— Jom... Jom, acorde... — uma voz áspera sussurrou no meu ouvido.
Eu estava grogue, submerso no sono. Tentei abrir os olhos, mas minhas pálpebras pesavam como chumbo, e acabei deslizando de volta para a terra dos sonhos. Ouvi uma risada baixa ao meu lado. Embora não visse o rosto, sabia que o dono da voz estava sorrindo.
— Que dorminhoco... — ele me repreendeu com uma mistura de resignação e carinho. Senti um toque provocador subindo pelo meu cotovelo, seguido por um segredo ao pé do ouvido: — Se você não acordar agora, eu vou te beijar.
Ohm!
Meus olhos se arregalaram na escuridão. Ele não estava ali.
Bufei, sentindo o coração disparar contra as costelas. A visão diante de mim era desconhecida: um teto de palha e madeira. Precisei de alguns segundos para lembrar onde — e em que época — eu estava. Sentei-me e encarei a luz pálida do céu enevoado através da janela. Era quase madrugada. Eu ainda estava no alojamento dos empregados na propriedade do Sr. Robert.
O ronco baixo de Ming vindo do outro lado da divisória me convenceu de que a voz fora apenas um sonho. Esfreguei o rosto e puxei o cobertor até o peito. Estava gelado, mas eu não tinha coragem de levantar para fechar a janela. O sonho fora real demais — tão real que eu desejava desesperadamente fechar os olhos e retomá-lo. Era caloroso, tentador e, ao mesmo tempo, dilacerante.
Uma dor aguda atingiu meu peito, misturada a um prazer melancólico ao lembrar daquela voz zombeteira. Eu não sabia dizer qual sentimento era mais forte: a alegria de "vê-lo" ou a angústia de perder novamente o que um dia tive.
Abracei meus joelhos e fechei os olhos. Oh, querido... Não importava o quanto eu fugisse, mesmo para um mundo diferente, a sua sombra ainda me perseguia. Fiquei assim até o amanhecer, quando o canto dos galos anunciou o dia. Forcei-me a levantar ao ver Ming despertando. Minha vida precisava continuar ali, gostasse eu ou não. Eu estava animado com os leitões na noite anterior, mas agora aquele sonho parecia ter drenado todas as minhas energias.
Eu me odeio por ainda sentir isso!
Tomei café da manhã com os outros e segui para o chiqueiro. Oui-Suya já estava lá, preparando os baldes de água.
— Rapaz, os leitões chegam à tarde, não é? — ele perguntou.
Murmurei uma confirmação distraída. Sentei-me no banco de madeira e comecei a picar talos de bananeira para misturar à ração, descontando minha frustração em cada corte.
— O que vamos fazer para fazê-los correr rápido como o patrão quer? — Oui-Suya balançou a cabeça, perdido.
A pergunta me trouxe de volta à estratégia que eu arquitetara. Era uma tática adaptada do treinamento de cães que eu vira em livros ou na TV. Certamente era melhor do que confiar apenas na sorte.
— Tenho uma ideia, Oui. Vamos treiná-los para seguir ordens em troca de recompensas.
— Treinar porcos como se fossem macacos? — Oui-Suya me olhou de soslaio, incrédulo.
A reação dele me arrancou um sorriso. — Não como macacos, mas podemos tentar. É melhor do que criá-los às cegas.
Expliquei o plano e ele alternava entre acenos de cabeça e testas franzidas.
— Se perdermos, a culpa é minha. Aceito ser punido pelo patrão — afirmei com coragem. Eu não tinha nada a perder. Já estava no fundo do poço; um pouco mais de lama não faria diferença.
— Hmm... o chefe não é tão cruel — ele ponderou.
— Por outro lado, se vencermos, o crédito será todo seu. Se houver recompensa, você fica com ela.
Oui-Suya pensou por um momento antes de sentenciar: — Se o patrão nos recompensar, nós dividimos.
— Fechado! — sorri, levantando a mão direita para um high-five.
