Oiii pessoal, segue o terceiro capítulo, espero que gostem ;)
Ponto de vista do Luan:
Eu tenho 33 anos.
Às vezes isso pesa mais do que deveria. Não porque eu me sinta velho — mas porque, aos 33, todo mundo parece esperar que você já tenha se resolvido. Que saiba quem é, o que quer, para onde vai.
Eu não sei.
Sou agrônomo. Trabalho com terra, com plantio, com ciclos que se repetem. Gosto de acordar cedo, sentir o cheiro de mato molhado, observar o jeito que uma lavoura muda de cor com o passar das semanas. Tem algo de honesto nisso. A terra não finge.
Nos fins de semana, quando posso, vou para o interior. Ajudo em sítios, cuido de horta, fico em silêncio. Mas também existe outro lado meu — o que gosta de bar cheio, de música alta, de cerveja gelada e risada solta. Eu gosto de estar com meus amigos, de beber, de me perder um pouco no meio da noite, fingindo que nada me atravessa.
Talvez seja por isso que eu funcione tão bem nos dois extremos: o campo e o caos.
A confusão é o que eu sou por dentro.
Eu descobri que gostava de homens cedo demais para alguém que cresceu onde eu cresci. Não teve um momento dramático — só aquele reconhecimento silencioso quando o olhar fica preso em quem não devia. Quando o corpo responde antes da mente.
Eu tentei ignorar. Tentei gostar de mulheres. Tentei me convencer de que era só curiosidade, só fase, só falta de experiência.
Mas nunca foi.
Nunca foi sobre não gostar de mulheres.
Sempre foi sobre querer homens.
Eu me apaixonei escondido, desejei em segredo, vivi tudo pela metade. Beijos roubados, encontros rápidos, mensagens apagadas. Uma vida inteira de “quase”.
E toda vez que pensei em dizer em voz alta, vinha o mesmo medo: o de virar outra pessoa aos olhos dos meus pais. O filho que eles não reconheceriam mais.
Então eu aprendi a ser discreto. A não levantar suspeitas. A me mover pelo mundo como se fosse neutro.
Eu não sei em que momento eu comecei a dirigir rápido demais.
Talvez tenha sido quando vi o Rafa ficando menor pelo retrovisor. Ou quando percebi que aquela noite não tinha acabado de verdade — ela só tinha mudado de lugar, de dentro do carro pra dentro de mim.
Eu já estive com outros caras. Já gostei, já quis, já fui embora.
Mas com ele foi diferente porque ele não me pediu nada absurdo.
E isso é justamente o que mais me assusta.
Ser assumido não é só dizer “sou gay”.
É ver quem fica.
É descobrir quem vai embora.
Eu passei anos construindo uma versão de mim que cabia em todo lugar. O cara tranquilo, o amigo de todo mundo, o que ninguém questiona demais. E o Rafa… o Rafa entra nessa história como uma pergunta que não me deixa em paz: quem eu seria se parasse de me esconder?
Eu gosto dele. Droga, eu gosto de um cara que conheci recentemente em app de relacionamento.
Mas gostar significa risco.
E eu nunca fui bom com quedas.
O volante estava firme nas minhas mãos, mas por dentro eu tremia. Porque, pela primeira vez em muito tempo, alguém tinha encostado exatamente no lugar que eu passo a vida inteira tentando proteger.
E o pior de tudo?
Uma parte de mim não queria fugir.
Queria ficar.
Eu parei num sinal vermelho e fiquei olhando a luz refletir no capô do carro, como se aquilo fosse capaz de me dar alguma resposta.
Meu celular estava no banco do passageiro. Eu não queria pegar, mas também não queria deixar ali, como se ignorar fosse mais fácil do que encarar. Parte de mim esperava uma mensagem do Rafa. Outra parte torcia pra não vir nada — porque responder significava continuar.
E continuar significava sentir.
Eu pensei no jeito que ele me olhou quando falou que não queria ser um segredo. Não foi cobrança. Foi vulnerabilidade. E isso pesa mais do que qualquer exigência.
As pessoas acham que o problema de não ser assumido é vergonha. Mas quase nunca é isso.
