A saga do Jom | 8º capítulo

Um conto erótico de Sarawat
Categoria: Gay
Contém 3342 palavras
Data: 11/01/2026 10:41:33
Última revisão: 25/01/2026 11:09:49

Fiquei olhando para ele sem piscar, tentando processar a frase "viver sob o mesmo teto". Khun-Yai, mantendo a compostura, passou por mim e caminhou até a janela.

— Veja, seu quarto tem vista para aquela Flamboyant — disse ele, apontando para a árvore Royal Poinciana. — A cor das flores é linda, mas os galhos são quebradiços. Um deles caiu na última chuva; era enorme, os criados ficaram em choque. Felizmente, ninguém se machucou.

— Foi sério? — murmurei, sem sequer olhar para a janela. Meus olhos continuavam fixos no rosto dele, tentando decifrar se ele estava brincando comigo.

Khun-Yai se virou. A expressão travessa de segundos atrás desapareceu, dando lugar à sua costumeira aura de calma e elegância.

— Você consegue dormir sozinho aqui esta noite? Imagino que não tenha medo de fantasmas, certo?

Senti o sangue gelar e meus olhos se arregalaram. Olhei ao redor, paranoico. A casa era nova, não deveria ter histórias macabras... mas o silêncio de um chalé antigo, isolado do resto da propriedade, é terreno fértil para a imaginação. No escuro, cada estalo da madeira parece um passo.

— Esta casa... é feita de madeira nova, não é? — Minha voz baixou automaticamente para um sussurro. Não se fala de espíritos em voz alta. — Não usaram madeira de demolição de outras casas velhas, certo?

Esperei desesperadamente por um "não". Em vez disso, ele perguntou com suavidade:

— Está com medo?

— É claro que estou! — deixei escapar.

— Não tenha medo — disse ele, simplesmente, e saiu da sala.

Fiquei de boca aberta, observando suas pernas longas cruzarem a porta. Saí do quarto de joelhos, rastejando na velocidade de uma corrida para alcançá-lo no corredor.

— Khun-Yai, espere! Qual é a história assustadora desta casa? Conta!

Ele parou com as mãos atrás das costas e virou a cabeça, calmo como um lago.

— Que tipo de história haveria, Poh-Jom? Você se assusta como uma criança. Além do mais, eu me mudo para cá amanhã, então você só terá que sobreviver a uma noite sozinho.

Fiquei estático, vendo-o descer as escadas. Ele soltara uma bomba e saíra andando! O que eu faria naquela noite? Me esconderia debaixo do cobertor? As vigas do telhado eram totalmente expostas; nos filmes tailandeses, é exatamente ali que os fantasmas ficam pendurados, olhando para baixo.

À tarde, aproveitei que estávamos transportando os pertences do Khun-Yai para tentar tirar a limpo essa história com o Nai-Jun.

— Nai-Jun, a casinha foi construída do zero? — perguntei, tentando parecer casual.

— Sim. Quando o Luang se mudou para cá, construiu a casa grande primeiro e depois esta para os convidados.

— E usaram madeira de outras casas antigas?

— Não. Por que a pergunta?

— Ah... é que a arquitetura Lanna é tão impressionante que pensei que fosse algo histórico — menti descaradamente.

— O patrão contratou o melhor empreiteiro do norte. Pode ficar tranquilo.

Sorri e voltei ao trabalho. Khun-Yai, seu engraçadinho... você se divertiu me assustando, não foi? Nada engraçado.

Ao final do dia, conheci finalmente o dono da propriedade, Luang Thep Nititham. Ele exalava nobreza: camisa raj, tanga roxa, meias brancas e sapatos de couro impecáveis. Ajoelhei-me na escada da casa grande assim que ele desceu do carro, acompanhado por Nai-Jun, que carregava sua pasta de documentos.

— Quem é você? Não conheço seu rosto — disse o Luang. Sua voz era profunda e autoritária, mas sem arrogância.

— Meu nome é Jom, senhor — respondi, tentando usar o tom mais respeitoso que consegui lembrar.

— O Khun-Kae o contratou hoje para servir o Khun-Yai, senhor — acrescentou Nai-Jun, humildemente.

O patrão apenas murmurou um som de aprovação na garganta e entrou em casa. Assim que ele sumiu, perguntei preocupado à Mae Erb:

— Ele vai me interrogar como a patroa fez?

