A saga do Jom | 9º capítulo (A névoa misteriosa)

Um conto erótico de Sarawat
Categoria: Gay
Contém 3700 palavras
Data: 13/01/2026 12:16:38
Última revisão: 26/01/2026 12:12:28

— Jom! Jom, o que houve?

A voz veio acompanhada de braços que agarraram meu corpo, impedindo-me de pular. Era Khun-Yai. Ele me olhava com preocupação, apertando o abraço ao meu redor.

— O que aconteceu? Ouvi você gritando e parecia que estava prestes a pular daqui.

Desviei meu olhar para o mesmo ponto e engoli o amargor na garganta ao ver apenas o gramado pacífico lá embaixo. Nenhum traço do que eu acabara de presenciar. Tan, os construtores e o galho quebrado haviam sumido, como se fossem meras ilusões. Eu tremia, sem saber se sentia medo, raiva ou tristeza. Apontei para onde Tan estava momentos antes.

— Agora mesmo... o senhor viu algo no gramado?

— Vi neblina.

— Só isso?

Não faço ideia de como minha voz soou. Eu nem percebi que minha mão estava tremendo até que Khun-Yai a alcançou e abaixou meu dedo estendido.

— Sua mão está gelada. Vamos para dentro. Está úmido aqui fora, você vai ficar doente.

Khun-Yai afrouxou o abraço, mas manteve uma das mãos firme no meu braço enquanto me conduzia para dentro. Caminhei arrastando os pés, distraído. O que tinha sido aquilo? O espaço-tempo se torceu e formou uma passagem conectando o passado e o futuro novamente? Por que não me levou de volta? Assim que nos acomodamos na mesa adornada com madrepérola no salão, Khun-Yai perguntou:

— Quem é Tan?

Levantei os olhos para ele instantaneamente, tentando disfarçar com outra pergunta.

— Khun-Yai... ouviu?

— Você gritou tão alto. É claro que ouvi.

— Eu… — hesitei, sem desculpas. — Eu provavelmente estava sonhando e... sonambulando.

Baixei o olhar, meu coração ainda acelerado. Não é fácil se recompor após um incidente daqueles. Olhei de relance para Khun-Yai; seus olhos solenes diziam que ele não estava convencido.

— Você costuma ter episódios de sonambulismo?

Por um segundo, quis contar tudo a ele. Queria que ele soubesse para que pudesse me ajudar a lidar com isso. Meus lábios se abriram, mas nenhuma palavra saiu. Eu não podia dizer nada. Como ele poderia entender a situação se nem eu mesmo a compreendia? Minha hesitação arrancou um suspiro suave de Khun-Yai.

— Não importa. Descanse hoje. Você pode me servir mais tarde, quando se sentir melhor.

— Não, eu não estou doente,— objetei. — Estou bem. Fiquei assim porque dormi demais. Vou buscar uma jarra e um pano para o senhor agora mesmo.

Khun-Yai me olhou em silêncio. Eu só pude implorar em voz baixa:

— Por favor... Khun-Yai.

No fim, ele permitiu que eu fizesse meu trabalho, embora eu me sentisse agitado. Minha mente divagava sobre o ocorrido e eu perdia o foco, mas me forçava a manter o controle, sabendo que Khun-Yai me vigiava.

Como era fim de semana, não havia aula com o professor estrangeiro. Khun-Yai costumava passar o tempo no escritório com o Luang (seu pai) antes do meio-dia, a menos que tivessem visitas, como hoje. Preparei as roupas de Khun-Yai conforme ele ordenou e o ajudei com detalhes triviais enquanto ele se vestia. Quando ele saiu da "casa pequena", soltei um suspiro de alívio por não precisar mais fingir que estava tudo bem na frente dele.