É memória.
É lembrar do amigo que se afastou.
Da piada que virou ofensa.
Do silêncio que aparece depois que você diz em voz alta quem é.
Eu já perdi coisas demais por ser honesto.
Quando cheguei na porta da casa dos meus pais, fiquei alguns segundos dentro do carro, sem desligar o motor. O coração ainda batia rápido, como se eu tivesse corrido.
Eu queria entrar, apagar aquela noite.
Mas eu também queria guardar tudo: o cheiro dele, o jeito que ele falou meu nome, o cuidado que ele teve quando eu passei do limite.
Rafa não tinha me pedido coragem.
Só presença.
E isso era o mais difícil de dar.
Respirei fundo, desliguei o carro e peguei o celular.
Nenhuma mensagem.
Talvez isso fosse um alívio.
Talvez fosse só o começo da saudade.
Eu ainda não sabia.
Mas sabia de uma coisa:
eu não ia conseguir fingir que nada tinha acontecido.
Porque alguma coisa em mim…
já tinha ido com ele.
Quando entrei na casa dos meus pais, o céu ainda estava azul-escuro, aquela cor de começo de noite. A casa estava acesa, com a TV ligada na sala e o cheiro de comida no ar.
Meu pai estava sentado no sofá, assistindo ao jornal. Minha mãe dobrava panos no quarto de hóspedes.
— Oi — eu disse, tentando soar normal.
— Se atrasou hoje — meu pai comentou, sem tirar os olhos da tela.
— É… eu fiquei preso no trânsito.
Minha mãe levantou o olhar.
— Você não avisou.
— Foi meio em cima da hora — dei de ombros. — O sinal tava péssimo.
Ela me observou por um segundo a mais do que o confortável.
— Você anda se atrasando demais.
— Um pouco.
Meu pai finalmente me olhou.
— Tá trabalhando demais ou se distraindo demais?
A pergunta parecia leve, mas não era.
Eu forcei um meio sorriso.
— Um pouco dos dois, talvez.
Para não deixar o silêncio crescer, apontei para a TV.
— É aquele caso lá de Brasília?
Os olhos do meu pai se iluminaram do jeito previsível.
— É. Uma bagunça. Você viu o absurdo que foi hoje?
E ele começou a falar, gesticulando, envolvido no assunto. Eu me encostei no batente da porta, fingindo interesse, enquanto por dentro meu peito ainda estava acelerado por outro motivo.
Minha mãe continuou dobrando as roupas, mas eu sentia o olhar dela indo e voltando em mim, como se estivesse tentando encaixar alguma peça fora do lugar.
Eu tinha conseguido mudar o assunto.
Mas não o que estava crescendo dentro de mim.
Saí da casa dos meus pais com aquela sensação antiga de ter passado por um lugar onde eu nunca cabi inteiro. O portão fechou atrás de mim com um som seco, e o ar da rua pareceu mais leve do que o da sala de estar.
Entrei no carro e fiquei alguns segundos parado, olhando o reflexo do meu rosto no retrovisor. Trinta e três anos. Um emprego estável. Uma vida organizada por fora… e um caos silencioso por dentro.
O celular vibrou.
Grupo – Quinta do Caos
“Bora bar hoje?”
“Cervejada sem hora para acabar”
“Sumido!”
Eu sorri sem vontade.
Era fácil dizer sim. Sempre foi. Beber, rir, esquecer. Fingir que tudo estava sob controle.
Mas naquela noite, eu não queria esquecer.
“Hoje não, galera. Tô cansado. Outra hora.”
Guardei o celular antes que alguém insistisse.
Dirigi até meu apartamento, aquele lugar que era só meu — e que às vezes parecia grande demais para uma pessoa só. Subi, destranquei a porta, entrei no silêncio.
Ali, ninguém me observava.
Ninguém esperava nada.
Joguei as chaves na mesa, tirei o sapato, me joguei no sofá.
E, sem nem perceber, peguei o celular de novo.
A conversa com o Rafa ainda estava lá.
Sem mensagens novas.
Fiquei olhando o nome dele na tela, com uma vontade quase dolorida de escrever alguma coisa. Qualquer coisa.