— O quê? — Ele olhou para minha mão aberta, desconfiado.
Ri da confusão dele, peguei sua mão e bati contra a minha. — Quero dizer: combinado!
Voltei ao trabalho com menos peso no coração. Ter algo que exigisse minha total atenção era a melhor fuga para o drama da minha própria vida.
À tarde, os três leitões chegaram. Eram fofos, gordinhos e rosados. O Sr. Robert veio batizá-los. O primeiro foi Golden, indicando que ganharia o ouro. O segundo, devido às manchas no nariz, foi Polka-dot. A última, que parecia mais ágil, recebeu o nome de Esperança. O patrão nos lembrou de que deveríamos cuidar bem deles para a corrida de Natal.
Olhei para os três mastigando a comida e abanando os rabinhos. Afaguei suas cabeças e os chamei pelos nomes antes de ir até a cozinha buscar o que precisava. Eu pretendia fabricar coleiras e guias. Para o treinamento funcionar, eu precisaria de recompensas, e o segredo estaria em algo que os porcos não comiam todo dia.
Para os porcos comuns, qualquer coisa servia: talos de bananeira, abóbora, milho ou inhame. Oui-Suya até preparava uma mistura nutritiva de frutas fermentadas com melaço e um toque de álcool; o sabor adocicado estimulava o apetite deles.
No entanto, a recompensa para os meus atletas precisava ser algo especial. Tinha de ser uma doçura irresistível, tentadora e delicada. Um bolo de banana perfeitamente assado. Pode parecer estranho usar isso para alimentar leitões, mas eu não estava em uma casa qualquer. O Sr. Robert não abria mão do café da manhã ocidental com torradas e ovos, e seus jantares eram banquetes completos, com direito a sobremesas finas.
Assim, assar um bolo de banana não seria difícil. Eu não precisava de ingredientes de luxo, apenas de um pouco de cada coisa da despensa. Ovos sempre sobravam no galinheiro e tínhamos até leite de cabra fresco. Como eu não estava cozinhando para humanos, não precisava seguir uma receita rígida. Com a textura macia e a fragrância doce das bananas cultivadas, meus porquinhos se sentiriam no céu. Seria o meu "Bolo da Vitória".
Pedi ajuda aos chefs e subchefs da casa, os Khmu. Eles eram mestres em adaptar pratos ocidentais com o que havia disponível. No momento, estavam em um ritmo frenético para a festa de amanhã, mas todos aceitaram me ajudar. Bastou eu mencionar as palavras mágicas — "os porquinhos de corrida do patrão" — para que todos se prontificassem como se fosse uma ordem real.
Na manhã seguinte, após terminar minhas obrigações, passei na cozinha para conferir os preparativos. Eu queria começar o treinamento ainda hoje, mas um dos subchefs me deu a má notícia:
— Estamos sem bananas Cavendish [bananas-nanicas].
A festa do Sr. Robert era a culpada. Com tantos pratos, uísques e petiscos sendo preparados, o estoque esgotara. Fiquei inquieto. As bananas Cavendish eram essenciais porque exalavam um aroma muito mais forte do que as variedades locais. Eu precisava desse perfume para atrair os leitões, mesmo que a base do bolo fosse de banana-comum. O problema é que não cultivávamos essa variedade no jardim e elas eram caras para os padrões locais. Mas eu não podia abrir mão da receita.
Decidi ir ao mercado agora mesmo para voltar a tempo de limpar o estábulo e ainda treinar os porcos à tarde. Fui atrás de Ming, que cavava um buraco no jardim.
— Ming, me leve ao mercado — pedi.
Ele me encarou em silêncio.
— O mercado — repeti, forçando meu melhor sotaque do norte para dar peso ao pedido: — Preciso de bananas Cavendish para os leitões de corrida do patrão.
Ming ponderou por um segundo e assentiu com vigor. — Vamos.
