Entre Irmãos - A Casa Cheia

Da série Entre Irmãos
Um conto erótico de Mateus
Categoria: Gay
Contém 2247 palavras
Data: 07/01/2026 22:51:35
Última revisão: 07/01/2026 23:09:02

Eu soube da festa no fim da manhã, como quem recebe uma provocação disfarçada de convite. Não veio de Heitor. Nem de Rafael. Veio de Júlia, num áudio casual demais para ser inocente.

— Vai ter uma galera aqui em casa hoje. Se quiser aparecer…

A frase ficou suspensa no ar do meu quarto, misturada ao cheiro de chuva que ainda parecia impregnar tudo desde aquela tarde na edícula com Rafael. Eu larguei o celular sobre a cama e fiquei olhando para o teto, contando rachaduras invisíveis.

Eu quase não fui.

A decisão não veio como um cálculo, mas como um tropeço. Eu passei a tarde inteira dizendo a mim mesmo que não era sensato ir, que havia coisas demais mal resolvidas, silêncios que pesavam mais do que música alta e copos cheios. Eu sabia disso com a clareza de quem já tinha ultrapassado um limite enorme e sentia o corpo inteiro avisar: mais um passo e não tem volta.

Pensei em Rafael, no jeito como tudo entre nós acontecia sempre à margem, sempre escondido. Pensei em Heitor, na mudança recente do tom da nossa relação, mais curto, mais duro, como quem começa a apertar o cerco sem saber exatamente contra quem.

Pensei, sobretudo, em mim mesmo.

Mas eu também era jovem. E juventude, eu sei agora, não é coragem, é descuido. É a crença secreta de que nada ainda tem consequências definitivas. E havia algo de inconsequente em mim naquela época (na verdade, em todos os adolescentes), não por bravura, mas por curiosidade. Uma espécie de impulso mal calculado, como se eu ainda acreditasse que poderia atravessar incêndios sem me queimar de verdade.

Talvez fosse isso: uma necessidade quase infantil de fingir normalidade. Ir à festa seria como dizer a mim mesmo que nada tinha mudado. Que não havia tensão suficiente para impedir um copo na mão, música alta, risadas deslocadas.

Foi assim que, de última hora, coloquei uma camisa nova, passei perfume demais e saí rápido, sem dar tempo ao corpo para pensar, caso contrário, eu desistiria.

A casa dos irmãos estava cheia de gente. Mais cheia do que eu esperava. O som escapava pelas janelas em volumes desiguais, a piscina refletia luzes tortas e improvisadas, que coloriam a sala e a área principal, e havia corpos demais ocupando espaços de menos.

A casa parecia respirar outra coisa, excitação, excesso, tensão. Um território onde nada ficava realmente escondido, apenas disfarçado, enquanto para mim, ele já estava impregnado demais de significados.

Eu entrei tentando ser invisível, sem olhar para lugar nenhum específico. O erro seria procurar. O erro seria encontrar. Então eu me misturei na multidão. Cumprimentei conhecidos, aceitei uma bebida, tentei encontrar um lugar estratégico, próximo o suficiente da saída.

Foi quando encontrei Lucas.

Ou talvez Lucas me tenha encontrado, parado perto da estante imponente, um copo na mão, conversando com alguém sobre qualquer coisa que não importava. Lucas tinha um corpo forte, evidente, mas sem ostentação. Ombros largos, postura de quem sabe ocupar espaço sem pedir desculpas. O rosto era aberto, bonito de um jeito claro demais: o cabelo loiro curto, olhos azuis atentos demais para uma festa barulhenta, sorriso fácil, mas não vazio. Havia nele uma tranquilidade concentrada, como se estivesse sempre medindo o mundo antes de reagir.

— Mateus, né? — Lucas disse, me reconhecendo antes que eu tivesse tempo de fugir — Já assistimos algumas palestras juntos.

Lucas era da escola, do último ano. Eu ri, aliviado por um segundo.

— Ainda não superei aquele dia em que você citou Spinoza como se fosse uma piada interna – brinquei.

Lucas sorriu mais largo.

— Não era piada. Era sobrevivência.

Nós começamos a conversar como se o mundo ao redor tivesse diminuído de volume. Filosofia apareceu naturalmente, Nietzsche, Camus, depois Foucault, mas também treino, luta, corpo, disciplina. Lucas falava de muay thai como quem fala de leitura: método, silêncio, repetição. Havia algo muito inteiro nele, uma combinação rara de força e pensamento que não pedia aprovação.

Conversamos fácil sobre aulas, livros, professores insuportáveis. Lucas falava com precisão, mas sem ostentação. Citava autores, fazia paralelos improváveis, ria de si mesmo. Eu senti o alívio imediato de estar ali com alguém que não carregava peso algum do que eu vinha vivendo. Não havia segredos. Não havia olhares que significavam mais do que deveriam. Só conversa.

Mas a festa não era um espaço neutro. Julia percebeu. Ela sempre percebia.

Júlia notou Lucas antes mesmo de eu terminar o primeiro copo. Aproximou-se com um sorriso treinado, aquele charme afiado que ela usava como arma, vestida para chamar atenção sem parecer que estava tentando.

