## A Guerra ##
**[Helmand, Afeganistão - Posto Avançado Phoenix, 3 km da fronteira paquistanesa]**
**[14:47, 23 de agosto de 2012]**
O calor era um animal vivo que mastigava minha carne. Não eram apenas os 52 graus do sol impiedoso; não era apenas o pó fino, o "talco da lua", que entrava pelas frestas dos meus óculos de proteção e se misturava ao suor para criar uma pasta de barro cáustica nos meus olhos. Era o calor que irradiava do chão, que emanava das paredes de adobe daquele casebre maldito, que pulsava dos corpos. Dos corpos vivos, dos corpos mortos, e daqueles que existiam num limbo aterrorizante entre um estado e outro.
Eu estava nesse limbo há três meses. Tempo suficiente para saber que não ia voltar o mesmo. Se é que ia voltar.
O Sargento Moraes me cutucou no ombro com a coronha do fuzil.
"Al, chegou a hora. A Intel diz que tem um talibã de alto valor numa das casas do setor Delta. Chefe de célula. O nome dele é... foda-se, é impronunciável. O importante é a ordem: vivo, se possível. Morto, se necessário."
Assenti. Minha garganta estava tão seca que a saliva parecia lixa. Três dias sem água potável de verdade, bebendo apenas aquela merda morna com gosto de iodo e plástico das *rations*. Eu era o especialista em "entrada tática". O nerd de estruturas que virou demolidor. O cara que sabia onde uma parede de barro escondia um túnel, ou onde a terra compactada denunciava uma IED (Dispositivo Explosivo Improvisado). Eu tinha trocado meus livros por um mapa mental de arquitetura destrutível. E agora usava isso para decidir quem vivia e quem morria.
"Al, e outra coisa." A voz do Moraes baixou. Ele tinha aquele sotaque arrastado, mas ali, soava como uma sentença de morte. "Tem civis lá. Muitos. Mulheres, crianças. A Intel não sabe ao certo quantos. O covarde usa a casa como escudo humano. Se a merda explodir no ventilador, precisamos ter 'cuidado'. Sabe como é."
Eu sabia. Como é. A gente sabia *demais* como é. Crianças com coletes de explosivos. Velhos com granadas sem pino nas mãos trêmulas. Mulheres que te olhavam com ódio bíblico enquanto os filhos miravam AK-47 enferrujadas nos seus olhos. Cuidado. Sempre cuidado. Regras de Engajamento. ROE. Uma piada.
Mas cuidado não salva ninguém aqui. Cuidado só prolonga o inevitável.
Nós nos movemos ao anoitecer. O sol morria no horizonte, sufocado por uma névoa de pó e fumaça de lixo queimado. O céu assumiu uma cor laranja podre, um tom de infecção que eu começava a associar com tudo que era bonito, mas estava morto por dentro. Eu ia na ponta, minha M4 modificada na mão, a mira holográfica ligada na intensidade mínima do vermelho. Não queria chamar atenção. Queria ser o silêncio. Queria ser a Morte chegando sem bater.
A casa alvo ficava no final de uma viela estreita, isolada como uma ferida aberta. Paredes de adobe de um metro de espessura, telhado de barro rachado, janelas sem vidro — apenas buracos negros que respiravam calor e medo. Parei a cinco metros. Senti na pele, um arrepio na nuca suada, que algo estava errado. Não estava vazio. Estava cheio *demais*. O silêncio era pesado, denso. O silêncio tinha batimentos cardíacos.
Moraes estava atrás de mim, com Ribeiro e Jorginho na cobertura. Quatro homens. Quatro fantasmas longe de casa. Tínhamos feito isso vinte vezes naquele mês. Mas dessa vez... dessa vez, a sensação era diferente. Porque dessa vez eu tinha parado de contar. Parado de contar corpos, parado de contar dias, parado de contar a quantidade de vezes que eu via aquele brilho vítreo nos olhos dos mortos e sabia que ia sonhar com ele para sempre.
Entrei primeiro. A porta de madeira bruta estava trancada. Não foi problema. Minha serra tática cortou o trinco em trinta segundos de zumbido abafado. O metal quente queimou meu dedo através da luva. Nem senti. Eu já estava queimado por dentro mesmo.
O interior era um breu. Um corredor curto, cheirando a pó antigo, urina, comida azeda e algo mais. Algo doce e metálico. Carne. Carne crua deixada ao sol. Meu estômago deu um nó. Era cheiro de morte recente.
*Já tem alguém morto aqui*, pensei. *Acerto de contas? O talibã executou os reféns?*
Mas Moraes fez o sinal. *Continua*.
Eu continuei. O demônio obedece.
A primeira sala estava vazia, exceto por um tapete puído e almofadas sujas. A segunda sala... aí estava o problema. O pesadelo.
