A terça-feira caiu sobre a Santa Isabel como um manto de chumbo derretido. O ar parado da tarde era um convite ao delírio, e o latejar entre minhas pernas, herança do gigante Samuel, ainda não havia sossegado. Eu precisava de mais. A descoberta daquele exército de ébano transformara meu sangue em licor de fogo.
— Matias foi para a Vila Velha tratar da venda da safra, Maria — disse eu, enquanto ela ajustava as rendas do meu vestido de linho cru, mais leve para suportar a caminhada até o rio. — Ele não volta antes do crepúsculo.
— Sinhá, tome cuidado — Maria sussurrou, o terror e a cumplicidade lutando em seu rosto. — O Coronel está com o gênio virado desde ontem.
— O gênio dele não me governa mais, Maria. Diga que fui colher ervas medicinais perto da cachoeira se alguém perguntar.
Saí pelos fundos, protegida por uma sombrinha de renda que pouco escondia o brilho de predação nos meus olhos. O caminho até o Rio das Almas era estreito, ladeado por uma mata fechada que cheirava a terra úmida e mato verde. Quando o som da água batendo nas pedras se tornou nítido, eu o vi.
Cassiano.
O "indomável" da Bahia era uma visão que desafiava a sanidade de qualquer mulher. Ele estava dentro do rio, a água batendo na cintura, usando a força dos braços para mover pedras que obstruíam o fluxo para as valas de irrigação. A pele dele não era apenas negra; era como obsidiana polida, refletindo os raios de sol que filtravam pelas copas das árvores. Cada movimento que ele fazia criava ondas de músculos em suas costas, uma anatomia de poder que fazia o ar faltar nos meus pulmões.
Fechei a sombrinha. O barulho fez com que ele se virasse. Cassiano não baixou a cabeça como os outros. Ele sustentou meu olhar com uma insolência primitiva, os dentes brancos brilhando contra o rosto esculpido.
— A Sinhá se perdeu da Casa Grande? — a voz dele tinha um sotaque musical, mas perigoso.
— Eu vim ver o que o meu marido comprou, Cassiano — respondi, descendo o barranco lentamente, deixando que o vestido se prendesse nos galhos de propósito, revelando meus tornozelos e o início das minhas canelas brancas. — Disseram que você é difícil de dobrar.
Ele saiu da água. O corpo dele pingava, o calção de rústico colado à sua masculinidade, que mesmo em repouso, era uma promessa de arrombamento. Ele parou a poucos centímetros de mim, o cheiro de rio e homem emanando dele como um vapor.
— O Coronel tenta me dobrar com o chicote, Sinhá. Mas o chicote só endurece o couro.
— E se a Sinhá tentar dobrar você com... outros métodos? — estendi a mão e toquei o peito dele. A água do rio estava fria, mas a pele de Cassiano queimava.
Sem aviso, ele me agarrou pela nuca, os dedos longos enterrados nos meus cabelos arrumados. Não houve vênia, não houve "com licença". Ele me empurrou contra o tronco de uma gameleira imensa, cujas raízes se espalhavam como dedos sobre a margem do rio.
— A senhora é atrevida, branca — ele disse, o rosto a milímetros do meu. — Quer brincar com o negro que o seu homem não consegue domar?
— Eu quero que você me use como usa essas pedras, Cassiano. Me mova. Me quebre. Me mostre o que a Bahia tem de mais bruto.
Ele rasgou a frente do meu vestido com uma violência que me fez soltar um grito de surpresa e deleite. Meus seios brancos e pesados saltaram para fora, balançando sob a luz do sol. Cassiano os esmagou com as mãos grandes, as palmas calejadas raspando nos meus mamilos com uma rispidez que me fez perder a força nas pernas.
Ele me levantou e me sentou em uma das raízes altas da árvore, abrindo minhas pernas de tal forma que minha intimidade, já em brasa, ficou exposta ao ar úmido da floresta. Ele se livrou do calção com um movimento brusco.
O que vi me fez arquear as costas. Cassiano era dotado de uma virilidade que parecia talhada para a guerra. Era longa, grossa e curva como uma cimitarra de ébano, latejando com o sangue da raça.
