A saga do Jom | 2° capítulo

Um conto erótico de Sarawat
Categoria: Gay
Contém 5697 palavras
Data: 05/01/2026 10:46:31
Última revisão: 23/01/2026 13:41:13

Pela manhã, peguei um táxi com minha mala para percorrer o canteiro de obras, conforme o planejado. Quando cheguei, no entanto, fiquei surpreso ao ver os construtores reunidos em frente à casa pequena, haja vista que nosso trabalho atual fosse a reforma da casa grande.

— O que houve, Tan? — perguntei antes mesmo de me aproximar.

— Um galho quebrou e atingiu o telhado da casa ontem à noite, Jom — explicou Tan. — Bem ali, no topo da escada.

Olhei para cima e vi um galho da grossura de uma coxa atravessado no teto.

— Uau, espera! Ele chegou a perfurar o teto?

— E também o chão da sacada! Disseram que o vento estava fortíssimo ontem à noite, como se fosse cair um temporal.

— Ele atingiu outras partes do telhado principal?

Preocupado, apressei-me em direção à casinha. O telhado e o piso poderiam ser consertados, mas meu maior medo era que as coisas lá dentro tivessem sido danificadas ou, pior, roubadas... Afinal, eu não esquecera a sombra que vira ontem.

A casinha era um prédio de teca de dois andares. O telhado principal era de quatro águas, enquanto os laterais eram de duas águas, com uma parte que se estendia sobre a escada externa em forma de "L" que conduzia ao andar de cima.

Evitei as tábuas do patamar que haviam sido perfuradas pelo galho. Caramba! Eu não havia encomendado materiais para a casinha ainda e agora precisaria consertá-la às pressas. Olhei para o teto: uma fileira de telhas fora arruinada e três alças estavam quebradas. Por sorte, a viga principal estava intacta.

Subi até o último andar e atravessei a varanda, que contornava a casa em forma de "U", até o corredor interno. Abri a porta do quarto para verificar os objetos guardados. O cômodo estava escuro, apesar de já ser meio-dia. Fui até a janela e a escancarei para deixar a luz entrar. O quarto estava exatamente como eu o deixara ontem; o telhado ali estava em perfeito estado. A cama de dossel permanecia encostada na parede, sem nenhum outro móvel à vista. Suspirei de alívio ao ver os dois baús em segurança em seus devidos lugares, sem qualquer sinal de arrombamento.

Meus olhos vagaram pela parede até encontrarem uma foto emoldurada que enfeitava a madeira antiga. Ela mostrava um senhor, o antigo dono da casa — que parecia ter o título de Phraya [1] —, junto à sua esposa, dois filhos e uma filha. Os cinco estavam parados no gramado em frente ao casarão, com as expressões solenes típicas das fotos antigas. Eles não sorriam alegremente ou faziam sinais de paz como as pessoas modernas; apenas encaravam a câmera com uma seriedade eterna.

Ergui a cabeça para observá-la melhor. A foto era antiquíssima, mas, surpreendentemente, não senti medo. Em tese, uma imagem de pessoas já falecidas não deveria nos causar calafrios? No entanto, aquela foto não me assombrava; pelo contrário, ela trazia uma paz estranha ao meu coração.

Pelo que Thanet me contara, a atual proprietária era a sobrinha do falecido, que se mudara para os Estados Unidos e deixara a casa abandonada por dez anos. O motivo fora um coração partido: seu marido, um general, levava descaradamente uma amante da idade do próprio filho para eventos sociais, sem qualquer respeito pela esposa. Consequentemente, ela partira com os filhos para o exterior, planejando nunca mais voltar para que eles não tivessem que assistir ao pai idolatrar outra mulher na mídia. Eu me perguntava o que a fizera mudar de ideia e querer retornar agora...

Em sinal de respeito, fiz uma pequena reverência diante da foto e sussurrei:

— Se você quer que eu conserte esta casa com sucesso, mantenha o vento e a chuva sob controle até eu voltar.

Fechei a sala e voltei para encontrar Tan no gramado.

— Preciso encomendar madeira e telhas para consertar o telhado da casinha o mais rápido possível. Por favor, diga aos construtores para se livrarem do galho primeiro. Cuidado para não quebrar mais nada.

— Tudo bem! — Tan prometeu. — O espírito guardião da casa provavelmente não queria que você fugisse e decidiu pará-lo.

Eu ri! O humor de um velho com certeza alegrou o clima pesado da manhã.

— Bobagem. Estarei de volta em dois dias.

Tirei meu telefone do bolso para relatar o problema à empresa e agilizar o pedido de materiais. O sinal estava tão ruim que tive que me aproximar da margem do rio para conseguir completar a ligação. Eu precisava resolver aquilo antes da minha hora de partida. Esperei por Ohm durante anos; não deixaria que um galho caído no telhado me atrapalhasse agora!