Segui-o até o cais. No caminho, passamos por um grupo de servos que construíam um howdah [assento para elefantes]. Um deles zombou:
— Vai levar o patrãozinho para passear de barco de novo, Ai-Ming?
Ming nem parou de caminhar ao responder: — Vou ensinar o Ai-Jom a remar.
Eu parei abruptamente e olhei para ele. O quê?
Colocando as mãos nos quadris, Ming se inclinou e disparou na minha cara:
— Você acha que sou seu criado para te levar a todo canto? Se não sabe remar, aprenda agora!
Antes que eu pudesse protestar, ele me agarrou pelo braço e me arrastou em direção ao rio, sem a menor cerimônia.
— O rio corre devagar aqui, é fácil de remar — disse Ming ao chegarmos à margem, desamarrando o barco do mastro. — Entre. Eu vou te mostrar como se faz primeiro, depois você tenta.
Engoli em seco e entrei no barco, sem escolha. Encarei o Rio Ping; ele parecia inofensivo, sem redemoinhos ou correntes fortes, ideal para praticar, como Ming apontara. Se eu estava confiante? Nem um pouco.
— Você é canhoto ou destro? — ele perguntou.
— Canhoto.
— Então segure o remo com a mão esquerda e reme apenas do lado esquerdo.
Ming começou a demonstração. Ele remava apenas de um lado, mas o barco seguia em linha reta, sem inclinar. Ele tinha uma técnica de virar o remo no momento exato, empurrando a lâmina contra a corrente para corrigir a direção, em vez de simplesmente trocar de lado. Ele sustentou meu olhar o tempo todo, erguendo uma sobrancelha com um ar de superioridade enquanto o barco deslizava suavemente. O rosto dele era atrevido demais. Tive vontade de chutá-lo na água, mas me contive.
— Fácil? — zombou ele. — Incline-se um pouco, enterre a lâmina na água e empurre para trás. No final do movimento, torça o pulso para virar a lâmina. É isso que dirige o barco e impede que ele gire em falso.
Ele demonstrou cada passo lentamente. Parecia simples porque ele era um mestre naquilo. Quando ele me entregou o remo, aceitei, embora duvidasse da minha capacidade.
Tentei imitar o movimento. Inclinei, plantei o remo, puxei... e o barco não saiu do lugar.
— Você não tem força nenhuma? — Ming suspirou, condescendente. — É fraco como uma formiga.
Cerrei os dentes. Eu tinha força, o que me faltava era técnica! Tentei de novo, dessa vez mais devagar, mas eu era desajeitado e minha postura estava toda errada. Ming cruzou os braços e bufou.
— O que há de tão difícil, Ai-Jom? É só esfaquear a água e puxar. Vou acabar dormindo aqui esperando você se mexer.
Respirei fundo, busquei equilíbrio e mergulhei a lâmina com vontade. Dessa vez, o barco avançou. Ei, não é tão difícil! Tentei corrigir a direção como ele ensinara, mas ao levantar o remo, a proa virou bruscamente para a direita.
— De novo! — ordenou Ming, começando a se divertir com o meu progresso. — Incline-se! Gire o pulso! Dirija essa coisa!
Eu estava suando, lutando com a madeira e a água. O barco avançava, mas assim que Ming parou de me ajudar com o seu próprio remo, comecei a remar em círculos. Os outros criados na margem do rio começaram a gargalhar.
— Ming! Por que ele está girando assim? — gritou um deles, zombando.
Ming não respondeu porque estava ocupado demais rindo, segurando a barriga. No fim, ele cedeu e voltou a remar para me ajudar; afinal, a busca pelas bananas para a corrida de leitões era uma missão séria.
Seguimos rio acima, em direção aos mercados. A luz do sol brilhava na superfície da água e o ar estava fresco. Peixes grandes saltavam, espirrando água enquanto passávamos. Barcos menores cruzavam nosso caminho, carregados de frutas e louças. Era uma cena saída de um quadro antigo, mas eu estava exausto demais para apreciar plenamente.