Aproveitei que Khun-Yai estava ausente e que Kesorn, a empregada, estava limpando a casa para explorar o gramado. A neblina matinal sumira, deixando apenas a luz pálida do sol e um frescor no ar. Caminhei pela grama úmida na esperança de encontrar qualquer rastro do que parecia estar ali ao amanhecer. Talvez aquela pequena fonte de neblina fosse a passagem para a minha era, e talvez estivesse esperando para abrir de novo. Cheguei a desejar tropeçar em um pedaço de papel com a letra de Tan. No fim, minha esperança não foi diferente dos redemoinhos de névoa sumindo sob o sol.

Kesorn voltou para a casa principal após terminar a limpeza. A casa pequena ficou silenciosa. Fiquei sozinho na mesa de Khun-Yai, organizando as coisas sem rumo, encorajando-me a não perder a esperança tão fácil. Talvez a fenda no tempo ocorresse de novo no mesmo lugar amanhã. Desta vez, eu teria que pular antes que tudo desaparecesse.

Ouvi um clique quando, distraidamente, esbarrei minha mão no relógio de bolso de Khun-Yai que estava sobre um livro. Ele deslizou para a superfície de madeira escura da mesa. Eu o peguei. Era um relógio de corda com mostrador de porcelana adornado com sete rubis e algarismos romanos. A marca "Elgin" estava impressa visivelmente. Não pude evitar sorrir ao passar os dedos pela corrente dourada.

Sem este relógio, eu não teria tido motivos para visitar Khun-Yai, e ele não teria tido a história da minha boa ação para contar à Khun-Kae para convencê-la a me acolher. Se eu desaparecer e voltar para o meu mundo, Khun-Yai ficará inquieto e me procurará? Com certeza. Uma pessoa sumir assim... como alguém poderia ficar tranquilo? Eles poderiam me procurar urgentemente temendo um assassinato. Por um segundo, pensei que Khun-Yai não me procuraria com o mesmo sentimento que os outros.

Havia algo especial em seus olhos. Poderia ser bondade ou adoração, e sempre surgia toda vez que ele me olhava. Eu não queria simplesmente desaparecer e deixá-lo preocupado. Se o mundo do passado onde estou é cheio de obstáculos e sofrimento por eu estar deslocado, Khun-Yai é a única coisa que me traz alegria e calor. Sinto que há sorte em meio aos infortúnios.

Gosto muito dele, honestamente. Se eu voltar para o meu mundo, certamente sentirei sua falta. Passei os dedos até o fim da corrente e me surpreendi com um pequeno clipe preso na ponta. Analisei-o, virando-o. O clipe estava em boas condições e tinha uma trava firme para prender no tecido e evitar que o relógio caísse. Como o relógio caiu do bolso de Khun-Yai, então? Parei e pensei por um tempo. Não era complicado: apenas um pequeno acidente inesperado. No entanto, quando lembrei da expressão facial de Khun-Yai — que ocasionalmente não era tão inocente e reservada quanto a que ele exibia diante dos mais velhos —, meu peito sentiu um formigamento. Tudo bem. Quando Khun-Yai voltar, eu vou sondá-lo.

O ar fresco e o som das folhas balançando me trouxeram preguiça. Demoraria um pouco até Khun-Yai voltar. Não precisava correr para a cozinha. Alonguei os braços antes de deitar a cabeça sobre a mesa. O perfume do jasmim-laranja que crescia perto da escada enchia o ar, tão refrescante que fechei os olhos em um estado de sonho.

E então, dei um pulo com uma voz familiar por perto.

— Quem é você? Por que está dormindo na casa do Yai?

Sentei-me ereto imediatamente. A voz aguda pertencia a um garotinho de uns nove ou dez anos. Ele era magricela e de pele clara, com olhos grandes e expressivos, segurando uma lousa de ardósia sob o braço. Recuei rapidamente. Pelo modo como falava, percebi na hora que ele tinha autoridade ali. Seu tom não era rude, mas firme e claro.

Antes que eu respondesse, uma voz feminina interveio.

— Ugh... Khun-Lek. Como você corre tão rápido? Um segundo e já está aqui. —Uma serva subiu as escadas, ofegante. — Khun-Kae disse para não incomodar o Khun-Yai estudando.

— Yai não está estudando. Está na casa grande com o Papai,— ele argumentou, então me perguntou de novo: — Quem é você? Qual o seu nome?

