A saga do Jom | 3° Capítulo

Um conto erótico de Sarawat
Categoria: Gay
Contém 4776 palavras
Data: 06/01/2026 01:00:00
Última revisão: 23/01/2026 14:00:28

Pouco depois de eu ter ficado com o coração acelerado pelas informações obtidas através da minha própria especulação, Mei voltou e falou com Ming:

— Ai-Ming. O chefe saiu, mas ele deixou ordens para levá-lo para a casa grande.

Olhei para ela, perplexo.

— O chefe?

— A senhora chefe, Ueang Phueng — Mei respondeu com o nariz empinado e um orgulho evidente. — A esposa Lanna com quem o chefe estrangeiro se casou publicamente. Você não a conhece?

— Sou de outro lugar. Não moro aqui.

— Ugh, tanto faz — Mei me interrompeu. — A patroa chamou você. Apresse-se e vá.

Fui conduzido por outro caminho, passando por fileiras abundantes de mangueiras e árvores de longan. De repente, chegamos a um gramado vasto e impecável. Meus olhos se arregalaram de espanto diante da gigantesca casa de madeira escura que se destacava entre o verde das árvores. Estava em perfeitas condições, algo raríssimo de se encontrar nos meus dias atuais.

A casa grande era uma construção de dois andares no estilo indo-português. Seu telhado de quatro águas era revestido de telhas de barro Lanna, com pórticos salientes de formato hexagonal em ambos os lados. Cachos de flores índigo revestiam as escadas que levavam ao terraço, sob a sombra agradável da vegetação.

Segui Ming escada acima até a ampla galeria de tábuas de madeira. Toda a mansão era, provavelmente, feita de teca. Espiei pela porta e vi um sofá europeu preparado para receber convidados. Enormes presas de marfim estavam expostas para ostentar a grandeza do dono da casa.

No terraço, vi uma mulher sentada em um banco de madeira, rodeada de criados sentados no chão, prontos para servir — inclusive a mulher que eu vira antes, cujo peito agora estava devidamente envolto em um pano (muito obrigado!). A senhora repousava o braço sobre uma almofada triangular. Vestia uma camisa de mangas compridas de corte reto, com um xale sobre o ombro e um sinh que cobria os tornozelos. Seus cabelos longos estavam presos em um coque decorado com uma orquídea. Quando vi seu rosto claramente, meu queixo caiu.

Somjeed, minha irmãzinha!

— Sente-se, maldito — Ming sibilou, puxando meu braço. — Não se coloque acima da senhora.

Sente-se no chão ao lado de Ming, com os olhos fixos na "patroa" daquelas pessoas. Era a Somjeed... definitivamente minha irmã, mas em uma versão mais madura e digna, bem diferente da minha irmãzinha chorona. Meus pensamentos entraram em parafuso ao lembrar da crença dos antigos sobre reencarnação: conhecemos certas pessoas porque compartilhamos laços em vidas passadas. Seria aquela a vida anterior da minha irmã? Isso explicaria por que ela gosta tanto de linguiça picante do norte; ela era uma local na vida passada! Além disso, a ascendência da minha avó realmente vinha de Nan.

— Por que diabos você está me encarando assim? — foi a primeira coisa que ela disse.

Baixei o olhar imediatamente. Não era apenas o rosto; a voz também era idêntica.

— Não acho que seja a pessoa da noite passada — comentou Ueang Phueng. — Ontem... ela não parecia tão bonita.

Uau... eu deveria ficar feliz por ser elogiado em comparação a uma mulher? Pelo menos ela respeitava meus braços levemente musculosos.

— Então? Quem é você? É o filho do Oui-Ta enviado para substituir a E-Kammoon?

— Não é bem assim — respondi. — Meu nome é Jom. Não sou filho do Oui-Ta. E nem moro aqui...

Fechei a boca na hora, pesando os prós e os contras. O que aconteceria se eu negasse tudo? Não sabia se esse Oui-Ta seria punido. Mas, pior: onde eu dormiria? Vagaria pela estrada como um mendigo? Não... eu não tinha mais forças para lidar com tamanha pressão.

