Eu conheço Kátia desde antes de saber o que era desejar uma mulher. Ela morava duas casas depois da minha, numa casa baixa, pintada de azul desbotado, telhas de barro, com uma mangueira no quintal que nunca dava sombra suficiente. A gente cresceu junto, dividindo rua empoeirada e uma amizade inocente, que logo virou uma paixão ardente, pelo menos da minha parte. Quando ela passou em odontologia, a cidade inteira comemorou como se fosse um milagre particular, desses que confirmam que Deus ainda olha para cá.
Foi em Teresina que eu a vi de outro jeito. Eu tinha ido resolver umas pendências do trabalho quando reconheci o jeito de andar, o cabelo loiro preso num rabo de cavalo. Ela não me viu. Estava parada na frente de um bar, usando um vestido que não deixava muita coisa escondida, salto vermelho, maquiagem pesada demais para aquela hora do dia. Eu ainda pensei em me aproximar para cumprimentá-la, mas não precisei perguntar nada, nem seguir muito. A resposta veio sozinha quando um carro com dois homens parou perto dela.
“Atende nos dois, princesa?”
Ela sorriu como quem já tinha ensaiado aquele sorriso e respondeu sem hesitar: “Dinheiro na mão, calcinha no chão, bebês.”
Voltei para São Miguel carregando um segredo que não era meu, mas que passou a pesar como se fosse. Nos fins de semana, ela continuava chegando de ônibus, beijando a mãe no rosto, sentando na calçada no fim da tarde, falando da faculdade com aquele cuidado de quem escolhe palavras como quem pisa em gelo fino. E eu ali, fingindo normalidade, lutando contra a vontade de protegê-la de um mundo que ela já conhecia melhor do que eu.
Eu a amava, disso nunca tive dúvida. Mas amar alguém sabendo o que ninguém mais sabe é diferente. É um amor que não recebe nada, só aguenta. Nunca me aproximei, nunca toquei no assunto, nunca deixei escapar um olhar torto sequer. Não por moral, mas por medo de quebrar o pouco que ainda parecia inteiro da relação que eu tinha com ela.
Passados alguns meses, ela começou a vir com menos frequência. “A faculdade toma muito tempo”, dizia a mãe. “Principalmente agora que já está no segundo semestre.”
E quando vinha, estava diferente. Olhos fundos, olheiras profundas, o corpo magro demais, gasto. Mas nada disso diminuía o que eu sentia.
Numa dessas vezes, fui falar com ela.
— Oi, Ka… você tá bem? Parece cansada.
— Ai, Fe, eu não tô bem não, mas não quero te incomodar com meus problemas. Vamos só curtir o fim de semana… enquanto eu ainda posso.
Disse que ela não precisava me esconder nada, que a conhecia desde sempre, que não queria pressionar, mas que, se um dia quisesse desabafar, eu estaria ali. Nada mais foi dito. Ela contou para a cidade o que a cidade precisava ouvir, e seguimos com a vida.
As visitas semanais viraram quinzenais, depois mensais, até ficarem tão esporádicas que até os pais pararam de esperar. Quando ela devia estar terminando o terceiro período, apareceu de repente no bairro. Tão magra que parecia prestes a desmaiar. Usava roupas largas demais, como se tentasse desaparecer dentro delas.
Quando fui abraçá-la, percebi duas coisas de imediato. Primeiro, o cheiro, um cheiro de abandono, como se estivesse sem tomar banho havia dias. Depois, o volume no abdômen, a única parte do corpo que não estava esquelética.
Os pais disseram que ela estava doente, por isso tinha trancado a faculdade. Mas São Miguel fez o que sempre faz: cochichou. O pai ficou mais quieto, a mãe mais devota, e Kátia, menor a cada dia. A faculdade virou lembrança, o futuro uma coisa que ninguém ousava nomear. não havia explicação que satisfizesse as fofocas naquela cidade.
Eu passei dias observando aquela casa. O portão sempre fechado, as janelas mais tempo cerradas, a mãe rezando em voz alta como se oração pudesse tapar buraco. Kátia quase não saía. Quando saía, era de cabeça baixa, como quem pede desculpa por existir.
Foi numa tarde abafada, sentados na calçada, que tudo ficou claro pra mim. Ela falava pouco, a mão pousada sobre a barriga num gesto automático, cansado. Não chorava mais. E aquilo me assustou mais do que qualquer lágrima. Era como se já tivesse aceitado todas as perdas possíveis.
Fe, eu não sei o que fazer com minha vida, mas não quero a mesma dor pra esse bebê na minha barriga. Acho que você já percebeu qual é a minha “doença”, né.
