O Reino de **Valdoren** erguera-se não sobre muralhas ou espadas, mas sobre moedas. Suas torres eram altas para vigiar caravanas, não exércitos; seus navios cruzavam mares levando seda, sal e promessas, jamais legiões. Ali, o ouro falava mais alto que o aço — até o nascimento do príncipe **Kael Dravaryn**.
Kael veio ao mundo em uma noite de tempestade, quando o vento rasgava as bandeiras mercantis do palácio e o mar rugia como uma criatura faminta. Diziam as parteiras que o recém-nascido não chorou; apenas encarou o mundo com olhos escuros e atentos, como se já o desafiasse. Desde então, o silêncio passou a ser sua linguagem favorita.
Seu pai, **Rei Altherion Dravaryn**, era um homem corpulento, de barba bem cuidada e dedos sempre manchados de tinta e ouro. Governava com contratos, não com decretos, e acreditava que todo conflito podia ser resolvido com a soma correta de moedas. Altherion amava o filho, mas nunca o compreendeu. Via nele um herdeiro que deveria aprender a barganhar, negociar e sorrir — e se frustrava ao encontrar apenas frieza.
A mãe de Kael, **Rainha Seralyne**, era bela de forma melancólica. Seus olhos claros pareciam sempre cansados, e sua voz raramente se elevava. Mulher de fé e prudência, tentou moldar o coração do filho com histórias de harmonia e prosperidade. Falhou. Kael a observava como quem observa algo frágil demais para sobreviver.
Desde a infância, Kael desprezava o comércio. As aulas de contabilidade o entediavam; tratados diplomáticos o irritavam. O que lhe despertava o espírito era o pátio de treino.
Sob o comando de **Mestre Arvek**, um veterano de guerras distantes — homem magro, cicatrizado e de humor sombrio —, os jovens nobres aprendiam a manejar a espada apenas como formalidade. Para Kael, porém, o treino era verdade. Ele atacava com força real, com intenção real. Ignorava os gritos, o medo e o sangue que escorria dos braços e rostos de seus companheiros.
— **Controle, alteza!** — gritava Arvek, repetidas vezes.
Kael jamais obedecia.
Havia prazer em seus olhos quando a lâmina encontrava carne, mesmo que fosse apenas um treino. Não era raiva. Era foco. Quando um garoto chamado **Lioren**, filho de um rico comerciante de vinhos, caiu ao chão com o braço quebrado, Kael apenas inclinou a cabeça, observando-o como se avaliasse uma mercadoria defeituosa.
— Se não aguenta a espada, não merece segurá-la — disse, com a voz calma demais para sua idade.
Com o tempo, os outros jovens passaram a temê-lo. Não por sua força física — embora fosse alto e musculoso —, mas por sua ausência de remorso.
Essa ausência se estendia além do campo de treino.
Na adolescência, Kael passou a desejar tudo o que não podia possuir: poder absoluto, submissão total, corpos e vontades dobrados à sua presença. As mulheres da corte aprendiam rápido a baixar os olhos quando ele passava. Algumas não foram rápidas o suficiente.
Não se falava abertamente sobre isso em Valdoren. Falava-se em “escândalos abafados”, em “desaparecimentos repentinos”, em duelos que nunca deveriam ter acontecido. Homens que ousaram intervir foram encontrados mortos em becos ou acusados de traição. Kael jamais se escondia; apenas seguia adiante, certo de que o mundo lhe devia obediência.
Para ele, desejo era conquista. E toda conquista exigia sacrifício.
— Um reino não se constrói pedindo permissão — dizia a si mesmo.
Quando Altherion morreu, a versão oficial foi doença. Os corredores do palácio, porém, sussurravam outra história: vinho adulterado, um selo falsificado, guardas subornados. A verdade jamais foi provada. Kael foi coroado em meio a lágrimas ensaiadas e aplausos temerosos.
No dia de sua coroação, vestiu negro em vez de dourado.
Seu primeiro decreto foi o fim das **Grandes Guildas Mercantis**. Seus líderes — homens gordos de anéis caros e mãos macias — foram convocados ao salão do trono. Alguns saíram algemados. Outros não saíram.
— O ouro enfraqueceu Valdoren — declarou Kael, sentado no trono que ainda cheirava ao incenso do pai. — Espadas não negociam. Elas tomam.
As moedas começaram a desaparecer. Em seu lugar, surgiram forjas. Navios passaram a transportar aço. Mercadores foram forçados a vestir armaduras. Quem resistiu, sangrou. Quem sangrou, serviu de exemplo.
O povo reagiu com medo. Alguns com ódio. Outros, com uma estranha esperança: o medo de Valdoren agora se espalhava além de suas fronteiras.
Reinos vizinhos observaram com atenção. Onde antes viam um parceiro comercial, agora viam um predador em ascensão.
E Kael… Kael sentia-se completo.
A guerra não era um meio. Era um fim.
Na solidão de seus aposentos, diante de mapas marcados com punhais, o novo Rei sorria. Não um sorriso de alegria — mas de certeza.
Valdoren deixaria de ser lembrada por seu ouro.
Seria lembrada por seu sangue.