Pensei em tudo o que passei em menos de vinte e quatro horas. Quem teria energia para lutar contra o destino agora? Eu havia acordado no lugar e na hora errada. Se ficasse ali, pelo menos teria um teto. Quem sabe amanhã eu não acordaria de volta no meu apartamento? Por ora, eu precisava sobreviver.

Prendi a respiração e menti:

— Sou sobrinho do Oui-Ta... estou aqui no lugar da Kammoon.

Tecnicamente, eu estava ali no lugar dela, já que fui chutado para aquele quarto enquanto a verdadeira Kammoon provavelmente fugia com o homem do chute forte.

— E por que usa esse dialeto central? Você não parece pertencer a este lugar — continuou a patroa. — Pensei que fosse filho de algum jek [comerciante/pirata] que navegou até aqui para vender mercadorias.

Uau... isso doeu. Ela acabou de me chamar de filho de algum Jek? Eu gostaria de poder dizer a ela que, na próxima vida, ela também será filha do nosso pai Jek.

Lutei contra a vontade de retrucar e respondi apenas:

— Meu pai é chinês. Minha mãe é tailandesa... uma mulher aqui do norte.

A chefe Ueang Phueng olhou nos meus olhos, em profunda contemplação, antes de suspirar e balançar a cabeça lentamente.

— O patrão não vai gostar. Ele não é uma mulher.

Meu coração parou. O que aquilo significava? Iam me mandar de volta para o Oui-Ta, meu falso parente? Eu seria exposto! Mas a mulher que até pouco tempo estava sem sutiã sussurrou:

— Senhora chefe... acho que um homem será mais útil do que uma mulher.

O que quer que aquilo significasse, pareceu funcionar. Ueang Phueng ficou em silêncio por um momento.

— Isso é verdade... mas vai ficar tudo bem, não vai, Kumtib?

A mulher, cujo nome finalmente descobri ser Kumtib, abriu um sorriso malicioso.

— O chefe não ficaria insatisfeito com você agora. Ele só deseja a sua felicidade.

A patroa ponderou e decidiu:

— Então vou falar com ele. Como este é um homem, podemos mantê-lo para outros trabalhos. Não há necessidade de criar problemas com o Oui-Ta.

— O que você desejar, senhora — anuiu Kumtib.

Soltei um suspiro de alívio, mas logo fui bombardeado com perguntas pela chefe:

— O que você sabe fazer? Sabe cozinhar?

— Não, não sei — respondi, e meu rosto caiu. Eu só sabia fazer pratos simples, como omeletes ou sopa clara. Comida do norte estava fora de questão.

— Sabe boxear? — ela continuou. — O patrão é dono de um clube de boxe. Às vezes nos apresentamos na residência real do príncipe.

— Eu nunca pratiquei boxe na minha vida.

A chefe começou a demonstrar irritação, quando Mei interrompeu:

— A pele dele é lisa como a de uma mulher. Devemos treiná-lo para fazer a "dança das unhas", chefe?

— Não! Eu não posso fazer isso! — gritei, em alarme.

— Ugh! Você não serve para nada!

— E-Mei, não fale tão alto — Kumtib franziu a testa. — Isso vai irritar a patroa.

Ueang Phueng acenou com a mão, frustrada.

— Apenas faça dele um coolie, um vaqueiro ou algo assim. Eu não me importo mais. Estou cansada. Quero dormir!

Imediatamente, os servos correram para atendê-la com pomadas e inalantes de ervas, escoltando-a para dentro, quase carregando-a. Ouvi o comentário final de Kumtib enquanto se afastavam:

— Por favor, descanse bem, Madame, para que o bebê em sua barriga cresça forte.

Fiquei atônito. Minha irmã... quer dizer, essa versão dela... estava grávida. O que o papai diria sobre isso? E quem era o pai?!