— Eu sou Jom, o mordomo do Khun-Yai — respondi.

"Khun-Lek" assentiu enquanto eu observava seu rosto. Aquele garotinho era, inquestionavelmente, irmão do Khun-Yai. Tinha a mesmíssima estrutura facial e postura, como uma versão em miniatura dele, mas com o rosto mais delicado. Seus olhos, contudo, mostravam tanta inteligência quanto os do irmão mais velho. Mais importante: seus modos eram de fato de um filho de família nobre. É por isso que dizem que a nobreza é um traço que se possui desde o nascimento.

— Eu não estou brincando. Vim aqui para pedir que o Yai me ensine a desenhar — ele diz, sentando-se à mesa de Khun-Yai e colocando a lousa de ardósia sobre ela. — Você pode me ensinar no lugar dele, Prik? Você sabe desenhar um "avião"?

— Oh... o que é um "avião"? Eu não sei o que é isso. Desde que você entrou na escola estrangeira, tem me confundido com essas palavras de fora — a babá reclama. — Se você ficar brincando aqui, vai levar uma bronca do Khun-Yai.

— O Yai vai me dar bronca? Isso é impossível. Seria mais provável se fosse a Mamãe ou a Prim. Prik, traga meu lanche. Vou comer arroz crocante enquanto espero pelo Yai nesta casa.

Ordenada pelo pequeno mestre, a babá franze a testa em irritação e responde com um tom sarcástico:

— Sim, senhor...

Depois que a babá sai, Khun-Lek começa a rabiscar na lousa. Espio de relance e o vejo desenhando um homem com um uniforme de soldado, tentando desenhar algo acima dele. Ele desenha e apaga repetidamente. Suas sobrancelhas estão tão franzidas que não consigo evitar perguntar:

— O que você está desenhando, Khun-Lek?

— Um avião — Khun-Lek responde. — O professor mandou desenhar a profissão dos nossos sonhos. Eu quero ser um "piloto" e voar em um avião. Oh... você sabe o que é isso? A escola não ensina no dialeto do norte. O Princaroy's College é uma escola cristã. Eles ensinam em tailandês e inglês.

Eu sorrio. O Prince Royal's College, que Khun-Lek chama de "Princaroy", existe até a minha era. Sempre que eu passava por lá de carro, conseguia avistar a igreja branca com seu marcante telhado azul na propriedade. Para registro, a escola foi confiscada pelo governo durante a Segunda Guerra Mundial e devolvida após o fim do conflito.

— Posso tentar? Talvez o Khun-Lek goste — digo. Ao vê-lo desenhar, apagar e suspirar várias vezes, sinto pena.

— Você sabe desenhar?

— Sei. — Agora que ofereci ajuda, percebo... Merda, como eram os aviões nesta era? Eles já têm transporte aéreo comercial? Ou só existem aeronaves militares? Tarde demais para voltar atrás.

Khun-Lek me entrega a lousa com aqueles olhos grandes, redondos e pretos como jabuticaba. Ha... eles com certeza são irmãos. Nunca consigo dizer não para eles. Tento esboçar a estrutura de algo semelhante a um avião moderno, mas com um aspecto mais antigo, e olho para cima. Khun-Lek franze a testa. Apago rapidamente e desenho o contorno de outro. Desta vez, um bombardeiro.

— É este aqui? — viro a lousa para ele.

— Parece diferente do que eu quero.

Ranger de dentes... Hmph! Tem que ser mais clássico, hein? Penso em fotos antigas e pondero se desenho o Bréguet com dois pares de asas ou o Nieuport com um conjunto de asas. Decido ir com a primeira opção.

O rosto de Khun-Lek se ilumina instantaneamente.

— Desenhe uma bandeira nacional na cauda.

Sorrio e adiciono a bandeira como pedido. Khun-Lek adora. Ele pega a lousa e admira o desenho com um sorriso largo.

— Vou desenhar uma pessoa no avião. Como ele vai voar sem um piloto?

— Vamos fazer isso — eu o apoio.

