A saga do Jom | 7º capítulo (Agora vivemos sob o mesmo teto)

Um conto erótico de Sarawat
Categoria: Gay
Contém 4479 palavras
Data: 09/01/2026 10:51:18
Última revisão: 23/01/2026 21:58:28

O Ano Novo chegou, e com ele fui levado de 2470 para 2471 em uma espécie de transe. Minha rotina permanecia a mesma, com a sutil diferença da força física que ganhei no trabalho pesado. O mundo futuro continuava a me rejeitar; nenhum portal, nenhum acesso concedido.

O frio da primeira semana de janeiro era cortante. A geada cobria a grama, fazendo as folhas brilharem sob o sol pálido como se estivessem cobertas de cristais. Era a "neve" do norte. A fumaça saía da minha boca a cada suspiro. Naquela manhã, a patroa Ueang Phueng se preparava para ir ao templo rezar pela saúde do bebê. Ela estava radiante em seu sinh longo e xale elegante, com o cabelo preso por um grampo de ouro adornado com flores pendentes.

Embora eu não a acompanhasse, rezei em silêncio para que meu sobrinho — ou sobrinha — crescesse saudável e, de preferência, sem a promiscuidade do pai. Quando vi Mei descendo as escadas, saí de entre os arbustos e a chamei:

— Mei!

Ela parou no caminho para o carro e veio em minha direção.

— O que foi, Ai-Jom?

— Leve isto para a patroa. Caso ela sinta enjoo no caminho. — Entreguei a ela uma tigela de folhas de bananeira contendo dez carpas delicadamente tecidas com folhas de pandan.

— Você é muito dedicado, Ai-Jom. Acorda cedo todos os dias para trançar esses peixinhos. — Mei sorriu, pegando a oferta.

Desde que soube dos enjoos matinais de Ueang Phueng, passei a tecer essas carpas de pandan. O aroma suave da planta ajudava a aliviar a náusea dela. Usei as habilidades que aprendi nas aulas de economia doméstica do ensino fundamental e, finalmente, dei um uso nobre àquele assunto. Assim que ela se afastou, Ming comentou, suspirando:

— A Mei está uma beleza hoje.

— Verdade — concordei. Era óbvio por que Ming estava tão apaixonado.

— Em breve a patroa vai casá-la com algum mercador rico — ele lamentou, com a voz carregada de desânimo. — Ela diz que prefere ser solteirona a ser a "segunda esposa" de alguém. Quer ser a única.

— Ela está certa. É uma mulher honrada — eu disse, sorrindo.

Ming olhou para os próprios pés e suspirou.

— Eu sou apenas um servo, Jom. Como eu poderia pedir a mão dela? Só para dar a ela uma vida de miséria?

Ele se afastou, infeliz. Eu sabia que ele estava preso aqui pelas dívidas dos pais, incapaz de seguir seu sonho de ter sua própria fazenda. Se eu tivesse dinheiro, e não uma conta bancária com saldo negativo no futuro, eu o ajudaria. Estava indo para o celeiro quando outra voz me deteve.

— Ai-Jom, espere.

Virei-me e encontrei Fongkaew. Ela estava perto dos jasmins, e o contraste era chocante. Estava mais bonita, com a pele radiante e vestida com sedas finas e joias de ouro. O Sr. Robert dera a ela uma casa exclusiva e até servos particulares. Ela vencera todas as outras amantes, mas eu sabia que o preço fora sua própria alma.

— Podemos conversar ali? — Ela apontou para uma árvore afastada.

Fiquei relutante. Falar a sós com a favorita do patrão era pedir por problemas. Mas acabei aceitando. Caminhamos até a sombra da árvore, e ela olhou ao redor, vigilante.

— Ai-Jom, você se lembra do que me disse? Que me ajudaria se eu precisasse?

Meu coração disparou.

— Sim. O que você quer? — Por favor, não me peça para ajudá-la a fugir com o Ohm, implorei mentalmente. Eu seria chicoteado até a morte se fosse pego.

Fongkaew respirou fundo, os olhos fixos nos meus. — Esta noite, o Ai-Kamsan... o homem que você viu no cais... ele estará me esperando de novo.

— Fongkaew, não faça isso! — minha voz saiu rouca de pavor. — E a sua irmã? Você disse que ela pagaria o pato se você fugisse!