Após lutar com o sinal e dar uma longa explicação, finalmente terminei. Corri até a frente do imóvel para chamar o táxi que me levaria ao aeroporto. Tan permanecia na casinha, observando os construtores cortarem o galho em pedaços menores para facilitar a remoção. Mas, quando ele se virou para olhar para mim, ficou paralisado, com o rosto pálido como se tivesse acabado de ver um fantasma. Eu estremeci.

— O que houve, Tan? Está tendo uma insolação? Vá descansar um pouco.

— Você... você não estava na casinha agora mesmo? — gaguejou ele.

— Não — balancei a cabeça. — Eu desci faz tempo.

— Acabei de ver você na sacada! Você me chamou e estava prestes a descer, mas aí o Noi me perguntou se eu queria que ele cortasse o galho inteiro. Eu parei para responder e, quando me virei novamente, você tinha sumido!

— Pois teus olhos te pregaram uma peça. Eu estou no telefone há meia hora na parte de trás do quintal, o sinal é mais forte lá.

Tan engoliu em seco, com os olhos arregalados, e o assunto morreu ali.

— O que foi...?

— Alguns o chamam de espectro — disse Tan em voz baixa. — Aparece quando a pessoa está prestes a sofrer uma grande má sorte.

Fiquei sem palavras. Era como um doppelgänger ou um gêmeo do mal? O Tan com certeza era moderno; presumi que ele assistia a muitos filmes para conhecer lendas urbanas estrangeiras.

— Bobagem.

— Mas se você tiver que dirigir, tenha cuidado. E se tiver a chance, vá fazer alguma oferenda.

— Obrigado por sua preocupação, mas fique tranquilo — sorri. — Hoje eu vou de táxi!

No momento em que o táxi parou, pulei para dentro, temendo perder meu voo. O carro disparou pela estrada que contornava o fosso da cidade velha, lindamente ladeada por árvores douradas com cachos de flores amarelas. Árvores Bungor roxas e rosadas cobriam a grama com suas pétalas caídas. Era uma visão tão espetacular que desejei que a Autoridade de Turismo da Tailândia promovesse a área com mais afinco; talvez assim os tailandeses não precisassem voar para o Japão para ver as cerejeiras. Infelizmente, o ar estava carregado de poeira e fumaça. Estava nublado como se estivéssemos imersos em névoa. Era o ponto fraco de Chiang Mai nessa época do ano: o smog acima do padrão.

Cheguei ao avião bem no momento do último anúncio de embarque. Levei cerca de uma hora para finalmente aterrissar em Bangkok. Enquanto fazia a conexão ferroviária do aeroporto de Suvarnabhumi para a estação Phaya Thai, enviei uma mensagem para minha irmã avisando que visitaria nossa casa em Chonburi em duas semanas. Ela respondeu prontamente:

— Compre cachorros-quentes para mim! E a mamãe quer morangos doces. O papai não quer nada, basta comprar qualquer coisa; ele come de tudo mesmo.

Sorri com a resposta de Somjeed. Minha família morava em Chonburi, onde possuíam uma rede de lojas de conveniência em expansão. Minha irmã estava no último ano da universidade. Eu poderia ter ido para casa este fim de semana, mas adiei porque queria ver alguém que meus pais provavelmente também gostariam de conhecer. Eu não estaria livre, mas podia esperar. Afinal, eu já esperara por anos... Ah, meu amado!

Estávamos juntos há quase quatro anos. Conhecemo-nos quando eu era estudante de arquitetura do quarto ano e Ohm estava no último ano de economia. Ele fora visitar um amigo no mesmo dormitório onde eu morava. Encontramo-nos na frente do elevador e, a partir dali, passamos a nos esbarrar na universidade e nos corredores. Um dia, ele parou no ponto de ônibus onde eu estava e ofereceu uma carona.

Nossa história não era emocionante como as dos livros, cheias de lutas e disputas. Era simples e natural, embora muitas vezes fizesse meu coração bater mais forte. Foi um dos momentos mais felizes da minha vida. Beijamo-nos pela primeira vez no carro dele, no estacionamento do dormitório, sob uma chuva tão forte que eu não conseguia ouvir mais nada. No entanto, ouvi a voz dele clara como o dia quando me disse: "Te amo"

Uma frase curta, porém extremamente impactante. Não importa quantos anos tenham se passado, essas palavras ainda estão claras em minha mente; sinto como se as tivesse ouvido há apenas alguns minutos. Mesmo que Ohm tenha ido estudar no exterior, causando nossa separação física, meus sentimentos por ele e o eco daquelas palavras nunca desapareceram.