— Pelos céus, Lek. Você está brincando aqui? — A voz de Khun-Yai soa da varanda, e Khun-Lek e eu viramos a cabeça ao mesmo tempo.

— Yai! — Khun-Lek resplandece, mostrando os dentes de baixo com um buraquinho de um dente faltando. — Eu estava esperando você para me ensinar a desenhar.

Khun-Yai olha para nós e esboça um pequeno sorriso.

— Você está sorrindo agora? — Leva um minuto para eu perceber que ele estava falando comigo, não com Khun-Lek. Eu estava tão absorto ajudando o menino que esqueci o incidente da manhã por um momento.

Esqueci o que tinha feito com o Khun-Yai. Ele deve ter ficado chocado ao ver que eu quase me joguei da varanda sonâmbulo. Ele também teve que lidar com o meu pânico logo depois... Ugh, será que ele vai achar que tem algo errado com o meu cérebro? Faço um sorriso sem graça e respondo:

— Sim.

Khun-Yai não diz mais nada e se junta a Khun-Lek na mesa.

— Deixe-me ver. O que você está desenhando?

Khun-Lek desliza a lousa para exibir sua arte.

— Um avião. O professor disse para desenhar a profissão dos nossos sonhos. Eu desenhei nuvens e um piloto. O Nai-Jom desenhou o avião para mim.

Khun-Yai me observa, e eu respondo com um sorriso.

— Eu quero voar em um avião, ser piloto — a voz de Khun-Lek soa insegura. — Você acha que eu consigo?

Khun-Yai afaga a cabeça do irmão com carinho.

— Com certeza.

— Dizem que eu tenho que aprender a voar na França, como o Phraya Chalermakart.

Observando os dois irmãos conversando, não consigo evitar pensar na minha irmã. Como estará a patroa Ueang Phueng? Ela deve estar bem avançada na gravidez, caminhando pesadamente com servos a apoiando. Será que o Sr. Robert está cuidando bem dela? Deve estar. Há algo de bom sob sua frieza: ele parece amar e se importar profundamente com ela.

Khun-Yai e Khun-Lek continuam conversando como os irmãos que são. Peço licença e saio da casa pequena para checar o almoço na cozinha. Apesar de saber que a neblina se foi, meus olhos percorrem o gramado enquanto passo.

À noite, enquanto solto as cortinas das argolas de latão da cama de dossel, Khun-Yai diz:

— Conte-me sobre o seu sonho de ontem à noite.

Eu paraliso e finjo alisar as cortinas.

— Não foi nada. Apenas um sonho bobo.

— Conte-me. Eu decidirei se foi bobo ou não.

Desvio o olhar para a esquerda e para a direita, sem saber o que dizer. Sonho, uma ova. Foi real. Se eu tivesse que dizer que algo é um sonho, minha situação atual seria o melhor exemplo. Um sonho do qual não faço ideia de como acordar.

Mas eu preciso dar uma resposta a ele.

— Às vezes eu sonhava com este lugar estranho. Era... ah, uma cidade que não existe nesta era. As pessoas, os objetos e os prédios eram diferentes de agora, e eu vivia lá. Era indescritível. Não consigo lembrar dos detalhes. Foquei nas minhas tarefas hoje e esqueci.

Khun-Yai permanece em silêncio, provavelmente sabendo que não conseguirá arrancar mais nada de mim além disso.

— Por que você não dorme no meu quarto?

— Hein? — Minha boca se abre. — Por quê?

— Se você for sonâmbulo, eu vou segurar você. Não deixarei você chegar perto da varanda.

— Oh, Khun-Yai, por favor, não se sobrecarregue. Eu sou seu servo. Como posso ficar deitado no seu quarto? É inapropriado.

O problema é: não tenho medo de ficar tão excitado a ponto de tentar algo com ele algum dia se dormir perto de um homem tão bonito. Tenho medo é de que ele descubra que estou tentando sorrateiramente encontrar um caminho de volta para o meu mundo. Além disso, não sou uma criança de cinco anos. Não preciso de uma babá me vigiando.