— Eu não vou fugir — ela interrompeu, com a voz endurecida. — Eu nem quero vê-lo. Quero que você vá encontrá-lo por mim.

Fiquei boquiaberto, sem conseguir formular uma frase.

— Não quero mais nada com o Ai-Kamsan — enfatizou ela. — Quero que diga a ele que estou feliz aqui. Que tenho sorte de servir a um grande mercador de madeira. Diga que, embora eu seja apenas uma amante, vivo no luxo e no conforto. Diga para ele me esquecer e nunca mais me procurar.

— Você está desistindo dele tão facilmente? — As palavras escaparam antes que eu pudesse contê-las.

Fongkaew piscou, pressionando os lábios. Quando os abriu, sua voz era uma lâmina fria: — O amor não conquista tudo, Jom. Eu não sou mais a mesma mulher de antes.

— E você acha que o seu Ai-Kumsan vai me ouvir? Por que ele acreditaria em mim?

— Eu sei o que tenho que fazer. — Ela me entregou um papel quadrado dobrado. — É uma carta. Pode ler, não há segredos. Escrevi que não sinto mais nada e que ele deve parar de esperar. Acaba aqui.

Olhei para o rosto dela. Os olhos estavam escuros e os lábios curvados em uma dor profunda. Ela parecia exausta. — Por favor... me ajude.

Mesmo desconfortável, aceitei. Eu tinha uma promessa a cumprir.

— Eu vou falar com ele.

— Obrigada, Ai-Jom. Serei grata a você até o dia da minha morte. — Ela então tirou um embrulho do bolso do sinh: uma pulseira de prata grossa, gravada com vinhas delicadas. Não era luxuosa para o patrão, mas para um homem como Kamsan, devia ter custado meses de suor e privação. Era o símbolo do amor deles.

À noite, esperei até que o silêncio dominasse o alojamento. Sob a luz da lua, desci furtivamente até o píer. O ar estava congelante. Escondi-me entre os tufos de grama, esfregando as mãos para aquecê-las, observando o reflexo da lua crescente nas ondas.

Pensei no Ohm. Como ele reagiria? Ele choraria? No futuro, eu nunca o vi chorar. Uma parte de mim se perguntava se ver o sofrimento dele me traria algum alívio, mas meu coração apenas tremia de ansiedade. Finalmente, ouvi o som dos remos. Uma figura sombria surgiu no rio. Quando o barco encostou, o homem sinalizou com a lanterna, exatamente como da última vez.

Levantei-me devagar. — Ai... Ai-Kumsan.

Ele se sobressaltou. Ao ver que não era Fongkaew, preparou-se para fugir.

— Espere! Não quero fazer mal — eu disse rápido. — Fongkaew me pediu para encontrá-lo.

O nome dela o paralisou. Ele se virou, erguendo a lanterna para iluminar meu rosto. Suas sobrancelhas se juntaram em reconhecimento. — Você... é o que estava escondido nos caládios da outra vez.

— Sim. Ela me mandou no lugar dela. — Subi no cais. À luz da lanterna, vi o rosto dele com clareza. Era o Ohm. A pele era mais áspera, o corpo mais robusto pelo trabalho pesado, mas os olhos e o nariz reto eram os mesmos que amei em outra vida. Senti uma pontada de afeição que eu tentava, sem sucesso, matar.

— Quem é você? — ele perguntou, como um completo estranho.

— Meu nome é Jom. Sou um criado. Sou... amigo da Fongkaew.

— E por que ela...?

— Ela não vem — interrompi. O rosto dele empalideceu. — Ela está bem. O patrão gosta dela. Ela não quer mais ver você.

Ele endureceu, rosnando: — Eu não acredito em você!

— Se não acredita, veja isso. — Estendi a mão com a pulseira e a carta. — Ela pediu para devolver. Disse para você cortar os laços. Acabou.

Os olhos dele se arregalaram. Ele estendeu a mão trêmula para pegar os objetos, mas antes que pudesse tocá-los, um grito furioso rasgou a noite.

— E-Fongkaew! Sua maldita! Escondida para se encontrar com o amante!

Olhamos para trás. Fongkaew estava parada perto das árvores, longe do cais, com o rosto paralisado de choque. Atrás dela, uma das outras amantes do Sr. Robert pulava e gritava, apontando para nós com um prazer sádico. — Acordem! A Fongkaew quer fugir de novo!