Fui levado para as casas geminadas dos criados, localizadas a uma boa distância da casa principal. Eu dividiria um quarto com Ming, em uma ala onde moravam cerca de dez servos. Ming estava taciturno, claramente sem vontade de se associar comigo, mas não tinha escolha; era uma ordem.

Quando ele percebeu a pilha de roupas que eu carregava, uma risada escapou de sua boca.

— Por que você trouxe roupas femininas? — ele debochou. — Você gosta desse tipo de coisa?

— Bem... — as palavras travaram na minha língua. Eram as roupas que a Kammoon me dera, não as minhas. — Você pode conseguir algumas roupas de homem para mim?

— É... vou procurar. Não quero dormir com um louco vestido de mulher.

Ming retornou pouco depois com quatro ou cinco conjuntos de roupas velhas de outros servos.

— Você pode usar só uma tanga, como eu — sugeriu ele.

— Eu sinto frio com facilidade. Vou colocar uma camisa — respondi rapidamente.

Eu não ia ficar sem camisa de jeito nenhum. Embora tivesse voltado para uma época em que os homens trabalhavam de peito nu, eu me sentia desconfortável. Além disso, não tinha a menor vontade de exibir meu corpo para ninguém ali.

Ming saiu do quarto, deixando-me sozinho para me trocar. Tirei a camisa feminina e, de repente, algo caiu do bolso.

Era o meu telefone!

Encarei o aparelho por vários segundos antes de me recuperar e agarrá-lo. Saí de casa a toda velocidade, sentindo uma alegria extrema. Com este aparelho, eu tinha a chance de entrar em contato com minha família! Ming me olhou perplexo e gritou:

— Ai-Jom, onde você vai? Ficou louco?!

Não me importei com o que ele pensava. Corri para o pátio de terra e ergui o telefone, tentando captar qualquer sinal. Mas... nada. Nenhum sinal detectado.

A tela brilhava, mas não havia notificações ou aplicativos funcionando. Era apenas um retângulo luminoso emitindo uma luz fraca, sua única função restante. Meus braços caíram ao lado do corpo; meus ombros murcharam. Voltei para o alojamento com os olhos baixos, afundado em uma decepção profunda.

Depois de vestir uma camisa Mauhom e calças de pescador e terminar minha refeição, Ming tentou me encontrar um trabalho. Mas, que droga, ninguém parecia gostar de mim. Eu não era um bruto musculoso como a maioria dos criados dali. Meu corpo era mediano, nem gordo, nem magro. Os lenhadores apenas balançavam a cabeça, sorrindo com desdém. Tentei ajudar na cozinha, mas os chefs já tinham assistentes mais do que suficientes.

Acabei trabalhando com um senhor que todos chamavam de Oui-Suya. Ele era o encarregado de cuidar dos cavalos e bois — os principais veículos daquela época, onde as pessoas viajavam em carruagens e carroças.

Portanto, minha tarefa nesta vida era limpar o celeiro, o estábulo e o chiqueiro. Descanse em paz, arquiteto promissor. Adeus plantas e canetas... olá, esterco. No entanto, Oui-Suya era gentil. Ele me instruía pacientemente, apesar do meu rosto mal-humorado e da minha óbvia falta de jeito. Também puxava conversa para que eu não ficasse tão estressado. Graças a ele, descobri que o dono da casa, a quem chamavam de "o chefe estrangeiro", era o Sr. Robert, um comerciante inglês e gerente de uma empresa de teca que possuía concessão para operar nas florestas de Chiang Mai.

— O patrão quase não usa mais carruagens — contou Oui-Suya. — Ele tem um carro. Não há muitos carros em Chiang Mai; só os muito ricos possuem um.

Assenti, sem perguntar muito. Ainda estava confuso e o cheiro de esterco era um lembrete constante de que minha vida de hipster ficara no passado... ou melhor, no futuro. Isso era ainda mais confuso.