Mas ainda não tive coragem.
Porque, pela primeira vez em muito tempo,
eu não estava fugindo para o bar…
eu estava ficando.
E isso significava que o que eu sentia por ele
era real demais para ser tratado como distração.
Entrei no chuveiro e a imagem do Rafa invadiu minha mente como um flash inevitável. Aquela bunda perfeita, redonda, firme — eu via cada curva dele com uma clareza cruel. Queria aquele corpo inteiro, queria sentir ele por dentro, quente, apertado, se abrindo só pra mim.
O tesão subiu rápido, forte, latejando no meu pau já duro só de pensar nele. Dessa vez não ia parar no meio. Ia até o fim. Fechei os olhos, deixei a água quente escorrer pelo meu peito, pelos meus ombros, e comecei a me tocar devagar, um vai e vem ritmado, gostoso, a mão deslizando com calma no pau inchado.
Imaginava aquela boca macia me chupando, aquela língua rodando na cabeça, descendo até a base. Imaginava o corpo dele suado, colado no meu, a bunda empinada enquanto eu lambia cada centímetro — do pescoço até o vão entre as coxas, passando a língua devagar no cuzinho, sentindo ele tremer, gemer baixinho.
A água caía forte nas minhas costas, o vapor enchia o banheiro, e eu acelerava a mão, apertando mais, imaginando que era ele ali comigo, que era dentro dele que eu estava gozando. Gozei forte, jatos quentes se misturando com a água, o corpo todo tremendo. Mas não era só alívio físico — era algo mais fundo, uma vontade absurda de ter ele ali de verdade, de fazer ele gozar junto, de ouvir ele gemer meu nome enquanto se desfaz todo nos meus braços.
Meu Deus, como eu quero isso.
Saí do banho ainda zonzo, o corpo leve, a cabeça cheia dele. Fui pra cozinha pegar qualquer coisa pra comer, mas o pensamento não saía: Rafa, Rafa, Rafa. Pela primeira vez em muito tempo, eu estava começando a gostar de alguém de verdade. E isso me assustava tanto quanto me deixava louco de tesão.
Ponto de vista Rafael.
Fiquei ali, encarando a tela, após a mensagem que enviei a Luan.
Rafael: Oiii :) espero que tenha chegado bem e queria dizer que gostei do nosso rolê.
imaginando mil respostas diferentes que ele poderia me mandar. Cada notificação que chegava fazia meu coração dar um salto — e nenhuma era dele. Suspirei, frustrado comigo mesmo por estar tão vulnerável.
“Droga, por que ele tem que ser tão… perfeito?”, murmurei para mim mesmo.
No fundo, sabia que estava me perdendo em pensamentos que não devia. Mas ao mesmo tempo… parte de mim não queria parar. Queria sentir aquela intensidade de novo, mesmo que soubesse que podia me machucar.
Peguei o celular de novo, quase sem perceber, hesitando entre mandar outra mensagem ou simplesmente esperar. Meu dedo pairava sobre a tela, e uma onda de ansiedade percorreu meu corpo. Não sabia se queria a resposta dele agora… ou se tinha medo demais de recebê-la.
O silêncio quase gritando ao meu redor, e cada pensamento sobre Luan parecia ocupar todo o espaço da minha mente. Tentei me convencer de que era só atração, que sentimentos mais profundos eram impossíveis depois de tão pouco tempo… mas meu corpo não colaborava. Cada lembrança do toque dele, do cheiro, do jeito como ele me olhava, me deixava inquieto e faminto por mais.
“Isso não faz sentido”, eu murmurava para mim mesmo, virando de um lado para o outro na cama.
“Ele é… complicado. Eu não posso… não devo me envolver assim.”
Mas então eu lembrava do sorriso dele, daqueles segundos que pareciam intermináveis, e de repente todas as barreiras que eu tentava erguer desmoronavam. Meu coração acelerava só de imaginar que ele poderia estar pensando em mim da mesma forma.
E, no fundo, eu sabia: não era só desejo. Era mais do que isso. Era uma sensação de… pertencimento? De querer estar perto, mesmo sabendo que podia me magoar. E isso me assustava. Assustava porque significava abrir a porta para algo que eu não tinha controle — e perder o chão parecia inevitável.