Seis mulheres. Todas jovens, entre dezoito e vinte e poucos anos. Vestidas com burcas sujas, mas os véus estavam levantados. Os olhos... os olhos nos viram entrar como se fôssemos demônios surgindo do chão. E talvez fôssemos. Elas estavam amontoadas num canto, tremendo, com uma criança de uns três anos no colo da mais velha. A criança estava quieta. Quieta demais. Morta? Não. Dopada. Ópio. Era comum. Davam ópio para as crianças não chorarem e revelarem a posição enquanto os homens matavam lá fora.
Moraes entrou atrás, varreu o perímetro e apontou para um tapete deslocado no canto oposto. Um buraco no chão. Túnel. O talibã de "alto valor" tinha vazado. Fugido como um rato. Mas deixou as mulheres. A Intel estava errada. O alvo não estava lá. Só os restos que ele usava e descartava.
"Varredura completa", sussurrou Moraes. "Armas, mapas, qualquer coisa. E interroga elas. Al, você arranha no Dari, vai lá."
Eu fui. Ajoelhei-me na frente da mulher mais velha, a que segurava a criança. Os olhos dela eram verdes. Um verde raro, afegão, hipnotizante. Bonito, mas cheio de um terror absoluto.
"Agha shoma..." comecei, a voz rouca. *Onde ele está?*
Ela não respondeu. Só abraçou a criança com mais força, os nós dos dedos brancos.
"Al, a gente não tem tempo", Ribeiro sibilou pelo rádio, nervoso. "Se tiver armadilha aqui, vamos virar confete."
Eu sabia. O relógio estava correndo.
"Onde ele está?" Repeti em inglês, pressionando o cano do fuzil levemente na direção do túnel. "Where?"
Uma garota, talvez dezoito anos recém-completos, olhou para mim. Olhos castanhos, grandes, transbordando lágrimas. Ela apontou para o túnel com mão trêmula. Sussurrou algo em Dari. "*Zir zameen*." Debaixo da terra.
"Porra, ele fugiu mesmo." Jorginho chutou a parede de raiva. O barulho ecoou como um tiro.
Aí a merda aconteceu. O caos.
A criança acordou com o estrondo. Não chorou. Gritou. Um grito agudo, estridente, puro pânico animal. A mulher de olhos verdes, num reflexo de desespero para nos proteger ou proteger a si mesma do que viria, tapou a boca da criança com força. *Muita* força. A criança lutou, as perninhas chutando. E eu vi. Eu vi nos olhos da mãe. Ela estava sufocando a própria filha. Para que não gritasse. Para que não atraísse atenção. Para que nós não as matássemos.
"Para!" Gritei, largando a arma pendurada na bandoleira e puxando o braço dela. A criança caiu no chão, tossindo e puxando o ar. A mulher me olhou com ódio. Ódio puro e cristalino. E eu entendi. Para ela, eu não era o salvador impedindo um infanticídio. Eu era o monstro que invadiu a casa. Eu era o infiel. O demônio ocidental que trazia a desgraça.
Mas eu não estava preparado para o que veio depois.
A menina de dezoito anos se levantou. Lentamente, como num transe. Ela tremia tanto que os dentes batiam. E ela começou a tirar a burca. O tecido caiu no chão sujo. Debaixo, ela estava nua. Nua e magra, costelas visíveis, o corpo um mapa de hematomas roxos e amarelos. Ela veio até mim. Não, ela veio para o meu rifle. Ela tocou no cano quente da arma com a mão delicada. E sussurrou num inglês quebrado, aprendido na dor:
*"You want? You take. Me. Not them."* (Você quer? Você pega. Eu. Não elas.)
Eu recuei um passo, o choque me atingindo como um soco. "Não. Não, senta."
Mas ela não sentou. Ela se ajoelhou. E as outras mulheres, vendo aquilo, fizeram o mesmo. Uma a uma. O som de tecido caindo. Corpos magros, famintos, marcados por surras e cigarros. Seios murchos, bocas secas, pernas tremendo de fraqueza. E todas olhando para mim. Não com medo de morrer. Com... oferta. Era uma transação. Elas tinham sido condicionadas pelo Talibã, pelos senhores da guerra, pela vida naquele inferno. Elas eram moeda. Para subornar, para aplacar a fúria, para sobreviver mais um dia. E agora, elas se ofereciam para nós. Para *mim*.
"Al, porra, não..." Moraes estava atrás de mim, mas eu ouvia a voz dele vacilar. Ele também estava chocado, a bússola moral girando sem norte. "A gente não faz isso. Não somos eles."
Mas eu fiz.
