Conspiração.

Um conto erótico de Lukinha
Categoria: Heterossexual
Contém 7830 palavras
Data: 12/01/2026 17:24:39
Última revisão: 12/01/2026 21:14:23

{Nota do autor} Antes de começar a nova série, uma pequena explicação:

O conto anterior, que eu deletei, era uma tradução de um autor que já trabalhamos juntos antes. Estávamos postando quase ao mesmo tempo, mas o desenvolvimento da história seguiu por um caminho que eu não sou muito fã, o do incesto com mãe. Se fosse um conteúdo mais sugestivo do que explícito, eu até seguiria em frente, mas a história descamba para uma relação direta entre mãe e filho.

Sei que o gênero tem muitos fãs aqui na casa, mas não é a minha praia. Não é uma coisa que eu goste de escrever ou traduzir. Mas, cada um lê e escreve sobre aquilo que fantasia e eu respeito o fetiche de cada um.

Vamos em frente. Boa leitura a todos.

{…}

Parte 1

Eu, Ricardo, sempre gostei do silêncio do escritório antes do cliente chegar. Aquele intervalo curto em que tudo ainda está no lugar: pastas alinhadas, café quente, a cidade filtrada pelo vidro fosco. Ali, ninguém espera nada de mim além do que eu sei fazer.

Bruno, ao contrário, odiava aquilo.

— Relaxa, Ricardo. — Ele disse, girando a cadeira e cruzando os braços atrás da cabeça. — Hoje vai ser tranquilo. Esse cliente já está praticamente convencido. As provas são robustas.

Eu não respondi. Estava conferindo pela terceira vez a linha do tempo no tablet. Horários, registros, cruzamento de imagens. Não por insegurança. Por hábito.

A porta se abriu pontualmente às dez. Eduardo Martins, o cliente, entrou com o corpo rígido de quem já sabe a resposta, mas ainda espera estar errado. Terno simples, aliança no dedo, olheiras de noites mal dormidas.

— Senhor Eduardo. — Bruno se levantou primeiro, sorriso pronto. — Fique à vontade. Café? Água?

— Água, por favor.

Enquanto Bruno se movia com aquela naturalidade ensaiada, eu permaneci sentado. Não por desdém. Porque sempre achei que quem fala demais, perde informação.

Eduardo se sentou à nossa frente. As mãos trêmulas denunciavam mais do que qualquer pergunta.

— Então… — Ele começou, ansioso. — Vocês têm algo concreto?

Bruno me lançou um olhar rápido, quase imperceptível. Aquele sinal silencioso de “deixa comigo”. Sempre deixei. Funcionava.

— Temos sim. — Ele respondeu, já puxando a pasta da mesa. — Mas antes, é importante entender o contexto emocional da situação.

“Contexto emocional?” Pensei, quase sorrindo. Ele era bom naquilo, eu não podia negar.

Bruno abriu a pasta, mas não mostrou nada ainda. Ele gostava de preparar o terreno, criar suspense, parecer no controle.

— A sua esposa, a Carla, mantém um relacionamento extraconjugal há pelo menos três meses. — Ele, enfim, continuou. — Não é algo pontual. Existe frequência, padrão… envolvimento.

Eduardo engoliu seco.

— Com quem?

Era a minha deixa. Deslizei o tablet pela mesa, ativando o vídeo sem dizer uma palavra.

Carla entrou num prédio comercial às 18h42. Saindo às 21h11. Sempre às quintas. Sempre com o mesmo homem.

— Esse é o Marcelo Pacheco. — Eu disse, finalmente. — Sócio da empresa onde ela trabalha. Casado. Dois filhos.

Eduardo levou a mão à boca. Bruno aproveitou o impacto.

— O que o Ricardo fez aqui. — Ele disse, com a naturalidade de quem se inclui. — Foi cruzar os horários dela com o sistema de estacionamento do prédio, imagens de câmeras externas e registros de entrada por biometria.

O que o Ricardo fez. Ele foi claro, mas sempre se dando o crédito. Eu o observei em silêncio. Não era mentira. Mas também não era toda a verdade.

— Além disso... — Bruno continuou. — conseguimos acesso a reservas de hotel feitas em nome de terceiros, mas pagas com o cartão corporativo da empresa dele.

Eduardo olhou para mim, buscando confirmação.

— Sim. — Respondi. — Tudo documentado. Datas, horários, recibos. Se quiser seguir com o processo agora, o material é sólido.

Bruno se inclinou para frente, apoiando os cotovelos na mesa.

— E mais importante… — Disse. — A decisão agora é sua. Confrontar, se proteger juridicamente, ou simplesmente… saber.

Ele era bom mesmo naquilo. Muito bom. Conduzia o cliente com maestria.

— Eu só precisava da verdade. — Eduardo respirou fundo, os olhos marejados.

— E agora você tem. — Bruno disse, com uma empatia treinada. — Qualquer que seja o próximo passo, a gente te acompanha.

O cliente ficou mais alguns minutos, fez perguntas práticas, assinou o recebimento das provas e saiu como todos saem dali: mais leve e mais pesado ao mesmo tempo.

Quando a porta se fechou, o silêncio voltou. Mas já não era o mesmo.

— Viu só? — Bruno disse, esfregando as mãos. — O cara já entrou derrotado. Nem precisou insistir.

— As provas falam por si. — Respondi, guardando o tablet.

— Claro. — Ele riu. — Mas não adianta só ter prova. Tem que saber entregar.

Ele sabia. Sempre soube. Por isso Bruno estava ali. Ele era o rosto. A gentileza. Eu, o motor, o pragmatismo.

— A gente funciona bem assim, né? — Ele continuou, se aproximando da janela. — Você com o cérebro, eu com o trato humano.

Assenti com a cabeça. Não por concordar totalmente. Mas porque aquele equilíbrio me poupava de coisas que eu nunca soube lidar bem: disputa, vaidade, confronto. Bruno precisava se sentir igual. Eu precisava que o trabalho fosse feito. E, até aquele dia, isso bastava.

Eu só não sabia que, enquanto eu analisava a vida dos outros em silêncio, alguém já tinha começado a analisar a minha.

Bruno ainda estava de pé, olhando a rua, quando puxou o assunto como quem comenta sobre o clima.

— Aliás… — Ele disse, casual — o aniversário de casamento de vocês não é semana que vem?

Levantei os olhos do tablet devagar.

— É.

— Mariana comentou comigo outro dia. Disse que tá ansiosa. — Ele sorriu com malícia. — Normal, né? Essas datas mexem com elas.

Fechei o aplicativo sem pressa.

— Ainda não comprei nada.

Bruno se virou na hora, como se estivesse esperando exatamente aquela resposta.