Passamos novamente pela grande árvore da chuva que estendia seus galhos sobre o rio. O pavilhão à beira-mar estava logo adiante. Ming remava rente à margem, aproveitando a sombra. Estiquei a mão e colhi uma flor de Lantom que flutuava, como fizera no outro dia.
Ao nos aproximarmos do pavilhão, vi o mesmo homem. Ele usava a mesma camisa branca impecável e calças de cetim azul. Estava sentado de pernas cruzadas, com as costas retas, absorto em um livro sobre uma mesa baixa. Quando o barco passou, ele ergueu os olhos.
Seu rosto encantador se voltou para mim. Ele não desviou o olhar, nem voltou para o livro. Encarou-me com uma calma profunda, como se estivesse esperando que eu passasse por ali novamente. E então, seus lábios se moveram.
Ele sorriu.
Um sorriso aberto, que iluminou suas feições. Ele tinha um sorriso magnífico. Fiquei paralisado, olhando para ele, sem saber se acenava ou retribuía. Antes que eu pudesse reagir, o barco já havia se afastado.
Virei a cabeça para trás, ainda hipnotizado. Olhei para a flor de Lantom na minha mão; as pétalas estavam levemente machucadas porque eu a apertara sem perceber. Fiquei irritado comigo mesmo. Que grosseiro! Éramos vizinhos e ele fora gentil, mas eu agira de forma hostil ao não retribuir o gesto.
O barco deslizava pelas plantações serenas e sombreadas até alcançarmos o movimentado porto. Não demorei a encontrar as bananas Cavendish; foi até divertido comprá-las com aquele dinheiro de aparência estranha. Parecia que eu não estava usando nada de valor real; era como se estivesse trocando tiras de papel esquisitas por mercadorias valiosas que saíam de graça.
Carreguei o cacho de bananas com um cuidado quase sagrado. Com aquilo, meus leitões estariam na palma da minha mão. O Sr. Robert ficaria tão impressionado que finalmente aceitaria o "cunhado do futuro". Nossa viagem de volta foi bem mais lenta. Ming conhecia o rio como a palma da mão: evitava as corredeiras e remava relaxado. Quando chegamos perto dos pomares, ele apontou para o meu remo.
— Tente de novo.
Fiquei atordoado — não estava psicologicamente preparado — mas Ming não aceitaria um não como resposta. Peguei o remo.
— Faça como ensinei. Siga o fluxo — instruiu ele. — Daqui até a casa grande é um pulo.
Agarrei a madeira com firmeza. Perfure, mova, levante, repita. Revi a técnica mentalmente e comecei a remar com determinação. Para minha surpresa, eu estava bem melhor. Ming riu, satisfeito, ao ver a proa cortar a água sem balançar para os lados. Percebi que, como o rio ali era calmo, a direção obedecia mais facilmente.
— Você leva jeito quando se dedica — elogiou Ming, parecendo genuinamente orgulhoso.
— Pode mandar mais elogios, eu aceito! — sorri, radiante.
— Você teve um bom professor, isso sim.
Ri e continuei remando por uma boa distância. Cometi alguns erros, mas recuperei o controle rapidamente. Ming largou o próprio remo, deixando-me brilhar. O pavilhão de Luang estava cada vez mais perto e meus golpes na água eram firmes. Ming cruzou as mãos atrás do pescoço, inclinou-se para trás e fechou os olhos, aproveitando a brisa como um verdadeiro patrão, enquanto eu, seu "servo", o levava naquele passeio. Eu não me importava; estava focado em levar o barco até a propriedade do Sr. Robert.
De repente, um barco com "cauda de escorpião" passou zunindo por nós. Era uma embarcação magnífica de teca, com a popa curvada para cima e capacidade para dez pessoas. Não consegui resistir: virei a cabeça para admirar os oficiais em seus trajes Raj Pattern [1]. Era uma visão histórica que eu nunca pensei testemunhar ao vivo.