Fiz toda a viagem sorrindo. Nem o calor sufocante que senti ao trocar de estação me incomodou. Eu não conseguia evitar, era mais forte do que eu! Estava radiante. Fiz o check-in no hotel próximo ao shopping da estação BTS Asok. Havia reservado uma suíte júnior, espaçosa, com uma bela vista e uma cama grande de colchão incrivelmente macio. Achei o valor bem salgado, mas convenci-me de que valeria a pena.

Eu não estava pensando em nada pervertido. Depois de sonhar acordado no quarto e rolar na cama sozinho — imaginando que duas pessoas estariam ali na noite seguinte —, peguei o ARL de volta ao aeroporto ao anoitecer.

Esperei ansioso no portão de desembarque. Algum tempo depois, vi a família de Ohm se aproximando: seus pais e Ant, sua irmãzinha. Aproximei-me para cumprimentá-los.

— Boa noite — eu disse, unindo as mãos sobre o peito em sinal de respeito.

Eu os vira apenas duas vezes antes de Ohm voar para a Inglaterra. Seus pais pareceram surpresos em me ver, mas genuinamente felizes, enquanto Ant retribuiu o gesto de respeito e sorriu para mim.

— Jom, já faz tanto tempo! Como você está? — a mãe de Ohm perguntou.

— Tenho estado bem. E os senhores?

— Estamos velhos, frágeis e um pouco fracos, mas nada sério. Ah... que bom que você veio recebê-lo. Achei que vocês dois tivessem parado de se falar. Isso é ótimo! Vocês continuam sendo como irmãos.

— Irmãos?! — O termo me atingiu em cheio. Eu estava confuso. Eu nunca fui "irmão" de Ohm. Tudo bem, às vezes agíamos assim em público, mas quando estávamos a sós, sempre fôramos muito mais do que isso. E Ohm nunca escondera a natureza da nossa relação de sua família.

Ant foi a primeira a perceber que algo estava errado. Ela franziu a testa antes de estender a mão, segurar meu braço e dizer:

— Jom, faz tempo mesmo! Me compra um café? Estou morrendo de sede. Já voltamos, mãe!

Ela me arrastou para longe, em direção a uma cafeteria. Mas, em vez de pedir a bebida, ela se aproximou até que eu pudesse ver claramente seus grandes olhos redondos e perguntou:

— Você não sabe, não é?

— Não sei o quê?

O aperto dela em meu braço tornou-se estranhamente forte, pegando-me de surpresa. Uma expressão de puro desconforto surgiu no rosto de Ant, misturada a um vislumbre de profunda tristeza. Ela tomou fôlego e continuou:

— Quando foi a última vez que você falou com o Ohm?

— Conversamos há duas semanas. Ele confirmou que voltaria para a Tailândia hoje.

Os olhos da menina se arregalaram em choque.

— E ele disse para você esperá-lo aqui? Uau... isso foi longe demais!

— O quê? Não é grande coisa, meu voo durou apenas uma hora — respondi com um sorriso, tentando aliviar o clima. — Na verdade, Ohm não me pediu para buscá-lo. Ele me disse para esperá-lo em Chiang Mai, pois voaria para lá depois de amanhã. Mas eu estava livre, então vim para cá para fazer uma surpresa, já que sentia muita falta dele.

Nesse momento, Ant parecia prestes a desabar em lágrimas.

— Ele sabe que você está aqui?

— Não, é uma surpresa!

— Ai meu Deus... merda, desculpe. Eu não queria xingar. — Ant parecia em agonia, mordendo os lábios, inquieta. — Jom... como é que eu vou te contar isso...?

Meu coração deu um solavanco. O pânico subiu pela minha garganta. O que teria acontecido? Ohm sofrera um acidente?

— O que houve? O que aconteceu com ele? Ele está doente? O que há de errado?! — disparei as perguntas, uma após a outra.

Ant balançou a cabeça negativamente.

— Não é isso... Vamos fazer o seguinte: onde fica o seu hotel?

Respondi o nome do hotel, ainda completamente atordoado e sem entender nada.

— Por que você não volta para lá agora? Eu te ligo em seguida. Ou melhor, eu vou até lá falar com você, pode ser?

Comecei a sentir algo incomum. Uma sensação estranha e pesada subindo pelo meu peito.

— Por que você não me conta logo o que está acontecendo? — insisti. — Eu não vou embora daqui sem saber.

Ant parecia prestes a puxar os próprios cabelos em desespero. Finalmente, ela desistiu de esconder; segurou meus braços com força e disse:

— Jom, me escute! Respire fundo e se recomponha, por favor.