— Eu sabia.

Caminhou até a mesa dele, abriu a gaveta de baixo e puxou uma caixa preta, elegante, dessas que dispensam legenda. Colocou sobre a minha mesa com cuidado exagerado.

— Aqui, parceiro. — Disse, empurrando a caixa na minha direção. — Eu sabia que você estava enrolando.

Eu abri. Um colar de safira delicado, discreto, com brincos no mesmo conjunto. Bonito. De bom gosto. Totalmente o estilo da Mariana.

— Não precisava disso. — Falei.

— Precisava, sim — Bruno rebateu, rindo. — Mariana merece mais atenção. E você sabe disso.

Fiquei alguns segundos olhando a joia, tentando calcular o quão deslocado eu me sentia por não ter pensado em algo assim antes.

Bruno se apoiou na mesa, cruzando os braços.

— Vou te falar uma coisa — Ele disse, num tom meio de brincadeira, meio sério. — Uma hora dessas, você vai chegar em casa e notar um par de chinelos que não é seu do lado da cama.

Levantei o olhar imediatamente.

— Que?

Ele soltou uma gargalhada curta.

— Calma, Ricardo. Tô brincando. — Ele fez um gesto com a mão, como quem afasta o assunto. — Mas ó… mulher é atenção, cara. Não é só estar presente. É parecer presente.

Meu maxilar travou sem que eu percebesse.

— Eu tô presente. — Respondi, seco demais pra quem não queria confronto.

Bruno percebeu. Ele sempre percebia. Deu a volta na mesa e bateu duas vezes nas minhas costas, firme, amigável.

— Ei… relaxa. Se não fosse por mim, sempre te lembrando das coisas importantes, você já tava divorciado.

Ele falou rindo. Eu também sorri. Um sorriso curto, automático.

— Obrigado, de verdade. — Agradeci com sinceridade.

E era verdade. Bruno sempre soube lidar com mulheres. Ou, pelo menos, ajudar os amigos a lidar com as suas.

Enquanto ele voltava para a própria mesa, eu fechei a caixa com cuidado e a guardei na mochila. Aquele presente não era só um objeto. Era uma correção silenciosa. Uma prova de que alguém estava vendo o que eu não via.

— Vai direto pra casa hoje? — Bruno perguntou.

— Vou.

— Faz bem. — Ele respondeu. — Dá atenção pra ela.

Assenti mais uma vez e voltei a me concentrar no trabalho. Aquele dia passou sem muita cobrança, nossos casos atuais ainda estavam em fases iniciais, e nossa equipe continuava a levantar informações para que eu pudesse ir pra rua coletar provas.

No final do expediente, peguei o casaco, apaguei as luzes da minha sala e caminhei até a porta do escritório com a sensação estranha de que alguma coisa estava fora do lugar, mas sem nenhuma evidência concreta que justificasse aquilo.

No elevador, sozinho, encostei a cabeça no espelho e respirei fundo. Eu passava a vida inteira percebendo sinais nos outros. Mas nunca fui bom em interpretar os que diziam respeito a mim.

Quando cheguei em casa, o apartamento estava silencioso demais. E, por algum motivo que eu ainda não sabia explicar, aquele silêncio não me pareceu acolhedor.

Cheguei pouco depois das oito. O silêncio me recebeu primeiro. Não aquele silêncio confortável de fim de dia, mas um vazio denso, como se o apartamento estivesse segurando o ar.

— Mariana? — Chamei, largando as chaves no aparador.

Nada.

Dei dois passos para dentro da sala e senti o cheiro antes de ver. Um odor metálico, familiar demais para quem vive cercado de cenas que não deveriam ser domésticas.

Abaixei o olhar e um rastro fino de sangue cortava o piso claro, irregular, como se alguém tivesse sido arrastado ou tentado se mover sem conseguir. Segui instintivamente, o coração acelerando, a mente já descartando hipóteses otimistas.

— Mariana… — Chamei de novo, agora mais alto, começando a entrar em desespero.

O rastro levava ao corredor. Foi ali que eu o vi. Um corpo estendido de lado, parcialmente encostado na parede. A camisa encharcada, o peito subindo e descendo em espasmos curtos, desesperados. Os olhos arregalados, tentando focar em mim sem conseguir.

— Ei… ei… — Ajoelhei ao lado dele sem pensar. — Fica comigo.

Havia sangue demais. Muito mais do que deveria haver num ambiente que, até minutos antes, era só a minha casa.

Vi a faca caída a poucos centímetros da mão dele. Peguei por reflexo, mais para afastar do que por qualquer outra coisa, e a joguei para longe. Só depois percebi o erro.

— Quem fez isso? — Perguntei, pressionando a mão contra o ferimento mais próximo do abdômen. — Aguenta. A ambulância já vem.

Peguei o celular apressado, discando para a emergência automaticamente.

Ele tentou falar. Só saiu ar… e sangue. Então eu reconheci o rosto. Marcelo Duarte.

O mesmo homem que, dois anos antes, tinha me acusado de agressão. O mesmo stalker que perseguiu minha esposa por meses, depois a mim, com denúncias vazias, e-mails anônimos, ameaças veladas. Um sujeito instável, obsessivo, que mandava mensagens dizendo que eu “merecia pagar”. O mesmo que, num momento de fúria, eu quase acabei espancando, mas me contive no último segundo. Se Bruno não estivesse ao meu lado…

O mundo girou um pouco.

— Não… — Murmurei, mais para mim do que para ele.

As sirenes vieram rápido demais. Antes que eu pudesse entender de onde tinham surgido, a porta foi arrombada.

— POLÍCIA! MÃOS À VISTA!

Levantei devagar, as mãos ainda sujas de sangue.

— Ele ainda tá vivo. — Falei. — Precisa de ajuda.

Ninguém ouviu. Fui empurrado contra a parede, algemado com força. O metal frio fechou em volta dos meus pulsos enquanto vozes se sobrepunham: rádio, ordens, passos apressados.

— Essa faca é sua?

— O senhor estava sozinho na residência?

— Afaste-se do corpo!

Foi quando Mariana, minha esposa, apareceu no corredor. Cabelo desalinhado, rosto pálido, os olhos arregalados numa expressão que eu não consegui decifrar de imediato. Medo? Choque? Ou algo mais fundo?

— Ricardo? — Ela disse, a voz trêmula, em pânico.

Olhei para ela como quem busca o chão.

— Eu cheguei agora. — Falei. — Ele já estava assim.

Ela levou a mão à boca.

— Meu Deus…

Um policial se aproximou dela, falando baixo, conduzindo-a para longe de mim.

O paramédico balançou a cabeça segundos depois.

— Óbito confirmado.

