Essa é uma história original, inspirada em acontecimentos reais da minha vida.
Os nomes foram alterados. O que permaneceu intacto foi a memória.
O que conto aqui aconteceu em 2018, quando eu tinha 22 anos, e ainda acreditava que certas coisas eram apenas coincidência.
Meu nome, nesta história, é Bernardo.
O shopping sempre foi o nosso ponto de encontro. Não porque fosse especial, mas porque nunca exigiu explicações. Todo ano, quase como um ritual silencioso, eu, Arthur e Arthuro acabávamos ali. Às vezes combinávamos. Às vezes apenas sabíamos que iria acontecer.
Naquele dia, cheguei primeiro. Como quase sempre.
Caminhei pelo corredor principal com passos tranquilos, sentindo o ar frio contrastar com a pele ainda aquecida do sol. Eu era alto — um metro e noventa e um — e isso nunca passou despercebido. Meu corpo carregava o bronze constante de quem gostava de praia, de ficar ao ar livre. Não era musculoso no sentido clássico, mas tinha um físico firme, bem distribuído, cuidado sem obsessão. Ombros largos, braços definidos o suficiente para marcar presença sob a camiseta clara que eu vestia.
O cabelo cacheado, curto, bem tratado, caía de forma natural. Eu sempre tive consciência do meu corpo, não por vaidade excessiva, mas porque aprendi cedo que ele falava antes de mim.
Escolhi a cafeteria de sempre. Mesa próxima ao vidro, cadeira confortável. Tirei o celular do bolso, mais por hábito do que por interesse real, e olhei o horário.
Os garotos estavam atrasados.
Sorri sozinho. Algumas coisas nunca mudavam.
Conheci Arthur e Arthuro ainda na época da escola. Não foi uma amizade construída com cuidado — ela simplesmente aconteceu. Crescemos juntos, atravessamos adolescência, descobertas, confusões e formaturas. Depois, cada um seguiu um caminho diferente na faculdade. Eu fui para as letras; Arthur para a logística; Arthuro para a educação física. Mesmo assim, aquele encontro anual sempre permaneceu.
Levantei o olhar quando percebi movimento pelo reflexo do vidro.
Arthuro vinha em minha direção com o mesmo andar solto de sempre. Alto — cerca de um metro e oitenta e dois — corpo claramente trabalhado, resultado de anos de exercício e da profissão. Professor de Educação Física, aquilo estava impresso nele. Ombros bem desenhados sob a camiseta escura, braços firmes, pernas fortes à mostra na bermuda esportiva. O cabelo preto estava levemente bagunçado, como se não tivesse se preocupado em arrumá-lo demais, e os olhos verdes claros chamavam atenção sem esforço.
Ele me viu e sorriu de imediato.
— Ainda cheguei antes de você ir embora — disse, como se isso fosse um mérito.
Levantei-me para cumprimentá-lo. O abraço veio automático, próximo, rápido, mas intenso o suficiente para que eu sentisse o calor do corpo dele, o cheiro limpo de sabonete e algo levemente amadeirado.
— Atrasado como sempre — comentei.
— Pontualidade é superestimada — respondeu, rindo.
Sentamos. Arthuro largou a mochila no chão, abriu as pernas com conforto e apoiou um braço no encosto da cadeira, ocupando espaço com naturalidade. Ele tinha esse jeito físico de existir — expansivo, confiante, quase provocador sem intenção clara.
— Você tá bem — disse, me observando com atenção aberta. — Mudou um pouco.
— Todo mundo muda
— respondi.
— É… mas você mudou bonito.
Revirei os olhos, rindo de leve.
— E o Arthur?
— perguntei em seguida. — Pensei que vocês viriam juntos.
O sorriso de Arthuro perdeu um pouco da força, só o suficiente para ser notado.
— Ele não conseguiu vir hoje.
— Aconteceu alguma coisa?
— Lesionou a perna.
— Arthuro fez um gesto vago com a mão.
— Nada grave, mas precisou ir ao hospital.
Endireitei a postura quase sem perceber.