Suspirei, sentindo uma mistura de ansiedade e antecipação que me deixava tonto. Eu queria lutar contra isso, queria racionalizar, mas cada tentativa era inútil. Luan tinha invadido minha mente de um jeito que eu não sabia como expulsar.
E o mais cruel? Eu não queria expulsar.
O celular vibrou. Meu coração deu um salto — era ele.
Luan: “Oi… só queria dizer que também gostei do nosso encontro no pôr do sol. Foi especial. ”
Senti um calor no peito. Especial. A palavra dele parecia tocar algo que eu não sabia nomear.
Rafael: Foi tranquilo, bonito. E estar com você… fez tudo parecer mais leve.”
Luan: “Eu sei que às vezes passei do limite… e queria me desculpar por ter tentado avançar antes. Não queria te deixar desconfortável.”
Meu peito apertou de um jeito bom e estranho. A forma como ele se preocupava comigo me fazia sentir cuidado e valorizado, algo que eu não estava acostumado.
Rafael: “Não ficou desconfortável… só me pegou de surpresa. Mas eu agradeço por você se preocupar comigo.”
Luan: “Quero que a gente faça as coisas no seu tempo. Gosto de você, Rafael, e isso é mais importante do que qualquer pressa.”
Sorri, sentindo uma mistura de alívio e carinho. Era bom saber que ele também se importava, que queria estar perto sem me pressionar.
Eu: “Então… podemos repetir aquele pôr do sol algum dia? Só a gente, sem pressa?”
Luan: “Com certeza. E da próxima vez a gente só curte o momento… sem pressa, sem nada além disso. Prometo.”
Fiquei olhando para a tela, sentindo meu coração leve, e por um instante, parecia que tudo estava exatamente onde deveria estar.
Depois daquelas primeiras mensagens, a conversa foi se desenrolando de um jeito quase mágico. Falavam de tudo e nada ao mesmo tempo: das músicas que cada um gostava, das comidas que não conseguiam resistir, de séries que tinham maratonado sem querer. Era leve, natural, como se cada mensagem fosse construindo um pedacinho do que poderia ser aquele vínculo.
Luan se mostrava engraçado sem esforço. Contava histórias pequenas, fazia piadas bobas sobre coisas do dia a dia, e eu não conseguia segurar o riso. Por mais que tentasse me concentrar, acabava imaginando ele rindo enquanto digitava, e isso só me deixava mais ligado àquelas mensagens.
Descobri que ele adorava comida japonesa, mas tinha pavor de abacate. Que quando estava triste, colocava uma playlist aleatória de músicas antigas, mesmo sem entender a letra. Que era capaz de passar horas falando de filmes de ação e depois rir sozinho de algum detalhe bobo que só ele tinha percebido.
E eu… eu percebia que cada risada minha vinha com uma mistura de surpresa e prazer. Era simples, mas intenso. Aquela conexão era diferente de tudo que eu tinha sentido antes: leve, divertida, e ao mesmo tempo profundamente… atraente.
No fim, não era só sobre o pôr do sol, ou sobre querer estar perto dele. Era sobre o jeito que ele conseguia deixar tudo mais fácil, mais leve, mesmo quando meus próprios pensamentos tentavam me confundir.
E ali, no meio de mensagens curtas e risadas compartilhadas, eu senti que estava me permitindo gostar dele — sem pressa, sem pressão, apenas deixando fluir.
As horas passaram voando. Nem percebi o tempo passar entre risadas, mensagens bobas e pequenas confissões. Quando olhei para o relógio, percebi que já era tarde — e o sono bateu forte.
Rafael: “Acho que vou dormir… tô caindo de sono aqui ”
Luan: “Dormir? Sozinho? Que injustiça ”
Rafael: “hihihihi ”
Luan: “Ah não… acho que vou ter que ir aí dormir com você então ”
Sorri sozinho, balançando a cabeça. Mesmo sendo só uma brincadeira, aquela manha dele me deixava com o coração leve e com um sorriso bobo no rosto.