Ao cair da noite, finalmente conheci meu "cunhado". Devo dizer que ele não era exatamente o que eu esperava de um homem escolhido pela minha irmã — a mesma que, no futuro, ficava fazendo fangirling para ídolos de K-pop e gritando "Oppa!" na frente do laptop.

O Sr. Robert era um estrangeiro alto e imponente, de cabelos loiros, olhos azuis e barba. Sua postura exalava uma arrogância natural. Ele saiu do carro e seguiu direto para o casarão. Eu o observei de longe enquanto devolvia as roupas femininas de Mei em um arbusto de champaca branca, pois não queria chegar perto do alojamento das mulheres à noite.

Soube que o Sr. Robert não gostou do fato de eu estar ali no lugar da Kammoon, mas ele não fez alarde por causa da gravidez da esposa. No jantar, formei uma roda com os outros empregados. A comida era arroz pegajoso e caril de peixe grelhado em folhas de bananeira. O único prato que me causava horror era o Lhu, feito com carne e sangue cru.

— O patrão aceitou o rapaz, mas não gostou — comentou Insorn, um criado que dividia a casa conosco. — Aposto que alguém vai vender a filha para ele em poucos dias.

— Estão com falta de criadas por aqui? — não aguentei e me intrometi.

— Criadas para o serviço doméstico temos o suficiente — Insorn deu um sorriso pervertido. — Mas não o suficiente para "outras coisas".

Todos riram, como se fosse uma piada comum. Olhei ao redor e vi Ming franzindo a testa para o prato.

— O que foi, Ai-Ming? Preocupado com a E-Mei? — Insorn deu uma cotovelada nele. — Não se preocupe. O chefe não vai encostar nela. A Mei serve a patroa desde que moravam na casa do magnata. O patrão a deixa de lado.

Ming rosnou algo sobre estar com calor, mas suas orelhas ficaram vermelhas. Agora eu entendia a frieza dele: ele estava apaixonado pela Mei e achava que eu, com meu rosto "bonito", era um rival.

Antes de dormir, perguntei a ele:

— Quantos anos a Mei tem?

Ming me encarou com desconfiança.

— Por que quer saber? Gostou dela?

— Não — neguei imediatamente. — Ela é bonita, mas eu prefiro mulheres... gordinhas. Só perguntei porque ela parece muito jovem para servir o chefe tão de perto.

— A Mei foi vendida para o Sr. San, pai da patroa, quando ainda era criança. A patroa a adora e quer que ela se case com um bom homem, que não seja amante de ninguém. Tem certeza que não gosta dela?

— Absoluta — respondi com firmeza. Na verdade, eu queria dizer que gostava de homens, mas tinha medo de ser expulso.

O tom de Ming suavizou; ele parecia convencido. Logo adormeceu, mas eu fiquei acordado, encarando a escuridão e tentando entender como vim parar ali. Minha teoria favorita envolvia física quântica e "buracos de minhoca". No espaço-tempo, se uma vibração fizesse a "folha de papel" do tempo se dobrar, um pequeno tubo poderia ligar dois pontos distantes. Eu era o que havia fluído por esse tubo.

Eu já vira Interestelar. Sabia que, na teoria da relatividade, o tempo é maleável. Mas, na prática, ninguém decide para onde um buraco de minhoca te leva. Eu poderia ter caído em um planeta alienígena ou em um mundo coberto por ondas gigantes. Tive sorte de cair aqui.

Dormi esperando que, ao acordar, tudo tivesse desaparecido. Mas pela manhã, o canto dos galos e o teto de madeira me trouxeram de volta à realidade. Eu gritei a plenos pulmões, frustrado.

— Ai-Jom, você está bem? — Ming perguntou no café da manhã. — Se não estiver, direi ao Oui-Suya que você está com diarreia.

Agora, todos os servos achavam que eu estava louco. Inventei que tive um pesadelo e tentei comer meu arroz pegajoso com uma pasta de peixe fermentado. O gosto era estranho e o cheiro pior ainda. Mas, tanto faz. Isso não ia me matar.