Fez aspas com os dedos, sem força.
Perguntei se o pai era um dos clientes. Ela me olhou surpresa.
Você sabia?
Disse que sim, que já fazia um tempo.
Não foi cliente. Esse foi o problema. Foi o dono da casa onde eu trabalhava. A voz falhou. Quando eu ameacei pedir pensão, ele me trancou num galpão. Disse que ia deixar eu e a criança morrer de fome. Eu fugi depois de dias presa.
As lágrimas vieram sem controle. Ela contou que não disse nada aos pais, que o pai achava que ela simplesmente não sabia quem era o pai da criança, que já tinha mandado ela procurar outro lugar pra morar, pois não iria sustentar uma filha vagabunda e desonrada. A mãe só se preocupava com o que diriam na igreja se a comunidade soubesse. Quando ela parou de falar, o silêncio pesou mais do que qualquer confissão.
Eu entendi, ali, que meu amor nunca teve a ver com ser correspondido. Tinha a ver com não deixá-la sozinha naquele lugar que só sabe punir. Entendi que, se eu não fizesse nada, a cidade de São Miguel faria o que sempre fez: esmagaria em silêncio.
Não disse que assumiria. Não levantei a voz, não fiz promessa bonita. Só a beijei, simples, como quem aceita um destino. eu seria o pai ela não precisaria explicar nada. Ninguém a expulsaria daquela casa.
Ela me olhou demoradamente, como se procurasse em mim alguma sombra de arrependimento futuro, algum cálculo, alguma exigência escondida. Não encontrou. Os olhos dela encheram d’água, mas não caiu lágrima nenhuma.
Levei Kátia para dentro da minha casa ao anoitecer, quando São Miguel silenciava sob um céu de estrelas frouxas, conduzindo-a como uma rainha aos seus aposentos. A penumbra da sala nos envolveu, só o luar filtrando pela janela entreaberta iluminando sua pele pálida e frágil. Ela tremia de fraqueza, o corpo magro demais, mas eu a segurei com delicadeza, beijando devagar a boca salgada, as mãos traçando curvas suaves enquanto tirava as roupas largas dela, camada por camada, como quem desembrulha um tesouro precioso.Meu pau endureceu latejando contra a calça, mas eu me controlei, deitando-a na cama com cuidado infinito, apoiando travesseiros sob a barriga arredondada — aquele volume vivo que me preocupava tanto, pulsando com a vida que eu jurara proteger. "Vai devagar, Fe... tô tão fraca", ela murmurou, os olhos fundos brilhando na meia-luz, e eu obedeci, despindo-me devagar, roçando a glande inchada e veiuda na pele macia da coxa dela, sentindo o calor úmido que emanava dali. Beijei cada centímetro exposto — pescoço, seios fartos apesar da magreza, a curva protetora da barriga —, a língua traçando círculos lentos nos mamilos endurecidos, chupando com suavidade até ela arquear gemendo baixo.Ela abriu as pernas devagar, convidando, e eu me posicionei com ternura, o pau grosso deslizando centímetro por centímetro na buceta dela — encharcada, lábios carnudos se abrindo como pétalas molhadas, quente e escorregadia de um desejo antigo. Entrei fundo, mas com ritmo gentil, protegendo a barriga com uma mão enquanto os quadris ondulavam em estocadas profundas e ritmadas, o pau roçando o colo do útero num vaivém que a fazia ofegar. "Meu amor... assim, devagar, me sente inteira", ela sussurrou, as unhas traçando linhas leves nas minhas costas, os gemidos se misturando ao ranger suave da cama.Virei-a de lado com cuidado, abraçando-a por trás como colher, uma mão sempre na barriga para amparar, e voltei a penetrá-la assim — lento, visceral, sentindo as paredes dela pulsarem ao redor do meu pau, apertando com amor, o mel grosso dela escorrendo pelas minhas bolas enquanto eu acelerava só o suficiente pra nos levar ao limite. Ela gozou primeiro, o corpo frágil convulsionando em ondas suaves, a buceta contraindo em espasmos quentes que me sugaram, jorrando um squirt morno que umedeceu nossas peles unidas. Eu a segui logo depois, gozando com um gemido rouco, jatos espessos e quentes enchendo-a até transbordar, o sêmen escorrendo lento entre as coxas enquanto nos fundíamos na penumbra, corações batendo como um só.Ofegantes, entrelaçados sob o luar, ela virou o rosto pra mim, os olhos cheios de uma luz nova, e sussurrou contra meus lábios: "Eu posso já ter feito sexo com mil homens, mas essa foi a primeira vez que eu fiz amor."