— Quem levou ele?
— O pai. — Ele sorriu de canto. — O Sr. Juan entrou em ação.
Assenti devagar. O Sr. Juan era o pai deles. Um homem de presença forte, postura firme, daqueles que pareciam carregar autoridade no próprio corpo. Arthur e Arthuro puxaram mais a mãe fisicamente, mas havia traços do pai nos dois — no olhar seguro, no modo de se posicionar.
— Ele está bem? — perguntei, talvez rápido demais.
Arthuro arqueou a sobrancelha.
— Meu pai ou meu irmão?
— Os dois — disfarcei.
— Estão. — Ele sorriu de canto. — Engraçado como você sempre pergunta do meu pai.
— Coincidência.
— Sei.
— Ele se inclinou um pouco mais para frente.
— Mas gosto disso.
O garçom trouxe o café. Peguei a xícara com calma, sentindo o calor entre os dedos.
— O Arthur vai ficar irritado em casa — comentei. — Ele odeia depender dos outros.
— Verdade.
— Arthuro riu.
— Ainda mais ele, todo organizado, agora sem controle nenhum da situação.
Ele me observou por alguns segundos antes de mudar o tom.
— E você? — perguntou. — Sr Professor de Língua Portuguesa, Literatura e Francês… ainda o mais inteligente da turma?
— Isso é elogio ou provocação?
— Um pouco dos dois.
Sorri.
O café esfriava lentamente entre nós, mas a conversa não.
Arthuro se recostou melhor na cadeira, cruzando as pernas com naturalidade, o joelho marcando o tecido da bermuda. Ele tinha aquele jeito de quem estava confortável no próprio corpo — e sabia disso. Eu observava sem parecer observar, um hábito antigo, quase automático.
— E você? — ele perguntou, apoiando o cotovelo na mesa. — Continua dando aula como se o mundo dependesse disso?
Sorri antes de responder.
— Mais do que nunca. — Levei a xícara aos lábios. — Ensino em duas escolas agora. Literatura de manhã, Língua Portuguesa à tarde, Francês duas vezes por semana à noite. Às vezes sinto que vivo dentro de uma sala de aula.
— Sempre foi a sua cara — ele comentou. — Você nasceu com cara de professor.
— Isso é elogio?
— Muito. — Ele riu. — Você sempre teve esse jeito… intenso. Concentrado. Como se estivesse sempre pensando em alguma coisa maior.
Abaixei o olhar por um instante.
— Passei em um concurso público — falei, quase casualmente.
Arthuro ergueu as sobrancelhas.
— Sério?
— É. Professor efetivo. Agora é só esperar a nomeação.
— Bernardo… — Ele balançou a cabeça, sorrindo de verdade. — Eu sabia. Você sempre foi o mais focado de nós três.
— Focado ou desesperado por estabilidade — brinquei.
— As duas coisas podem coexistir.
Rimos. O silêncio que veio depois não foi constrangedor. Foi denso. Daqueles que carregam coisas não ditas.
— E você? — perguntei. — Vida de professor atleta está funcionando?
— Cansativa. — Ele estalou o pescoço de leve. — Dou aula em escola de manhã, academia à tarde e personal à noite. Meu corpo sente, mas… — Ele deu de ombros. — Eu gosto.
Era impossível não notar o corpo que ele mencionava. Os braços definidos repousavam sobre a mesa, veias discretas aparecendo quando ele fechava a mão ao redor do copo de água. O peito preenchia bem a camiseta, sem exagero, mas com firmeza evidente.
— Imagino que receba muita atenção — comentei.
Ele inclinou a cabeça, divertido.
— Está falando dos alunos ou de outra coisa?
— Você sabe exatamente do que estou falando.
Arthuro sorriu de lado.
— A atenção vem. Nem sempre a que importa.
Meu olhar se manteve no dele por um segundo a mais do que o necessário.
— E você? — ele devolveu, agora com a voz mais baixa. — Como anda a vida… fora da escola?
Sabia exatamente o que ele queria dizer.