Não sei por que fiz. Não sei se foi o calor que cozinhava meu cérebro, se foi o cheiro de sangue e carne crua no ar, se foi a adrenalina acumulada de meses sem alívio, ou se foi o olhar daquela mulher de olhos verdes que me via como a Morte e a Salvação ao mesmo tempo. Talvez o monstro estivesse com fome.
Peguei a menina de dezoito anos pelo braço fino. Ela não pesava nada, parecia feita de pássaros e medo. Levantei-a. Sua pele estava gelada, apesar do calor infernal. Eu sentia os ossos dela sob meus dedos calejados.
"Qual seu nome?" Perguntei, a voz rouca. Mas ela não respondeu. Só olhou para o chão, submissa.
"Al, vamos embora. Agora. O túnel pode ter explosivos." Jorginho estava no limite, suando frio.
Mas eu já tinha decidido. A escuridão tinha tomado o volante.
"Eu vou 'interrogar' ela", disse, minha voz soando estranha aos meus próprios ouvidos. Fria. Distante. "Só ela. Separada. Pra ver se ela sabe de verdade onde o rato se escondeu."
Era uma desculpa. A desculpa mais velha e suja da guerra. Mas era a desculpa que eu precisava. E eles deixaram. Porque na guerra, a cumplicidade é o cimento que une o pelotão.
Levei-a para a sala ao lado. Um quarto minúsculo. Só um colchão imundo no chão e uma janela pequena que deixava entrar um feixe de luz poeirenta. Joguei-a ali. Ela caiu de joelhos, sem oferecer resistência. Eu fechei a porta de madeira podre. Moraes gritou algo lá fora, um protesto fraco, mas eu ignorei. O mundo lá fora deixou de existir.
"Me fala onde ele está." Minha voz era outra. Era a voz do deserto. A voz que eu usava quando sabia que ninguém ia me ouvir além dos meus próprios demônios e de Deus, se é que Ele olhava para aquele lugar.
Ela não falou. Ela sabia o script melhor que eu. Ela só se virou. Ficou de quatro no colchão sujo. A bunda dela, magra, os ossos do quadril proeminentes, se oferecendo. Um reflexo. Um maldito reflexo condicionado de sobrevivência. *Corpo significa informação. Corpo significa não levar um tiro na cabeça.*
Eu não ia fazer. Eu juro por tudo que um dia foi sagrado para mim que eu não ia.
Mas eu fiz.
Desabotoei a cintura do uniforme tático com mãos trêmulas. O som do velcro e do zíper foi ensurdecedor no silêncio do quarto. Acompanhei o corpo dela. Ela não reagiu. Não chorou. Não gemeu. Não lutou. Só ficou ali. Um objeto. Um receptáculo. Um saco de ossos e carne que eu usava para aliviar minha própria loucura.
O estupro durou quatro minutos. Quatro minutos eternos. Eu senti cada segundo. Cada batida bruta do meu quadril contra os ossos salientes dela. Cada suspiro seco e poeirento que saía da minha boca. Fechei os olhos com força, tentando ver o rosto da Elaine, tentando transformar aquilo em amor, mas não via nada. Só escuridão. Só sentia o ódio. Ódio dela por existir e me tentar. Ódio de mim por estar ali fazendo aquilo. Ódio do mundo por ter me colocado naquele lugar esquecido por Deus.
Quando terminei, gozei dentro. Sem proteção. Sem nada. Era a última camada de desumanidade, o último insulto que eu podia adicionar naquela pilha de merda. Ela caiu de lado no colchão, encolhida em posição fetal. Eu vi o sangue no tecido encardido. Não era só dela. Era meu também. Meu pau estava arranhado pela secura, machucado pela violência do atrito sem lubrificação. Eu tinha me ferido para feri-la.
Eu me arrumei, fechando o zíper sobre a minha alma morta. Saí do quarto. O ar no corredor parecia mais frio. Moraes olhou para mim. Ele sabia. Ele tinha ouvido o silêncio e os ruídos. Ribeiro e Jorginho desviaram o olhar, focando nas armas. Ninguém falou nada. Ninguém ia falar. Porque éramos todos culpados. Naquele lugar, a culpa era uma commodity que todo mundo carregava na mochila. Só o peso variava.
"Ela não sabia nada", falei, limpando o suor da testa com as costas da mão suja. "Manda elas embora."
Moraes não questionou. Ele fez as mulheres saírem. Todas. Inclusive a menina de dezoito anos, que saiu do quarto cambaleando, segurando a barriga, deixando um rastro invisível de destruição e um rastro visível de sangue no chão de terra batida. A criança no colo da mulher de olhos verdes choramingava baixo. A mãe olhou para mim uma última vez antes de sair para a noite. Não era ódio nos olhos dela. Era algo pior. Era desdém. O desdém de quem sabe que o monstro que acabou de violentar sua irmã é menor que o monstro que você vai ter que se tornar para sobreviver até o amanhecer.