— Os homens cuidam do que está fora de casa, as mulheres cuidam do que está dentro — explicou ela. — Se a Khun-Kae aprovou, o patrão não se importará, a menos que você cause problemas sérios. Mas por que o medo? Está com receio de ser expulso?

Apenas dei um sorriso tímido. Eu não tinha outro lugar no mundo para ir; o medo era meu companheiro constante.

No dia seguinte, o chalé estava impecável. A sala de estudos ganhou uma mesa baixa de laca preta adornada com madrepérola e armários repletos de livros em várias línguas. O quarto do Khun-Yai parecia saído de um sonho: uma cama alta de dossel com cortinas brancas presas por anéis de latão. O cheiro de água perfumada no colchão era um convite ao sono. Perto da janela, uma mesa de pernas curvas esculpidas completava o cenário.

A criada Kesorn me ensinou a organizar o guarda-roupa — camisas, calças e pijamas em pilhas separadas — e me deu as instruções básicas: eu cuidaria de tudo o que ele precisasse ao acordar, banhar-se e comer. Eu era sua sombra.

Não vi o Khun-Yai durante toda a manhã. Kesorn disse que ele tomara café na casa grande e fora estudar com um professor estrangeiro que vinha quase todos os dias.

Passei o tempo ajudando em tarefas triviais, mas não conseguia evitar esticar o pescoço de vez em quando para ver se ele estava voltando. Imaginava-o sentado de forma impecável, concentrado nos livros, e essa imagem, por algum motivo, não parava de trazer um sorriso bobo ao meu rosto.

Hoje, fiz minha refeição na cozinha com os outros empregados. É fácil me misturar, pois a maioria fala o dialeto central, mas basta eu soltar uma expressão do meu tempo para que todos caiam na risada. Eu não me importo; rimos juntos quando eles usam termos antigos como "a-pern" para maçã ou xingamentos pitorescos como "sua cara de ferradura". O tempo passou voando entre risadas e histórias.

Quando retornei ao chalé no final da tarde, Khun-Yai já estava lá. Sentado à mesa de laca preta no corredor, ele escrevia com uma caneta-tinteiro em um papel, resumindo um texto em inglês. Aproximei-me com cuidado.

— Desculpe pelo atraso, Khun-Yai. Eu estava almoçando na cozinha.

Ele ergueu os olhos e me ofereceu um sorriso compreensivo. — Tudo bem, Poh-Jom. Acabei de chegar.

— Gostaria de um lanche?

— Agora não.

Como ele parecia concentrado, sentei-me em silêncio por perto. Fiquei divagando sobre as funções de um mordomo. Estava frio, então não precisava abanar. Tudo estava em ordem. Deveria oferecer uma massagem? Nos ombros, no pescoço ou nos pés? Mas e se eu apertasse um ponto errado, ele tivesse um espasmo e eu acabasse, por acidente, derrubando-o? Antes que minha imaginação fosse longe demais, ele me despertou.

— Dormiu bem esta noite?

A pergunta me lembrou da provocação de ontem. — Quase não vi o amanhecer de tanto medo que tive de fantasmas — respondi com uma ponta de exasperação.

Um sorriso escapou dos lábios dele antes que voltasse a focar no livro. Revirei os olhos em segredo. Ele era meu chefe, mas às vezes parecia uma criança travessa. Após um tempo, ele fechou o livro.

— Vou para o pavilhão da orla. Por favor, traga os lanches para lá.

Fui até a cozinha preparar tudo. Lá, o cozinheiro Pun me entregou duas iguarias: doce de palmira (palmito) em calda e algo que eu não reconheci de imediato — massas redondas grelhadas com manteiga, servidas com um pequeno pote de curry.

— É ludti (roti). Não conhece? — explicou Pun.

Lembrei-me na hora. O famoso ludti mencionado nos livros de receitas imperiais que estudei no ensino médio!

— É a primeira vez que vejo ao vivo — admiti.

— Sirva-os logo. E não esqueça a jarra de água da chuva com infusão de jasmim. Khun-Yai não abre mão disso.

Carreguei a bandeja até o gramado. O sol já estava se pondo e uma brisa fresca soprava. Khun-Yai não estava sentado; ele admirava os vasos de plantas anãs e as tigelas de lótus. Arrumei a mesa de forma tão artística que, se eu tivesse meu celular, postaria no Instagram na mesma hora. Ele trouxera consigo o clássico Khun Chang Khun Phaen.