Ele entrou em mim sem preliminares. O impacto foi tão violento que minha cabeça bateu no tronco da árvore. Eu senti como se estivesse sendo partida ao meio por um tronco de carvalho negro. Cassiano não tinha a calma de Zacarias ou a reverência de Bento; ele tinha o ódio e o desejo de quem toma por força o que lhe é negado por lei.
— Isso... me rasga, Cassiano! — eu gemia, as unhas cravando-se nos ombros dele, deixando sulcos vermelhos na pele escura.
O som do ato era cru: o impacto da carne dele contra a minha gordura, o som da água do rio e os nossos gemidos abafados pela mata. Ele me estocava com uma fúria rítmica, cada batida me levando mais alto, o prazer sendo uma dor deliciosa que inundava todos os meus sentidos. Eu era a Sinhá Eulália, a senhora daquelas terras, sendo possuída como uma escrava de ganho no meio do mato, e aquela degradação era o maior êxtase da minha vida.
Estávamos no auge, na beira do abismo, quando um som nos gelou o sangue.
O latido dos cães de caça de Matias. E, logo em seguida, o som de cascos de cavalo no cascalho da estrada de cima, a menos de cinquenta metros de onde estávamos.
— O Coronel... — Cassiano parou, os músculos retesados, a masculinidade ainda pulsando dentro de mim.
O pânico foi um balde de água gelada. Se Matias descesse aquele barranco e nos visse — a esposa branca, seminua, sendo montada pelo escravo novo —, o sangue correria antes do pôr do sol.
— Rápido! — sussurrei, tentando me desprender dele.
Cassiano, com uma agilidade de bicho do mato, vestiu o calção enquanto eu tentava, com mãos trêmulas, fechar o que restava do meu vestido. Os latidos estavam mais perto. Eu ouvia a voz de Matias gritando para o feitor.
— Procurem por ali! A trilha do rio! Ela deve estar colhendo aquelas malditas flores!
Eu me escondi atrás do tronco da gameleira, tentando ajeitar o cabelo desgrenhado, o rosto vermelho de luxúria e medo. Cassiano mergulhou de volta no rio, pegando o pé de cabra e voltando a golpear a pedra como se estivesse ali o dia inteiro.
Matias surgiu no topo do barranco, montado em seu garanhão baio, os olhos varrendo a margem.
— Eulália? O que faz aí embaixo nesse estado? Seu vestido está rasgado!
Saí de trás da árvore, segurando o decote com uma mão e algumas folhas de arruda na outra, o coração batendo na garganta.
— Oh, Matias! Que susto me deu! — fiz minha melhor voz de desamparo. — Eu escorreguei nas raízes desta árvore maldita ao tentar pegar estas ervas para minha enxaqueca. Quase caí no rio! Se não fosse por este negro... — apontei para Cassiano, que sequer olhou para cima, continuando seu trabalho bruto — ... ele me ajudou a não cair na correnteza.
Matias olhou para Cassiano com desprezo, depois para mim. Por um segundo, o mundo parou. O cheiro do sexo ainda estava no ar, misturado ao cheiro da mata. Eu sentia o sêmen de Cassiano escorrendo, quente, traindo minha mentira sob a anágua.
— Esse aí? — Matias cuspiu no chão. — Cuidado, mulher. Esse animal ainda não foi amansado. Venha, suba aqui. O sol está afetando seu juízo.
Ele estendeu a mão para me ajudar a subir o barranco. Ao passar por Cassiano, nossos olhos se cruzaram uma última vez. Ele deu um sorriso imperceptível, um segredo compartilhado que valia mais que todo o ouro da coroa.
Fui levada de volta para a Casa Grande, sentada atrás de Matias no cavalo. Ele reclamava da minha imprudência, sem saber que, a cada passo do animal, o movimento me fazia sentir ainda mais a presença do "indomável" dentro de mim.
Eu tinha escapado por um fio. Mas, enquanto olhava para as senzalas ao longe, eu sabia que o perigo só tornava o banquete mais saboroso. A Santa Isabel estava pequena para o meu apetite, e a noite estava apenas começando.