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**[Mesma noite, Base Phoenix, quarto improvisado de Al]**
Eu estava deitado no meu saco de dormir, olhando para o teto de lona verde-oliva. O zumbido tinha começado. Um zumbido agudo, elétrico, que nunca mais parou. Eu ouvia os gritos da menina. Não os que ela deu — porque ela não deu nenhum —, mas os que *eu* dei, em silêncio, dentro da minha própria cabeça doente. Cada estocada tinha sido uma pergunta sem resposta. Cada espasmo de prazer, uma acusação.
A porta se abriu. O Jorginho entrou no meu quarto improvisado. Ele trazia uma garrafa de uísque americano, Jack Daniel's, que tinha contrabandeado sabe-se lá como. Ele guardava aquilo para "ocasiões especiais". Aquela noite era especial. Era a noite em que tínhamos cruzado a linha.
"Toma." Ele me estendeu a garrafa, sem copo. Eu dei um gole longo. O líquido âmbar desceu queimando minha garganta, mas não tocou na alma. Queimei o esôfago, mas a podridão continuava lá. "A gente não vai falar sobre isso. Nunca."
"Claro", respondi, devolvendo a garrafa.
Mas a gente falou. Falamos o tempo todo. Não com palavras. Falamos com olhares desviados no refeitório. Com a forma como o Jorginho nunca mais tocou no meu ombro para brincar. Como o Ribeiro deixou de me cumprimentar de manhã. Como o Sargento Moraes passou a me tratar não como um soldado, mas como uma carga explosiva instável prestes a detonar e levar todo mundo junto.
Porque eu era. Eu era uma bomba-humana feita de carne e remorso.
**[Três dias depois, Vilarejo de Marjah, Província de Helmand]**
A ordem veio de cima: limpar. Limpar a aldeia de "elementos hostis". O Talibã tinha emboscado um comboio de suprimentos na estrada principal. Quatro fuzileiros americanos mortos, queimados vivos nos Humvees. A resposta da coalizão tinha que ser proporcional. E a "proporção", na lógica insana da guerra, é sempre desproporcionalmente brutal.
Eu estava na torre de um Humvee blindado, segurando as manoplas de uma metralhadora .50. O cano da arma irradiava calor suficiente para assar carne. Eu já tinha sentido cheiro de carne assada antes. Carne humana. Não era muito diferente de um churrasco de domingo, exceto pelo tom adocicado e enjoativo. Esse pensamento intrusivo me fez vomitar um pouco de bile dentro da boca, que engoli de volta. O pó que cobria tudo ajudava a esconder a vergonha.
A aldeia estava cheia de vida. Gente trabalhando nos campos de papoula, crianças correndo atrás de pneus velhos, mulheres carregando jarros de água barrenta, homens se reunindo para a oração na mesquita. Nós chegamos, e o mundo parou. Todo mundo olhou. Todo mundo sabia. A Morte tinha vindo fazer uma visita de cortesia.
"Al, foco", a voz do motorista, um mercenário americano chamado Hicks, crepitou no intercomunicador. "Tem um *spotter* (observador) no telhado ali, às duas horas. Vê?"
Eu vi. Ajustei a visão. Era um garoto. Talvez quinze anos, magro como um galho. Segurava binóculos. Não era uma arma. Eram apenas binóculos velhos. Mas na guerra assimétrica, binóculos podiam ver, podiam guiar morteiros, podiam matar.
"Não é hostil armado", falei, hesitando.
"Intel diz que *spotters* são hostis. Eles guiam os foguetes", Hicks respondeu, a voz sem emoção. "Neutraliza."
Eu hesitei. Não atirei. Hicks não teve a mesma dúvida. Ele parou o veículo, pegou seu rifle de precisão do banco do passageiro e, pela janela aberta, disparou. O som abafado do disparo silenciado foi quase gentil. *Teco*. A cabeça do garoto no telhado explodiu como uma melancia madura caindo no asfalto. Vermelho, branco, cinza. Massa encefálica pintando o barro seco. O corpo caiu para trás, desaparecendo. Ninguém na aldeia correu. Ninguém gritou. Eles só olharam. Eles sabiam que reagir era morrer.
"Entrada em cinco", o rádio anunciou.
Descemos dos veículos. Hicks, eu e mais seis homens. Entramos na aldeia como uma praga de gafanhotos armados. As mulheres correram para dentro das casas, puxando as crianças. Os homens em idade militar desapareceram nas sombras. Era o padrão.