— Ohm...!! — O nome escapou dos meus lábios antes que eu pudesse evitar.

Os olhos de Ant se arregalaram instantaneamente em pânico. — Ah! Merda... tarde demais!

Segui o olhar dela e vi o motivo do seu pavor. Ohm estava cruzando o portão de desembarque, empurrando um carrinho com duas malas enormes. Minhas pernas ficaram subitamente leves, como se não pudessem sustentar meu peso, e meu coração batia tão forte que chegava a doer. Ele ainda era o mesmo: alto, o rosto bonito de traços encantadores e aquele sorriso caloroso. No entanto, senti um solavanco de surpresa ao perceber que o sorriso dele não era para mim, mas para alguém ao seu lado.

— Com quem ele vem? — perguntei, a voz já falhando.

— Essa é... a noiva do Ohm, Kaimook.

Virei a cabeça para Ant, incrédulo. Ela parecia profundamente constrangida.

— Por favor, não faça cena — implorou ela. — Eu não sei o que fazer agora. Eu sinto muito... Por favor, acalme-se. Eu te imploro.

Arrepios percorreram todo o meu corpo enquanto Ant continuava a se desculpar, como se a traição fosse culpa dela.

— Você não está brincando, está?

Ela balançou a cabeça negativamente. Voltei meus olhos para Ohm. Agora, eu podia ver claramente: a mulher agarrava o braço dele com naturalidade. Ela era bonita, alta e elegante. Ambos se aproximaram dos pais de Ohm e os cumprimentaram com carinho; os pais responderam com visível prazer. Minha cabeça começou a girar; meu cérebro parecia incapaz de processar aquela imagem.

— Há quanto tempo isso...? — minha voz saiu trêmula.

— Que eles ficaram noivos? Ah... já faz um mês.

O meu mundo caiu.

— Jom! — Ant segurou meu braço, visivelmente desconfortável.

Mas eu não conseguia ter pena de ninguém naquele momento, a não ser de mim mesmo.

— Eu vou dizer oi! — Puxei meu braço de volta, sem me importar se parecia cruel ou rude, e caminhei em direção a Ohm.

Eu me recusava a acreditar. Ohm? Aquele que jurou que me amava e me beijou sob a chuva faria tal coisa? Assim que cheguei perto o suficiente para ser notado, ele se virou.

— Jom...! — O rosto dele ficou pálido no mesmo instante.

Parei, entendendo tudo no segundo em que nossos olhos se encontraram. Aquele olhar confirmava cada palavra dolorosa de Ant. O Ohm que eu havia perdido estava ali, mas não da maneira que eu esperei por quatro anos. Forcei-me a falar, com o rosto dormente e as mãos geladas:

— Boa noite, Ohm. Bem-vindo de volta à Tailândia.

— Jom... você está aqui? — Ele parecia em estado de choque.

Encarei seus olhos. Minhas emoções corriam soltas, gritando dentro de mim. Como ele pôde fazer isso comigo?

— Como eu não estaria? — Minha voz quebrou, carregada de uma tristeza que eu não conseguia mais esconder.

— Jom... — Ele não conseguiu dizer mais nada. Seus olhos refletiam apenas preocupação e um pedido mudo de desculpas.

A dor invadiu meu peito, perfurando-me com mais intensidade do que qualquer outro sentimento que já experimentei. — Eu tenho que ir agora. Conversamos mais tarde. — Virei-me para os pais dele e fiz o cumprimento tradicional, as mãos unidas sobre o peito: — Sawasdee Krap.

O choque foi tamanho que nem sequer lembro como saí do aeroporto e cheguei ao hotel. Minha cabeça fervilhava de perguntas, enquanto meu coração era um turbilhão de amor, decepção, raiva, mágoa e descrença. Mas, no fim, eu tinha que aceitar: aquilo era real.

Afundei na cadeira estofada perto da grande janela, observando as luzes da cidade de Bangkok. Peguei meu telefone e disquei o número que eu conhecia tão bem. Ohm atendeu rápido; sua voz não estava abafada nem trêmula. Ele não estava tentando evitar a ligação; estava dolorosamente calmo.

— Jom, este não é o melhor momento para conversarmos. Eu irei ao seu hotel amanhã.

— Por que não agora? — exigi.

— Não deveríamos conversar agora.

— Por quê? Qual é a diferença? Se você vai partir meu coração de qualquer maneira, vai doer agora ou amanhã. Eu não quero esperar até de manhã. Quero falar agora!

Houve um silêncio pesado do outro lado da linha.

— Não, Jom. Temos que conversar pessoalmente. Confie em mim. Vá descansar. Conversaremos amanhã pela manhã.

