher? Vou direto ao ponto, sem perder tempo.
— Sim. —, ele respondeu com firmeza.
— Quando? Quando você a conheceu?
— Meio ano atrás. Ela é filha do meu conselheiro.
Meu coração doía como se alguém o tivesse esmagado com um martelo.
— Então, o que éramos todo esse tempo?
Ohm olhou para mim, sem hesitação em seus olhos.
— Você sabe que foi amor.
— E ela? Aquela mulher. Qual é o nome dela...? Kaimook? Você também se apaixonou por ela? Ou você estava tão insuportavelmente solitário que se conectou com alguém cegamente?
Suas sobrancelhas escuras se juntaram.
— Jom, não diga isso.
— Por quê? Você está chateado? E quanto a mim? Eu também estou chateado. Por que você não me contou há quatro ou cinco meses atrás? Como você pôde me deixar esperar por você?!
— Eu não queria terminar com você por telefone! Você não era simplesmente meu parceiro sexual temporário. Você era meu namorado, meu amante.
Eu estava atordoado. Suas palavras chegaram com firmeza, como se ele não tivesse ideia de que o que ele vomitou estava me destruindo brutalmente por dentro.
— Você me amava... então por que você fez isso comigo? Quão fodido você está para surgir com algo assim?
Seus belos lábios estavam apertados. Ele não deu desculpas para o ocorrido.
— Você vai se casar com ela, certo? — Eu disse, em tom amargurado.
— Ela está grávida de mais de um mês. Estamos planejando nosso casamento.
Era esse o motivo? Ele estava assumindo a responsabilidade de engravidar uma mulher...Inacreditável! Eu só tinha ouvido esse tipo de história em novela.
— Foi um erro? — Eu perguntei.
— Não.— Disse ele.
Sua resposta me deixou sem palavras.
— Não foi um erro. Eu amo Kaimook.
— E daí? Eu não entendo. Você a ama, mas também me ama. Você está dizendo que nos ama igualmente, mas vai se casar com ela porque ela está grávida e eu não posso?
Ohm de repente parecia exausto. Sua voz era suave, áspera, cansada, como se estivesse com dor.
— Amar igualmente... Isso não existe, Jom.
Espantado, senti como se um raio tivesse atingido minha cabeça. Não era dor. Foi um horror inesperado que logo se transformou em fúria em massa. Minhas mãos tremiam enquanto eu olhava para o homem que amei por quase quatro anos.
— Você… — Minha voz tremeu quando minhas palavras saíram como um jargão. — Afaste-se de mim. E de agora em diante, pelo resto da minha vida, nem mesmo mostre seu rosto ou diga uma única palavra para mim. Não importa o quão feliz ou triste você esteja, não entre em contato comigo. Apenas vá e morra da minha vida.
— Jom…
— Vá embora! — Eu gritei! cerrando os punhos. Outros clientes vieram até nós, mas eu não me importei. Eu só queria que o homem à minha frente fosse embora.
Ohm ficou parado como se esperasse que eu mudasse de ideia, no entanto, eu equer queria olhar para ele.
— Eu sei que minhas desculpas não significam nada para você.— A voz de Ohm era suave, mas firme. — Mas espero que você saiba que sinto muito pelas coisas terem acontecido desse jeito, e sei que um dia você vai me perdoar mesmo que eu não o mereça. Esse é o tipo de pessoa que você é, a pessoa pela qual eu me apaixonaria uma e outra vez se não tivesse conhecido Kaimook. Não tenho desculpas, mas espero que você saiba que eu nunca me arrependo de ter amado você.
E se foi.
Fiquei ali sentado por um longo tempo, juntando os pedaços do meu coração dilacerado por alguém pisando nele como se não fosse nada. Resolvi voltar para Chiang Mai na tarde daquele dia. Arrumei minhas coisas, fiz o check-out e liguei para a companhia aérea para alterar meu voo de regresso, sem me preocupar com o custo da diferença. Saí do saguão do hotel e me dirigi para a passarela que liga a estação BTS Asok ao shopping com o metrô. Eu saí apressadamente como todos os outros lá.