A primeira casa que entrei tinha apenas um velho. Deitado numa rede puída, fumando um cachimbo de haxixe. Apontei a M4 para o peito dele. Ele não se moveu. Não levantou as mãos. Só me olhou com olhos cinzentos, vidrados pela droga e pela idade. Eu puxei o gatilho. Não pensei. Não hesitei. Apenas puxei. Uma rajada curta de três tiros. O peito dele se abriu em flores vermelhas. O sangue espirrou na parede de adobe bege, criando arte abstrata macabra. Secou em segundos no calor. O cheiro de ferro do sangue se misturou com a fumaça doce do haxixe. Eu senti um vazio absoluto. Não era remorso. Era o nada.
A segunda casa tinha duas mulheres. Apenas elas. Elas se encolheram num canto quando chutei a porta. Levantei a arma, varrendo o cômodo. Elas levantaram as mãos trêmulas. Uma delas, a mais velha, estava grávida. Muito grávida. A barriga enorme, de oito ou nove meses, esticava o tecido da túnica. Ela me olhou nos olhos. Não pediu piedade. Não suplicou. Só aceitou o destino. A aceitação é pior que o medo. O medo é humano, instintivo. A aceitação é o sinal de que a humanidade já fez as malas e foi embora.
Eu não atirei nelas. Baixei a arma e saí. Hicks entrou atrás de mim. Ouvi os disparos. *Bam. Bam.* Elas caíram. Ouvi o som pesado dos corpos batendo no chão de terra. O impacto daquela barriga enorme fez um barulho único, que nunca vou esquecer. Um *flump* molhado. Um estouro silencioso de vida que nunca começou. O líquido amniótico se espalhou pelo chão, escorrendo por baixo da porta. Eu vi. Uma poça clara, misturando-se com o sangue vermelho escuro das mães. Criando um rosa pálido. Rosa porco. A cor do nascimento e da morte misturadas na lama.
Hicks saiu, trocando o carregador. "Dois hostis neutralizados."
Elas não eram hostis. Elas só existiam no lugar errado. Mas naquele inferno, existir já era um ato de hostilidade suficiente.
**[Uma semana depois, Base Britânica em Kandahar]**
Eu tinha ganhado um passe de três dias. R&R (Rest and Recuperation). Descanso. Que piada. O que é repouso quando você não consegue fechar os olhos sem ver fantasmas? Eu ficava acordado, deitado no catre, olhando para o teto da barraca, ouvindo os soldados britânicos rindo e bebendo lá fora. Eles ainda sabiam rir. Nós, o contingente "irregular", tínhamos perdido o riso em algum checkpoint poeirento meses atrás.
Numa noite, fui para o bar improvisado da base. Uma tenda grande, mesas de plástico, garrafas de uísque barato e música ruim. E lá estava ela. Uma intérprete civil. Trabalhava para os britânicos. Nome: Faria. Não era afegã; era paquistanesa, mas com cidadania britânica. Seios grandes, cabelos negros soltos, pele morena clara. Usava o *hijab* de forma liberal, frouxo, mostrando o pescoço. E o pescoço estava marcado. Eu sabia ler aquelas marcas como braile. Eram mordidas. Chupões violentos. Eu tinha marcas iguais na alma. Marcas de guerra. Marcas de quem foi usado como objeto e deixou acontecer.
Ela me viu me aproximar. Sorriu. Um sorriso triste, cúmplice. Um sorriso que dizia: *"Eu sei o que você é, e eu sou feita da mesma matéria quebrada."*
Conversamos. O inglês dela era perfeito, com sotaque de Londres. Contei que era brasileiro. Ela disse que adorava o Rio, o Carnaval. Mentira polida. Mas era a mentira bonita que a gente precisava contar para se sentir humano por cinco minutos.
"Quer sair daqui?", ela perguntou, terminando a bebida. "Tem um lugar. Privado. Um contêiner."
Eu sabia o que era. Sabia que era uma transação implícita. Mas eu precisava. Precisava sentir algo que não fosse a frieza do metal da arma ou o cheiro de sangue seco. Precisava sentir carne quente, viva, que não resistisse, que se oferecesse.
Fomos para o contêiner dela. Pequeno, abafado, cheirando a incenso barato para disfarçar o cheiro de sexo e suor. Ela se despiu primeiro, com eficiência profissional. Tirou o *hijab*. O cabelo caiu em cascata, preto e brilhante. Depois a túnica. Ficou nua. Tinha um corpo incrível, voluptuoso. Seios naturais pesados, mamilos escuros e grandes. Barriga chapada, mas marcada por estrias prateadas. Filhos? Abortos forçados? Não importava. Coxas grossas, poderosas, mas marcadas. Uma cicatriz longa, feia, corria da virilha até o joelho interno. Facada?
"Fiz isso eu mesma", ela disse, notando meu olhar fixo. "Quando eu trabalhava para o Talibã, forçada. Eles gostavam de me cortar devagar."
Ela se virou, indiferente. Mostrou as costas. Mais cicatrizes. Linhas finas e cruzadas. Chicote. "Isso foi quando trabalhei para os mercenários russos. Eles gostavam de chicotear antes."