Ohm desligou enquanto o telefone ainda estava em minha mão. Desviei meu olhar para a janela de vidro, mas não via a cidade lá fora; via apenas o meu reflexo. O rosto que eu encontrava todos os dias no espelho parecia diferente hoje. Carregava uma tristeza profunda, do tipo que eu nunca havia presenciado antes.

Pela manhã, Ohm me encontrou conforme prometido. Sentamos um de frente para o outro em um canto reservado do restaurante do hotel.

— Desculpe o atraso — começou ele. — Mamãe queria que eu fizesse algumas oferendas com ela primeiro.

— Não há necessidade de se desculpar. Não estou bravo com isso.

Ohm congelou por um instante, surpreso com a minha neutralidade.

— Então você está realmente namorando aquela mulher? — Fui direto ao ponto, sem perder tempo com preliminares.

— Sim — ele respondeu, com uma firmeza que me feriu.

— Quando? Quando você a conheceu?

— Há seis meses. Ela é filha do meu orientador.

Meu coração doeu como se alguém o tivesse esmagado com um martelo pesado.

— Então, o que fomos um para o outro durante todo esse tempo?

Ohm olhou para mim sem qualquer hesitação nos olhos.

— Você sabe que foi amor.

— E ela? Aquela mulher... Kaimook? Você também se apaixonou por ela? Ou você estava tão insuportavelmente solitário que se conectou com a primeira pessoa que apareceu?

Suas sobrancelhas escuras se juntaram em um sinal de desagrado.

— Jom, não diga isso.

— Por quê? Você está chateado? E quanto a mim?! Eu também estou chateado! Por que você não me contou há quatro ou cinco meses? Como pôde me deixar esperar por você como um idiota?!

— Eu não queria terminar com você por telefone! Você não era simplesmente um parceiro temporário. Você era meu namorado, meu amante.

Fiquei atordoado. Suas palavras vieram com uma convicção terrível, como se ele não tivesse ideia de que o que estava vomitando me destruía brutalmente por dentro.

— Você me amava... então por que fez isso comigo? Quão podre você tem que ser para aparecer com uma justificativa dessas?

Seus lábios se apertaram. Ele não ofereceu desculpas.

— Você vai se casar com ela, não vai? — perguntei, com o tom banhado em amargura.

— Ela está grávida de pouco mais de um mês. Estamos planejando o casamento.

Era esse o motivo? Ele estava assumindo a "responsabilidade" por um filho... Inacreditável. Eu só ouvira aquele tipo de enredo em novelas baratas.

— Foi um erro? — questionei.

— Não — disse ele, seco.

Sua resposta me deixou sem ar.

— Não foi um erro. Eu amo a Kaimook.

— E daí? Eu não entendo! Você a ama, mas diz que também me ama. Está dizendo que nos ama igualmente, mas vai se casar com ela porque ela está grávida e eu não posso dar um filho a você?

De repente, Ohm pareceu exausto. Sua voz saiu suave, áspera, como se ele estivesse sentindo uma dor que não tinha o direito de sentir.

— Amar igualmente... Isso não existe, Jom.

Senti como se um raio tivesse atingido minha cabeça. Não era apenas dor; era um horror inesperado que logo se transformou em uma fúria avassaladora. Minhas mãos tremiam enquanto eu encarava o homem que amei por quase quatro anos.

— Você... — Minha voz falhou, as palavras saindo como um jargão desconexo. — Afaste-se de mim. E de agora em diante, pelo resto da minha vida, nunca mais mostre seu rosto ou diga uma única palavra para mim. Não importa o quão feliz ou triste você esteja, nunca mais me procure. Apenas morra da minha vida.

— Jom...

— Vá embora! — gritei, cerrando os punhos com tanta força que as unhas feriam a palma da mão.

Alguns clientes se viraram para nós, mas eu não me importei. Eu só queria que o homem à minha frente desaparecesse da face da terra. Ohm ficou parado por um momento, como se esperasse que eu mudasse de ideia ou chorasse. Eu sequer olhei para ele.

— Eu sei que minhas desculpas não significam nada para você — a voz dele era suave, mas firme. — Mas espero que saiba que sinto muito pelas coisas terem sido assim. Sei que um dia você vai me perdoar, mesmo que eu não mereça. Esse é o tipo de pessoa que você é... a pessoa pela qual eu me apaixonaria uma e outra vez, se não tivesse conhecido a Kaimook. Não tenho desculpas, mas saiba que nunca me arrependerei de ter amado você.

E então, ele se foi.