— Ai, Lucas, não sabia que você já conhecia o Mateus! — ela interrompeu, direta demais, olhando para Lucas, mas esperando a minha reação.

— A gente estuda na mesma escola, esqueceu? — respondi, simples.

— A gente já fez umas atividades extracurriculares juntos. Mateus lê demais — Lucas completou, rindo — O tipo de pessoa que estraga a média da sala.

Julia tocou o braço de Lucas, rindo com naturalidade calculada. Ela entrou na conversa com leveza, com perguntas que já pressuponham intimidade, como se fosse dona do espaço e, em muitos sentidos, era. Ela queria Lucas. Não escondia.

Eu senti o deslocamento imediato, mas não saí. Continuei ali, rindo, respondendo, existindo. Não havia flerte explícito entre Lucas e eu, apenas uma sintonia confortável, uma escuta mútua que não precisava provar nada.

E isso foi suficiente, pois Heitor observava de longe.

No início, tentou se convencer de que não era nada. Que eu conversava com qualquer um, que aquela cena não lhe dizia respeito. Mas algo o incomodava: a facilidade, o riso solto, o modo como eu inclinava levemente o corpo em direção a Lucas, um gesto mínimo, quase inconsciente, mas íntimo demais para quem sabia ler sinais.

O maxilar de Heitor endureceu.

Rafael também via. Encostado perto da piscina, braços cruzados, olhos atentos demais, ele acompanhava tudo como quem assiste a uma partida em que já conhece o placar final. Havia algo quase cruel em seu sorriso discreto, não de satisfação, mas de confirmação. Como se dissesse a si mesmo: é assim que se perde o controle.

Julia sentia o incômodo crescer sem nome. Não era só ciúme. Era a percepção de que eu, aquele adolescente aparentemente frágil, estava no centro de uma gravidade estranha, puxando todos para órbitas desconfortáveis.

Quatro pessoas. Um espaço apertado demais.

Em algum momento, eu levantei os olhos e encontrei os de Heitor. Eu senti antes de ver. Aquela sensação incômoda de estar sendo medido, avaliado, possuído à distância. Foi rápido. Um segundo apenas. Mas o suficiente.

Heitor não sorriu. Não desviou. Não fez sinal algum. Só permaneceu ali, rígido. Apenas olhou, firme, como quem marca território sem palavras. Eu senti um frio imediato no estômago. A festa voltou a existir ao redor, barulhenta, cheia, mas algo já tinha sido quebrado.

O ciúme de Heitor não era barulhento. Era denso. Tinha a forma de um silêncio que se infiltrava nos espaços entre as pessoas.

Rafael percebeu o olhar. Sempre percebia. Ele acompanhava a cena como quem assiste a um experimento funcionando exatamente como esperado. Eu com Lucas. Heitor tenso. Júlia irritada. Era um jogo bonito demais para Rafael não saborear. Aproximou-se de Heitor, quase casualmente.

— Interessante o amigo do Mateus — disse, num tom baixo demais para ser casual — Inteligente. Forte. Parece confiável, não?

Heitor não respondeu de imediato.

— Você anda reparando demais no Mateus — ele disse, por fim, seco.

Rafael sorriu de lado.

— Alguém precisa reparar.

— Rafael, cala a boca.

O silêncio entre eles foi pesado. Antigo. Familiar. Não pelo que foi dito, mas pelo como foi dito.

— O quê? Só achei curioso — respondeu Rafael, olhando diretamente para Heitor agora — Você sempre foi tão… seletivo.

Na sala, eu ria de algo que Lucas dizia. Julia observava, calculando, sorrindo com atenção. Rafael observava, esperando, como quem já sabia o próximo movimento. Heitor observava, como se quisesse me puxar dali à força. Ele sentia algo escapar por entre os dedos, não sabia exatamente o quê, mas sabia que não conseguiria recolocar no lugar.

A casa estava cheia. Mas nunca parecera tão claustrofóbica. Eu estava no centro de algo grande demais. Sentia isso agora com clareza desconfortável e uma dose de arrependimento. Não era mais apenas desejo. Não era mais apenas confusão. Era rivalidade. Era posse. Era uma história que vinha de antes de mim e que agora usava meu corpo como campo de batalha.

Eu dei um gole longo na bebida, tentando me ancorar em algo sólido. Mas não havia. Tudo parecia prestar a ruir. E, pela primeira vez naquela noite, entendi com clareza assustadora: não estava apenas vivendo um desejo. Estava atravessando uma rivalidade. E ninguém ali sairia ileso. Não importava o que eu fizesse, alguém sairia ferido.

A festa continuava. A música aumentava. Mas o ar estava fechado demais para qualquer fuga.

Eu não aguentei.

Não foi algo teatral, nem visível. Não houve desmaio, nem fuga abrupta. Foi um colapso interno, silencioso, desses que começam com um aperto no peito e terminam com a sensação de que o ar perdeu o caminho de volta.