Balancei a cabeça e suspirei, frustrado. Por quê? Quando leio livros em que os personagens viajam no tempo, eles sempre assumem o corpo de alguém incrível: o herdeiro do trono, uma concubina influente, um filósofo ou uma mulher de beleza estonteante. Eu não era nada disso. Estava preso em meu próprio corpo: Jom, um arquiteto de 24 anos com boa aparência, mas nenhuma habilidade para lidar com gado. Minha vida agora se resumia a cuidar de porcos e cavalos.

Assim que terminei a refeição, caminhei para o celeiro. Após o sono profundo da noite anterior, meu corpo não doía mais e eu sentia mais força para trabalhar. Decidi ajustar minha maneira de falar para me adequar à situação; as pessoas não paravam de perguntar por que eu falava "engraçado". Comecei a usar termos mais formais e, dependendo de com quem falava, terminava as frases com um "gentil senhor" para soar mais de acordo com a época. Às vezes, porém, o dialeto moderno escapava sem querer.

Hoje, Oui-Suya me deu mais tarefas. Cumpri cada pedido, mas minha mente estava em outro lugar: como voltar para casa? Eu não queria estar ali. Embora o futuro guardasse lembranças que me magoavam, era o meu mundo real.

— Rapaz, por que esse desânimo? Algo o preocupa? — perguntou Oui-Suya.

— Não — respondi, balançando a cabeça.

Oui-Suya ficou parado, seus olhos exalando aquela bondade que os mais velhos reservam aos jovens. Sentindo-me culpado por estar tão distraído, tentei puxar assunto:

— Oui-Suya, você disse que o patrão quase não usa as carruagens. Por que há tantos cavalos então? — tentei forçar um dialeto que parecesse mais local.

— Esses dois são para o polo. — Ele apontou para dois cavalos em excelentes condições. — Puro-sangue. O patrão os ama muito.

— Polo?

— Sim. No clube dos estrangeiros. Eles têm todo o equipamento. Ho... é muito mais conveniente hoje em dia. Recebemos tudo pelo trem. Não leva mais quase um ano para as mercadorias atravessarem o oceano como antigamente.

Aquilo chamou minha atenção. Espere... Se o trem já chegava a Chiang Mai, significava que estávamos no fim do reinado de Rama VI ou já no de Rama VII. O Príncipe Kaew Nawarat governou durante a transição entre esses dois reinados. Mas em que ano o trem começou a circular ali? Maldita seja! Eu já soube disso um dia, mas agora não conseguia lembrar.

Minha boca coçava para perguntar o ano exato, mas sabia que era inútil. Oui-Suya me responderia usando o calendário Lanna, e eu não saberia converter para o B.E. atual. Tudo bem. Se eu ficasse ali por mais tempo, encontraria outras pistas.

À noite, meus pensamentos se tornaram selvagens. Eu me revirava na cama, perturbado. Pensava nos meus pais. O quão desesperados eles estariam com o meu desaparecimento? E, por um breve momento, pensei em Ohm...

Você descobriu que meu carro caiu no rio Ping? Se descobriu, o que pensou? Sentiu culpa por ter causado o acidente? Se arrependeu? Chorou? Ou apenas seguiu com sua noiva e seu filho, sem saber de nada?

Meu peito apertou e minhas pálpebras esquentaram, mas reprimi o choro. Pensei nas pessoas que realmente me amavam: meu pai, minha mãe e minha irmã. Aquele que não me amava... não merecia espaço na minha mente.

Mais uma noite se passou. Meus desejos não alcançaram o "Deus do Buraco de Minhoca", porque, ao abrir os olhos, eu ainda estava na mesma casa com Ming roncando ao lado. E ainda tinha que limpar o esterco dos porcos. Apesar de miserável, tentei não perder a esperança. Se eu consegui vir para cá, havia um jeito de voltar. Só precisava descobrir como.

— Coloque água no cocho para os porcos — ordenou Oui-Suya à tarde.