Fongkaew gritou para o rio: — Ai-Kumsan, fuja! Vá agora!

Virei-me para o Ohm, mas ele já estava no barco, remando desesperadamente para a escuridão. No caos, vi algo que fez meu sangue gelar: a carta de Fongkaew escapara da minha mão e agora flutuava no rio, sendo levada pela correnteza até afundar. O único documento que provava que ela estava tentando terminar tudo desapareceu.

Dez minutos depois, fomos arrastados para a casa grande.

A mansão estava toda iluminada, apesar da meia-noite. O Sr. Robert tinha uma expressão sarcástica e cruel. A patroa Ueang Phueng estava ao lado dele, severa. Fui jogado ao chão, flanqueado por dois capangas, enquanto Fongkaew chorava, jurando inocência. Mas ninguém acreditava. As outras concubinas, devoradas pelo ciúme, assistiam de longe, saboreando a queda da favorita. O erro de Fongkaew fora a preocupação; ela saiu para vigiar o encontro, e esse gesto selou nosso destino.

— Eu percebi a Fongkaew se esgueirando com o Ai-Jom hoje cedo — começou a tagarelar On, uma das amantes que caíra em desgraça. Seus olhos brilhavam com a malícia de quem finalmente encontrou um alvo. — Fiquei de olho nela, pensando que os dois tinham um caso. Jamais imaginei que ela tentaria fugir com outro homem enquanto o Ai-Jom servia de vigia.

— Eu não estava vigiando nada! — protestei, mas minha voz soou pequena diante da acusação.

— Ah, não? — ela debochou. — E a recompensa que a E-Fongkaew te deu por ajudá-la?

Meu queixo caiu. Fongkaew balançou a cabeça em desespero, mas o estrago estava feito. O olhar do Sr. Robert sobre mim era gélido, uma sentença de morte silenciosa.

— Revistem-no — ordenou ele.

Não demorou nem trinta segundos. Enfiaram a mão no meu bolso e a pulseira de prata, o presente do Ohm, apareceu diante de todos. O Sr. Robert pegou o objeto. Fongkaew tremia tanto que mal conseguia parar em pé.

— O que é isso? Vai dizer que não é seu? — A voz do patrão era sinistra. — Eu vi você usando isso no dia em que seus pais a entregaram para mim.

Ele atirou a pulseira contra ela. Fongkaew gritou, encolhendo-se enquanto as lágrimas lavavam seu rosto.

— Não é o que o senhor está pensando! — gaguejei. — Eu não recebi suborno. Ela não estava traindo o senhor. Ela queria terminar tudo! Pediu para eu devolver a pulseira e uma carta explicando que nunca mais queria ver aquele homem!

— E onde está essa carta?

Fongkaew parou de soluçar por um segundo, olhando para mim com uma esperança desesperada. Engoli em seco, sentindo a garganta fechar.

— Eu... ela caiu no rio.

A paciência do Sr. Robert explodiu. Seu rosto ficou vermelho de fúria. Ele rugiu, assustando até os criados que observavam das sombras: — Maldito! Como ousa mentir na minha cara! Ai-Som, traga a vara de vime! Eu mesmo vou puni-lo!

O pânico me paralisou. Eu sabia que, embora a escravidão tivesse sido abolida no Reinado de Rama VII, punições físicas severas ainda eram praticadas por famílias poderosas para "dar lições". Quando vi a vara de um metro de comprimento nas mãos do capanga, meu corpo todo tremeu. Na segunda ou terceira chicotada, minha pele seria rasgada. Eu não sabia se sobreviveria.

Dois homens me forçaram contra o chão de madeira, prendendo meus braços e pernas. O Sr. Robert se aproximou, empunhando a vara. Fongkaew soluçava alto, entrando em colapso ao ver que eu seria castigado por culpa dela. De repente, a patroa Ueang Phueng, que assistia a tudo em silêncio, soltou um gemido de dor.

— Ah... Robert...

Ele parou no ato, virando-se para a esposa que segurava a barriga. — O que foi? O bebê vai nascer?

— Não... — ela ofegou, franzindo a testa. — Ele está chutando... chutando muito forte.