Aproximei-me dele no jardim. — O lanche está servido, Khun-Yai.

— Hum — ele anuiu, os olhos fixos em uma árvore de ébano.

Observei seu perfil. De perto, sua beleza era única. A pele clara contrastava com traços tailandeses nítidos. Os olhos eram longos, como se desenhados por um pincel, e os lábios... tinham um arco de cupido tão perfeito que pareciam feitos para serem beijados. Notei duas pequenas verrugas perto de sua mandíbula que o tornavam ainda mais hipnotizante.

— Você está olhando para mim?

A voz dele me deu um sobressalto. — Uh... eu? Não! Quer dizer... eu só ia perguntar se não está com fome.

Khun-Yai sustentou o olhar por um segundo, testando minha mentira. Por fim, cedeu: — Vamos.

O vento frio soprou, espalhando o perfume das flores de Lantom (plumeria). Pétalas de marfim dançavam no ar e caíam sobre o gramado. Abaixei-me para recolher as que estavam no caminho. Quando me levantei, Khun-Yai estava parado bem à minha frente.

Seu olhar mudou. Havia um brilho doce e uma ternura inesperada em seus olhos escuros.

— Tem uma Lantom no seu cabelo.

Ele se aproximou tanto que o ar me faltou. Senti o calor de sua mão roçar meu rosto enquanto ele deslizava os dedos por trás da minha orelha para retirar a pétala. O toque foi leve, mas causou um formigamento que percorreu todo o meu corpo. Prendi a respiração quando ele levou a flor ao próprio rosto e pressionou o nariz contra as pétalas de marfim, fechando os olhos por um breve instante. Quando os abriu, seus cílios longos emolduravam um olhar que parecia me queimar.

— Hum... o perfume é delicioso.

Fiquei em transe. Ele estava flertando ou eu estava imaginando coisas? Seria apenas o jeito dele de ser encantador? Antes que eu pudesse entender, ele girou a flor entre os dedos e caminhou calmamente para o pavilhão.

Recuperei-me e o segui. — Tem palmito em calda e o ludti — anunciei, tentando retomar o profissionalismo enquanto tirava a tampa da tigela. — Um prato digno dos escritos do Rei.

Khun-Yai arqueou as sobrancelhas, surpreso. — Você já leu os escritos reais?

Merda. Eu tinha citado um verso de uma receita clássica sem pensar. Culpa da flor de Lantom que me deixou abobado.

— Ah... eu li um pouco — inventei depressa. — Eu estudava em um templo e os missionários me ensinaram algumas coisas, inclusive inglês.

Eu precisava de uma desculpa para qualquer deslize futuro. Khun-Yai não fez mais perguntas. Ele apenas me encarou fixamente e, em seguida, deslizou o livro de Khun Chang Khun Phaen em minha direção.

— Já que é tão instruído, poderia ler para mim enquanto eu como?

— Huh...? Ah, o senhor está lendo isto? — Olhei para o volume grosso de O Conto de Khun Chang Khun Phaen.

— Sim. Eu li muito hoje; será bom se alguém ler para mim agora.

Para ser sincero, senti que Khun-Yai estava me testando, mas não me importei. Não ia fingir gaguejar; tenho meu orgulho e, para mim, fingir ignorância é intolerável. Se eu não conseguisse ler bem aquelas palavras, sentiria que cada centavo que meus pais investiram na minha educação teria sido em vão.

— Claro — concordei, pegando o livro. — Por onde devo começar? Em que capítulo o senhor parou?

— Capítulo seis. Onde Plai Kaew entra no quarto de Saithong.

Folheei as páginas até encontrar o trecho. Aquela era a edição clássica da Biblioteca Nacional. Limpei a garganta e comecei a entoar os versos que narravam a ansiedade de Khun Chang por Nang Pim.

Todos conhecemos a história e seu final trágico. Eu já tinha estudado alguns capítulos na escola, mas este, especificamente, não estava no livro didático. Provavelmente por ser... bem, digamos, uma cena de natureza sexual.

À medida que prosseguia, a leitura se tornava fascinante. Os autores antigos eram magníficos; suas palavras eram poderosas, sentimentais e profundamente rítmicas. Fiquei completamente absorto quando cheguei à parte em que Nang Pim insulta Khun Chang, percebendo que ele estava bajulando a mãe dela para conseguir sua mão em casamento.