— Uau... — exclamei baixinho.
Mas as ondas criadas pelo barco grande atingiram nossa canoinha, fazendo-a balançar violentamente. Tentei recuperar o equilíbrio e colocar o barco no prumo, mas minha inexperiência falou mais alto. Coloquei força demais no lado errado.
— O-ou... Ei, espere! — gritei.
A proa deu um solavanco em direção ao pavilhão à beira-mar. Os olhos de Ming se arregalaram e ele tateou em busca do remo no fundo do barco, mas era tarde demais. A correnteza e minha manobra desastrosa nos lançaram contra o alvo.
— CUIDADO! — BAM!!!
O barco todo estremeceu quando a proa atingiu um dos pilares de sustentação. A canoa inclinou perigosamente e... SPLASH!
Fomos lançados na água fria. Atordoado, nadei em direção a um dos postes do dossel e me agarrei a ele para emergir, tossindo.
— Você está bem? — uma voz soou bem perto de mim.
Esfreguei o rosto encharcado antes de abrir os olhos. Um rosto pairava sobre o meu... era ele. O homem que lia no pavilhão. De perto, percebi que ele parecia muito mais jovem do que eu imaginara. Sua pele tinha aquele brilho saudável de quem nasceu em berço de ouro.
Suas sobrancelhas eram marcantes e o nariz pontudo harmonizava com o queixo, que exibia o traço de uma barba recém-feita. Chutei que ele fosse uns quatro ou cinco anos mais novo que eu, embora sua estatura imponente de homem adulto tornasse difícil precisar a idade de longe.
— Pegue minha mão e suba — disse ele, com naturalidade.
Não me atrevi de imediato. Ele estendeu a palma da mão na minha frente, ao meu alcance, mas alguém atrás dele interveio.
— Khun-Yai, por favor, deixe-me ajudá-lo. O senhor vai se molhar.
— Está tudo bem, Nai-Jun. Se eu me molhar, brinco na água com ele — respondeu ele, bem-humorado, enquanto o velho criado atrás dele esticava o pescoço em sinal de pura preocupação.
Estendi a mão com relutância. Ele deu um passo à frente, envolveu meus dedos com firmeza e me ergueu para sentar na beira do pavilhão. Sua palma era grande e seu aperto, seguro; ele não me soltou até que eu estivesse devidamente acomodado e estável.
— Obrigado — murmurei, vendo as gotas de água caírem das minhas roupas sobre as tábuas de madeira. Eu morria de vergonha.
— Não se preocupe — disse ele, finalmente soltando minha mão. — Pode descer assim que seu barco for recuperado.
Suas palavras me fizeram olhar para o rio. Ming nadava vigorosamente para alcançar o barco, que já tinha flutuado uma boa distância. Gemi de desânimo; eu sabia que Ming me daria um sermão tão longo que meus ouvidos ficariam dormentes.
Khun-Yai soltou uma risada suave, uma vibração baixa que ressoou em sua garganta. Eu me virei para ele e o encarei sem perceber. Seus gestos eram tão agradáveis, mas o que realmente me prendeu não foi o rosto esculpido ou os modos de nobre. Foram os olhos negros e brilhantes fixos em mim. Eram deslumbrantes.
— Você mora por aqui? Já o vi remando com frequência — ele perguntou.
— Sou servo do Sr. Robert.
— Ah, o comerciante de madeira britânico — ele assentiu levemente. — Já o vi visitando meu pai.
O pai dele. Então ele era o filho do dono da propriedade. O tal Luang alguma coisa de quem o Ming não conseguia lembrar o nome.
— Eu sou o Jom. E aquele ali é o Ming. Sinto muito por termos batido no pavilhão... é o meu primeiro dia aprendendo a remar. — Cruzei as mãos sobre o peito em um gesto de desculpas. Ele parecia mais jovem que eu, mas como eu estava em uma "classe inferior" ali, achei melhor mostrar respeito.