Primeiro, o som da festa pareceu distante demais. Depois, próximo demais. As risadas ficaram altas, as vozes se misturaram, os rostos se multiplicaram. O coração bateu fora do ritmo, rápido, irregular, quase ofensivo. Eu tentei respirar fundo, como havia aprendido em algum lugar que não lembrava mais onde, mas o ar parecia curto, insuficiente.

Eu levei o copo à boca sem beber. Minhas mãos tremiam de um jeito quase imperceptível, discreto o suficiente para que ninguém notasse, mas intenso o bastante para que eu soubesse: estava acontecendo de novo. Uma crise pequena, silenciosa. Como eu aprendera a ter.

Não aqui, pensei. Não agora.

Inventei uma desculpa qualquer para Lucas e Julia, um sorriso torto, um “já volto” que não prometia nada, e me afastei devagar, atravessando o espaço com passos cuidadosos, desviando das pessoas de maneira calculada, como quem foge sem parecer fuga, cuidando para não cruzar com ninguém que pudesse me puxar de volta.

Evitei a área da piscina. Evitei a garagem e a entrada. Evitei, sobretudo, Rafael, que me observava de longe. Porque sabia, com uma certeza física, que Rafael me provocaria. Sempre provocava.

Como não podia sair, visto que Rafael estava lá embaixo, entrei na casa, subi uma escada lateral e encontrei uma varanda escura quase esquecida, que dava para um jardim pouco iluminado, o mesmo lugar em que eu beijara Heitor, há muitas semanas, aonde a música chegava abafada demais para incomodar. Me encostei à parede, escorreguei até me sentar no chão frio de ardósia e levei as mãos ao rosto.

Ali, finalmente, o choro veio. Baixo. Trêmulo. Humilhado.

Era exaustão. De jogar. De medir palavras. De sustentar olhares que pediam coisas diferentes. Eu, que me achava tão lúcido, tão no controle, sentia agora o corpo me trair, revelando o cansaço emocional que eu fingia não existir.

Foi ali que Heitor me encontrou. Ele procurara por mim por toda parte, primeiro sem alarde, depois com urgência crescente. Passou pela sala, pela varanda principal, pela cozinha. Perguntou com discrição. Não encontrou Rafael, o que só aumentou sua irritação.

Ele começou com impaciência, depois com inquietação, por fim com algo mais próximo do medo. Quando me viu ali, sentado no chão, ombros encolhidos, o rosto molhado, toda a raiva se desorganizou dentro dele. Sozinho. Encolhido. Pequeno de um jeito que não combinava com nada do que eu vinha sendo ultimamente. A raiva de Heitor vacilou.

— Mateus… — a voz saiu mais baixa do que ele pretendia.

Eu levantei o rosto, surpreso ao ver Heitor parado na varanda, a silhueta alta bloqueando a pouca luz que vinha do corredor. Meus olhos estavam vermelhos, perdidos, como se eu tivesse sido arrancado de mim mesmo. Aquilo desarmou Heitor de vez, como um soco.

— O que está acontecendo com você? — perguntou, agora mais perto — Você anda estranho. Distante. Some, aparece, provoca, se fecha… — a voz começou a tremer de raiva contida — E esse papo do Rafael, essas insinuações… a Julia sempre em cima… agora esse cara da escola…

Heitor passou a mão pelos cabelos, nervoso. Seus olhos azuis, intensos, queimavam com algo entre raiva e algo mais perigoso. Ciúme. Posse.

— Você acha que eu sou idiota? – a voz de Heitor era baixa, áspera.

Eu tentei responder, mas a respiração falhou outra vez. Levei a mão ao peito, desesperado.

— Eu… eu não tô conseguindo — disse, entrecortado — Tá tudo… demais.

— Você sabe o que ele anda insinuando, né? O Rafael — a mandíbula travou, seus punhos estavam cerrados ao lado do corpo — Ele fala como se soubesse coisas demais sobre você. Sobre nós.

Foi ali que eu quebrei de vez. O choro veio forte, convulsivo, sem pose nenhuma. Todo o personagem, o pretenso jogador, o manipulador frio, se dissolveu. O que sobrou foi um adolescente jovem demais para carregar tanto desejo alheio nas costas.

Heitor se ajoelhou diante de mim sem pensar. A raiva se dissolveu num instante incômodo, dando lugar a algo mais antigo, mais perigoso: compaixão misturada com posse.

— Ei — disse, segurando o meu rosto com cuidado, como se tivesse medo de machucar — Olha pra mim. Respira comigo.

Eu obedeci, ou tentei. Aos poucos, o ar voltou. Não completamente. Mas o suficiente.

Heitor passou o braço ao meu redor, me puxou para perto, sentindo o meu corpo tremer contra o seu. A raiva, o ciúme, a insegurança, tudo isso ficou em suspenso diante daquela fragilidade exposta.

— Você não precisa enfrentar isso sozinho — murmurou.

Eu não respondi. Apenas assenti, cansado demais.

Heitor me ajudou a levantar.

— Vem comigo – disse, firme.

(continua)

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Comentários

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RSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSS E O CORNO DA HEITOR AINDA VAI QUERER TE AJUDAR. POBRE HEITOR.

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O Mateus tão novinho assim já provocando tantas reações em tendas pessoas...imagina mais maduro!

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