Dessa vez, não foi Rafael - Parte 1

Um conto erótico de Marcos
Categoria: Gay
Contém 833 palavras
Data: 01/01/2026 18:32:58
Última revisão: 01/01/2026 18:38:50

Era sábado, e fazia calor.

Marcos estava em casa, vestido como sempre ficava quando não esperava ninguém: camiseta velha, bermuda masculina, chinelo. Nada de espelho, nada de Marina naquela manhã, pelo menos não ainda. O dia prometia ser comum, e isso era quase um alívio.

A campainha tocou perto das dez.

Marcos estranhou. Não lembrava de encomenda, visita, nada marcado. Abriu a porta com a expressão de quem ainda estava organizando a própria manhã.

Do outro lado, um rapaz alto, uniforme da operadora, mochila apoiada em um ombro.

— Bom dia — disse ele, fácil, como quem já fala antes de ser convidado.

- Vim fazer a troca de um equipamento aqui da residência.

Marcos franziu o rosto.

— Troca? Mas… ninguém me avisou de nada.

Lucas deu um meio sorriso, desses treinados pela rotina.

— Pois é. A central anda falhando nisso. — Levantou a prancheta. — Mas é coisa rápida. Se você preferir, posso voltar outro dia.

Marcos hesitou menos do que esperava.

— Não… pode entrar.

Quando Lucas passou pela porta, Marcos sentiu o atraso da memória.

— Espera… — disse. — Você não é o técnico que veio aqui da outra vez? Com o Rafael?

Lucas virou o rosto, surpreso só o suficiente para parecer interessado.

— Sou eu mesmo.

O nome “Rafael” ficou no ar por um segundo a mais do que deveria.

Lucas entrou, olhou ao redor com curiosidade prática, e começou a falar enquanto abria a mochila. Falava fácil demais. Sobre o calor, sobre visitas de sábado, sobre prédios onde nada funciona direito.

Marcos respondia. Marina observava.

Lucas fechou a mochila com um estalo discreto e passou os olhos mais uma vez pelo aparelho recém-trocado.

— Pronto. — disse. — Agora é só observar por uns dias, mas em tese está tudo certo.

Marcos assentiu, mas ninguém se moveu imediatamente.

A televisão estava ligada, um programa qualquer passando sem atenção real.

Lucas ficou de pé perto do sofá, apoiando o peso em uma perna só, como quem não tinha pressa. Marcos percebeu isso com um atraso curioso.

— Quer… beber alguma coisa? — perguntou, quase automático.

Lucas arqueou uma sobrancelha, rindo.

— Se eu não estivesse trabalhando, até uma cerveja eu aceitava.

Marcos sentiu o rosto esquentar.

— Cerveja eu tenho… — disse, mais solto do que imaginava.

Lucas riu de verdade dessa vez.

— Água tá ótimo. Antes que eu me complique.

Marcos foi até a cozinha. Marina foi junto. Não no sentido literal — o corpo continuava o mesmo, a camiseta larga, a bermuda masculina. Mas por dentro, ela estava ali. Observando o jeito como Lucas ocupava o espaço da casa, como falava como se já tivesse estado ali outras vezes.

Quando voltou com o copo, Lucas agradeceu com um sorriso aberto, desses que não pedem nada, mas também não afastam.

— Sábado é o melhor dia pra essas trocas — comentou ele. — Casa vazia, menos reclamação depois.

— Pois é — Marcos respondeu. — Normalmente não avisam nada…

— Normal da central — Lucas riu. — Eles avisam quando lembram.

O silêncio que veio depois não foi constrangedor. Foi… curioso.

Lucas olhou ao redor, como quem finalmente repara no ambiente depois do trabalho feito.

— Você mora sozinho?

— Com meu pai — Marcos respondeu. — Hoje ele não está.

— Melhor assim — Lucas disse, sem pensar muito. — Menos gente em cima.

Marcos riu baixo. Marina sentiu o riso também.

Houve um instante em que Lucas olhou direto para ele. Não foi rápido. Não foi invasivo. Apenas um olhar sustentado por um segundo a mais do que o necessário para educação.

— Você mudou um pouco desde a outra vez — comentou Lucas, casual.

Marcos sentiu o estômago apertar.

— Mudei?

— Não sei… — Lucas deu de ombros. — Tá mais solto. Naquele dia você quase não falava.

Era verdade. E Marina percebeu que não tentou negar.

— Acho que era a situação — respondeu Marcos. — Muita gente, correria.

Lucas assentiu, como se entendesse mais do que estava sendo dito.

— Rafael também é mais quieto — comentou. — Eu já falo demais.

— Dá pra perceber — Marcos respondeu, e sorriu.

O sorriso ficou no ar.

Lucas tomou o último gole de água e apoiou o copo na pia, sem pressa de ir embora. Olhou o celular por cima, mas não desbloqueou.

— Bom… — começou. — Em tese, era só isso.

A frase ficou incompleta.

Ele não se mexeu.

Marcos também não.

Marina percebeu, com uma clareza nova, que não estava encolhida. Estava de pé, apoiada no batente da porta, sentindo o próprio peso distribuído no corpo, o calor da casa, o tecido da roupa tocando a pele. Não havia urgência em desaparecer.

— Se der qualquer coisa estranha… — Lucas continuou. — Esse tipo de aparelho às vezes pede um retorno.

— Imagino — Marcos respondeu.

Lucas tirou um cartão do bolso da mochila e colocou sobre a mesa.

— Meu contato direto. Mas eu devo voltar amanhã ou na segunda pra conferir se ficou tudo redondo.

Marcos pegou o cartão.

— Certo.

Lucas caminhou até a porta, abriu, e antes de sair virou o corpo só o suficiente para olhar de novo.

— A cerveja… — acrescentou, com um meio sorriso — eu volto pra conferir o aparelho… e pra isso também.

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