As palavras bateram em mim como um disparo seco.

— O senhor está detido sob suspeita de homicídio. — Disse o policial atrás de mim. — Tem o direito de permanecer em silêncio…

Eu não ouvi o resto.

Enquanto me levavam para fora, algemado, olhei mais uma vez para o corredor da minha casa. O sangue no chão. A faca. O corpo. Mariana, chorando muito, amparada por alguém que não era eu.

Eu passara a vida inteira desmontando versões falsas. Mas, naquela noite, todas as evidências gritavam contra mim. E, daquela vez, eu não sabia por onde começar.

A delegacia parecia menor do que eu lembrava. Talvez porque, algemado, tudo encolhia. O espaço, o tempo, a própria dignidade.

Bruno e Mariana chegaram logo atrás. Vi os dois atravessando a porta de vidro enquanto eu era conduzido pelo corredor. Mariana me enxergou primeiro. Os olhos dela se encheram de algo que eu reconhecia bem demais: medo misturado com culpa. Ou talvez fosse só medo. Naquele momento, eu não tinha instrumentos, nem discernimento para diferenciar.

— Ricardo. — Ela chamou, apressando o passo.

O policial hesitou um segundo, mas permitiu que ela se aproximasse.

— Eu não entendo… — Ela disse, a voz baixa, as mãos tremendo quando tocaram meu braço. — Como isso foi acontecer?

— Eu cheguei e ele já estava lá. — Respondi. — Juro. Eu tentei ajudar.

Ela assentiu rápido demais, como quem concorda para não desmoronar. Bruno surgiu ao lado dela, firme, controlado. A mão pousou no meu ombro com naturalidade.

— Fica tranquilo, parceiro. — Ele disse, num tom seguro demais para aquele cenário. — Já mobilizei nossa equipe. Todo mundo tá correndo atrás para entender o que aconteceu.

Olhei pra ele.

— As coisas não batem. — Continuei. — Alguém armou isso.

— Eu sei. — Ele respondeu sem hesitar. — E a gente vai provar que você é inocente.

O policial pigarreou, impaciente.

— Temos contatos aqui dentro. — Bruno completou, se inclinando levemente na minha direção. — Se precisar de qualquer coisa, é só pedir.

Assenti. Era exatamente o tipo de coisa que eu diria a um cliente naquela situação.

Mariana segurou minha mão por um instante antes de ser afastada.

— Eu vou ficar aqui. — Ela disse. — Não vou embora.

Quis dizer algo. Não saiu nada.

Fui levado para a sala de depoimentos com a cabeça latejando e a sensação incômoda de estar assistindo à minha própria vida como um arquivo mal editado.

A sala era fria, sem janelas. Duas cadeiras de um lado da mesa. Uma do outro. Sentei.

— Nome completo? — Perguntou o investigador.

Respondi.

— Profissão?

— Investigador particular. Ex policial.

Ele anotou, levantou os olhos com interesse calculado.

— O senhor sabe por que está aqui?

— Suspeita de homicídio. — Respondi. — Mas eu não matei ninguém.

Ele não reagiu. Só ligou o gravador.

— Conte com suas palavras o que aconteceu quando chegou em casa.

Respirei fundo.

— Cheguei por volta das oito da noite. A casa estava silenciosa. Chamei minha esposa. Não houve resposta. Senti um cheiro estranho… metálico. Vi o rastro de sangue e segui até o corredor.

— Reconheceu a vítima?

— Sim. Depois. — Engoli seco. — Marcelo Duarte.

— Já teve conflitos com ele?

— Ele me acusou de agressão anos atrás. A denúncia foi arquivada. Ele perseguiu minha esposa, assediou, me levou ao limite…

— Arquivada por falta de provas? — Ele me interrompeu.

— Porque não houve agressão. — Respondi firme, olhando em seus olhos.

O investigador fez uma anotação lenta demais.

— O senhor tocou na faca?

O silêncio se esticou.

— Toquei. — Admiti. — Peguei para afastar. Ele ainda estava vivo.

— O senhor sabia que isso compromete a cena?

— Eu estava tentando salvar uma vida.

Ele assentiu, sem emoção.

— O senhor ligou para a polícia?

— Tentei, mas não deu tempo. Vocês chegaram naquele instante.

Ele desligou o gravador por um instante. Olhou diretamente para mim. Todos ali me conheciam. Já fui um deles.

— Ricardo… nós temos imagens.

Meu estômago afundou.

— Imagens do prédio mostram você entrando às dezenove e vinte e três.

— Isso é impossível.

— Não é o que o sistema registra.

Ele deslizou algumas folhas sobre a mesa. Prints de imagens.

— A vítima aparece entrando no prédio às dezenove e cinquenta e cinco. O óbito foi estimado por volta das vinte e dez.

A matemática bateu como um soco seco.

— Não! — Falei, sentindo a garganta fechar. — Eu cheguei depois.

— As câmeras dizem o contrário.

O gravador foi religado.

— O senhor permaneceu cerca de quarenta minutos no apartamento antes de qualquer chamada ser registrada.

O ar ficou pesado demais para caber nos pulmões.

— Isso não aconteceu. — Eu disse, mas a frase já não tinha a mesma força.

— Então o senhor está dizendo que as imagens estão erradas?

— Estou dizendo que… — Parei. — Que alguém manipulou isso.

Ele me observou por alguns segundos longos demais.

— Vamos verificar. — Disse, por fim. — Mas, até lá, o senhor permanece detido.

Quando a porta se fechou atrás de mim, o silêncio não era mais o da casa vazia. Era o silêncio de quem acabou de perceber que as provas contam uma história… e tudo apontava para mim.

A cela não era exatamente uma cela. Era mais confortável, o colchão era mais grosso, uma porta de ferro que não batia com estrondo, só fechava. Respeito profissional. Ou pena. Talvez os dois.

Ser ex-policial ajuda nessas horas. Não te livra do problema, mas evita que te tratem como lixo.

Ainda assim, eu não dormi. Passei a noite inteira reconstruindo a cena como se fosse um caso de terceiro. Chegada. Rastro. Corpo. Faca. Sirenes. Mariana no corredor. Nada encaixava. As imagens das câmeras martelavam na minha cabeça. Horários não mentem. Pessoas mentem. Sistemas… raramente. Mas acontecia. Eu mesmo já provei manipulação de tecnologia em outros casos. Só que, naquela noite, eu não conseguia encontrar o como, ou o porquê.

Em algum momento da madrugada, encostei a testa na parede fria e fechei os olhos. Não era medo de prisão. Era medo de ter perdido alguma coisa óbvia demais.

De manhã, o café veio ralo e morno. Aceitei sem reclamar. Antigos hábitos. Pouco depois, a porta se abriu.