Rafael: “Tá bom, tá bom… boa noite, Luan ”
Luan: “Boa noite, Rafa… sonha comigo ”
Desliguei o celular, me aconcheguei na cama e senti uma estranha mistura de cansaço e calor no peito. Era divertido, leve e, ao mesmo tempo, intenso. Dormi com um sorriso, pensando no pôr do sol, nas risadas e naquilo que ainda estava por vir.
Amanheceu e já tinha mensagem de bom dia do Luan, realmente eu tava me deixando levar
Era domingo, no decorrer do dia não recebi mais mensagens do Luan, achei estranho mas nao enviei mensagens o questionando, afinal não tinhamos nada sério e possivelmente estava em algum almoço de família, e eu me preparava para encontrar Diego.
Nunca tínhamos interagido fora do hospital, e a ideia de passar tempo com ele nesse contexto novo me deixava inquieto. Mesmo sabendo que seria apenas para ajudá-lo com o álbum de fotos, meu corpo parecia perceber que algo estava diferente — o ambiente neutro do hospital havia sumido, e ali estávamos apenas nós dois.
Quando cheguei, ele me recebeu com um sorriso largo, aquele que eu conhecia das reuniões no trabalho, mas agora parecia mais intenso, mais próximo. “Rafa! Que bom que você veio. Vamos ver essas fotos antes que eu perca a memória de tudo,” disse, tentando soar casual.
Pegamos o álbum, sentando lado a lado na mesa da sala de estar. E foi aí que percebi: fora do hospital, cada gesto dele parecia carregado de uma intenção que eu não conseguia decifrar. Um toque breve ao pegar uma foto, um olhar demorado, e eu me peguei recuando, consciente da diferença entre nós.
“Então… essas fotos são de quando eu estava no estágio, lá no início. Tanta coisa mudou desde então,”
comentou, folheando as páginas. Eu respondia de forma educada, mas cautelosa, mantendo distância.
Enquanto folheávamos o álbum, Diego se inclinava um pouco mais perto do que eu estava acostumado, como se quisesse ver melhor as fotos — ou, talvez, só para se aproximar de mim. Um calor estranho subiu pelo meu corpo, e eu me peguei dando um passo sutil para trás, tentando recuperar o espaço que sentia que estava sendo invadido.
“Você sempre tão concentrado?” ele comentou com aquele tom de voz meio provocativo que me deixava alerta. “
"Até aqui fora do hospital você não relaxa?”
Sorri de leve, tentando soar natural.
“Gosto de prestar atenção no que estou fazendo. Isso ajuda a não cometer erros.”
Diego arqueou uma sobrancelha, quase desafiador.
“Humm… interessante. Mas será que você sempre precisa estar no controle de tudo?”
Eu respirei fundo, tentando não deixar meu desconforto transparecer. Ele parecia brincar com a situação, testando os limites, e eu não estava pronto para corresponder — nem sabia se queria. Mantive-me educado, mas firme.
“Acho que tem coisas que simplesmente precisam de cuidado, não é?”
Ele sorriu, inclinando-se de leve sobre a mesa, e por um instante, senti aquele calor atravessar meu peito de novo.
“Cuidado… ou medo?” disse ele baixinho, quase como se fosse um segredo.
Eu desviei o olhar, tentando disfarçar.
“Só atenção, Diego. Nada mais.”
E ali estava a diferença entre nós: fora do hospital, ele parecia explorar cada gesto, cada palavra, para me provocar ou testar meus limites. Eu sabia que precisava manter a cautela, mas não podia negar que aquela presença dele mexia comigo de um jeito que eu ainda não conseguia compreender.
Enquanto folheávamos o álbum, Diego se levantou e foi até a cozinha. Eu fiquei ali, observando, tentando me manter focado nas fotos. Quando ele voltou, segurava uma garrafa de vinho e duas taças.
“Quer um pouco?” ele perguntou,
com um sorriso que parecia desafiar minha resposta antes mesmo de eu pensar.
“Não, obrigado… não quero beber,”
respondi, tentando manter a voz firme e o coração batendo mais rápido do que deveria.
