Onde a palavra perdeu o véu

Um conto erótico de Leandro Gomes
Categoria: Homossexual
Contém 1401 palavras
Data: 05/01/2026 21:59:35

Nova Orleans, 30 de dezembro de 1768

Meu caro Philip,

Há dias em que escrevo como quem tenta medir a própria sanidade pelo peso das palavras. Sinto-me abalado de modo que não sei descrever sem recorrer a imagens de ruína: tudo em mim parece deslocado, fora do eixo, como se os acontecimentos recentes tivessem desorganizado não apenas minha vida, mas o próprio encadeamento de meus pensamentos.

Os engenhos, Philip, não resistiram. A praga espalhou-se com tal rapidez que nenhuma providência foi suficiente. As perdas tornaram-se definitivas; contratos foram rompidos, dívidas revelaram-se maiores do que supúnhamos, e o nome Devante já circula por aí com uma cautela que jamais conhecera. Fomos obrigados a incendiar o que restou do canavial para que a praga se encerrasse ali de vez. E com ela encerrou também tudo o que foi construído pelo meu bisavô.

Foi nesse clima, no dia em que o fogo tudo consumiu, que meu pai e eu tivemos uma das nossas piores discussões e aquela que precipitou sua queda. Acusou-me de negligência, de dissolução moral, de haver manchado a honra da casa com meus hábitos e companhias. Pela primeira vez, não me calei. Disse-lhe — talvez com mais frieza do que deveria — que sua avareza e sua violência haviam esgotado não só a terra, mas os homens que a trabalhavam. A discussão então se direcionou para o ódio pessoal dele contra mim. Então, as palavras saíram da minha boca carregadas de todo sentimento negativo que nasceu em mim como reflexo do seu ódio e desprezo. Enquanto ainda falava, vi algo se romper nele. A frase morreu-lhe na boca; o corpo cedeu; o braço caiu inerte. O derrame foi imediato. Enquanto os criados corriam em desordem sem saber o que fazer, permaneci imóvel, tomado por um sentimento que me apavora recordar: não foi apenas horror o que senti, mas um alívio obscuro, como se uma força que sempre me esmagara tivesse, enfim, perdido o equilíbrio.

O médico da família foi chamado, e meu pai sobreviveu, mas não voltou inteiro. A fala se perdeu, os movimentos são incertos, mas seus olhos, ainda lúcidos demais, seguem-me, quando entro em seus aposentos, com um ódio silencioso agora concentrado, quase destilado.

Após esse episódio, busquei refúgio no único lugar que ainda me prometia esquecimento. Fui ao bordel na noite seguinte depois que ele desabou. Ao entrar, porém, deparei-me com um murmúrio estranho, um silêncio deslocado entre as conversas. Soube então que a srta. Mattie Silks fora brutalmente morta, seu corpo tratado com violência que ninguém ousava descrever em detalhes. Soube também que a srta. Guillot, em circunstâncias rápidas demais para parecerem naturais, tornara-se a nova proprietária do lugar.

Procurei-a. Encontrei-a diferente. O sorriso que me dirigiu era rígido, ensaiado, e seus olhos — outrora atentos e cúmplices — pareciam agora distantes, como se fixos em algo que eu não podia ver. Quando lhe dirigi a palavra, respondeu-me com frieza inesperada, rejeitando-me de modo quase cruel. Disse-me que certas familiaridades já não lhe eram convenientes. Insisti com ela, mas ela me levou a um canto da sala e me disse que cansou de esperar por mim, e precisou agir por conta própria se queria ser alguém na vida. Eu tentei argumentar a minha situação, mas ela não quis mais me ouvir. Apenas me disse que eu poderia me deitar com qualquer das suas “meninas”, e me deu as costas. Saí dali humilhado, de coração partido e confuso.

Em casa, incapaz de dormir, deixei-me levar por um impulso que agora me surpreende. Não fui ao quarto, como de costume, mas permaneci na sala, onde ainda ecoava a lembrança do corpo de meu pai tombando ao chão. Foi ali, entre a memória do derrame e o peso da culpa, da rejeição, e humilhação, que busquei alívio solitário, como se a tensão acumulada precisasse escoar por qualquer via. A imagem de seu rosto perdendo a feição e do desespero em seus olhos com a perda dos movimentos se repetiam em minha mente enquanto eu acariciava meu instrumento. Completamente nu, usei minha outra mão para acariciar meus glúteos e, aos poucos, com ajuda de saliva nos dedos, dedilhei o meu orifício anal, gentilmente adentrando-o. Cada lembrança ruim me excitavam e me levavam a introduzir meu dedo, meus dois dedos, em mim mesmo. Ignorei completamente o lugar onde estava, fechando os olhos e grunhindo alto. O gozo então veio, intenso, provocando em meu corpo espasmos fortes e respiração ofegante.