Ela era um mapa vivo de violência. Um atlas geográfico da dor masculina. E eu estava prestes a adicionar mais uma página sangrenta nesse atlas.
Não fizemos amor. Não transamos como pessoas normais. Eu a possuí. E ela deixou. Porque para ela, aquilo era normal, era terça-feira. Era só mais um soldado quebrado usando seu corpo como analgésico e moeda de troca por alguns minutos de esquecimento. Ela se deitou no catre, abriu as pernas mecanicamente. Eu entrei. Sem preliminares, sem carinho, sem beijo. Só penetração pura, rápida, brutal. Ela não gemeu. Não fez barulho. Só olhou para o teto de metal corrugado, os olhos vazios. Enquanto eu bombeava, via as cicatrizes dela se movendo sob a pele suada. Eu via a história de cada homem que passou por ali. E eu estava escrevendo a minha.
Quando gozei, gozei na barriga dela. De propósito. Para marcar território. Para dizer *"eu também existo nesse seu mapa de merda, eu também estive aqui"*.
Ela se limpou com uma toalha úmida que tirou de um balde. Me olhou, vestindo a túnica. "Você é diferente", disse ela. "Mais gentil que a maioria."
Eu ri. Um riso seco, áspero, que doeu no peito. "Gentil? Eu acabei de te usar como um boneco inflável. Praticamente um estupro consensual."
"Sim", ela respondeu, simples, ajeitando o véu. "Mas você pelo menos não me bateu. Nem me cortou. Hoje."
Ela voltou a ser a intérprete britânica respeitável. E eu voltei a ser o fantasma brasileiro. Tínhamos feito uma transação comercial: sexo por humanidade congelada. Só que nós dois saímos daquele contêiner menos humanos do que entramos.
**[Dois meses depois, Aldeia de Bala Murghab, Província de Badghis]**
A evacuação foi ordenada às pressas. A Intel tinha vazado. O Talibã sabia nossa posição exata. Eles estavam vindo em força. Vinte, trinta combatentes pesados, com RPGs e morteiros. Tínhamos que sair voando. Mas a ordem era clara: não sair de mãos vazias. Levar "evidências". E naquele contexto distorcido, "evidências" significava gente. Suspeitos. Qualquer homem em idade militar. Qualquer mulher que pudesse ter visto algo. Estávamos fazendo uma operação de captura em massa para justificar a retirada. Era "legal". Era protocolo. Era... guerra.
Chutei a porta de uma casa de adobe. Três homens lá dentro, tomando chá. Um deles tinha uma AK-47 velha pendurada na parede como decoração. Isso era o suficiente para a condenação. Eu os cacei. Eles não reagiram, sabiam que era inútil. Levantaram as mãos calejadas. Eu os algemei com *zip ties* (lacres plásticos) pretos. Apertei até o plástico cortar a pele dos pulsos e o sangue começar a pingar. Eles não gemeram. Aceitação.
Aí veio a mulher.
Ela entrou correndo do pátio interno. Gritando em Dari, desesperada. Agarrou meu braço, puxando. Ela não queria que eu levasse o marido. Ou o filho. Ou o irmão. Não sei quem eram. Só sei que ela era forte. Uma leoa defendendo a cria. Mais forte do que eu esperava para alguém tão pequena. Ela bateu na minha M4, derrubando a arma no chão. Pisou em cima com sandálias de plástico, quebrando a mira holográfica cara. E veio para cima de mim. Unhas, dentes, fúria primal.
Eu reagi. Não com tiro. Com a faca. Sempre com a faca de combate Ka-Bar no meu colete. Era mais pessoal. Mais íntimo. Mais... honesto. Um tiro é mecânico, impessoal. Uma faca, você sente. Você sente a resistência da pele, o músculo se abrindo, a vibração da vida se apagando. Você sente o sangue quente molhar sua mão como um batismo.
Cravei a lâmina no ventre dela. Não foi uma vez. Foram quatro estocadas rápidas. Uma para cada membro da família que eu estava sequestrando. Ela caiu de joelhos, segurando as tripas. O sangue jorrou na minha bota tática cor de areia, manchando o couro. Senti o calor molhado através do tecido. O gosto metálico de ferro inundou minha boca de novo. Só que agora era real. Era ela.
O homem que eu tinha algemado viu tudo. Ele gritou. Não de dor. De uma fúria ancestral. Ele forçou os braços, os músculos do pescoço estourando. O *zip tie* arrebentou. Não sei como. A força do ódio. Ele tinha os pulsos em carne viva, mas se soltou. E veio. Saltou sobre mim como um animal ferido.