Diego deu de ombros, serviu uma taça para si mesmo e tomou um gole, olhando para mim com aquela intensidade que sempre me deixava desconfortável.
“Tudo bem… vou aproveitar sozinho, então. Mas você devia relaxar um pouco, Rafa. Sério. Fora do hospital a vida pode ser divertida também.”
Ele tomou outro gole, e algo mudou na postura dele. Ficou mais ousado, inclinado na mesa, aproximando-se do meu lado enquanto eu tentava manter a distância.
“Você é sempre tão certinho… me pergunto como seria se você soltasse um pouco,” disse, com aquele sorriso provocador que não dava espaço para respostas fáceis.
Eu desviei o olhar, sentindo meu peito apertar.
“Não é questão de ser certinho… apenas não me sinto confortável com certas coisas.”
Diego riu baixo, quase divertido com minha resposta, e tomou mais um gole de vinho.
“Hum… mas é exatamente isso que me intriga. Você parece tão no controle, mas fora do hospital… não é nada previsível.”
Cada palavra dele parecia atravessar minha defesa. Eu queria recuar, mas ao mesmo tempo não podia deixar de notar o magnetismo dele, o jeito que conseguia tornar simples um gesto tão provocador. Mantive-me firme, respirando fundo, tentando não ceder. Mas era impossível ignorar a tensão crescente entre nós — e a sensação de que aquele encontro, embora casual à primeira vista, poderia se tornar muito mais intenso do que eu estava preparado para lidar.
Depois de mais um gole de vinho, Diego se levantou, apoiou a taça na mesa e virou para mim com aquele sorriso travesso.
“Você sabia que eu canto muito bem?”
ele disse, e antes que eu pudesse responder, começou a entoar uma música qualquer, mas com um tom baixo e provocativo, olhando para mim de um jeito que fazia meu peito apertar.
Eu arregalei os olhos, tentando parecer indiferente.
"Sério? Agora?”
“Claro! Por que não? É domingo, vinho, fotos… e você aqui, me dando atenção. Tem cenário melhor?”
Ele caminhou lentamente pela sala, cantando baixo, como se cada palavra fosse direcionada a mim. Meu corpo reagia de forma automática — respiração mais rápida, mãos inquietas — mas minha mente gritava para manter distância.
“Diego… para,” eu disse, tentando soar firme, mas sentindo que o coração não obedecia à razão
Ele apenas riu, tomando outro gole de vinho, e continuou, aproximando-se mais.
“Ah, vem cá… você não vai me deixar sozinho nessa apresentação, vai?”
Eu desviei o olhar, sentindo o calor subir ao meu rosto. Mantive-me firme, mas cada passo dele, cada nota cantada, parecia atravessar minha defesa, provocando uma tensão que eu não estava preparado para lidar.
Mesmo assim, segurei meu posicionamento. Não era hora de ceder, não era momento de me deixar levar. Mas, por dentro, sabia que aquele lado ousado dele, aquele jeito provocador… era impossível de ignorar.
E, no fundo, algo dentro de mim estava curioso — muito curioso — para ver até onde ele iria.
Enquanto cantava, Diego começou a se aproximar lentamente, cada passo calculado, como se estivesse brincando de reduzir o espaço entre nós. Meu corpo tencionou, e eu dei um pequeno passo para trás, mas ele apenas sorriu, não quebrando o ritmo da música.
“Você sempre tão sério… até quando eu tento te fazer rir?” ele murmurou, baixando a voz, e encostou o braço na borda da mesa bem perto de mim. Meu peito apertou, e meus dedos se fecharam na borda do álbum.
“Diego… eu já disse que não… não é hora de brincadeira,” tentei responder, firme, mas a minha voz falhou um pouco.
Ele riu, quase desafiador, inclinando-se mais para frente. “Ah, mas você está tão rígido… ”
E então ele aproximou o rosto do meu, sem cruzar totalmente a barreira, mas o suficiente para que eu sentisse o calor da respiração dele. Cada palavra dele, cada gesto, parecia feito para testar meus limites, para ver se eu cedia.
Respirei fundo, desviando o olhar, tentando lembrar de Luan e da calma que ele me transmitia, tentando me ancorar.