E então parei de andar e fiquei rígido, no meio da passarela da estação BTS, deixei minha mochila cair no chão, aos meus pés, enquanto eu absorvia toda aquela enxurrada de emoções. Antes, ainda com o choque, eu fiquei tão perplexo com a onda de emoções que não conseguia distinguir ou perceber profundamente a existência delas. Mas agora essas emoções estão me atingindo, de forma lenta e profunda, uma por uma, sem se conter...
Em meio ao barulho do trânsito abaixo, as conversas e pessoas passando, eu percebi a solidão crescendo em um pequeno ponto do meu peito. Ele se expandiu a toda velocidade até me engolir inteiro. Eu estava só. Eu olhei em volta e apesar de haver muitas pessoas ao meu redor, eu me sentia vazio, como se estivesse em pé sozinho em uma cidade deserta sem uma única alma por perto.
...Apenas vá e morra da minha vida.
Eu havia dito essas palavras sem saber que a morte realmente nos separaria... E não seria a morte dele.
Cheguei em Chiang Mai no final da tarde. A visibilidade era tão terrível que o piloto teve que voar em círculos por algum tempo antes de pousar. Assim que cheguei ao meu hotel, peguei a chave do carro e me dirigi a algum restaurante como destino, qualquer lugar que vendesse álcool naquele momento. Se ter a consciência clara tornasse a dor mais evidente, então eu escolheria a opção que sentisse menos dor.
O céu da tarde estava mais nublado do que o normal por causa do clima. Eu me impulsionei pela estrada que corre ao longo do rio Ping o mais rápido que pude, quase acima do limite de velocidade. Aumentei o volume da música para abafar a voz na minha cabeça, não suportava mais ouvir meus pensamentos.
— Sei que minhas desculpas não significam nada para você, mas espero
que saiba que sinto muito.
'Pedaço de merda!'.
— Você sabe que foi amor.
Cerrei os dentes, reprimindo a raiva e a tristeza que cresciam continuamente. Minhas pálpebras estavam quentes, mas eu não queria desperdiçar minhas lágrimas com isso. Com esse maldito mentiroso. Independentemente disso, as emoções às vezes se recusam a ser controladas, mesmo sendo nossas. As lágrimas logo embaçaram minha visão, tornando mais difícil de enxergar a estrada coberta de poluição. Inclinei-me para secar minhas lágrimas com meu antebraço e o telefone em meu bolso tocou. Eu olhei para ele. Aquele momento foi um erro...
Nunca pensei em acabar com a minha vida. Eu nem planejava dirigir de volta esta noite se eu ficasse bêbado. Meu carro derrapou para a outra pista em alta velocidade quando peguei
meu telefone. Quando voltei meus olhos para a estrada novamente, a luz irrompeu na névoa, seguida por uma longa buzina. Meus olhos se arregalaram em choque quando desviei meu carro no último segundo.
Sobrevivi ao acidente que havia conseguido evitar, mas meu carro bateu no guarda-corpo, colidindo com ele, dividindo-o ao meio, em seguida mergulhei na água turva através da névoa estranhamente densa. SPLASH!
Por um momento, acho que vejo a luz brilhar como um raio, tão brilhante que tenho que fechar os olhos. Meu corpo é então envolvido por uma massa de água.
Eu não quero morrer... eu não quero morrer assim! Não quero que meus pais fiquem tristes porque o filho deles cometeu suicídio por desilusão amorosa quando isso não é verdade.
Em pânico, meu corpo despenca como se estivesse sendo sugado para o centro do redemoinho. Não faço ideia de como saí do carro. O zumbido em meus ouvidos não parou. Eu tento lutar contra tudo, mas sem sucesso. Eventualmente, o último suspiro de ar escapa, ele se esgota e sou forçado a respirar a água em vez do ar fresco. Meu corpo não está mais em movimento instantaneamente, flutuando imóvel como se estivesse no vácuo. Eu não ouço nenhum som. Está estranhamente quieto. Um segundo depois, uma força imensa me puxa para cima, um movimento improvável na água. Meus ouvidos estão cobertos. Eu me aconchego, minhas mãos voando automaticamente para cobri-los, antes de sentir meu corpo romper a superfície da água.
— Ha, ha...!
Eu suspiro por ar, enchendo meus pulmões vorazmente, quando minha cabeça está fora d'água. Eu tusso violentamente, engasgando com a água, mas tento me manter à flutuando. Então eu nado com pressa para a beirada mais perto.