Eu estava de joelhos, ainda em cima da mulher que morria. Ele me derrubou. A faca voou da minha mão escorregadia de sangue. Rolamos no chão de terra batida, numa luta de vida ou morte. Eu sentia o sangue dela nos meus olhos, cegando-me. Sentia o pó da terra ranger nos meus dentes. Sentia o peso do corpo dele, cheirando a suor e chá. Ele agarrou uma pedra solta do chão. Uma pedra grande, irregular. Bateu na minha cabeça. Uma vez. O mundo piscou. Duas vezes. Vi estrelas, vi fogo. Vi IEDs explodindo na minha retina.
Eu gritei. Um grasnido gutural, animal. Consegui girar o corpo, usando o peso dele contra ele. Arranquei a pedra da mão dele. E devolvi. Acertei o nariz dele com toda a força que me restava. O *crunch* de osso quebrando foi seco, satisfatório. O sangue dele espirrou no meu rosto, quente. Bati de novo. Na boca. Dentes quebraram e voaram como milho de pipoca. Bati no olho. O globo ocular estourou. Um som úmido, macio, como esmagar uma uva grande. Bati até ele parar de se mexer. Até os braços caírem. Até o rosto dele não ser mais um rosto, mas uma massa informe de carne e osso triturado.
Quando parei, ofegante, a pedra estava coberta de cabelo, sangue coagulado e pedacinhos brancos de crânio. Eu estava coberto também. Olhei para o que tinha feito. Eu tinha apagado a identidade dele na pancada.
A mulher, debaixo de mim, ainda estava viva. Respirando com dificuldade, engasgando com o próprio sangue que borbulhava na boca. Ela olhou para mim. E, juro por Deus, ela sorriu. Um sorriso macabro, manchado de vermelho. E sussurrou algo em Dari. Eu entendi. O tradutor automático da minha mente culpada traduziu: *"Obrigada."*
Ela morreu segundos depois, o brilho saindo dos olhos. E eu entendi o horror da gratidão dela. Eu tinha feito um favor. Eu tinha matado o homem dela antes que ele vivesse o inferno de ser prisioneiro em Guantánamo ou Bagram. Eu tinha matado ela antes que ela tivesse que viver num mundo sem ele. Eu tinha sido o Anjo da Morte misericordioso.
**[Uma semana depois, Base de Kandahar, Sala de Interrogatório]**
Eu estava sendo investigado. Não pelo estupro da menina. Nunca pelo estupro. Ninguém investiga estupro de "inimigo" em zona de guerra; chamam de "dano colateral". Mas pela morte do prisioneiro. Pela força excessiva. Pela carnificina na casa. Tinha que dar depoimento oficial.
O oficial de justiça militar era um Capitão novo, recém-chegado. Lindo, farda impecável, olhos azuis inocentes. Parecia um pôster de recrutamento. Ele me olhou através da mesa de metal como se eu fosse um pedaço de lixo tóxico. E eu era.
"Soldado Friese, o relatório diz que você usou força excessiva e desnecessária."
"Sim, senhor."
"Por quê?"
"Porque força insuficiente não mata o inimigo, senhor. E eles estavam tentando me matar."
"O senhor tem algum remorso pelas mortes?"
"Não, senhor."
Ele fechou a pasta com um suspiro de desgosto. "O senhor não é mais designado a operações de campo. Está afastado. Vai para a retaguarda. Assessoria logística. Até o fim do seu contrato."
"Quanto tempo?"
"Mais quatro meses."
"E depois?"
"Depois, o senhor volta para o Brasil. E sinceramente? Espero que consiga ajuda psiquiátrica."
Eu saí da sala batendo continência para o vazio. Não tinha ajuda. Ajuda era para quem ainda tinha alma para salvar. Eu já tinha vendido a minha por munição e sobrevivência.
**[Quatro meses depois, último dia no Afeganistão, Base Aérea de Bagram]**
Eu estava de malas prontas. O voo de transporte C-130 saía em duas horas. Eu ia embora. Para sempre. Para encontrar a Elaine, que me esperava com cartas perfumadas. Para casar. Para fingir que tinha sido um herói e um homem bom.
Mas o inferno queria uma última dança. A base foi atacada. Alerta de sirene. Um homem-bomba conseguiu passar pelo primeiro perímetro. Um civil local. Um menino, na verdade. Talvez dezesseis anos, a mesma idade daquelas meninas. Ele correu para a área de embarque lotada de soldados. Gritou: *"Allahu Akbar!"* (Deus é Grande). Eu estava a dez metros, fumando um cigarro.