— Ricardo? Seu advogado chegou.

Levantei devagar, sentindo o corpo pesado, como se tivesse envelhecido dez anos em poucas horas.

O advogado se chamava Henrique Valença. Eu conhecia o nome. Não pessoalmente, mas da praça. Criminalista experiente, pragmático, caro. Bruno não economizava quando queria parecer leal.

— Bom dia! — Ele disse, estendendo a mão. — Situação complicada.

— Eu sei.

Sentamos numa sala pequena, separada por vidro fosco. Ele abriu uma pasta grossa demais para tão pouco tempo de caso.

— Vou ser direto… — Começou. — As imagens de segurança são o ponto central. Elas colocam você sozinho com a vítima por quase cinquenta minutos.

— Essas imagens estão erradas.

— Talvez. — Ele respondeu, sem contrariar, mas sem concordar. — Mas até prova em contrário, elas são o que a promotoria tem.

Cruzei os braços.

— Ele tinha histórico comigo. Isso pesa.

— Pesa muito.

— E minha esposa?

Ele fez uma anotação rápida.

— Mariana prestou depoimento formal. Disse que saiu mais cedo, que não estava se sentindo bem. Confirmou que você chegou depois dela, mas não soube precisar horário.

— Claro que não — murmurei.

— Ela está colaborando. — Ele acrescentou. — Isso ajuda.

“Ajuda quem?” Pensei, irritado.

— Bruno falou com você? — Perguntei, tentando voltar a manter a calma.

— Sim. — Ele assentiu. — Está bastante envolvido. Mobilizou gente, pediu perícias independentes.

Fechei os olhos por um segundo.

— Qual é o cenário realista?

Henrique suspirou.

— Homicídio qualificado, se entenderem que houve intenção. Ou excesso, se aceitarem uma versão de confronto. Mas, por enquanto, a tendência é te manterem sob custódia.

Concordei. Eu já sabia.

— Minha orientação agora é: fale pouco. Observe muito.

Aquilo eu sabia fazer.

Pouco depois, Mariana entrou. Estava diferente. Não só abatida, mas contida. Como alguém que chora sozinha antes de aparecer em público.

— Oi… — Ela disse, sentando à minha frente.

— Oi.

Ficamos alguns segundos em silêncio. Longos demais pra quem divide a vida.

— Eu não consegui dormir. — Ela finalmente falou. — Fico revendo tudo.

— Eu também.

Ela respirou fundo.

— Eu juro que não sei como aquele homem entrou na nossa casa.

— Ele já tinha nos ameaçado antes. Sabia onde morávamos.

— Eles estão dizendo que você chegou cedo — Ela continuou. — Mas eu… eu não lembro de ver você.

— Porque eu não cheguei cedo.

Ela desviou o olhar.

— Eu acredito em você. — Disse, rápido demais.

Toquei a mão dela sobre a mesa.

— Isso vai passar.

Ela segurou meus dedos com força.

— Vai?

Antes que eu respondesse, a porta se abriu de novo. Bruno entrou com a mesma postura firme do escritório. Camisa clara, mangas dobradas, olhar atento.

— Cara… — Ele disse, se aproximando. — Que pesadelo.

— Obrigado por tudo que tá fazendo.

— Nem pensa nisso. — Ele respondeu. — Você faria o mesmo por mim.

Claro que faria.

— A perícia vai olhar as câmeras com lupa. — Ele continuou. — Se alguém mexeu, a gente acha.

A gente. Lá estava de novo.

— Descansa. — Ele completou, batendo de leve no meu ombro. — Deixa isso com a gente agora.

Olhei para os dois à minha frente. Minha esposa. Meu sócio. As duas pessoas em quem eu mais confiava no mundo. E, naquele momento, às cegas, senti um alívio breve. Pequeno. Perigoso.

Eu ainda não sabia, mas naquele mesmo momento, enquanto eu era protegido por paredes de concreto, o jogo já estava em andamento. E eu não tinha sido avisado.

Quando eles se levantaram para sair, fiquei parado, observando. Mariana hesitou um segundo antes de ir em direção à porta. Bruno se adiantou, tocou o braço dela com naturalidade demais, como quem já sabe onde apoiar a mão. Houve um olhar rápido entre os dois — curto, preciso — daqueles que não pedem explicação.

— Não perde a cabeça. — Ele disse baixo, mas audível. — O Ricardo precisa de você inteira. Mais do que nunca.

Ela assentiu, respirando fundo. Bruno a puxou para um abraço. Não foi longo. Não foi ostensivo. Mas foi próximo demais. Protetor demais. A mão dele ficou um instante além do necessário nas costas dela.

Mariana se afastou primeiro e eles caminharam juntos até a porta. Fiquei com aquela imagem presa na cabeça. Um incômodo pequeno, quase mesquinho. Afinal, eram amigos desde sempre. Foi o Bruno que me apresentou a Mariana. Em outro contexto, aquilo não significaria nada. E, nas circunstâncias em que eu estava, só podia ser o quê? Ciúme. Orgulho ferido. Paranoia.

Não era hora de pensar naquilo. Havia coisas maiores para ocupar meus pensamentos: sobreviver.

{…}

De volta à minha cela, a lembrança veio sem pedir licença. Fui transportado em pensamento para dez atrás.

O quintal estava cheio naquela noite. Luzes amarelas penduradas em fios improvisados, mesas espalhadas com comida demais e música alta. Duas famílias misturadas como se sempre tivessem sido uma só.

Recém-formados. Orgulho estampado no rosto dos nossos pais. Eu e o Bruno acabávamos de concluir o curso de oficiais da Polícia Militar.

Bruno estava no centro de tudo, como sempre. Farda impecável, sorriso largo, postura relaxada de quem já se sentia em casa em qualquer lugar. Alto, ombros largos, cabelo escuro sempre no corte certo. Bruno tinha aquele tipo de presença que ocupava espaço sem pedir desculpa.

Eu era o oposto. Mais quieto, mais fechado. Magro na época, semblante sério para alguém que tinha acabado de conquistar o mundo. A farda em mim parecia mais pesada, como se já viesse com responsabilidade embutida.

— Para de se esconder, Ricardo. — Bruno disse, me puxando pelo braço. — Hoje é pra comemorar.

— Tô comemorando do meu jeito. — Respondi.

Ele riu.

— Seu jeito é chato.

Foi quando ele virou o corpo e chamou alguém com um gesto rápido da mão.

— Mari! Vem cá.

Ela atravessou o quintal desviando das pessoas com um sorriso meio tímido, meio curioso. Vestia um vestido simples, claro, que contrastava com o cabelo escuro solto pelos ombros. Não era uma beleza que gritava. Era uma beleza que permanecia. O vestido, não tão justo para marcar as curvas, era apenas o suficiente para dar asas à imaginação.