Eu nado com sucesso em direção à beirada e suspiro na margem do rio, todo o meu corpo está doendo. Eu fico lá deitado até que minha exaustão diminua. Finalmente, eu consigo me levantar e olhar a minha volta. Mas que lugar é este? É a vida após a morte? Se for, está diferente do que li nos livros que diziam que tinhamos que atravessar a nado o Rio da Morte até a terra do outro lado, a terra que só as almas dos mortos podem acessar. Mas isto aqui parece o mundo humano.
Tem terra, pedras, árvores, insetos cantando e até um barco atrás dos arbustos amarrado à margem do rio. É apenas de noite e eu devo estar confuso pelo ocorrido. Eu cambaleio no chão e olho para a escuridão diante de mim, então vejo uma luz distante e decido ir até lá. Quando estou perto o suficiente, descubro que é a luz da lâmpada piscando em um terraço. ...Uma casa!
Eu grito em minha mente com alegria enquanto corro.
— Oi, por favor, me ajude?! Eu caí no rio e subi até aqui —. Eu grito quando
vejo duas figuras se movendo no terraço.
As figuras ficam imóveis quando ouvem minha voz, e permanecem em silêncio. Eu gostaria de poder esperar mais, mas não posso. Estou encharcado e preciso de ajuda. Decido subir os degraus enquanto explico:
—Desculpe, preciso incomodá-lo, eu caí no rio e nadei até a sua casa. Não sei como
chegar à estrada, por favor me ajude.
Sob o brilho da lâmpada, eu pude distinguir que as figuras sombrias pertenciam a um homem e a uma mulher. O homem vestia uma camisa de algodão do norte e calças de pescador. A mulher se escondia atrás das costas dele. Ambos pareciam surpresos com a minha aparência.
— Ah... senhor.
Foi tudo o que eu consegui dizer quando fui surpreendido com um pé me
chutando e me fazendo cair de bunda.
— Oh! — Gritei.
— E-Kammoon, vá para o barco — o homem ordena impacientemente para a mulher.
A mulher desce as escadas correndo, na direção do rio. Eu me levanto apesar da dor. De olhos esbugalhados sem entender o que estava acontecendo, eles me arrastaram pelo pescoço e me empurram em direção a uma porta aberta.
— Espere... Por favor, me escute — eu gaguejei.
O mesmo pé me chutou no estômago. Ele me jogou pela porta e eu caí cambaleando.
BAQUE!
Minha cabeça bate no pilar e eu desmaio. Recupero a consciência e ouço pessoas conversando. Também vejo a luz se infiltrando no ambiente pelas tábuas de madeira. Sinto-me atordoado, minha cabeça está latejando e gemo de dor. Eu toco o lado esquerdo da minha cabeça, que está inchado como uma laranja. Dói onde está a pequena ferida, o sangue que escorria agora está seco e selou o corte.
— E-Kammoon, levante-se. Você é um servo ou um chefe, caramba?" Uma mulher vocifera na frente da porta. Eu me viro para ela.
A porta se abre, revelando uma mulher em um sinh e um pano escuro enrolado no peito. Mantemos o olhar um no outro por cinco segundos antes dela gritar e fugir.
Em um momento, todo o inferno se abre. Sou arrastado para fora da sala por um homem másculo vestido como se fosse fazer uma dança de espada no Centro Cultural de Artes. Ele usa apenas uma tanga curta, mostrando os músculos do peito e as pernas rasgadas.
— Quem é você?! — ele berra depois de me jogar no terraço. Posso ver agora que é uma pequena casa de madeira com folhas de Phluang como telhado.
— Eu... me perdi. E nadei até aqui…
Antes que eu pudesse terminar, uma garota ruge furiosamente, descendo as escadas.
— Eu lhe disse para vigiar por uma noite. Qual é o problema agora, E-Mei?"
O dono da voz aparece. Ela é uma mulher gordinha na casa dos cinquenta com ... peitos, seios nus, caídos e balançando! Eu congelei! Não é como se eu nunca tivesse visto peitos antes, mas nunca esperei vê-los aqui e agora.
Ele estava no quarto quando eu abri a porta. A menina da manhã esclarece.
— Se eu tivesse sabido que era um homem, eu não teria conseguido dormir. O que vou fazer se as pessoas descobrirem?