“Diego… só o álbum… precisamos terminar isso,” disse, tentando me manter firme.
Ele deu um passo para trás, rindo baixinho, mas sem perder o ar provocador.
“Tá bom, tá bom… por enquanto. ”
E ali ficou claro: fora do hospital, Diego era intenso, ousado e imprevisível. Eu precisava me manter atento, porque cada gesto dele carregava um perigo gostoso — e eu ainda não sabia se queria ou não me deixar levar.
Depois de um tempo, finalmente terminamos de organizar o álbum. Diego fechou a última página com cuidado, passando a mão pela capa como se estivesse satisfeito.
“Ela vai gostar,” ele disse, olhando para o presente com um meio-sorriso. “Minha mãe vai adorar isso.”
Fiquei em pé, sentindo aquele alívio típico de quando algo chega ao fim.
“Espero que sim. Pelo menos agora está tudo pronto.”
Ele levantou o olhar para mim, demorando um pouco mais do que o necessário. “Posso te levar em casa. Já que você me ajudou tanto…”
A proposta veio suave demais para ser inocente. Eu senti. Havia algo ali — uma intenção escondida sob a educação.
“Não precisa,” respondi, pegando minha mochila. “Eu vou a pé mesmo.”
Diego não insistiu, mas aquele sorriso torto permaneceu. “Você é difícil, Rafa…”
Me despedi rapidamente e fui em direção à porta. Assim que saí, senti o ar da rua bater no rosto como se estivesse me libertando de uma pressão invisível.
Enquanto caminhava, meus pensamentos estavam longe do presente, do álbum, de tudo aquilo.
Diego me deixava inquieto.
Não era como Luan — leve, tranquilo, seguro. Diego era outra coisa. Intenso. Observador. Como alguém que testa até onde pode ir antes de recuar.
E talvez o que mais me incomodasse fosse isso:
uma parte de mim tinha percebido.
E outra… tinha sentido.
Mas eu sabia que ali havia perigo.
E, dessa vez, eu não queria brincar com isso.
Enquanto caminhava pelas ruas quase vazias, minha mente insistia em voltar para Diego.
Eu me perguntava se ele era realmente um homem perigoso… ou se só era ousado demais, do tipo que atravessa limites porque gosta de ver até onde pode ir. Havia algo nele que me deixava em alerta, como se cada sorriso escondesse uma intenção que eu ainda não conseguia decifrar.
E talvez fosse isso que mais me perturbasse:
não era só desconforto.
Era também uma curiosidade que eu não queria sentir.
Balancei a cabeça, tentando afastar aquele pensamento.
Mas, inevitavelmente, minha mente foi para Luan.
Ele tinha sumido o dia inteiro. Nenhuma mensagem, nenhum sinal. A lembrança da nossa conversa da noite anterior ainda estava quente no meu peito, e o silêncio dele agora doía mais do que eu esperava. Parte de mim já criava cenários, tentando se proteger de uma possível decepção.
Quando cheguei em casa, o celular vibrou.
Luan:
“Ei… desculpa ter sumido hoje. O dia foi uma bagunça. Mal consegui pegar no celular.”
Eu li a mensagem duas vezes. Não parecia mentira… mas também não parecia toda a verdade.
Rafael:
“Tudo bem… imaginei que você estivesse ocupado.”
Havia algo não dito ali, e nós dois sabíamos. Mesmo assim, eu deixei passar. Talvez porque quisesse acreditar. Talvez porque não quisesse perder aquilo que ainda estava começando.
Luan:Eu tava pensando em você, tá?
Sorri de leve, mesmo sentindo aquela pontinha de incerteza.
Guardei o celular, cheguei em casa tomei um banho e fui me arrumar para o plantão da madrugada. Uniforme, crachá, — tudo automático
.
Mas dentro de mim, nada estava.
Entre a leveza frágil de Luan
e a tensão perigosa de Diego,
meu coração começava a entender que algumas escolhas…
já estavam sendo feitas.
Bom pessoal, terceiro capítulo entregue, espero que estejam gostando e novamente peço desculpas pelos erros ortográficos, fiquem bem :)