Quando ela parou na minha frente, tive a sensação estranha de já conhecê-la.

— Esse é o Ricardo. — Bruno disse. — O irmão que a vida me deu.

Ela estendeu a mão.

— Mariana.

O toque foi rápido, mas suficiente para me desarmar.

— Prazer — falei.

— O prazer é meu. — Ela respondeu, me olhando direto, sem pressa.

Bruno observava com um sorriso satisfeito demais.

— Vocês dois são iguais. — Ela comentou. — Só que um fala demais e o outro fala de menos.

— Deixa eu adivinhar — Bruno disse. — Eu sou o que fala demais.

— Sempre. — Ela respondeu.

— Vou pegar uma cerveja. Não fujam. — Bruno saiu e nos deixou ali.

O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Foi natural. Como se a conversa estivesse só esperando a gente perceber.

— Então… policial, hein? — Ela disse, inclinando a cabeça. — Isso sempre foi o seu plano?

— Não. — Respondi. — Foi o único que fez sentido. Acabei indo na onda do Bruno.

Ela sorriu de leve.

— Gosto de gente que escolhe o que faz sentido, não o que parece bonito.

Conversamos por horas. Sobre coisas pequenas. Música, livros, infância. Descobrimos coincidências demais para serem ignoradas. Gostos parecidos. Silêncios confortáveis.

Em algum momento, percebi que Bruno nos observava de longe, encostado na mesa, satisfeito. Como se tivesse montado um quebra-cabeça perfeito.

— Você é diferente dele. — Mariana disse, apontando discretamente com o queixo para Bruno.

— Todo mundo é.

— Não. — Ela insistiu. — Você olha antes de agir. Ele age pra ser visto.

Não discordei, era mesmo verdade.

Quando a noite terminou, o quintal estava vazio e as luzes ainda acesas. Mariana se despediu com um abraço curto, mas carinhoso.

— Acho que ainda vamos nos ver. — Ela disse, piscando um olho.

— Acho que sim.

Bruno apareceu logo depois.

— Eu sabia. — Ele falou, rindo. — Vocês combinam.

Naquela noite, eu acreditei. Acreditei na amizade. Acreditei nas escolhas. Acreditei que algumas coisas, quando começam certas, permanecem assim.

Anos depois, preso a uma lembrança enquanto esperava minha vida ser decidida por outros homens, pensei no quanto a memória é cruel. Ela só mostra o começo bonito. Nunca o preço.

Eu sempre digo que algumas histórias começam rápido demais para a gente perceber. A minha com a Mariana foi assim. Não teve ensaio, não teve cálculo. Quando eu vi, já estava dentro.

Depois daquela festa, a gente passou a se ver o tempo todo. No começo, qualquer desculpa servia: um café depois do plantão, um jantar improvisado, um “vou passar aí rapidinho” que virava madrugada. Eu era recém-formado, mas já tinha uma certeza que me assustava: eu queria estabilidade. Queria casa, rotina, futuro. E a Mariana parecia caber perfeitamente nos meus planos de vida.

Ela era calma, mas não passiva. Do tipo que ouvia com atenção, inclinando levemente a cabeça, como se estivesse sempre analisando o que vinha por trás das palavras. O sorriso dela não era espalhafatoso, era contido, quase íntimo. Quando ria, ria primeiro com os olhos. Eu gostava daquilo. Gostava da sensação de que ela me via de verdade.

O Bruno estava sempre por perto. Não de forma invasiva. Não colado. Mas constante. Se a gente marcava algo, ele aparecia. Se eu dizia que ia passar a noite com a Mariana, ele mandava mensagem perguntando onde estávamos. Às vezes aparecia “por acaso”. E quase sempre, com alguém diferente.

— Cara, você devia aproveitar mais. — Ele disse uma noite, largado na cadeira de plástico de um bar qualquer, enquanto a garota ao lado dele mexia no celular, entediada. — A farda faz milagre.

Eu ri, balançando a cabeça.

— Você fala como se fosse um truque barato.

Bruno ergueu o copo, sorriso torto no rosto.

— Mulheres adoram uma farda. Ela sozinha faz metade do trabalho.

Mariana estava sentada ao meu lado. Ela não riu. Também não pareceu incomodada. Só lançou um olhar rápido para ele e depois voltou para mim, como se tivesse feito uma anotação mental silenciosa.

Eu, na época, não vi nada demais. Bruno sempre foi assim. Carismático, solto, fácil. Onde eu era previsível, ele era surpresa. Onde eu era silêncio, ele era história. Eu gostava de pensar que éramos opostos que se equilibram.

Eu era o cara que chegava no horário, que planejava, que segurava a mão da parceira quando atravessávamos a rua. O Bruno era o que chegava depois, com risada alta, contando vantagem, trocando olhares com quem estivesse por perto. E, ainda assim, ele parecia confortável demais ao redor da Mariana.

Às vezes, eu chegava na sala e os dois já estavam conversando. Rindo de algo que eu não ouvi. Não era segredo, não era cochicho. Era natural, íntimo. Como se existisse uma frequência entre eles que eu não precisava, e nem queria, entender.

Eu confiava nos dois. Confiava porque acreditava no que eu construía com ela. E porque o Bruno era meu amigo desde sempre. A gente tinha passado pela vida, pela escola e pela academia juntos. Suado, sangrado, aguentado pressão, prova, humilhação. A gente tinha jurado coisas lado a lado.

Na minha cabeça, aquilo bastava.

Hoje, olhando para trás, eu percebo: enquanto eu construía um futuro com a Mariana, o Bruno nunca deixou de fazer parte do nosso presente.

A primeira viagem só nossa tinha um gosto de conquista. Não era longe, nem luxuosa. Uma cidadezinha litorânea simples, dessas em que o sal gruda na pele e o tempo parece correr mais devagar. Mas, para mim, aquilo era quase um rito de passagem. Eu e Mariana. Sozinhos. Sem família, sem amigos, sem ninguém atravessando o espaço entre a gente.

Eu dirigi o caminho inteiro com um sorriso idiota no rosto. Mariana cantava junto com o rádio, o cabelo solto, óculos escuros, a mão apoiada no meu joelho como se aquilo fosse o lugar mais natural do mundo. Em alguns momentos, ela virava o rosto pra mim, sorria, e eu tinha a sensação estranha, mas boa, rara, de que estava exatamente onde deveria estar.

A casa alugada era simples, mas bem localizada. Varanda pequena, rede, cheiro de madeira velha misturado com maresia. Largamos as malas e fomos direto explorar. Praia, caminhada longa pela areia, água gelada batendo na canela, risadas sem motivo. Mariana parecia leve. Presente. Em sintonia comigo.