— Inapropriado? — Khun-Yai abafa um riso. — Eu não estou mandando você dormir na minha cama. Está com medo de que eu peça para você coçar minhas costas a noite toda?

— Eu posso coçar suas costas agora mesmo. Não preciso dormir aqui. Não vou ser sonâmbulo de novo.

Khun-Yai me encara, e eu respondo com uma cara inocente.

— O senhor quer que eu apague a luz agora?

— Eu farei isso.

— Então... vou dormir — digo, querendo sair disparado dali.

Ser encarado diretamente por Khun-Yai assim me deixa todo arrepiado. Assim que cruzo o batente da porta, ouço Khun-Yai falar:

— Se você for sonâmbulo de novo, dormirá no meu quarto.

Eu giro o corpo e abro a boca para falar, mas a luz se apaga. Fica subentendido que a frase anterior foi uma ordem, não uma sugestão.

No dia seguinte, acordo antes do amanhecer. Levanto, vou na ponta dos pés até a janela e a abro. O ar está fresco como nos dias anteriores. A neblina paira sobre as árvores e a grama, embaçando tudo. A atmosfera é de um cinza gélido. Empurro a porta suavemente, tentando não fazer barulho, e saio para a varanda congelante. Meu coração dispara quando chego ao parapeito e lanço meu olhar para baixo. A neblina toma conta de cada centímetro do gramado. Vou em direção à escada e espreito através da brancura para ver se as tábuas mudam para madeira apodrecida. Para minha decepção, elas parecem normais.

Desço as escadas correndo e vou para o centro do gramado. Olho para todos os lados, sem saber para que direção ir. Meu coração dói de desânimo ao descobrir que não há nada do que eu esperava. A névoa matinal me envolve. Uma névoa normal, sem passagens para qualquer outro mundo. Ainda estou em 1928 (B.EDominado pela raiva acumulada, começo a berrar palavrões sem me conter. Xingo a teoria da relatividade, o buraco negro e o buraco de minhoca. Sei que isso não é superstição. Ninguém me enviou para cá com magia negra. Mas a ciência não está ajudando em nada. O espaço-tempo é irresponsável pra caramba!

Grito até perder as energias e acabo ofegante no gramado. Fico parado ali por um tempo, absorvendo a decepção, suportando a indignação, e marcho de volta para a casa pequena.

— Ai!

Meu rosto colide com algo firme, fazendo-me perder o equilíbrio. Antes que eu caia de bunda no chão, meu braço é agarrado por algo que me mantém no lugar. Fico parado, confuso, aguentando a dor no nariz e semicerrando os olhos para a figura sombria de alguém mais alto que eu. Antes que eu diga uma palavra, a pessoa fala primeiro. A voz é familiar, e as palavras me causam mais calafrios na pele do que o ar gelado.

— Você está sonambulando de novo, Poh-Jom?

O momento seguinte mostra a maior tentativa da minha vida de colocar minhas habilidades de mentira em prática. É um desastre. Consigo inventar desculpas esfarrapadas para o buraco de minhoca e o buraco negro e até o convenço, descaradamente. Pelo menos, os nomes soam como animais ou coisas da natureza. A pior parte é:

— Eu quero saber sobre a tal "teoria da relatividade".

Contorço o rosto, com vontade de chorar.

— Não. É... é uma atividade. Eu estava tentando encontrar uma atividade para fazer.

Khun-Yai me encara intensamente. Baixo o queixo e admito em voz baixa:

— É, eu estava sonambulando.

Ainda bem que Khun-Yai acompanha Khun-Kae para fazer oferendas no templo hoje e tem negócios em outro lugar depois disso. Ele ainda não tem tempo para me interrogar mais. Passo a maior parte do tempo ajudando o jardineiro a cuidar dos vasos de plantas perto da casa pequena e da varanda.

No final da tarde, uma pequena figura aparece na escada com sua babá e pedaços de papel na mão.

— Nai-Jom, eu quero desenhar.