— Kumtib, leve-a para o quarto! — ordenou o patrão, preocupado. — Não deixe que ela presencie esta cena horrível.

Kumtib amparou a patroa, mas Ueang Phueng insistiu: — Senhor... como vai puni-lo?

— Vou dar dez chicotadas e expulsá-lo daqui!

— Senhor... existe uma crença antiga de que o pecado dos pais recai sobre os filhos — ela suplicou, com a voz fraca. — Eu lhe imploro... não manche o nascimento do nosso filho com sangue.

O Sr. Robert congelou. A vara de vime tremia em sua mão enquanto ele lutava contra a própria fúria. O silêncio na sala era ensurdecedor. Por fim, ele arremessou o bastão no chão com força; a madeira deslizou pelo assoalho até parar a centímetros do meu rosto.

— Saia da minha casa! — ele gritou, apontando para o portão. — E nunca mais deixe que sua sombra caia sobre as minhas terras!

Saí dali correndo, sem olhar para trás. Voltei ao alojamento para juntar minhas poucas coisas sob o olhar distante dos outros empregados. Ninguém queria se associar a um banido, exceto Ming.

— Eu não acredito naquelas mentiras da On — disse ele, ajudando-me a fechar minha trouxa. — Aquela mulher só fala bobagem.

Forcei um sorriso, grato por ter ao menos um amigo naquele tempo cruel. — Obrigado, Ming.

— Amanhã cedo eu remo o barco para você ir embora.

Preparei minha pequena muda de roupa e o pouco que possuía. Eu sairia antes do amanhecer para evitar o patrão. Mas, antes que eu pudesse cruzar a porta, um criado da casa grande apareceu às pressas.

— Ai-Jom, não vá agora. Espere o patrão sair e venha falar com a patroa — sussurrou o criado.

— O que está acontecendo?

— Não sei. Apenas faça o que ela mandou — respondeu ele, sumindo de vista.

Esperei até o final da manhã. Quando tive certeza de que o carro do Sr. Robert já havia partido, fui até a casa grande. A patroa Ueang Phueng me esperava, recostada em seu travesseiro triangular. Ela gesticulou para que eu me aproximasse.

— Leve isto com você. É tudo o que posso fazer para ajudar. — Ela se sentou com esforço e me entregou um pequeno embrulho de pano.

— Mas, patroa... — Kumtib tentou intervir.

— Economize o fôlego, Kumtib — cortou a patroa. — Não sei se tivemos alguma ligação em vidas passadas, mas eu gosto deste rapaz. Como posso deixá-lo partir assim, para morrer de fome? Tenho um bebê no ventre. Quer que eu carregue esse pecado comigo?

O palavreado direto dela silenciou a todos. Peguei o pano, sentindo o peso das moedas. Não seria uma fortuna, mas me manteria alimentado por um bom tempo.

— Pode ir agora. Não se preocupe com nada. A Mei aprenderá a tecer as carpas — disse ela, voltando a se deitar, exausta.

Olhei para ela com uma gratidão impossível de medir. Aquela gentileza no meu momento mais sombrio criou um vínculo invisível; senti que, de alguma forma, eu estava destinado a cuidar dela como um irmão em qualquer vida que viéssemos a partilhar.

Despedi-me apenas de Oui-Suya e Ming. Os outros me evitavam como se eu fosse contagioso. Suspirei, olhando pela última vez para a propriedade. Eu não tinha apego àquele lugar, mas sabia que nunca mais pisaria ali.

Recusei a oferta de Ming de me levar de barco. Despedi-me no portão, fingindo ter um rumo, embora estivesse completamente perdido. O destino acabara de me dar um chute para fora da casa do Sr. Robert e eu me perguntava se o universo se divertia com o meu sofrimento.

Arrastei-me pela estrada empoeirada em transe. Onde eu iria? Do outro lado do rio ficava o Mercado Warorot. Talvez eu pudesse trabalhar como carregador ou em um estábulo de elefantes. Droga... eu não sei montar elefantes e mal tenho músculos, pensei. O trabalho pesado me deixara mais firme, mas carregar sacos de arroz o dia todo parecia um suicídio.

Continuei caminhando sob o sol fraco até que o suor brotou na testa. Casas luxuosas e pomares passavam por mim. Meu estômago roncou, lembrando-me de que eu não comia nada desde cedo. De repente, uma carruagem passou voando, cobrindo-me de poeira.