Eu tinha a faca. Sempre a faca. Eu não pensei. Corri na direção dele enquanto os outros corriam para longe. Não sei por que. Instinto suicida? Talvez fosse um último ato de redenção distorcida. Ou talvez fosse só o vício na violência. Cravei a faca no pescoço dele antes que o dedo dele apertasse o detonador no colete. A lâmina cortou a traqueia e a carótida num movimento só. Ele não conseguiu gritar, só gorgolejou sangue. Mas os olhos dele... os olhos falaram comigo enquanto a vida sumia. *Obrigado.* A mesma mensagem da mulher. *Obrigado por acabar com isso.*
A bomba não explodiu. Com as mãos ensanguentadas, cortei os fios do colete com a própria faca. Não sou técnico em explosivos, mas sabia onde cortar. Instinto de predador. Eu tinha me tornado especialista em desarmar pessoas.
O menino morreu nos meus braços, o sangue dele encharcando minha farda de saída. Eu segurei ele até ficar frio. Senti o peso. Era o peso de todas as vidas que eu tinha tomado. E o peso da vida falsa para a qual eu estava voltando. O homem que embarcou naquele avião não era o Al que a Elaine amava. Aquele Al tinha morrido no deserto. Quem voltou foi outra coisa.
Subi na rampa do avião cargueiro ainda com o sangue do menino-bomba nas mãos e na roupa. Ninguém me parou. Ninguém perguntou. Os outros soldados me olharam com respeito e medo. Porque todo mundo sabia. Todo mundo ali carregava seus próprios mortos na bagagem de mão. Pesava mais que qualquer mochila tática. E não tinha *check-in* para despachar a culpa.
**[Voo para o Brasil, 30 mil pés de altitude, 18 horas depois]**
Eu estava no banheiro apertado do avião comercial, na conexão em Dubai. Me olhando no espelho manchado. Tinha sangue seco na minha sobrancelha. Sangue que não era meu. Lavei o rosto com água fria e aquele sabonete líquido barato. O sabonete cheirava a lavanda sintética. Cheiro de mentira. Cheiro de civilização tentando disfarçar a barbárie.
Tirei a camisa para me trocar. Meu corpo era um mapa. Marcas de unhas nas costas. Marca de mordida cicatrizada no ombro. Marca de corte de faca no braço. E tinha a tatuagem nova. Uma que eu fiz numa noite de bebedeira em Kandahar, usando tinta de caneta e agulha de costura. Era uma cruz pequena, tosca, preta. No peito, bem em cima de onde deveria estar meu coração. Para lembrar que eu tinha morrido lá. E que o que voltou era só um fantasma habitando uma casca vazia. Um fantasma com permissão social para matar, estuprar (se necessário), destruir. E com a consciência tranquila de que ninguém ia punir de verdade. Porque a guerra nos joga no inferno, nos manda fazer o trabalho sujo, e depois nos dá medalhas para fingir que fomos nobres.
Vesti uma camisa polo limpa. Voltei para o assento 14F. A Elaine me esperava no desembarque. Na minha cabeça. No meu futuro. Na minha grande mentira. Eu ia chegar. Ia abraçá-la. Ia casar. Ia ser o homem bom. O marido protetor que instala som de carro. O marido que ama e cuida. O marido que, anos depois, organizaria tiros de borracha para expulsar um encanador tarado e faria um jantar romântico para a esposa infiel.
Mas lá no fundo, na escuridão do meu estômago, eu sabia. Eu sabia que o predador que expulsei da minha rua era só um reflexo pálido. O verdadeiro predador estava aqui. Sentado na poltrona do avião. Comendo minha alma em pedaços tão pequenos que eu nem sentia mais dor. E a única coisa que me mantinha sorrindo, me mantendo "funcional" e "são", era a certeza secreta de que um dia, quando o mundo me quebrasse de novo, quando a Elaine me traísse — porque todos traem, porque o mundo é podre e eu ajudei a deixá-lo assim —, eu ia ter a desculpa para abrir a jaula. Eu ia poder libertar o monstro de novo.
E dessa vez, não seria num casebre de adobe no Afeganistão, escondido pela guerra.
Seria na minha própria casa. No meu quarto.
E dessa vez, não haveria desculpa de "ordens superiores".
Haveria apenas a verdade nua e crua. A verdade que aprendi no sangue: quem ama, destrói para manter. Quem protege, mata para salvar. E quem volta do inferno, nunca volta sozinho; traz o diabo de carona.
O avião tocou a pista no Rio de Janeiro. O solavanco me acordou. O calor úmido do Brasil invadiu a cabine quando abriram a porta. Parecia um abraço quente. Mas eu sabia. O calor brasileiro não era diferente do calor afegão. Era o mesmo calor que cozinhava carne e almas. O calor do inferno. E eu estava de volta ao lar.
Só que agora, o diabo tinha um endereço fixo, um CPF e uma esposa linda.
E o único lugar que um homem quebrado pode chamar de lar de verdade é a jaula blindada que ele constrói dentro de si mesmo, esperando o dia em que a chave vai girar.
[Fim da Parte 5]