Fiquei ali sentado por um longo tempo, tentando juntar os pedaços do meu coração dilacerado por alguém que pisou nele como se não fosse nada. Resolvi voltar para Chiang Mai naquela mesma tarde. Arrumei minhas coisas, fiz o check-out e liguei para a companhia aérea para alterar meu voo, sem me importar com o custo da diferença. Saí do saguão do hotel e me dirigi à passarela que liga a estação BTS Asok ao shopping e ao metrô. Eu caminhava apressadamente, como todos os outros ali.

De repente, parei. Fiquei rígido no meio da passarela da estação. Deixei minha mochila cair no chão, aos meus pés, enquanto era atingido por uma enxurrada de emoções. Antes, sob o efeito do choque, eu estava perplexo demais para distinguir o que sentia. Mas agora, a dor me golpeava de forma lenta e profunda, sem qualquer barreira.

Em meio ao barulho do trânsito abaixo e ao vaivém das pessoas, percebi a solidão crescendo como um pequeno ponto no meu peito. Ela se expandiu a toda velocidade até me engolir por inteiro. Eu estava só. Olhei em volta e, apesar da multidão, sentia-me vazio, como se estivesse sozinho em uma cidade deserta, sem uma única alma por perto.

...Apenas vá e morra da minha vida.

Eu havia dito aquelas palavras sem saber que a morte realmente nos separaria em breve. E não seria a dele.

Cheguei a Chiang Mai no final da tarde. A visibilidade estava terrível; o piloto teve que voar em círculos por algum tempo antes de conseguir pousar. Assim que cheguei ao hotel, peguei a chave do carro e dirigi em direção a qualquer restaurante que vendesse álcool. Se ter a consciência clara tornava a dor mais evidente, eu escolheria a opção que me fizesse sentir menos.

O céu estava mais nublado do que o normal. Avancei pela estrada que margeia o rio Ping o mais rápido que pude, quase acima do limite de velocidade. Aumentei o volume da música para abafar a voz na minha cabeça; eu não suportava mais ouvir meus próprios pensamentos.

— Sei que minhas desculpas não significam nada para você, mas espero que saiba que sinto muito.

"Pedaço de merda!", pensei.

— Você sabe que foi amor.

Cerrei os dentes, reprimindo a raiva e a tristeza que cresciam sem parar. Minhas pálpebras ardiam, mas eu não queria desperdiçar minhas lágrimas com aquele mentiroso maldito. No entanto, as emoções às vezes se recusam a ser controladas. As lágrimas logo embaçaram minha visão, tornando quase impossível enxergar a estrada coberta pela poluição. Inclinei-me para secar o rosto com o antebraço e, naquele instante, o telefone no meu bolso tocou.

Aquele segundo de distração foi o meu erro.

Nunca pensei em acabar com a minha vida. Eu nem planejava dirigir se ficasse bêbado. Mas o carro derrapou para a outra pista em alta velocidade enquanto eu tateava o telefone. Quando voltei os olhos para a estrada, uma luz forte irrompeu da névoa, seguida por uma buzina ensurdecedora. Meus olhos se arregalaram em choque enquanto eu desviava o volante no último segundo.

Consegui evitar a colisão frontal, mas perdi o controle. O carro bateu no guarda-corpo, partindo-o ao meio, e mergulhou na água turva através daquela névoa estranhamente densa. SPLASH!

Por um momento, vi uma luz brilhar como um raio, tão intensa que tive de fechar os olhos. Meu corpo foi envolvido pela massa de água fria.

Eu não quero morrer... eu não quero morrer assim! Não quero que meus pais sofram achando que o filho cometeu suicídio por desilusão amorosa quando isso não é verdade!

Em pânico, senti meu corpo despencar, como se estivesse sendo sugado para o centro de um redemoinho. Não faço ideia de como consegui sair do carro. O zumbido nos meus ouvidos era constante. Tentei lutar contra a correnteza, mas sem sucesso.

Eventualmente, meu último suspiro se esgotou e fui forçado a inspirar a água em vez de ar. Meu corpo parou de lutar, flutuando imóvel como se estivesse no vácuo. Um silêncio absoluto me envolveu.

Um segundo depois, uma força imensa me puxou para cima — um movimento improvável dentro daquelas águas. Instintivamente, cobri os ouvidos com as mãos antes de sentir meu corpo romper a superfície.

— Ha... ha...!

Respirei vorazmente, enchendo os pulmões enquanto minha cabeça emergia. Tossi violentamente, engasgando com a água, mas lutei para me manter boiando. Nadei com pressa em direção à margem mais próxima.

Ao alcançar a beirada, desabei no chão, com o corpo todo doendo. Fiquei ali deitado até que a exaustão diminuísse. Finalmente, consegui me levantar e olhar ao redor. Que lugar era aquele? Seria a vida após a morte? Se fosse, era diferente dos livros que falavam sobre atravessar o Rio da Morte para a terra das almas. Aquilo parecia o mundo humano.