— PARA ONDE DIABOS VOCÊ ESTÁ CORRENDO?! — gritei, exasperado, sabendo que ninguém ouviria.

Tropecei em uma pedra e caí direto em um arbusto espinhoso. Fiquei ali, jogado na terra, coberto de pó e frustrado demais para levantar. Comecei a me imaginar virando um sem-teto, com cabelos desgrenhados e roupas esfarrapadas, quando ouvi o som de outro motor.

"Ótimo! Pode jogar mais poeira!", pensei, pronto para aceitar meu novo título de mendigo da província. No entanto, o carro não passou. Ele diminuiu a velocidade e parou. O vidro desceu, revelando um rosto familiar.

— Jom? É você, Jom?

Pisquei, atordoado.

— Khun-Yai!

Levantei-me depressa, tentando limpar a sujeira e fazendo uma saudação atrapalhada.

— Para onde você vai com tantas coisas? Por que está sentado no chão? — perguntou ele, preocupado.

— Eu... — hesitei. Khun-Yai percebeu que algo estava errado e olhou para a trouxa de roupas na minha mão.

— Jom, venha aqui um minuto.

Atravessei a rua. Ele me mandou entrar no carro. Hesitei, com medo de sujar os bancos de luxo, mas ele insistiu para que eu sentasse ao seu lado.

— Então? Para onde você vai?

— Estou pensando em ir ao Mercado Warorot. Talvez consiga algum trabalho por lá.

— Entendo. Deve estar em alguma missão para o Sr. Robert.

— Não. Eu... não sirvo mais lá.

Khun-Yai franziu a testa, estudando meu rosto abatido.

— Diga-me. Qual o motivo de você ter saído?

Contei a verdade, omitindo os detalhes mais cruéis do Sr. Robert, mas revelando o essencial: tentei ajudar alguém de boa vontade, fui mal interpretado e, sem provas da minha inocência, fui expulso. Ele ouviu tudo em silêncio.

— Você está procurando emprego? — perguntou ele, após uma longa pausa.

— Sim — respondi, sem forças. — Qualquer coisa serve.

— Você não é exigente, é? — Um meio sorriso surgiu em seus lábios.

— Nem um pouco.

— Bom. Então venha comigo. Eu tenho um emprego para você.

— Onde? Quem é o patrão? O que ele faz... ah, não importa! Eu aceito!

Khun-Yai soltou uma risada divertida.

— Um emprego na casa de meu pai, Luang Thep Nititham.

Fiquei estático. O carro deu meia-volta e entramos por um portão monumental que eu havia passado minutos antes. Passamos por jardins impecáveis, bacias de porcelana com lótus e árvores frondosas. Tudo ali transbordava riqueza e bom gosto.

À medida que o carro fazia a curva e a mansão se revelava sob a sombra das árvores, meu coração parou. Meus olhos se arregalaram e minhas mãos ficaram geladas. Diante de mim estava uma majestosa construção de dois andares, em estilo Manila, com influências coloniais, arcos de estuque magníficos e um andar superior de teca legítima.

Era aquela casa.

A casa que eu estava reformando no futuro, antes de sofrer o acidente no Rio Ping. A casa que conhecia cada fresta, cada viga e cada segredo estrutural. Eu estava parado diante da "casa" que estava reformando em 2024, mas em sua glória original de 1928.

— Jom, o que houve? Por que está tão pálido? Está com medo? — perguntou Khun-Yai, tocando meu ombro. — Meu pai não é um homem assustador, eu prometo.

Virei-me para ele, mas minha voz simplesmente não saía. Eu não estava apenas em uma casa nova; eu estava no epicentro do meu próprio mistério.

Khun-Yai... Ele estava na foto antiga, naquela moldura que decorava a parede do quarto da casinha no futuro? Lembrei-me da imagem desbotada do dono deste lugar com seus três filhos no gramado. A foto, antes uma névoa em minha mente, agora era vívida e colorida diante dos meus olhos.

Nunca me ocorrera que fosse a mesma casa. No futuro, a parte de trás estava arruinada, transformada em uma sala de tijolos e concreto; aqui, a varanda de madeira estampada brilhava sob o sol. Eu estava atordoado. Deixei-me afogar em pensamentos, vagando por tudo o que vivi entre o passado e o futuro, até que notei Nai-Jun descendo as escadas e marchando em minha direção.