Sorri, desviando o olhar apenas o suficiente para não parecer um recuo.
— Tranquila — respondi. — Sem pressa. Sem confusão.
— Sem ninguém?
Dei de ombros.
— Às vezes é bom assim.
Arthuro me analisou em silêncio, como se tentasse ler algo por trás da resposta.
— Você sempre foi bom em esconder as coisas — disse.
— Nem tudo precisa ser dito.
Antes que ele respondesse, o celular vibrou sobre a mesa. Arthuro pegou o aparelho e franziu o cenho ao ver o nome na tela.
— Olha só quem resolveu aparecer.
— O Arthur? — perguntei.
— Ele mesmo.
Atendeu em videochamada e, sem pensar muito, puxou a cadeira para mais perto de mim.
— Fala, lesionado.
A imagem apareceu. Arthur surgiu na tela, recostado em uma poltrona. Era quase um espelho de Arthuro no rosto — mesmos traços, mesmo formato de olhos — mas o corpo era diferente. Menos volumoso, menos trabalhado. Mais contido. Vestia uma camiseta simples, a perna estendida à frente, envolta por uma imobilização discreta.
— Engraçado — Arthur respondeu. — Enquanto você se exibe por aí, eu estou de molho.
— Drama — Arthuro provocou.
— Bernardo? — Arthur sorriu ao me ver. — Quanto tempo.
— Tempo demais — respondi. — Como você está?
— Vivo. O que já é alguma coisa.
Enquanto ríamos, percebi movimento ao fundo da chamada. Um homem atravessou parcialmente o enquadramento e parou atrás de Arthur.
O Sr. Juan.
Ele era alto, de postura firme, corpo largo mesmo sob a camisa simples que vestia. A pele morena contrastava com os cabelos escuros, já marcados por fios grisalhos nas têmporas. O rosto carregava a maturidade de quem viveu muito — maxilar forte, barba por fazer, olhos profundos e atentos.
Havia algo nele que prendia o olhar. Uma presença silenciosa, segura. Era fácil ver de onde os filhos herdaram aquela forma de ocupar o espaço.
— Boa tarde — ele disse, olhando para a câmera.
— Boa tarde, Sr. — respondi, sentindo um leve aperto no peito sem motivo claro.
Juan assentiu, com um meio sorriso discreto, antes de sair novamente do enquadramento.
Arthur revirou os olhos.
— Ele não desgruda — comentou.
— Ainda bem — Arthuro respondeu. — Alguém precisa cuidar de você.
A chamada continuou por mais alguns minutos, entre brincadeiras, reclamações e promessas de outro encontro.
Quando o celular foi desligado, o silêncio entre mim e Arthuro voltou — diferente. Mais carregado.
— Você deveria passar lá em Casa— ele comentou, casualmente demais.
— No final de semana, o que acha ?
— Balancei a cabeça confirmando e Sorri.
Saímos da cafeteria sem pressa. O shopping seguia seu fluxo comum, pessoas indo e vindo, sacolas, conversas soltas no ar. Mas entre nós havia algo diferente — uma linha invisível de atenção constante. Arthuro caminhava ao meu lado com facilidade, ocupando o espaço com aquele corpo seguro, os ombros largos relaxados, o passo firme de quem sempre esteve confortável em ser visto.
— Já que você sempre se vestiu bem… — ele disse, quebrando o silêncio — vou precisar da sua ajuda.
— Ajuda com o quê? — perguntei, fingindo desinteresse.
— Festa na piscina hoje à noite.
Olhei para ele, arqueando uma sobrancelha.
— Festa na piscina? — sorri. — Arthuro, pra isso você só precisa de uma sunga.
Ele riu alto, aquela risada aberta, quase provocadora.
— Exatamente. É isso que eu vim comprar.
Balancei a cabeça, rindo também.
— Você é impossível.
— E você adora — respondeu, sem nem pensar.
Entramos em uma loja de roupas masculinas. O ar era mais fresco ali dentro, o cheiro de tecido novo misturado com perfume. Arthuro começou a pegar algumas peças, analisando, jogando sobre o braço, enquanto me olhava de vez em quando, como se estivesse esperando aprovação.