Havia terra firme, pedras, árvores e o som de insetos. Vi até um barco amarrado entre os arbustos. Estava escuro e eu devia estar confuso pelo acidente. Cambaleando, olhei para a escuridão diante de mim e avistei uma luz distante. Decidi segui-la. Quando cheguei perto o suficiente, descobri que era a luz de uma lâmpada piscando em um terraço.

Uma casa!

Gritei de alegria em minha mente e comecei a correr.

— Oi! Por favor, me ajudem! Eu caí no rio e subi até aqui! — gritei, ao avistar duas figuras se movendo no terraço daquela casa.

As silhuetas ficaram imóveis ao ouvirem minha voz e permaneceram em um silêncio absoluto. Eu gostaria de ter esperado um convite, mas não podia. Estava encharcado, tremendo e precisava de socorro. Decidi subir os degraus enquanto tentava me explicar:

— Desculpe incomodá-los... eu caí no rio e nadei até a sua casa. Não sei como chegar à estrada, por favor, me ajudem.

Sob o brilho fraco da lâmpada, pude distinguir que as figuras pertenciam a um homem e a uma mulher. O homem vestia uma camisa de algodão típica do norte e calças de pescador. A mulher se escondia atrás dele. Ambos pareciam em choque com a minha aparência.

— Ah... senhor...

Foi tudo o que consegui dizer antes de ser surpreendido por um pé atingindo meu peito, fazendo-me cair de costas.

— Oh! — gritei, sem fôlego.

— E-Kammoon, vá para o barco! — o homem ordenou impacientemente à mulher.

Ela desceu as escadas correndo em direção ao rio. Eu me levantei, apesar da dor latejante. De olhos arregalados e sem entender nada, senti mãos brutas me segurarem pelo pescoço e me empurrarem em direção a uma porta aberta.

— Espere... Por favor, me escute... — gaguejei.

O mesmo pé me chutou, desta vez no estômago. O impacto me jogou para dentro do quarto e caí cambaleando.

BAQUE!

Minha cabeça atingiu um pilar de madeira e tudo escureceu.

Quando recuperei a consciência, ouvi vozes abafadas. A luz do sol se infiltrava pelas frestas das tábuas de madeira. Eu me sentia completamente atordoado; minha cabeça latejava. Ao tocar o lado esquerdo do crânio, senti um inchaço do tamanho de uma laranja. Havia uma pequena ferida onde o sangue, agora seco, havia selado o corte.

— E-Kammoon, levante-se! Você é um servo ou um chefe, caramba? — uma mulher vociferou do lado de fora.

A porta se abriu, revelando uma mulher vestida com um sinh e um pano escuro enrolado no peito. Trocamos olhares por exatos cinco segundos antes de ela soltar um grito agudo e sair correndo.

Em um instante, o caos se instalou. Fui arrastado para fora da sala por um homem musculoso, vestido como se fosse fazer uma apresentação de dança de espadas em um centro cultural. Ele usava apenas uma tanga curta, exibindo o peito largo e as pernas torneadas.

— Quem é você?! — ele berrou, jogando-me no terraço. Pude ver agora que se tratava de uma pequena casa de madeira com telhado de folhas de Phluang.

— Eu... me perdi. Nadei até aqui...

Antes que eu pudesse terminar, uma voz feminina rugiu furiosamente enquanto subia as escadas:

— Eu lhe disse para vigiar por uma noite! Qual é o problema agora, E-Mei?

A dona da voz apareceu. Era uma mulher gordinha, na casa dos cinquenta anos, com os seios nus e caídos balançando livremente! Eu congelei. Não é como se eu nunca tivesse visto seios antes, mas jamais esperaria vê-los assim, aqui e agora.

— Ele estava no quarto quando eu abri a porta! — a garota da manhã, Mei, tentava se explicar. — Se eu soubesse que era um homem, não teria conseguido dormir. O que vou fazer se as pessoas descobrirem?

— Pare com essa besteira, E-Mei! — cortou a mulher sem blusa, visivelmente irritada. — Você não estava na mesma sala que ele.

— Mas estava sob o mesmo teto! — insistiu a garota.

A mulher a ignorou e se voltou para mim, com um olhar inquisidor:

— Quem é você?

— Eu... — Eu não sabia o que dizer. — Meu nome é Jom.

— Por que você fingiu ser uma mulher?

— Hein...? — Fiquei completamente confuso.

— Ontem à noite, quando o Oui-Ta te mandou para cá, você era uma mulher. Como se transformou em um homem pela manhã?