— Nai-Jom, o Khun-Yai solicita sua presença lá em cima. Ele quer que você conheça a mãe dele.

O nervosismo me atingiu em cheio.

— A mãe dele?

— Sim. O nome dela é Khun-Kae.

Apertei as mãos, tentando conter o tremor. Lembrei-me das pesquisas que fiz antes de vir para Chiang Mai: o ancestral deste lugar era um Phraya. Isso significava que Luang Thep seria promovido e Khun-Kae seria chamada de Lady Kae no futuro. Eu estava prestes a conhecer uma lenda.

Subi as escadas seguindo Nai-Jun. A varanda era ampla, decorada com vasos de flores e um beiral esculpido que parecia renda. O ar estava fresco, impregnado com o perfume do jasmim. No foyer, o piso de madeira polida brilhava tanto que refletia a luz das persianas abertas.

Khun-Kae estava na sala, cercada por criadas que costuravam folhas de bananeira e trançavam guirlandas. Ela era uma mulher de meia-idade, com um rosto afilado e bonito. Suas maneiras eram dignas, mas seus olhos... eram penetrantes como os de um falcão. Khun-Yai estava sentado ao lado dela, mais reservado do que nunca.

Apoiei-me no chão em sinal de respeito.

— É este o servo Nai-Jom de quem você falou, Poh-Yai? — perguntou ela. — Levante o queixo, rapaz.

Eu o fiz. Ela me estudou com pupilas escuras e brilhantes, idênticas às do filho. — Pele limpa e impecável. No entanto, você não parece ser daqui. Sua família não é do norte?

— Meu pai é chinês. Minha mãe é tailandesa de Bangkok — respondi.

— Você fala o dialeto central fluentemente. É alfabetizado?

— Sim, senhora.

Ela cantarolou, satisfeita, e voltou-se para Khun-Yai:

— Você realmente quer que ele o ajude aqui?

— Sim, mãe, se me permitir. Papai tem estado muito ocupado e o Nai-Jun precisa auxiliá-lo o tempo todo. Se o Nai-Jom puder fazer meus recados, aliviará o fardo.

Entendi então: Nai-Jun era o mordomo da casa, o homem de confiança do patrão. Khun-Kae ponderou por um momento antes de cravar os olhos em mim novamente:

— Diga-me. Você brincou de casamenteiro e foi subornado para ajudar uma mulher a cometer adultério?

— Isso não é verdade — neguei com humildade, mas firmeza. — O Sr. Robert entendeu mal. Eu me encontrei com aquele homem para entregar uma carta de Fongkaew, onde ela cortava relações com ele para sempre. A carta caiu no rio e perdi minha prova. A pulseira que encontraram era para ser devolvida, não um suborno.

— Por que você a ajudou?

— Senti pena dela. Ela tem uma irmã mais nova e jamais cometeria um erro que colocasse sua família em perigo. Fongkaew é uma boa moça. Eu não pude deixar de simpatizar.

Khun-Kae estreitou os olhos, tentando ler qualquer mentira em meu rosto. Mas eu não tinha nada a esconder. Cada palavra era a mais pura verdade.

— E então, eles te expulsaram?

— Sim.

O silêncio que se seguiu fez meu coração bater contra as costelas. Encarei as tábuas do assoalho, sem ousar respirar. Finalmente, ela falou:

— Sabe o que me convenceu a acreditar em você? Além da garantia de Poh-Yai de que você é inocente e não é ganancioso — afinal, você devolveu o relógio caro dele —, você foi cuidadoso com as palavras. Não difamou seu ex-chefe nem sabotou a mulher. O mal possui um viés egoísta, mas você não.

Ela soltou um suspiro suave e sua voz amoleceu: — A velha crença diz que cães e gatos vadios que entram em casa devem ser adotados. Como eu poderia expulsar um humano? Fique aqui. Mas não ouse frequentar casas de jogo ou fumar ópio. Os Luang não toleram isso.

— Eu nunca farei isso! — prometi, inclinando-me até o chão.

— Nai-Jun, peça para limparem o quarto na casinha — ordenou ela. — Ele residirá lá a partir desta noite.