Carreguei o balde até o poço externo, onde a água era extraída por uma velha bomba manual. Dois outros empregados estavam ali.

— Vá você primeiro. Eu te alcanço — disse um deles após encher o balde.

— Ir primeiro? Onde é o "primeiro"? — o outro brincou.

— Ha! Idiota, apenas volte por onde veio! — O primeiro tentou dar um chute no amigo, que se esquivou rindo e saiu com o balde no ombro.

Olhei para a água saindo da torneira e a frase ecoou na minha mente: Apenas volte por onde veio.

Senti um calafrio. Olhei imediatamente para o rio. No dia em que cheguei, meu carro caiu na água e eu estava me afogando. Lembro que meu corpo estava submerso, eu estava dando o último suspiro quando ouvi aquele zumbido no ouvido e apareci aqui. O rio... o rio era a chave! Havia uma passagem ali embaixo, um buraco de minhoca para me levar de casa!

Meu coração disparou. Se eu quisesse voltar, teria que ser na água. E teria que ser exatamente no mesmo lugar onde cheguei.

À noite, quando Ming e os outros adormeceram, saí na ponta dos pés. Não esqueci de levar meu celular. Vai que o sinal do aparelho era um dos fatores necessários para a viagem? Por sorte, meus amigos me convenceram a comprar um modelo à prova d'água.

O píer na área feminina estava envolto na penumbra. Grilos cantavam na grama alta. Quando tive certeza de que estava sozinho, subi nas tábuas que rangiam suavemente. Cada passo era uma mistura de pânico e expectativa. Parei na ponta do trapiche, olhei para o rio negro fluindo sob o luar, prendi a respiração e...

SPLASH!

A água espirrou ruidosamente enquanto meu corpo mergulhava no rio gelado. Abri os olhos e me deixei afundar, sem lutar. A escuridão me envolveu. Havia apenas o zumbido nos ouvidos. Esperei o som do ar assobiando, mas nada aconteceu. Comecei a ficar sem fôlego. Bolhas escapavam da minha boca. Lutei contra o pânico, mas o limite humano chegou. Finalmente, emergi, lutando para respirar.

— Ha... ha...!

Respirei fundo, engasgando. Arrastei-me até a margem, encharcado e tremendo, com o coração gritando de frustração. Por que não deu certo? O que faltou? Por que o buraco de minhoca não abriu como da primeira vez? Eu precisava me acalmar. Minha esperança ainda não tinha morrido.

Recuperei o fôlego e, teimoso, caminhei novamente até as tábuas do píer. Gotas de água pingavam de minhas roupas, formando poças no caminho. Parei na borda. O rio continuava fluindo silencioso, O rio fluía suavemente, movendo-se em ondas baixas como se zombasse do meu esforço. Respirei fundo e saltei mais uma vez. Não sei quantas vezes pulei e me afoguei naquela noite, mas cheguei à amarga conclusão de que o rio não me levaria além daquele pequeno píer na propriedade do Sr. Robert.

Voltei para o alojamento dos empregados encharcado, com frio e possesso de raiva. Maldito buraco de minhoca! Ele me trouxe até aqui e agora se recusava a me aceitar de volta! Passei os dias seguintes xingando o "Deus dos Buracos de Minhoca" e tentando encontrar a passagem subaquática em todas as áreas possíveis. À noite, eu tomava banho mais tarde que os outros e passava um tempo excessivo em cada píer, mergulhando em pontos diferentes na esperança de sentir qualquer sinal, qualquer vibração que me devolvesse ao meu tempo.

Após ser repetidamente esmagado por esses esforços inúteis, meu vigor diminuiu. O desânimo tomou o lugar da esperança e comecei a cair na resignação. Fiz as pazes com o fato de que teria de ficar aqui por mais tempo do que imaginava. Decidi me ajustar e interagir mais com os outros servos para me sentir parte do lugar. Eu precisava relaxar, ou acabaria enlouquecendo de verdade, como o Ming vivia sugerindo. Um viajante do tempo que perde o juízo... que tragédia seria.

