A luz do apartamento de Sofia apagou às oito da noite. O celular vibrou no bolso de Marcos com a mensagem que ele meio que esperava há duas semanas, desde que a viu no mercado com as duas crianças e um carrinho cheio de comida básica.
Preciso de ajuda. A Light cortou e os meninos tão com calor. Te devolvo na sexta.
Ele sabia que ela não devolveria. Ainda devia os dois mil do "empréstimo" de dois anos atrás. Mas respondeu:
Pode vir buscar. Traga o boleto.
Ela chegou meia hora depois, vestindo shorts jeans desbotados e uma camiseta velha que marcava os seios cheios. Parecia cansada, mas não derrotada.
"Obrigada por atender," ela disse, segurando a carteira velha.
Marcos não ofereceu dinheiro ainda. Indicou o sofá. "Senta. A gente precisa conversar sobre a dívida antiga."
Sofia sentou, as pernas fechadas, postura ereta. "Eu sei que devo. Só que com as crianças—"
"Eu entendo," ele interrompeu, sentando ao lado dela. Mais perto do que o necessário. "Mas negócio é negócio."
O olhar dele desceu até o decote da camiseta. Ela notou, mas não se afastou.
"Quanto é o boleto?" ele perguntou.
"Duzentos."
Ele tirou a carteira, contou quatro notas de cinquenta, mas não as entregou. Deixou-as no braço do sofá, entre eles.
"Sofia," ele disse, a voz mais baixa. "Você é uma mulher inteligente. Sabe que não tô fazendo caridade."
Ela olhou para as notas, depois para ele. "O que você quer?"
"Algo de valor equivalente." A mão dele tocou o joelho dela, leve. "Os duzentos por um favor. Um só."
Ela não tirou a perna. Respirou fundo. "Que tipo de favor?"
Ele se inclinou, os lábios próximos do ouvido dela. "Deixa eu ver você. Só ver."
Ela hesitou por três segundos que pareceram uma hora. Depois, com movimentos mecânicos, levantou a camiseta. Não tirou, apenas ergueu até abaixo dos seios. Eles eram mais cheios do que ele imaginara, pesados, com marcas de estrias prateadas.
Marcos olhou, sem tocar. "Bonitos," murmurou. "Agora os shorts."
"Marcos..."
"É só olhar, Sofia. Palavra."
Os shorts desceram. A calcinha simples, branca, surrada. Ela ficou sentada ali, semientre as luzes da sala, permitindo que ele a observasse como se fosse um quadro.
Ele cumpriu a promessa — apenas olhou. Por um minuto inteiro, seus olhos percorreram cada curva, cada marca de um corpo que trabalhara, gestara, sobrevivera. Depois, com um gesto quase gentil, puxou sua camiseta para baixo.
"Pode se vestir."
Enquanto ela se arrumava, ele dobrou as notas e colocou na mão dela.
"Na sexta," ela disse, a voz firme.
"Na sexta você volta," ele corrigiu. "E a gente renegocia o resto."
Ela voltou na sexta, como prometido. Trazia duzentos em notas amassadas.
"Toma. Tá pago."
Ele aceitou o dinheiro, mas não guardou. "Senta."
Dessa vez, ela sentou-se mais confiante. "O que mais?"
"A dívida grande. Dois mil." Ele puxou uma cadeira, sentou-se de frente para ela. "Você nunca vai ter dois mil, Sofia. Nem em dez parcelas."
Ela franziu a testa. "Então?"
"Então vamos fazer diferente." A mão dele encontrou o joelho dela de novo, mas dessa vez os dedos subiram alguns centímetros pela cocha. "Me dá acesso. Quando eu quiser ver, você vem. Quando eu quiser tocar, você permite. Por um ano."
"Um ano? Isso é..."
"Mais justo do que te processar," ele completou. "E você sabe."
Ela olhou para as mãos no colo. Lembrou das contas do mês, do remédio do mais novo, do tênis que o mais velho precisava.
"E se eu não quiser em algum dia?"
"Você sempre vai querer," ele respondeu, a mão subindo mais um pouco. "Porque a alternativa é a rua."
Não era verdade — ele não tinha como despejá-la — mas soava verdadeiro na boca dele. E ela, cansada demais para discutir, apenas assentiu.
"Fechado."
O acordo evoluiu gradualmente. Na semana seguinte, ele a chamou e pediu para que ela ficasse nua por dez minutos enquanto ele trabalhava no laptop. Ela obedeceu, ficando de pé perto da janela, iluminada pela luz da tarde.
Na outra, ele pediu para tocá-la. Apenas as mãos, apenas por cima da pele. Ela tremeu quando seus dedos percorreram suas costas, mas não protestou.
Na terceira visita, ele a beijou. Foi um beijo lento, profundo, e para surpresa de ambos, ela respondeu — com uma fome esquecida, com a necessidade de ser desejada por algo além de sua utilidade como mãe.
Foi na quarta visita que transaram pela primeira vez. Não foi contra a parede, não foi rápido ou brutal. Foi na cama dele, com ela por cima, controlando o ritmo, encontrando um prazer que a fez esquecer por vinte minutos que era só mais uma parte do pagamento.
Depois, deitados suados, ele perguntou: "Por que você aceitou tudo isso?"
Ela virou-se, os seios pressionados contra o braço dele. "Porque é a primeira vez em anos que alguém me quer, mesmo que seja só o meu corpo."
O ano passou. Ela aparecia quando ele chamava, mas às vezes aparecia sem ser chamada. A dívida nunca foi mencionada de novo. Em vez disso, surgiu algo mais perigoso: uma intimidade suja, conveniente, viciante.
Uma noite, com as crianças na casa da irmã, ela chegou com uma garrafa de vinho barato.
"Hoje não é negócio," ela disse, servindo dois copos. "Hoje é porque eu quis."
Ele aceitou o copo, observando-a sobre a borda. "E se eu não quisesse?"
Ela sorriu — um sorriso verdadeiro, raro. "Você sempre quer. Porque a alternativa é a solidão."
Era seu próprio argumento, devolvido. E era verdade.
Quando fizeram amor aquela noite, foi diferente. Mais lento, mais profundo, com beijos que duravam minutos. Na hora do clímax, ela prendeu o rosto dele entre as mãos e sussurrou: "Meu."
E ele, surpreendendo a si mesmo, respondeu: "Sempre."
Na manhã seguinte, ela se vestiu em silêncio. Na porta, ele a segurou pelo braço.
"Quanto você precisa esse mês?"
Ela olhou para ele, os olhos sem rancor, sem vergonha. "Quinhentos. O aluguel atrasou."
Ele pegou a carteira, contou sete notas. "Toma. E vem amanhã. Não por causa da dívida."
"Por que, então?"
"Porque eu te quero aqui."
Ela guardou o dinheiro, acenou com a cabeça e saiu. No elevador, tocou as notas no bolso — ainda quentes, como sempre estavam.
Mas desta vez, pela primeira vez, não cheiravam a dívida.