E assim, Khun-Lek, Prik e eu nos acomodamos sob a grande amendoeira no jardim para desenhar, conforme o desejo de Khun-Lek. Ao dizer que quer desenhar, Khun-Lek quer dizer que eu serei o responsável pelo desenho, e ele me dirá o que quer que eu retrate. Hoje desenho no papel, não na lousa, porque os desenhos na lousa precisam ser apagados. É uma pena.

Encosto as costas no tronco da árvore, à sombra das folhas da amendoeira. Khun-Lek rola na esteira estendida sobre a grama, observando-me desenhar enquanto mastiga seus lanches. A área é bem longe da casa pequena, com o jardim amplo e sombreado se estendendo diante de nós.

— Você quer que eu adicione um cervo no jardim? Não há cervos neste lugar — aponto, quando ele pede para eu desenhar um cervo ao lado de alguns faisões que ciscam insetos no jardim.

— Eu gosto de cervos por causa dos chifres longos. Você não consegue desenhar?

— Claro que consigo.

Apenas um cervo. Por que eu não seria capaz de fazer isso pelo Khun-Lek? O menino inclina a cabeça quando termino.

— Você é um mordomo. Como pode ser tão bom em desenho?

Eu era arquiteto e tirava notas máximas em desenho e esboço de projeto. Não digo isso a ele. Em vez disso, sorrio e pergunto: — Quer que eu desenhe um gato andando na varanda lá adiante?

— Desenhe! Desenhe a casa do Yai também. Faça o gato andar no parapeito.

Digo rindo: — Se eu tiver que desenhar a casa, vai demorar.

— Pode demorar. Eu vou comendo meus lanches enquanto espero.

Decido desenhar em uma folha nova, porque a atual está cheia de todo tipo de animal. Não há espaço para algo grande. Mudo de posição para encontrar o ângulo certo e começo a esboçar. Deste ângulo, consigo ver o jardim espaçoso e os caminhos que levam à casa de teca preta de Khun-Yai. Uma paisagem com uma composição belíssima.

Vou contornando lentamente a casa pequena, sentindo-me estranhamente contente enquanto desenho. Isso é o mais próximo de quem eu realmente sou. Para alguém com uma carreira que vive do outro lado do tempo, cada linha desenhada traz uma onda estranha de alegria. Até Khun-Lek observa em silêncio, sem pedir para adicionar isso ou aquilo como antes.

— Quer que eu desenhe folhas voando, Khun-Lek?

— Sim, muitas delas. E o esquilo. Eu o vejo correndo nas árvores todos os dias.

— Quer um esquilo também?

— Tem que ter um — Khun-Lek confirma seriamente.

Adiciono o esquilo como ele deseja. É um emaranhado de linhas no galho da árvore, mas Khun-Lek parece satisfeito. Não esqueço de adicionar pássaros voando ao longe no céu e os redemoinhos de vento, acreditando que isso dá vida à imagem, como se estivesse se movendo.

Assim que termino, Khun-Lek pega o desenho e me elogia, encantado por eu ter desenhado tudo o que ele queria em uma única folha. Mas então, eu paraliso quando algo surge em minha mente.

Encaro a imagem nas mãos de Khun-Lek. É apenas um pedaço de papel com linhas de grafite ilustrando uma história, mas o que estou vendo agora é muito mais do que isso. Os detalhes no desenho, tudo criado por minha própria mão sob meu ponto de vista, e o sentimento enquanto eu desenhava... tudo pertence à singularidade de alguém.

Eu já vi este desenho antes. Meus pelos se arrepiam. Este é um dos vários desenhos guardados nos grandes baús que ordenei que os construtores do Tan levassem para a casa pequena quando eu era o arquiteto reformando este lugar. Tanto os desenhos delicados quanto os esboços brutos estavam emoldurados e embrulhados em panos, protegidos em baús trancados, nunca transferidos para lugar nenhum até que eu os encontrasse.

Minha mão segurando o lápis treme. Agora eu sei por que os esboços são tão familiares. Eu acho que cada desenho nos baús que vi naquele dia... foi desenhado por mim.

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