Em uma tarde, a figura alta do Sr. Robert apareceu perto do chiqueiro, seguido por Oui-Suya, que mantinha uma postura respeitosa. Fiquei surpreso ao vê-lo ali. O patrão olhou para dois grandes porcos devorando a comida no cocho e balançou a cabeça.

— Isso não vai funcionar.

Fiquei tenso. Ele estava criticando meu trabalho? Eu estava ali há pouco mais de uma semana, o que ele esperava? Mas então, ele disse:

— Eu quero um porco rápido.

Fiquei sem palavras. Um. Porco. Rápido.

— Ah... o senhor quer dizer um cavalo, certo? — perguntei, confuso. — Não um porquinho?

— Não, eu quero dizer um porquinho. Um porquinho que corra rápido. — Ele franziu a testa. — Você entende inglês?

— Um pouco. Trabalhei com... missionários — menti na velocidade da luz.

O Sr. Robert pareceu perder o interesse na conversa e voltou sua atenção para os animais.

— Encontre-me um — disse, apontando para o meu rosto. — Um porquinho veloz.

Minha dúvida só foi sanada pela explicação posterior de Oui-Suya:

— O patrão quer um leitão para a corrida em Shitamas. É um grande evento anual organizado pelos madeireiros estrangeiros no inverno, um mês após o Loy Krathong. No ano passado, o patrão participou do polo e da corrida de cavalos. Este ano, quer ganhar a corrida dos leitões.

Processei a informação. — Shitamas... você quer dizer o Natal?

— Sim... isso mesmo.

Pelo visto, a pronúncia dele era um tanto peculiar. Mas agora eu entendia: minha missão era encontrar um porco "atleta" para o chefe estrangeiro.

No dia seguinte, embarquei no barco nos fundos da casa e segui para o mercado com Ming. Admito que estava animado; nunca tinha visto Chiang Mai naquela época. Ming remava calmamente pelo rio Ping sob o sol quente. Ele guiou o barco por uma linha de chalés escondidos atrás das árvores, não muito longe do píer onde eu aparecera no primeiro dia.

— É ali que moram as empregadas? Que casas bonitas — comentei.

Ming riu. — Aquelas são as residências das esposas do patrão.

Aquilo me pegou de surpresa. Esposas? No plural? Quantas amantes meu "cunhado" tinha? Olhando para as casinhas, balancei a cabeça negativamente... era basicamente um harém. Senti uma pena profunda da minha irmã.

Logo passamos pela propriedade vizinha à do Sr. Robert, protegida por árvores imensas que projetavam sombras frescas sobre um gramado verde brilhante. Ao longe, vislumbrei uma casa Lanna majestosa com telhas de barro. Perto de uma grande árvore da chuva, havia um bosque de flores de Lantom crescendo na margem do rio — algo incomum para a decoração de casas hoje em dia. Um pavilhão de madeira se projetava sobre a água.

Enquanto a brisa trazia o perfume doce das flores, vi um homem descansando no pavilhão. Ele vestia uma camisa de linho e calças de cetim, o traje típico do povo da Região Central (Siam). Estava lendo um livro, totalmente concentrado.

Quando nosso barco se aproximou, ele ergueu os olhos.

Era um homem encantador. Tinha a pele clara e traços faciais afiados, tipicamente tailandeses. Ele me encarou sem quebrar o contato visual, parecendo atordoado, ou talvez em um estado de choque extremo. Mantivemos o olhar por vários segundos até que eu, constrangido, desviei a vista.

Meu coração disparou por um motivo desconhecido. Não era apenas porque ele era bonito — eu não era o tipo de pessoa cujas bochechas ficam vermelhas como um semáforo toda vez que via um rosto atraente. Havia algo nos olhos dele que atingiu meu peito. Uma centelha de reconhecimento ou algo mais profundo.

— De quem é essa casa, Ming? — perguntei, quando já estávamos longe do pavilhão. — É grande e majestosa. É alguma residência real?