No instante seguinte, tomado pelo relaxamento que se segue no corpo após o clímax, ouvi — ou julguei ouvir — a voz do sr. Crowley, chamando-me pelo nome completo. Quando abri os olhos, assustado, eu o vi à minha frente, também nu. Sua pele negra tinha um brilho luxurioso de suor; no rosto, seus lábios grossos e avermelhados, mostravam um sorriso sarcástico e seus olhos pareciam brilhar no escuro com um brilho vermelho, que me causaram um arrepio de pavor. Levantei-me depressa, apavorado, escondendo minhas partes com a roupa que havia jogado ao chão, mas quando olhei novamente, não vi ninguém. A sala estava vazia. Chamei-o, mas não ouve resposta. Ainda assim, senti-me observado.

Procurei-o no mesmo instante. Saí pelas ruas em direção ao bordel, mas ele não estava lá. Fui a uma taverna, mas também não estava ali. Quando desisti de o procurar e voltei para casa, encontrei-o em frente à mansão, como se me esperasse. Perguntei se ele estivera em minha casa, ao qual me respondeu que não em corpo presente, e explicou que às vezes quando temos uma ligação forte com alguém, podemos trazer essa pessoa para si em espírito.

Por causa do desespero estampado em meu rosto, ele me perguntou o que me afligia, e então relatei-lhe a ruína dos engenhos, a consequente ruína da família Devante, o estado de meu pai, e pedi-lhe algum conselho. Esperei que recorresse às metáforas habituais, mas algo nele havia mudado. Falou-me com clareza inquietante. Disse que eu já possuía a resposta que buscava, mas que ainda não a compreendera — ou não tivera coragem de aceitá-la. Acrescentou que, muito em breve, essa resposta se apresentaria sem disfarces. Então, se despediu de mim, embora eu tenho certeza de que queria um convite para entrar; eu, porém, senti um medo que não sei explicar. Quando ele se virou para seguir seu caminho, vi em seus olhos o mesmo brilho vermelho que vi no sonho e na visão minutos antes. Meu sangue pareceu se esvair do meu corpo, e senti meus membros perderem a força. Fiquei ali parado, apoiado na grade do portão, enquanto ele se afastava vagarosamente, com seu andar firme e sensual.

Três dias depois, Philip, tive um sonho que me deixou em estado de perturbação profunda. Sonhei com o sr. Crowley sem vestimenta alguma. Não como figura distante, mas próximo demais, por detrás de mim no quarto do bordel. Seu corpo gélido tocava o meu, seu membro rígido pulsava nas minhas nádegas. Eu também estava nu e também com grande excitação. No sonho, sua voz não ensinava nem advertia — convocava. Sussurrou-me ao ouvido que eu deveria entregar-me aos prazeres que se haviam apresentado a mim nos últimos meses, pois neles residia a verdade e resposta que eu fingia não enxergar. E então disse:

“Na sua escuridão, o sacrifício é a chave; a colheita que desejas exige sangue, e todo sangue, quando bem oferecido, retorna com poder.”

Acordei subitamente, coberto de suor nu, com meu membro pulsante expelindo sêmen sobre meu abdômen. Nas costas, sentia ainda o frio no local onde, no sonho, ele havia tocado em mim.

Foi então que algo se organizou em minha mente. As metáforas de Alastor, antes dispersas, alinharam-se como peças de um mecanismo oculto. Lembrei-me das nossas conversas, dos vários sonhos, e enfim entendi que a frase que ele me disse nesse último sonho — ou visão, ou presencialmente (?) — foi a que ouvi naquela noite no bordel, a qual me recordava apenas das palavras: escuridão, sacrifício… colheita, sangue, poder. Desde então, Philip, não consigo fingir ignorância. Não sei ainda o que farei com essa compreensão, mas temo que o simples fato de tê-la alcançado já me comprometa irremediavelmente.

Escrevo-te porque ainda necessito de um olhar que não seja o meu. Mas receio que, quando esta carta te alcançar, eu já esteja mais distante do homem que a escreveu, e ela tenha servido apenas como desabafo de uma mente atormentada.

Teu amigo sempre,

Louis M. Devante

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Comentários

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Na próxima carta o Louis já vai estar sem as pregas hehehe. Se entrega logo para esse vampiro! Hehehe

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sangue, colheita. imagino o que poderia significar isso, mas prefiro não dizer. O problema de saúde que o pai dele teve pode ser uma punição que o Crowlei aplicou contra o pai que estava tentando controlar o filho que foi escolhido por Crowley pra amar.E a cafetina ter rejeitado o cara parece que é um motivo a mais pra ele fazer aquilo que o Crowley quer que ele faça : sangue, colheita.

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