— E aí, professor — ele provocou —, acha que esse corpo ainda aguenta uma festa?
Cruzei os braços, avaliando-o sem disfarçar.
— Corpo aguenta. A pergunta é se a festa aguenta você.
— Tá vendo? — ele sorriu. — Por isso eu trouxe você.
Ele escolheu uma sunga de corte simples, escura, e uma camisa leve, que deixava pouco à imaginação quando aberta. Caminhou até o provador e, antes de entrar, olhou para trás.
— Vem cá. Quero sua opinião.
— Arthuro… — comecei, rindo.
— Anda, Bernardo. Para de drama.
Entrei no provador atrás dele. O espaço era estreito, fechado demais para duas pessoas, mas nenhum de nós pareceu se importar. A porta se fechou, e o mundo do lado de fora ficou distante.
Arthuro tirou a camiseta com naturalidade, como se aquilo fosse nada. O corpo dele se revelou por completo: definido, trabalhado, firme. O abdômen marcado, o peito amplo, a pele quente sob a luz direta do provador. Ele vestia apenas a sunga agora, e a camisa aberta pendia solta sobre os ombros.
Engoli em seco, tentando manter o tom leve.
— Você sabe muito bem que ficou bom — falei.
— Quero ouvir de você — respondeu, se aproximando um pouco mais.
A proximidade era intensa. O espaço não permitia distância, e o ar parecia mais pesado. Meu olhar percorreu seu corpo sem pressa, sem culpa. Arthuro percebeu — sempre percebeu.
— E então? — insistiu.
— Você está… — parei por um segundo — bonito demais para alguém que diz não chamar atenção.
Ele sorriu, daquele jeito torto, perigoso.
— Você sempre fala assim.
— Falo a verdade.
O silêncio que se instalou foi diferente de todos os outros. Denso. Vivo. Meu coração batia mais rápido, e eu sabia que ele sentia algo parecido. Arthuro respirava mais fundo agora, os olhos presos aos meus.
Foi quando percebi. Não precisei olhar diretamente — senti. A tensão entre nós havia ultrapassado o limite da brincadeira. O corpo dele reagia à proximidade, à intimidade inesperada daquele momento.
Levantei o olhar devagar. Ele não desviou.
— Bernardo… — murmurou.
O nome soou diferente ali dentro.
— A gente devia… — comecei, sem terminar.
— Eu sei — ele respondeu. — Mas não agora.
Não houve planejamento. Não houve decisão clara. Apenas o impulso silencioso que nos puxou um para o outro. O espaço curto, os corpos próximos demais, a respiração misturada.
Quando nossos lábios se tocaram, foi suave. Um beijo contido, rápido no começo — como se ambos estivessem testando o terreno. Depois, mais firme. Mais consciente. O mundo parecia ter diminuído ao tamanho daquele provador.
Quando nos afastamos, ainda próximos, Arthuro sorriu, ofegante.
— Acho que a roupa passou no teste — disse, tentando brincar.
Sorri de volta, o coração acelerado.
— Acho que sim.
Antes de sairmos, ele tocou meu braço de leve.
— Vai lá em casa qualquer dia desses. O Arthur vai gostar de te ver. E… — ele hesitou — você pode contar pessoalmente sobre o concurso.
Assenti.
— Eu vou.
Saímos do provador como se nada tivesse acontecido. Mas tudo tinha mudado.
Saímos do provador como se nada tivesse acontecido. Mas tudo tinha mudado.
E aquele encontro — o que sempre acontecia — jamais seria apenas mais um.
‐‐‐‐‐Antes de tudo, isso aqui é só um trecho. Um recorte de uma história que começa agora. É algo que aconteceu comigo há muitos anos e que só hoje decidi contar. Se esse início fizer sentido, se vocês gostarem, sigo em frente e continuo a história.
Já adianto que é uma história longa. Esse é apenas o começo; a continuidade depende dos comentários e aprovações de vocês.