— Não, é a residência do oficial siamês.

— Ah... por isso ele não estava vestido como o pessoal daqui. Mas quem era aquele homem no pavilhão?

— Como eu vou saber? Eu não trabalho lá.

— O quê? Vocês são vizinhos e não se conhecem? — perguntei, surpreso.

— Ele se mudou para cá há apenas alguns meses. O nome do dono da casa é Luang alguma coisa, não me lembro bem. Os empregados de lá usam o dialeto central, igual a você. O nosso patrão estrangeiro o trata com muita cortesia; às vezes, até o convida para as festas na casa grande.

Ah... agora as peças começam a se encaixar na minha mente. Se não me falha a memória, no reinado anterior, os príncipes do norte detinham o poder total de conceder licenças de extração de madeira aos estrangeiros. No entanto, o Sião [Tailândia] começou recentemente a assumir o controle administrativo do Norte, enviando governadores e funcionários para lá. Com o tempo, a propriedade das florestas foi transferida para o governo central.

Lembrei-me vagamente da história da Princesa Dara Rasmi, a consorte do Rei Rama V. Ela foi peça-chave ao persuadir sua família a aceitar uma porcentagem das taxas de extração arrecadadas pelo governo em troca de abrir mão do controle exclusivo sobre as florestas. Ouvi dizer que a quantia era tão vasta que o dinheiro precisava ser carregado em cestas de bambu.

Não era de se estranhar, portanto, que estrangeiros como o Sr. Robert, interessados no lucrativo negócio da teca, fizessem de tudo para confraternizar com as autoridades governamentais. Era uma questão de sobrevivência comercial.

Alguns minutos depois, meu interesse pelo vizinho misterioso foi momentaneamente substituído pelo puro entusiasmo com o que surgia diante de meus olhos. O rio estava vivo. Barcos de todos os tipos, incluindo os tradicionais com "cauda de escorpião", deslizavam pelas águas. Na margem, erguia-se uma enorme construção de madeira que, segundo Ming, era a residência do governador siamês. No meu tempo, eu a conhecia como a residência do governador provincial, mas vê-la ali, em sua glória original, era outra coisa.

Do lado oposto, avistei o pagode do templo Wat Ket Karam erguendo-se imponente acima das árvores. Não havia boates ribeirinhas ou bares modernos ao redor; era uma paisagem serena e sagrada.

Quase perdi o equilíbrio no barco quando vi a Ponte Nawarat atravessando o rio Ping. Ela ainda era uma estrutura de aço, e não a versão de concreto que eu estava acostumado a atravessar. Além do estilo de vida pulsante à beira-rio, o que me fez esticar o pescoço de curiosidade foi a Rua Thapae, que já era uma via importantíssima.

Ambos os lados da rua estavam apinhados de barracas. Logo adiante, vislumbrei o Mercado Ton Lamyai e o Mercado Warorot, nosso destino final.

Os mercados fervilhavam. A maioria das mulheres vestia-se com recato, mas algumas das mais velhas mantinham o antigo costume de cobrir os seios apenas com lençóis soltos. Homens caminhavam sem camisa, exibindo tatuagens complexas que pareciam contar histórias em suas peles. Era um caldeirão cultural: comerciantes de diversas nacionalidades negociavam em vozes altas, criando uma sinfonia de idiomas que eu nunca tinha ouvido antes.

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Foto de perfil genéricaSarawat Contos: 18Seguidores: 4Seguindo: 18Mensagem Olá, eu sou o Sarawat. Sou entusiasta do gênero romance e fascinado pelo universo asiático, especialmente pelas culturas tailandesa, chinesa e coreana, com as quais possuo um forte vínculo ancestral. Dedico-me a escrever histórias que unem personagens de personalidade forte a uma rica ambientação cultural.

Comentários

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Que incrível, o reencontro dele com a irmã em outra dimensão kkkkkk. O Jom está mais perdido que cego em tiroteio.

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