Naquela primeira noite, escolhemos um barzinho perto da orla. Luz neutra, música baixa, mesas de madeira quase tocando a areia. Eu ainda estava com aquela sensação de vitória íntima, como se tivesse feito tudo certo.

Foi quando ouvi meu nome.

— Ricardo?

Levantei o olhar e vi o Bruno vindo na nossa direção, com aquele sorriso largo de sempre, seguro demais pra ser casual. Ao lado dele, uma mulher que eu nunca tinha visto antes. Bonita, confiante, claramente confortável demais com a própria presença.

— Cara, que coincidência absurda. — Ele disse, já puxando uma cadeira sem pedir licença. — Também vim passar uns dias por aqui.

“Coincidência?” A palavra ficou ecoando na minha cabeça por um segundo a mais do que deveria.

Mariana sorriu na hora. Um sorriso fácil, aberto. A mulher se apresentou, sentou ao lado dela, e em poucos minutos as duas já conversavam como se fossem velhas conhecidas. Riam. Se inclinavam uma para outra. Bruno falava alto, contava histórias, dominava a mesa como sempre.

— Onde vocês estão ficando? — Ele perguntou, casual, depois de pedir mais uma rodada.

Falei o nome da rua, da casa.

— Ah, ótimo. — Ele disse, como se resolvesse algo que já estava decidido. — A gente fica com vocês então. Melhor do que hotel. Divide despesas, companhia… todo mundo ganha.

Ele disse a gente com tanta naturalidade que não me ocorreu questionar. Olhei pra Mariana. Ela estava entretida, rindo de algo que a outra mulher dizia, a mão gesticulando no ar, os olhos brilhando daquele jeito que eu gostava de ver, e que, naquele momento, me desarmou completamente.

Eu nunca soube dizer não para o Bruno. Nunca precisei, na verdade. Ele sempre fez parecer que estava ajudando, somando, melhorando as coisas.

— Claro. — Eu disse. — Fiquem com a gente.

Bruno bateu a mão na mesa, satisfeito.

— Sabia que você não ia se importar, parceiro.

Na volta pra casa, caminhei alguns passos atrás deles. Bruno e a mulher iam à frente, Mariana ao lado dela, falando sem parar. Eu observava os três, tentando afastar uma sensação estranha no peito, algo entre um leve incômodo e uma insegurança que eu não sabia nomear.

“Era só amizade. Era só o Bruno sendo o Bruno. E eu estava de férias com a mulher que amava.”

Era isso que eu repetia para mim mesmo enquanto abria a porta da casa e deixava aquela semana começar… diferente do que eu havia imaginado.

Já na casa, alguma coisa em mim parecia estar fora do lugar. Não tinha bebido além da conta. Na verdade, mal tinha encostado no copo. Mesmo assim, o estômago começou a embrulhar de um jeito estranho, um mal-estar lento, crescente, como se o corpo estivesse tentando me avisar de algo que eu não conseguia entender.

Sentei no sofá, passando a mão pela testa.

— Tá tudo bem? — Mariana perguntou, distraída, já tirando as sandálias.

Antes que eu respondesse, Lívia apareceu na minha frente. Ela tinha aquele jeito prático, quase automático, de quem está acostumada a cuidar dos outros.

— Deixa eu ver. Sou enfermeira. — Ela disse, abaixando um pouco para ficar na minha altura. — A praia faz isso mesmo. Sol o dia inteiro, comida pesada…

— Foi a costela com aipim. — Bruno completou, rindo. — Eu avisei.

Lívia abriu a bolsa e tirou um comprimido pequeno, já estendendo pra mim.

— Isso é normal. — Ela disse. — Insolação leve com digestão pesada. Acontece direto. Na próxima vez, tenta comer algo mais leve, tá? Peixe, salada… não dá pra tratar o estômago como se ainda estivesse no inverno.

O tom era de brincadeira, quase carinhoso, e eu aceitei o comprimido sem pensar muito. Engoli com um gole d’água.

— Daqui a pouco você melhora. — Ela disse, sorrindo. — E amanhã acorda novo.

Ela estava certa. Melhorei sim, mas também apaguei rápido demais. O sono não veio como descanso. Veio como queda.

Sonhei com risadas. Risadas altas, distorcidas, ecoando em um espaço que não fazia sentido. Bruno estava lá. Mariana também. E Lívia. Os três me olhavam como se eu fosse uma piada ambulante.

— Ele acredita em tudo. — Bruno dizia, entre gargalhadas.

— Sempre acreditou. — Mariana completava, com um sorriso que não era o dela. — É fácil demais.

Lívia se inclinava, me observava como quem examina um paciente… ou uma presa.

— Corno manso. — Ela disse, rindo. — Nem desconfia.

Tentei falar, me mexer, reagir. Nada. As vozes se misturavam, se sobrepunham, me atravessavam como se eu não estivesse ali de verdade.

Acordei de repente, com o coração acelerado. O quarto ainda estava escuro, só a luz da manhã começando a entrar pelas frestas da janela. Mariana dormia ao meu lado, tranquila, respirando fundo, o rosto relaxado, bonito daquele jeito que sempre me desmontava.

Fiquei olhando para ela por alguns segundos, tentando afastar o peso no peito.

“Que absurdo”. Pensei. “Que tipo de homem sonha com uma coisa dessas?”

Virei de lado, com cuidado para não acordá-la, sentindo vergonha de mim mesmo. Da imaginação. Da insegurança. Da covardia de desconfiar sem motivo. Era só um mal-estar. Só um sonho ruim. Só o corpo reagindo ao calor, à comida errada, ao cansaço.

Respirei fundo e fechei os olhos de novo, decidido a deixar aquilo para trás. Eu ainda não sabia, mas aquela sensação estranha não tinha nada a ver com a costela.

Dormi mais um pouco e acordei ainda me sentindo um meio fraco, como se o corpo não tivesse decidido se estava tudo bem ou não. Nada grave, só aquela sensação incômoda de quem não está cem por cento.

Todos já estavam arrumados, preparados para o dia de diversão na areia, menos eu.

— A gente fica. — Mariana disse, sentada na beira da cama. — Eu não me importo. Você não tá bem.

— Tô, sim. — Respondi, mais rápido do que devia. — É besteira. Já passou.

Ela franziu a testa, desconfiada.

— Ricardo, você apagou ontem. Isso não é “besteira”.

— Eu sei. — Falei, segurando a mão dela. — Mas vocês vieram pra curtir. Praia, sol, descanso… Não faz sentido todo mundo ficar preso por minha causa.