— Eu sou o Yai.
Estiquei o pescoço para conferir a pilastra onde o barco colidira. Havia um arranhão inconfundível. Senti meu rosto queimar.
— A madeira vai ficar bem?
— Se a madeira quebrar, o Poh-Jom terá que pagar por ela — respondeu ele, com uma expressão solene.
Meu coração afundou. Fiquei mudo, calculando mentalmente uma indenização que eu jamais teria como cobrir. Mas então, a seriedade dele se transformou em um sorriso brilhante e ele não conseguiu conter o riso.
— A madeira está ótima — ele riu. — O seu barco é que deve estar em apuros.
Uau... que maldade! Tive vontade de dar um soco naquela cara linda. Todos os antigos eram atrevidos assim? Ele parecia ter uns dezessete ou dezoito anos; apesar de ser de família nobre, tinha aquela alegria travessa típica dos adolescentes do meu tempo. A diferença é que ele falava com muito mais graça.
Ming recuperou o barco e remou até nós, encharcado. Ele não parava de se curvar em gratidão, pois o Khun-Yai não parecia nem um pouco ofendido com o incidente.
Nai-Jun, o criado da família, nos emprestou um remo novo, já que o de Ming partira ao meio e o outro se perdera no rio. Ao cair da tarde, a notícia de que eu batera o barco na propriedade de Luang Thep Nititham já era o assunto do vilarejo. Ming, claro, agora lembrava o nome do vizinho perfeitamente, já que precisava dele para dar drama à sua narrativa.
— Ai-Jom, é verdade que você bateu o barco no pavilhão de Luang Thep Nititham? — perguntou um criado enquanto eu buscava água no poço.
— Sim — respondi secamente, pela décima vez.
— Ouvi dizer que você atropelou o filho dele. É verdade?
Ugh... isso está saindo de controle. Suspirei, exausto.
— Eu bati no pavilhão, não voei para dentro dele. O filho dele estava apenas descansando lá.
— Ah... pensei que ele tivesse sido atingido — o homem comentou, desapontado por a história não ser tão trágica. — Reme devagar da próxima vez. Coitada da pilastra!
Passei a tarde corrigindo boatos. A fofoca evoluíra para "o barco bateu com tanta força que o filho do nobre pulou no rio em estado de choque". Que ridículo! Por causa disso, nem consegui treinar meus porquinhos; fui convocado para ajudar nos preparativos da festa do patrão.
O evento aconteceria em uma das alas do casarão, em um salão ricamente decorado com móveis europeus e — o auge do luxo — iluminado por lâmpadas elétricas. Flores espalhadas por todos os lados perfumavam o ambiente, e a música do gramofone trazia uma vibração festiva. Pelas frestas, alguns servos tentavam espiar os patrões dançando no estilo ocidental.
Um grupo de criados, selecionados pela aparência e comportamento decentes — eu incluso —, foi designado para auxiliar os convidados no estacionamento e iluminar o caminho com lanternas. As empregadas estavam deslumbrantes em seus vestidos Lanna, movendo-se com uma cortesia impecável. Enquanto isso, a patroa Ueang Phueng usava um vestido de renda de estilo internacional, sorrindo docemente ao lado do Sr. Robert.
Estiquei o pescoço com entusiasmo. Cada carro que entrava na propriedade era uma joia vintage magnífica, exibindo a prosperidade de seus donos. As senhoras desfilavam vestidos cheios de babados e os cavalheiros ostentavam ternos elegantes. A atmosfera era vibrante, como um baile europeu, mas notei algo incômodo: quase não havia convidados tailandeses. A maioria era estrangeira.
— Os convidados do patrão são todos colegas comerciantes de madeira — sussurrou um dos servos ao meu lado. — É raro um estrangeiro se casar formalmente com uma mulher Lanna. A patroa Ueang Phueng é realmente abençoada.
— E como eles nos veem? — perguntei em voz baixa.