Paquera impertinente, licenciosa e careca, Seduzindo cães com sua bainha arrastando na terra. Pó perfumado e óleo manchado de forma vil, Cabelo espetado como lábios em um sorriso hostil. Vale menos que uma moeda, por que não cai morto? Uma cara como a sua querendo casamento e conforto? Você é como uma manga caída, podre e sem valor, Que só um cachorro traria para casa com algum favor.

Que pesado! Se uma mulher me chamasse de "manga caída que só um cachorro traria", eu ficaria sem fala por um mês. Não importa a época, os insultos femininos perfuram como facas.

Senti pena de Khun Chang e diversão ao mesmo tempo, mergulhando na história. Eu não fazia ideia da expressão que estava fazendo até que a voz de Khun-Yai me despertou:

— Você está cansado, Jom?

— Não, não estou — respondi, fechando o livro levemente.

— Você está carrancudo.

— Ah, sério? — Esfreguei a testa. — É que eu me envolvi demais. A história é irritante.

— De que parte você não gosta?

— É o Plai Kaew. Aquele homem é... horrível! Como ele pode se esgueirar para dormir com a empregada logo após flertar com a Nang Pim? A moça nem consente, e ele ainda usa um feitiço para dobrar a vontade dela!

Quase soltei um palavrão moderno, mas me contive. Minha indignação, porém, era genuína.

— Você despreza homens desleais? — perguntou ele, observando-me com intensidade.

— Eu os odeio — afirmei com firmeza. — Traidores são o que há de pior.

Lembrei-me subitamente de que, em 1928, a luta pela lei da monogamia estava apenas começando. A poligamia ainda era a norma para a elite. Se eu não tomasse cuidado, minhas opiniões poderiam ofender o pai dele, caso ele tivesse concubinas.

— Bem... eu sei que ter várias mulheres é considerado normal para muitas famílias hoje em dia — tentei suavizar. — Mas sinto muito por elas.

— Você fala como se fosse de uma era diferente — observou Khun-Yai, com um meio sorriso enigmático.

Congelei. O pânico subiu pela minha espinha. Eu estava tão focado na moralidade que esqueci de vigiar meu disfarce. — É apenas... um modo de dizer. Devo continuar a leitura?

— Por hoje é o suficiente.

Soltei um suspiro de alívio. Khun-Yai era esperto demais; eu não podia baixar a guarda por um segundo sequer.

Ele tomou um gole da água com infusão de jasmim em seu copo de cristal esculpido. Ver sua expressão relaxada e revigorada era quase hipnotizante. Ele ficava tão adorável quando estava distraído.

— O senhor gosta mesmo de água de jasmim, não é? Mais do que da água comum.

— Hum — ele sorriu. — É mais refrescante, o perfume acalma a alma.

— Prometo prepará-la todos os dias, sem falta — eu disse, sentindo uma satisfação estranha em agradá-lo.

À noite, quando o Luang retornou do trabalho, Khun-Yai foi para a casa grande para o jantar. Entendi a rotina: ele fazia as principais refeições com a família, e eu o serviria apenas no almoço aqui no chalé.

Aproveitei o tempo para preparar o quarto dele. Arrumei os pijamas que exalavam aquele perfume delicado de flores e verifiquei as cortinas do dossel. Eu queria que tudo estivesse perfeito. Afinal, aquela era a nossa primeira noite oficial sob o mesmo teto, e eu queria provar que era o melhor mordomo — e companhia — que ele poderia ter.

— Você fez bem — disse Khun-Yai.

Sua resposta me trouxe um alívio imediato. Mesmo sendo novo naquilo, eu daria o meu melhor.

— O senhor mudou de casa, está em um lugar novo. Acha que terá problemas para dormir? — perguntei, fechando a janela do quarto dele. O ar noturno estava fresco, mas a temperatura cairia drasticamente; logo o frio seria tanto que um segundo cobertor seria necessário.

— Se eu não conseguir dormir... o que você faria? — ele perguntou, com um tom baixo e curioso. — Mmm?

Olhei para ele, perplexo. Eu precisava fazer algo? Aparentemente sim, pois ele me encarava, aguardando. Nunca imaginei que as funções de um mordomo fossem tão... abrangentes.

— Que tal contar ovelhas? — sugeri. — Elas pulam a cerca uma a uma. Uma, duas, três...

— Isso dá sono?

— Não. Para mim, deu um tédio tão grande que fiquei bravo. Abri a cerca para todas quando cheguei no vinte.