Bruno apareceu na porta do quarto.

— Cara, a gente pode ir mais tarde. — Ele disse. — Sem pressão.

— Nada disso. Vão agora. Aproveitem. Daqui a pouco eu desço. — Falei, tentando parecer melhor do que realmente estava.

Mariana balançou a cabeça, claramente contrariada.

— Eu fico. — Ela insistiu. — Alguém precisa cuidar de você.

Sorri pra ela, tentando parecer mais inteiro do que me sentia.

— Vai. Curte. Depois você me conta tudo. Se eu piorar, prometo que ligo.

Ela me olhou por mais alguns segundos, como se tentasse ler algo que eu mesmo não sabia explicar. Por fim, suspirou.

— Tá bom… mas qualquer coisa, você chama. Qualquer coisa.

Ela beijou minha testa, insistiu mais um pouco, mas por fim, se deu vencida, acompanhando Bruno e Lívia.

Quando a casa ficou silenciosa, o corpo finalmente cedeu. Dormi mais um pouco, um sono limpo, sem sonhos, pesado o suficiente pra me apagar do mundo. Quando acordei, me senti melhor de verdade. Leve. Olhei o relógio: mal passava da uma da tarde.

Levantei animado, tomei um banho rápido e decidi ir encontrá-los. Caminhei pela areia por um tempo, olhando em volta, procurando rostos conhecidos. Foi quando vi Lívia, sentada sozinha em um quiosque, mexendo no celular e me aproximei. Ela levantou o olhar e, por um segundo, pareceu se assustar. Um susto rápido demais pra ser casual.

— Oi. — Falei. — Você viu a Mariana e o Bruno?

— Ah… — Ela hesitou, olhando por cima do meu ombro. — Estão ali.

Segui o olhar dela e os dois vinham caminhando em nossa direção, rindo alto. Mariana pulou nas costas de Bruno, que reagiu fazendo cócegas nela, os dois tropeçando na areia, próximos demais, confortáveis demais.

Fiquei parado, sentindo o rosto esquentar. Foi quando Mariana me viu. Ela se soltou imediatamente, abriu um sorriso largo e correu até mim.

— Amor! — Disse, me abraçando, enchendo meu rosto de beijos. — Você está melhor? Eu fiquei tão preocupada…

— Tô, sim. — Respondi, ainda tentando processar a cena. — Dormi mais um pouco.

— Que bom. — Ela disse, sincera, passando a mão no meu rosto. — Você disse que ele ia ficar bem. Obrigado por me acalmar.

Ela falou olhando para o Bruno, como se tudo estivesse exatamente onde sempre esteve.

E talvez estivesse. Talvez fosse só eu… vendo coisas onde não tinha nada.

O resto do dia foi normal. Bom, até. Aqueles dias de praia que parecem simples demais para virar memória, mas que depois a gente percebe que carregam mais coisas do que aparentam.

Mariana ficou o tempo todo comigo. Protetora, presente, sentada ao meu lado na areia, dividindo a canga, passando protetor nas minhas costas como se estivesse marcando território. Ria das minhas piadas ruins, me puxava pela mão para entrar no mar, apoiava a cabeça no meu ombro quando o sol começava a cansar.

Bruno, como sempre, era o centro gravitacional do grupo. Falava alto, gesticulava, fazia piada com tudo. Conhecia o nome do garçom, do cara do quiosque, do vendedor de milho. Em poucos minutos, parecia íntimo de todo mundo ao redor. Lívia ria fácil, tocava o braço dele enquanto falava, os dois em uma sintonia que parecia automática.

Eu observava mais do que participava. Sempre fui assim.

À noite, escolhemos um restaurante simples. Nada sofisticado. Mesa de madeira, luz amarela, música baixa. Comida honesta. Conversa solta.

Bruno contou histórias exageradas, como sempre. Mariana gargalhava, às vezes se inclinando para mim, cochichando algum comentário no meu ouvido. Lívia falava do hospital, dos plantões, daquele jeito seguro de quem está acostumada a ser ouvida.

Foi um jantar tranquilo. Estranhamente tranquilo.

De volta à casa, o cansaço bateu de uma vez. Areia nos pés, pele salgada, corpo pesado. Bruno e Lívia ficaram na sala, abrindo uma bebida, discutindo qual música colocar. Eu segui com Mariana para o quarto.

Ela fechou a porta atrás de nós. O silêncio ali dentro era outro. Mais denso. Mais íntimo.

Tomamos um banho rápido, juntos, e Mariana me olhava com aquele sorriso lento que eu conhecia tão bem. O mesmo de quando queria se reconectar comigo depois de um dia cheio. Aproximou-se, passou os braços pelo meu pescoço.

— Fico feliz que você esteja melhor. — Ela disse baixo, me beijando.

Eu a puxei para perto. A pele de Mariana ainda guardava o calor do sol, mas o aroma era de loção refrescante, pós-banho. O quarto estava escuro, só a luz fraca da rua entrando pela janela, cortando silhuetas sobre o lençol.

Ela se deitou e virou de lado, seu corpo bronzeado em um contorno suave contra o branco do algodão. A mão dela encontrou a minha cintura, puxando-me para perto. Sua boca encontrou novamente a minha, um beijo lento, preguiçoso, ainda com o gosto da cerveja que tínhamos tomado no fim da tarde.

Era bom. Sempre era bom sentir os lábios dela, macios e familiares. Meu corpo respondeu, um surto de interesse que percorreu minha espinha. Deitei-me sobre ela, sentindo o contato completo da pele, o calor úmido que ainda emanava dos nossos corpos.

Minhas mãos desceram por suas costas, acariciando as curvas que eu conhecia tão bem. Ela arqueou levemente, um movimento quase imperceptível, e seu suspiro quente entrou na minha boca. O beijo se aprofundou. A língua dela tocou a minha, um sabor mais intenso, uma promessa. Deixei uma mão subir pela lateral do seu corpo, os dedos encontrando a curva do seu seio.

Minha boca deixou seus lábios e desceu, capturando um mamilo já endurecido. Ela gemeu, uma voz baixa e rouca que vinha do fundo da garganta.

— Assim... Ahhhhh… — As mãos dela se enterraram no meu cabelo, pressionando, não puxando, apenas segurando.

O cansaço do dia pesava nos meus músculos, uma languidez doce que tornava todos os movimentos mais lentos, mais pesados. Continuei com a boca em seu seio, lambendo, sugando, enquanto minhas mãos desciam para a cintura. Ela ergueu os quadris para ajudar e eu me enfiei entre suas pernas.

Ela sentiu minha ereção já completa, latejante. Sua mão me envolveu, um toque firme e conhecedor que me fez prender o ar.