— Como gente do mato. Eles nos desprezam. Antigamente era pior; se um madeireiro casava com uma mulher daqui, os amigos se recusavam a ir ao casamento. As coisas estão melhorando agora.
Assenti, sentindo uma pontada de irritação. Aqueles estrangeiros vinham explorar os recursos da Tailândia, mas nos tratavam como selvagens incivilizados. Gostaria que pudessem ver o meu tempo. Como reagiriam ao saber que, no futuro, os tailandeses lideram projetos internacionais e caminham de igual para igual com as maiores figuras do Ocidente? É um mundo onde o talento manda, sem esse preconceito medieval.
Enquanto a casa grande brilhava, a cozinha era um caos organizado. Pratos eram servidos um a um: canapés, bolinhos, porco assado, frango recheado e sobremesas finas. Havia até uísque com gelo — um luxo extravagante para a época. Quando a festa finalmente terminou, minhas pernas estavam dormentes. Esperei o último carro sair para poder, enfim, me recolher.
As luzes de néon e as lâmpadas da despensa foram se apagando gradualmente, uma desigualdade tecnológica que eu achava fascinante. O cheiro de pavio de óleo queimado pairava no ar frio da noite, embalando meu cansaço.
Adormeci tentando não pensar em nada desnecessário. Rezei pelos meus pais e, para evitar que minha mente viajasse até o Ohm, foquei no incidente do pavilhão. A humilhação de ter batido o barco parecia mais suportável do que a saudade patética de um homem que me traiu. Amanhã eu teria que lidar com os boatos distorcidos de que eu quase matara o filho de Luang Thep Nititham.
Khun-Yai...
Lembrei-me dos seus olhos claros e do sorriso encantador. Quando ele amadurecer, com certeza será um playboy que deixará rastro de corações partidos. Aqueles olhos cheios de truques e os lábios carnais... será que ele pretendia colocar o coração dos homens na miséria também?
Pela primeira vez em dias, não sonhei com Ohm. Ou talvez tenha sonhado e esquecido. Acordei pronto para ser provocado pelo acidente com o barco, mas descobri que a fofoca do dia era outra, muito mais "emocionante".
— Você viu a garota que o pai entregou para o patrão hoje cedo? — um servo fofocava com entusiasmo. — Era para pagar os juros de uma dívida.
— Sim! O pai dela não tinha como pagar o empréstimo do ano passado e deu a filha para servir na casa — respondeu outro. — Dizem que é uma beleza. O patrão até deu uma vaca ao pai dela em troca. Coitada, não vai escapar das garras dele.
Balancei a cabeça, indignado. Trocaram uma filha por uma vaca? Isso não é ilegal? Mas ali, todos riam. A lei era irrelevante enquanto a mentalidade tradicional não mudasse. À noite, Ming veio até mim, inquieto.
— Ai-Jom, você já a viu? — perguntou ele. — Estão dizendo que a nova criada é uma beldade. Os outros rapazes já foram dar uma espiada.
Eu não tinha o menor interesse em ver a mulher que se tornaria mais uma amante do marido da minha irmã.
— Vamos lá ver. Quero saber se ela é mais bonita que a minha Mei — insistiu Ming.
Percebi que ele só queria uma desculpa para ver a Mei, então acabei indo com ele. Nos agachamos atrás dos arbustos perto do alojamento das mulheres. Vi a tal garota seguindo a Mei escada abaixo. Ela tinha um corpo esguio, pele clara e uma aparência muito atraente.
Ela parecia nervosa, olhando ao redor com medo do novo ambiente. De repente, ela virou o rosto na direção onde eu e Ming estávamos escondidos. Quando a vi claramente, meu coração quase parou. O rosto oval, o queixo delicado, os grandes olhos redondos e escuros...
Eu a conhecia. Eu nunca esqueceria aquele rosto, por mais que tentasse.
Era a Kaimook. A noiva de Ohm. Minha rival número um no amor, bem ali, na minha frente!