— Então... o quê?

Pensei por um momento, buscando memórias de infância.

— Que tal coçar as costas? É o que fazem para acalmar bebês. Você continua coçando de leve e eles logo partem para a terra dos sonhos.

— Hum — Khun-Yai assentiu, com um brilho divertido nos olhos. — Então, se você não conseguir dormir, eu devo coçar as suas costas?

Fiquei sem palavras, sentindo meu rosto esquentar. Ele soltou uma risada suave e graciosa.

— Não importa. Você deve estar exausto, trabalhou desde cedo. Durma bem esta noite, Poh-Jom. Não há necessidade de coçar minhas costas.

Fui para o meu quarto, ainda processando aquela interação. Ele estava brincando ou falando sério? Ninguém gosta de coçar as costas de outra pessoa, é cansativo! Mas então, a imagem das flores de Lantom no gramado e o jeito que ele me olhou voltaram a passar em looping na minha mente.

Será que ele gosta de homens?

Afastei o pensamento. Só porque eu estava fragilizado e carente após o término em Bangkok, não significava que todo homem que me tratasse com gentileza estivesse apaixonado por mim. Seria patético pensar assim.

O dia seguinte transcorreu em uma rotina impecável. Preparei a bacia de cerâmica para ele lavar o rosto e a jarra de água da chuva com jasmim fresco. A cozinheira fora enfática: o jasmim não podia ficar na água por mais de seis horas, ou o frescor daria lugar ao amargor. Servi o almoço em cerâmicas premium com detalhes em ouro — sopa, refogado, salada picante e sobremesa. Estranhamente, eu me sentia em paz. Feliz, até. Mas nunca esquecia que pertencia a outro tempo; meu celular, escondido entre as camisas no armário, era a âncora que me lembrava de onde eu viera.

Na manhã seguinte, acordei com o canto distante dos galos. Sentei-me na cama, sentindo-me revigorado. Aproximei-me da parede que dividia meu quarto com o de Khun-Yai e escutei; ainda estava muito cedo para ele acordar. Abri a janela e um frio cortante me atingiu. Uma neblina espessa e branca cobria tudo, transformando o jardim em uma pintura celestial. A árvore de Royal Poinciana era apenas um vulto embaçado no mar de bruma.

Cobri-me com o cobertor e saí para o corredor, querendo respirar aquele ar puro. Abri a porta da varanda e respirei fundo o perfume de grama úmida. O piso de madeira estava frio sob meus pés descalços. Dei um passo à frente, querendo sentir a grama, mas no terceiro passo... a sensação mudou.

Olhei para baixo e meu coração deu um solavanco. As tábuas polidas e escuras de ontem haviam ficado pálidas, ásperas e rachadas. A madeira parecia ter envelhecido décadas em um segundo. Levantei a cabeça e pisquei. No instante em que minhas pálpebras se abriram, o mundo se transformou.

O frio da neblina deu lugar a um sol escaldante que queimava minha pele. Eu não estava mais no chalé novo de 1928. Eu estava na varanda decrépita da casa em ruínas. Abaixo, o barulho de obras me atingiu como um trovão. Senti um arrepio de pavor ao olhar para cima e ver o enorme galho da árvore atravessando o teto quebrado. Cinco construtores tentavam removê-lo.

Lá embaixo, no gramado, vi o Tan, o mestre de obras. Este era o dia em que eu deveria voltar para Bangkok. O dia antes do meu acidente no Rio Ping. Eu estava de volta ao meu tempo.

— TAN! — gritei, minha voz falhando.

Ele se virou, surpreso ao me ver ali. Corri em direção à escada, desesperado para fugir daquela varanda fantasmagórica, mas então o tempo pareceu virar gelatina. O ar ficou pesado, denso. Meus pés tocavam as tábuas e, em câmera lenta, eu via a madeira mudar sob meu toque: do cinza opaco para o brilho polido da laca, como se um verniz invisível se espalhasse pelo chão.

As telhas quebradas flutuaram de volta ao lugar, o buraco no patamar se fechou como uma ferida cicatrizando em segundos. Fechei os olhos contra o vento seco que soprava poeira e, quando os abri... "meu mundo" tinha evaporado.

O silêncio do passado retornou. Só restou o som ensurdecedor do meu próprio coração batendo no peito de um homem que, agora, sabia que não pertencia a lugar nenhum.

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