— Isso está errado! — protestei. — Eu nunca fingi ser ninguém! Cheguei aqui ontem à noite pelo rio e fui chutado para dentro desse quarto. Eu não estava fingindo nada!

— Por que você fala nesse dialeto central e não no do norte? Que garoto estranho — a mulher observou, antes de se virar para o homem seminu. — Ai-Ming, fique de olho nele. Vou contar ao chefe que o Oui-Ta nos enganou. Ele nos mandou um filho em vez de uma filha.

A mulher saiu furiosa, deixando-me ali sentado, tonto pela dor de cabeça e confuso. O homem chamado Ming me olhava com irritação. O que diabos estava acontecendo?

— Quem é você? O Oui-Ta não tem filhos. Você é sobrinho dele? — perguntou Ming.

Balancei a cabeça, negando. Eu não tinha mais palavras para descrever aquele pesadelo.

— Eu já disse que me perdi — insisti, tentando manter a calma.

— Como você se perdeu justamente dentro do quarto da Mei? — O rosto de Ming expressava puro desprezo. — Estamos ferrados. O Oui-Ta vendeu a filha imediatamente. Por que ele mandaria um homem? Ele sabe que o chefe estrangeiro prefere mulheres.

Algo estava muito errado. Comecei a processar a situação com a mente mais fria: como alguém poderia ficar submerso na água por quase uma hora e emergir à noite, respirando normalmente?

Havia duas possibilidades: ou eu estava sonhando, ou estava na vida após a morte. Descartei a primeira de imediato. Não precisei me esbofetear para saber que não era um sonho; as dores dos chutes da noite passada e o calombo na minha cabeça eram reais demais para serem fruto da imaginação. A dor era física, palpável. Sem fingimento. Decidi arriscar uma pergunta:

— Senhor... Ah, seu nome é Ming, certo? Você já morreu alguma vez?

Ele me encarou como se eu tivesse fugido de um hospício.

— Que tipo de pergunta é essa?! Se eu tivesse morrido, como poderia estar aqui na sua frente?

Observei suas têmporas e seu pescoço... ele tinha razão. As veias salientes pulsavam, provando que seu coração batia com força. Levei a mão ao meu próprio pulso para conferir. Sim, de fato, não éramos espíritos. Estávamos respirando. Estávamos vivos.

Olhei ao redor: a casa no estilo Lanna coberta de folhas de Phluang, as pessoas vestidas como atores de um drama de época e aquela expressão estranha, "chefe estrangeiro". Respirei fundo, sentindo o coração disparar. Não. De jeito nenhum.

— Ming, deixe-me perguntar mais uma coisa. Em que ano estamos? Qual e a data atual?

— Data.? — Ming pareceu completamente desconcertado pela sigla.

Mudei a estratégia.

— Quero dizer... quem é o governador da província? Espere, quero dizer o rei, o líder da cidade, o... Oh, certo, quem é o governante desta cidade? Você sabe o nome dele?

Ming parou de me olhar como se eu fosse louco; em vez disso, passou a me olhar como se eu fosse estúpido. Ele respondeu prontamente:

— É claro que eu sei. — Ele uniu as mãos sobre o peito em um gesto de profundo respeito ao pronunciar o nome: — Príncipe Kaew Nawarat, o governante de Chiang Mai.

Um calafrio violento percorreu meu corpo, da raiz do cabelo até a ponta dos dedos dos pés. Merda!!!

Eu podia não ser um mestre em história, mas eu sabia aquele nome! Eu visitara diversos marcos históricos em Chiang Mai. Príncipe Inthawichayanon, Príncipe Intawaroros Suriyawong, Príncipe Kaew Nawarat... os nomes dos governantes do norte surgiram na minha mente em ordem cronológica, como se eu estivesse lendo um livro de trás para frente. Tive vontade de chorar.

Eu não estava morto. Eu havia viajado no tempo para o reinado do Rei Rama VI, a época em que os estrangeiros exerciam grande influência em Chiang Mai. O período anterior à Segunda Guerra Mundial.

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Comentários

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Cara achei o segundo capítulo bom demais, ele ta mais intenso e emocional que o primeiro. Dá para sentir a dor do Jom logo no começo, e isso me prendeu bastante, porque é fácil se colocar no lugar dele. A cena do acidente é tensa e me deixou ansioso para saber se ele sobreviveria, e a confusão depois, na casa do pessoal estranho, foi intrigante e até um pouco chocante (no bom sentido).

Confesso que em alguns momentos fiquei meio perdido com tanta coisa acontecendo rápido, mas isso também combina com o estado mental do personagem. O final foi o que mais gostei: a revelação do tempo em que ele está cria um **gancho muito forte** e me deu vontade imediata de continuar lendo para entender como ele vai lidar com tudo isso.

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