Fiquei surpreso. Por que o chalé e não o alojamento dos criados?

— Poh-Yai, você se mudará para o chalé amanhã? — perguntou ela ao filho. — Sim, mãe. Lá poderei me concentrar melhor em meus estudos.

— Ah... vejo que não quer que o seu irmão Lek o incomode — ela sorriu levemente. — Tudo bem. Não temos convidados mesmo. Você irá para a Europa em alguns meses, então deve se focar. Vou pedir que transfiram seus pertences para lá amanhã cedo.

— Obrigado, mãe. — Khun-Yai inclinou-se no colo dela, e ela acariciou carinhosamente os cabelos de seu filho mais velho.

Eu mal podia acreditar. Eu não seria apenas um servo; eu moraria na mesma casinha onde, no futuro, eu dormiria e sonharia com ele. E o mais impactante: eu estaria ao seu lado em seus últimos meses antes de ele partir para a Europa.

Após a audiência, segui Nai-Jun para fora da casa grande até ser apresentado à Mae Erb, a serva veterana que cuidava de Khun-Kae desde a infância. Gordinha, na casa dos cinquenta anos e com a boca tingida pelo vermelho das nozes de betel, ela exalava autoridade.

— Erb, este é o Nai-Jom. Ele servirá o Khun-Yai no chalé — anunciou Nai-Jun. — Treine-o bem. Ele aprende rápido.

Mae Erb mediu-me de cima a baixo, cuspiu o suco de betel na escarradeira e sentenciou:

— Tem o rosto branco como um ovo cozido. Deve ser filho de chinês mesmo.

Fiquei sob a tutela de Erb, que era a "general" das tarefas domésticas. Minha nova missão era clara: garantir o conforto absoluto de Khun-Yai. Eu levaria suas refeições, cuidaria de suas necessidades diárias e faria seus recados. Erb foi enfática: eu não deveria pisar na casa grande sem ser chamado. Aquele era o santuário de Luang, Khun-Kae e dos irmãos mais novos, Khun-Prim e Khun-Lek. Servos homens tinham seu lugar, e não era lá.

Segui duas empregadas até a casinha para a limpeza e meu coração quase saltou do peito. Aquele chalé... a construção que me fascinava desde antes da minha viagem no tempo.

Ao longe, vi a madeira escura e nova, as telhas impecáveis, sem qualquer sinal do buraco causado pelo galho gigante que eu tanto temia em 2026. As escadas laterais levavam à varanda em "U" que eu conhecia como a palma da minha mão. A planta da casa estava gravada em meu cérebro de arquiteto: o corredor central, o quarto principal de Khun-Yai e a sala menor, que agora seria o meu refúgio para que eu pudesse servi-lo a qualquer hora.

Enquanto as criadas limpavam o andar de baixo, entrei no meu pequeno quarto. Coloquei minhas coisas no armário de madeira e sentei-me no chão de tábuas diante da janela aberta. A sensação de paz era estranha, quase mágica. Minha sorte dera uma guinada dramática: de criador de porcos a mordomo pessoal do filho de um nobre. Eu subira de cargo tão rápido que a aterrissagem quase quebrara minhas pernas.

Estava tão absorto em minha própria sorte que não percebi a figura na porta.

— Como está? Está confortável aqui?

Assustei-me, mas sorri ao ver que era o Khun-Yai. Ele observava a sala com as mãos para trás, com um ar pensativo.

— Muito confortável, Khun-Yai — respondi. — Obrigado por sua imensa gentileza. Sem o senhor, eu não teria para onde ir.

— Está satisfeito? — Mais do que satisfeito. — Meu sorriso era tão largo que chegava a doer.

Tudo era perfeito. Além de ninguém me desprezar ali, eu recebi a honra de viver na casa que eu mesmo restauraria cem anos no futuro. Aquele lugar era a ponte real entre os meus dois mundos, e saber disso aquecia minha alma.

— Eu também estou — disse Khun-Yai, cruzando a soleira e entrando no meu quarto.

Ele fixou o olhar em mim por um breve segundo. Então, seus lábios se abriram em um sorriso brilhante e travesso, uma expressão de pura dissimulação brincalhona — algo que ele jamais mostraria na frente de sua mãe ou de outros servos.

— Agora vivemos sob o mesmo teto, Poh-Jom.

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