— Pare com essa besteira, E-Mei, — disse a mulher sem sutiã que parecia brava. — Você não estava na mesma sala com ele.
— Mas estava sob o mesmo teto. — Insiste Mei que não desiste.
O outro a ignora e se vira para mim.
— Quem é você?
— Eu... — Eu não sei como responder. — Meu nome é Jom.
— Por que você fingiu ser uma mulher?
— Eh...? — Estou completamente confuso.
— Ontem à noite, quando Oui-Ta te mandou aqui, você era uma mulher. Como você se tornou um homem pela manhã?
— Isso está errado! — protesto. — Eu nunca fingi ser ninguém. Cheguei aqui ontem à noite pelo rio e fui chutado pra esse quarto, mas eu não estava fingindo ser ninguém.
— Por que você fala em um dialeto central e não do norte? Que garoto estranho. — A mulher sem sutiã olha e se vira para o homem de topless. — Ai-Ming, fique de olho nele. Vou contar ao chefe que Oui-Ta nos enganou. Ele nos mandou um filho em vez de uma filha.
A mulher sai furiosa, deixando-me aqui sentado, tonto de dor de cabeça e confuso com o homem chamado Ming, que me olha irritado....O que diabos está acontecendo?
— Quem é você? Oui-Ta não tem filho. Você é sobrinho dele? — perguntou Ming.
Balanço a cabeça negando, sem saber o que mais dizer.
— Eu disse que me perdi.
— Como você se perdeu no quarto da Mei? — Seu rosto expressa desprezo. — Estamos ferrados. Oui-Ta vendeu sua filha imediatamente. Por que ele mandou um homem? Ele sabe que o chefe estrangeiro prefere mulheres.
Algo aqui está errado. Acho que não saí da água para uma margem normal. Agora que penso nisso com a cabeça calma, como alguém pode respirar na água por quase uma hora e emergir à noite?
Existem duas possibilidades: ou eu estou sonhando ou estou vivendo a vida após a morte. Eu anoto o primeiro. Não preciso me esbofetear para saber se é sonho, porque ainda sinto os chutes da noite passada, sem falar na cabeça inchada. O chute foi real. A dor era real. Nada de fingimento. Eu escolho perguntar:
— Senhor... Ah, seu nome é Ming, certo? Você já morreu alguma vez?
Ele olha para mim como se eu fosse louco.
— Que tipo de pergunta é essa! Se eu morresse, como poderia estar aqui?
Eu olho para suas têmporas e seu pescoço... Ela está certo. Suas veias salientes pulsam provando que seu coração bate. Eu tento provar isso sentindo meu pulso no punho. Sim, de fato não somos espíritos. Estamos respirando. Estamos vivos.
Percorri a casa Lanna coberta de folhas Phluang, pessoas vestidas como atores em um drama de época, e a palavra-código, 'chefe estrangeiro'. Eu suspiro e com meu coração disparado... Não. De jeito nenhum.
— Ming, deixa eu te perguntar mais uma coisa. Que B.E. é esse?
— Bee-Eee? — Ming parece desconcertado.
Eu mudo a pergunta.
— Quero dizer... Quem é o governador da província? Espere, espere, quero dizer, o rei, o líder da cidade, o... Oh, certo, quem é o governante desta cidade? Você sabe?
Ming para de olhar para mim como se eu fosse louco, em vez disso, ele parece pensar que sou estúpido. Ele responde:
— Claro que sei.
Ele levanta as mãos cruzadas sob o peito em sinal de respeito ao pronunciar o nome:
—Príncipe Kaew Nawarat, o governante de Chiang Mai.
Arrepios correm da raiz do meu cabelo até os dedos dos pés....Merda!!!.
Posso não ser excelente em história ou ter conhecimento, mas eu sei disso! Visitei vários lugares históricos em Chiang Mai. Príncipe Inthawichayanon, Príncipe Intawaroros Suriyawong, Príncipe Kaew Nawarat. Os nomes de outros príncipes do norte surgem na minha cabeça, respectivamente, como se eu estivesse lendo um livro de trás para frente. Eu vou chorar.
Acho que viajei no tempo para o Sexto Reino, a época em que os estrangeiros tiveram um papel importante em Chiang Mai, o período anterior à guerra!