— Porra! Que delícia…

Ela me guiou para dentro dela. A entrada foi fácil, úmida e quente. Um suspiro escapou dos dois ao mesmo tempo. Parei por um instante, afundado nela, sentindo as paredes internas se ajustando ao meu volume. Então comecei a me mover em um ritmo lento, quase arrastado. Empurrava, recuava, empurrava de novo. Meus quadris batiam contra os dela com um som abafado e molhado. Sua respiração era ofegante ao meu ouvido. As minhas mãos agarravam seus quadris, puxando-a contra mim a cada estocada.

Mariana mantinha as pernas abertas em torno de mim, mas seus músculos estavam relaxados. Suas unhas arranhavam levemente minhas costas, mas era um arranhão distraído. Seus olhos estavam fechados.

Continuei. O suor começando a escorrer do meu peito, pingando sobre o dela. O quarto estava quente, o ar parado. Cada movimento exigia um esforço, como se estivéssemos debaixo d'água. A sensação era boa, reconfortante, o atrito familiar do nosso encaixe. Mas algo… faltava.

Ela começou a se mover comigo, levantando os quadris para encontrar meus empurrões. Mas era sincronizado, não urgente. Sua respiração acelerou, sim, mas permaneceu constante, controlada. Não havia aquela tensão crescente nos músculos da sua barriga, aquele tremor nos seus lábios que eu conhecia.

Tentei mudar o ângulo, aprofundar. Um gemido mais agudo escapou dela, e por um segundo pensei que tinha acertado. Mas então seu corpo relaxou novamente, aceitando o movimento, mas não se entregando a ele.

A minha própria excitação estava lá, um calor concentrado na base da minha espinha, crescendo a cada fricção. Mas era um caminho solitário. Eu olhei para o rosto dela. Os olhos ainda estavam fechados. A boca entreaberta.

Parei de repente, ficando imóvel dentro dela. Ela abriu os olhos, surpresa.

— O que foi? — A voz dela era um sussurro rouco.

— Nada. — Murmurei, beijando seu pescoço. — Só quero sentir você.

Era verdade, em parte. Queria senti-la realmente. Mas ela só fechou os olhos de novo e deu um pequeno aceno.

— Vem cá.

Comecei a me mover de novo, mais rápido, tentando alcançar uma cadência que despertasse alguma coisa. Meus músculos queimavam com o esforço. A pressão dentro de mim se acumulava, inevitável. Olhei para ela. Seu rosto estava virado para o lado, olhando para a janela, para a faixa de luz que cortava a parede. Suas mãos estavam abertas ao lado da cabeça, as palmas para cima.

Foi quando percebi. A frustração não era minha. Era uma névoa fina no ar entre nós. Ela não estava aqui. Estava em algum outro lugar, tolerando, esperando que acabasse.

A raiva, aguda e repentina, cortou minha concentração. Não raiva dela, mas da situação, da minha própria incapacidade. Isso, somado ao cansaço, ao calor, foi o suficiente.

Meu ritmo quebrou. Os empurrões ficaram irregulares, descoordenados. Um som gutural rasgou minha garganta.

— Porra, não agora.

Mas era tarde. A onda de prazer explodiu na minha virilha, subindo pela minha barriga, uma descarga elétrica e profunda que me deixou sem ar. Enterrei o rosto no pescoço dela, meus músculos travando, enquanto jorrava dentro dela, em espasmos longos e intensos que pareciam drenar cada gota de energia do meu corpo.

Fiquei imóvel por um longo momento, ofegante, o suor escorrendo. A sensação de alívio era imensa, física, mas já estava manchada por algo amargo.

Recuei lentamente, desligando-me dela com um som úmido. Caí ao seu lado na cama, o peito subindo e descendo rapidamente. O silêncio no quarto era pesado, só nossa respiração aos poucos se acalmando.

Virei a cabeça para olhá-la. Ela ainda estava deitada de costas, os olhos abertos agora, fitando o teto. Uma mão subiu até seu abdômen, passou sobre a pele plana, depois caiu ao lado do corpo. Nem um tremor. Nenhum arrepio residual.

— Foi bom. — Ela disse, com a voz serena, quase um sussurro.

E então virou de lado, de costas para mim, puxando o lençol até o ombro. Eu fiquei deitado ali, olhando para a curva das suas costas iluminadas pela rua, a pele ainda bronzeada pelo sol, e senti um vácuo frio se abrir no meu peito. Eu não disse nada. E ela não esperou que eu dissesse.

Eu sabia. Não precisava que ela dissesse. Meu corpo não tinha acompanhado o desejo. A vontade estava ali, mas a resposta… não. E isso sempre foi um ponto sensível entre nós, mesmo quando ela tentava fingir que não.

— Ei. — Mariana disse, passando a mão pelo meu rosto. — Calma.

Eu ia pedir desculpa, mas ela me interrompeu com um beijo curto, tranquilo.

— Você não tá na sua melhor forma. — Continuou. — Praia cansa. Sol, caminhada… e ontem você passou mal. Ainda tá se recuperando.

Falava sem cobrança, sem mágoa. Ou parecia.

— Você não tem culpa nenhuma. — Ela completou. — De verdade.

Assenti, aliviado demais para questionar. Ela se aninhou no meu peito, encaixando o corpo como sempre fazia quando queria que eu relaxasse. Seu cheiro, o calor da pele… aquilo bastava.

O sono veio rápido. Leve. Bom.

Não sei quanto tempo passou até o barulho da porta me arrancar daquele meio-sono confortável. Abri os olhos com dificuldade e vi Mariana entrando no quarto, ajeitando o baby doll no corpo.

— Onde você estava? — Perguntei, ainda grogue.

— Fui ao banheiro. — Ela respondeu sem hesitar. — E beber água.

Aproximou-se da cama, sorrindo, como se lembrasse de algo engraçado.

— Acho que a noite dos dois lá na sala foi animada. — Ela comentou. — A calcinha da Lívia tá pendurada no ventilador de teto, rodando.

Ela riu baixinho, divertida e se deitou de novo ao meu lado, encaixando-se em mim, como se nunca tivesse saído dali. Em poucos segundos, a respiração dela ficou lenta, profunda.

Fiquei acordado mais um pouco, encarando o escuro. Talvez fosse verdade. Talvez não significasse nada. Ou talvez… eu estivesse começando a ignorar sinais que, um dia, cobrariam seu preço.

Continua…

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Comentários

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Delicioso esse conto vai ser um dos bons

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Esse vai ter a mesma pegada das minhas séries mais lidas, como "Doce Vingança".

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Nota 10, gostei bastante do primeiro capítulo e a história promete.

Vai ser semanal esse conto ?

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